A gente sabe que Revista Kuruma’tá tá dando certo, existe de verdade quando chegam esses retornos inesperados. Gente que lê, que curte e compartilha nossas publicações, que acompanha nossas lives… quando a gente vê os números de seguidores aumentando nas mídias sociais, nos números animadores do Google Analytics. Mas também quando nos chega um e-mail, uma mensagem no Facebook ou Instagram, de alguém que se identificou a ponto de querer que a gente publique seus textos, seus poemas. Foi assim com Anna Apolinário, poeta da Paraíba, que nos enviou três poemas inéditos de sua lavra. [Poemas de Anna Apolinário]
A gente sabe que Revista Kuruma’tá tá dando certo, existe de verdade quando chegam esses retornos inesperados. Gente que lê, que curte e compartilha nossas publicações, que acompanha nossas lives… quando a gente vê os números de seguidores aumentando nas mídias sociais, nos números animadores do Google Analytics. Mas também quando nos chega um e-mail, uma mensagem no Facebook ou Instagram, de alguém que se identificou a ponto de querer que a gente publique seus textos, seus poemas. Foi assim com Anna Apolinário, poeta da Paraíba, que nos enviou três poemas inéditos de sua lavra.
Produtora cultural e organizadora do Sarau Selváticas (@sarauselvaticas), Anna estreou em 2010, com Solfejo de Eros (Câmara Brasileira de Jovens Escritores). Publicou ainda Mistrais (Prêmio Literário Augusto dos Anjos, Edições Funesc, 2014), Zarabatana (Editora Patuá, 2016) e Magmáticas Medusas (Editora Cintra/ARC Edições, 2018). Seu próximo livro A chave selvagem do sonho será publicado em 2020 pela Editora Triluna.
Anna, seja bem-vinda à Kuruma’tá!
Poemas de Anna Apolinário
Centelha
Sou a mulher que veio do sonho Nascida de incêndios Iniciados por outras mulheres Eu venho do cerne das vertigens Trago o verbete mágico E meu rastro selvagem se espalha Por livros sem fim
Akai Ito
Teu coração: um tambor místico pronunciando todos os meus nomes
Minha pele: uma tempestade tatuada em teu espírito
Nosso beijo: o espelho do apocalipse conspurcado por um vislumbre do infinito
Lunando
Devolver à terra A rubra cura Vertida de meu ventre Com reverência Plantar centelhas Alumiar os caminhos O sangue é a semente Da purificação O declínio das guerras Magia e maldição.
A poeta Anna Apolinário
Diário do Edu Maciel
Sim, é época de pandemia. Pandemia causada por um vírus. Perigoso. Muito perigoso. E com a pandemia, a necessidade de isolamento social. Com o tempo, as pessoas começam a estranhar o confinamento, a desnudar e virar do avesso relacionamentos, se readaptar em rotinas e por vezes se desanimam. [Texto de Eduardo Maciel]
Meus caríssimos kurumateiros! Nesta quinzena não vou dizer olá. Vou apenas deixar o convite para lerem a última página do meu diário:
Querido diário,
Sim, é época de pandemia. Pandemia causada por um vírus. Perigoso. Muito perigoso. E com a pandemia, a necessidade de isolamento social. Com o tempo, as pessoas começam a estranhar o confinamento, a desnudar e virar do avesso relacionamentos, se readaptar em rotinas e por vezes se desanimam.
Por que será que isso não acontece comigo? Sim, tomo TODAS as precauções possíveis para me proteger. Sim, estou em casa (com mais um adulto, duas crianças e quatro gatos). Sim, tenho amigos tocados pela Covid, e dentre eles uma que se recuperou, dois que sucumbiram e uma internada em estado grave. Não, não recebo informações sobre a evolução do quadro de saúde de minha amiga. E isso dói. Corrói. E é trágico.
Rezo por ela (também) todas as noites, e sofro a perda dos que foram.
Mas, por outro lado…
Por outro lado, me sinto extremamente bem e seguro. Primeiro, porque exercitei na vida a maleabilidade da adaptação. E nesse processo, em meio ao não mais recente desemprego, já havia experimentado o isolamento e a opressão do desamparo. Além é óbvio de ter faxinado minhas gavetas de amigos, praticando o desapego pra valorizar mais o que ficou.
Depois, porque desmistifiquei os vírus, bactérias e afins, e faço exames semestrais para checar a saúde.
Fora o fato de que aprendi a projetizar tudo o que se passa comigo, e isso me assegura efetividade com relação a compromissos, sejam eles quais forem.
Todos os dias escolho olhar a vida com as melhores lentes, com otimismo e acreditando na lei de causa-e-efeito e na implacável lei do retorno. E isso me conforta.
E do conforto, vem a imaginação, a inspiração e a criatividade de que preciso para servir às artes, o que é a chama que me aquece a alma.
Acho que todas as pessoas, meu diário confidente, têm algo em si mesmas que as permitam ter suas almas aquecidas. Que usem então esse tempo de recolhimento para cavar em si mesmo até encontrar esse gatilho.
Porque, se a gente se mantiver produtivo todo o tempo, cada um produzindo o que deve e o que gosta, não haverá espaço para falsos atalhos ou tédio. Ou mesmo coisas piores.
Espero que todos possam renovar sua esperança a cada amanhecer, que possam usar com sabedoria esse período para crescimento pessoal.
Que possam tirar lições disso tudo. E que fiquem em casa, mas não fiquem paradas.
Vou me despedindo por hoje, meu diário leal. E obrigado por me deixar desabafar um pouco aqui em suas páginas.
Ah, preciso assistir aos três últimos episódios da série, mas não estou conseguindo. E você sabe, estou tentando.
Até a próxima!
Será que fui íntimo demais hoje?
Pequeno Dicionário de Arquétipos de Massa: Cientista
Na verdade, ele pensa rabiscando a lousa, os dedos e a blusa velha de lã totalmente cobertos de pó de giz, tudo é tão fácil de calcular. Ele só não pode perder o fio da memória, o raciocínio não pode nem por um momento descarrilar do trem do pensamento senão tudo se perde e será como aquela história, aquela anedota infelizmente real do poeta inglês Samuel Taylor Coleridge… [Texto de Fábio Fernandes}
Na verdade, ele pensa rabiscando a lousa, os dedos e a blusa velha de lã totalmente cobertos de pó de giz, tudo é tão fácil de calcular. Ele só não pode perder o fio da memória, o raciocínio não pode nem por um momento descarrilar do trem do pensamento senão tudo se perde e será como aquela história, aquela anedota infelizmente real do poeta inglês Samuel Taylor Coleridge, que, após ter sonhado com um poema épico inteiro, Kubla Khan, acordou e começou desesperadamente a escrevê-lo – para ser interrompido por uma certa “pessoa de Porlock”, que apareceu de repente em sua residência sem ser convidada e o desconcentrou de tal forma que ele nunca mais conseguiu completar o poema conforme o havia sonhado. Um dos pesadelos do cientista enquanto preenche a lousa com seus cálculos é exatamente esse, e é precisamente por isso, para evitar a entrada de sua pessoa de Porlock que ele se cercou de todos os cuidados possíveis dentro do porão da sua casa a fim de que ninguém o atrapalhe, pois ele está prestes a descobrir o grande e supremo cálculo que há de unificar tudo o que ele sempre suspeitou até agora e descobrir por que o universo se comporta do jeito que se comporta, por que as pessoas são do jeito que são, por que tantos desencontros, por que as relações humanas não podem ser medidas e calculadas como equações matemáticas?
Agora falta pouco, muito pouco. Ele tem certeza de que, no próximo intervalo de sua série de tevê favorita, ele conseguirá retomar o fio da memória e completar o cálculo. Falta pouco.
De onde eu vim não dá pra andar na rua
Malditos portais dimensionais! Estão em toda parte… quem inventou essa moda? Vocês, do século 21, ficam aí reclamando que o trânsito é infernal… vocês precisam ver as soluções que inventaram e o caos que se instalou no nosso dia a dia. Primeiro foi o teletransporte, o sonho de todo mundo que assistia Star Trek. Não muito tempo depois da implementação em escala planetária de cabines para teletransporte, o sonho virou pesadelo. [Texto de Toinho Castro]
Malditos portais dimensionais! Estão em toda parte… quem inventou essa moda? Vocês, do século 21, ficam aí reclamando que o trânsito é infernal… vocês precisam ver as soluções que inventaram e o caos que se instalou no nosso dia a dia. Primeiro foi o teletransporte, o sonho de todo mundo que assistia Star Trek. Não muito tempo depois da implementação em escala planetária de cabines para teletransporte, o sonho virou pesadelo. Pessoas sendo desmanchadas de um lado da cidade para terem seus átomos reunidos do outro lado. Virou uma febre, ninguém mais conseguia ficar parado. Todo mundo se teletransportava pra lá e pra cá porque era fácil e barato.
Aí ocorreu um sério debate que ofuscou o brilho daqueles anos. Quando uma pessoa é teletransportada e tem seus átomos, partículas ou sei lá o quê desagregados e jogados no espaço… essa pessoa ainda existe? O que ela é enquanto está no percurso entre uma cabine e outra? Nada? Ninguém? E ainda mais: se uma pessoa é aquele grupo de átomos reunidos sob circunstâncias específicas, podemos dizer que esses mesmos átomos, desagregados e reagrupados numa circunstância completamente diferente, são a mesma pessoa? Ou seja, uma pessoa teletransportada é a mesma pessoa? Ou uma cópia, talvez apenas aparentemente igual?
Vou te dizer que as pessoas deixaram pouco a pouco de usar aquelas cabines e ficaram muito tempo desconfiadas até de si mesmas. Naturalmente a empresa privada e monopolista que explorava o serviço faliu, fechou as portas e as cabines apodreceram nas esquinas. Dizem que algumas ainda funcionam, mas não há garantias. Alguns loucos se arriscam a usá-las, como se fosse uma religião.
Como ninguém consegue ficar sossegado, alguém teve a brilhante ideia dos portais dimensionais. O certo seria chamá-los de portais transdimensionais mas também seria certo que as pessoas não passassem fome em pleno século 22. Posso ainda dizer que certo mesmo seria não existirem portais dimensionais. Mas, enfim! Diferentemente das cabinas de teletransporte, os portais não são instalações físicas, mas alterações em determinados campos de energia que fazem com que uma pessoa praticamente tropece de uma dimensão para outra, ou mesmo para a própria dimensão em que existe, passando por uma outra, intermediária. A vantagem jurídica é que a pessoa não deixa de existir, ou pelo menos não é desmanchada em poeira de estrelas. Apenas não está aqui por uns instantes. E é tudo muito rápido.
Mas é claro que os portais proliferaram como praga e acabaram gerando campos de instabilidade em áreas inesperadas. Acontece que muita gente saía para comprar o pão e ia parar numa outra dimensão, habitada por dinossauros inteligentes e egoístas, porque dobrou na esquina errada, numa hora inconveniente. Não preciso dizer que nem todos os portais estão sinalizados e que muita gente aprendeu a fazê-los por conta própria. Tem gente que cria portais no meio da cidade só por anarquia. Agora imagine que andar pela cidade se tornou arriscado para qualquer um. Que mãe deixaria seu filho passeando de bicicleta por aí sabendo que os portais estão se multiplicando e que muita gente não volta dessas viagens.
Bem, agora vocês já sabem como eu vim parar aqui, porque os portais atuam deformando não só o espaço como também… o tempo! E aí você pode ir parar num outro dia, outro século. E foi desse jeito que… eis-me aqui e agora! Bem pensando positivamente, melhor pra mim, pois assim não corro o risco de encontrar comigo mesmo. Sabe-se lá que tipo de confusão isso ia acabar gerando, não é verdade?
Agora é tocar a vida e vê se encontro um portal em algum lugar. Sei que eles existem por processos naturais. São raros, mas existem. Torcer para que um daqueles anarquistas tenha vindo parar aqui e criado um dos seus portais artesanais. Quem sabe esbarro com um desses num dos muitos becos dessa cidade. Não tenho a menor ideia de onde ou quando eu poderia chegar. Na verdade eu duvido que consiga retornar a algum lugar que eu reconheça. Eu tô tranquilo aqui, sabe? A vizinhança é boa e não tem portais dimensionais em cada esquina. Não tenho nada a perder e não deixei muita coisa para trás. Ninguém que venha atrás de mim.
Quando vai terminar?
Por um tempo nos perguntávamos sobre quando começou. Se teria sido em 2013. Se teria sido em 2016. Ou se antes. Onde estávamos e o que fazíamos enquanto os pés do absurdo caminhavam lentamente até aqui? Mas “ah, como esta hora é velha!… E todas as naus partiram!”. Hoje, a voz que nos grita se pergunta à beira do precipício: quando vai terminar?! [Texto de Dênis Rubra]
Mais um nome novo e querido chegando na Revista Kuruma’tá. Dessa vez é do poeta e parceiro de letras e sonhos e resistências, Dênis Rubra. Dênis está marcado no comecinho dessa aventura, quando topou editar, pela sua Rubra Editora, o Lendário Livro, coletânea que reuniu poemas de Aderaldo Luciano, Braulio Tavares, Nonato Gurgel, Numa Ciro, Otto e Toinho Castro! Ali, naquele encontro de poetas, nascia a semente da Kuruma’tá. E agora a gente tem a alegria de editar o Rubra aqui na nossa revista, essa nova aventura! Bem-vindo, amigo!
Kazimir Malevich – Morning in the Village after a Snowstorm, 1912
Por um tempo nos perguntávamos sobre quando começou. Se teria sido em 2013. Se teria sido em 2016. Ou se antes. Onde estávamos e o que fazíamos enquanto os pés do absurdo caminhavam lentamente até aqui? Mas “ah, como esta hora é velha!… E todas as naus partiram!”. Hoje, a voz que nos grita se pergunta à beira do precipício: quando vai terminar?!
O privilégio das pequenas alegrias. O dom do sonho. O poder ver algum azul de outono e sorrir qualquer vaidade mesquinha. Como era bom poder ser mau. A maldade dos antigos inimigos até guardava alguma semelhança conosco. Como era bom. Poder se sentir impotente, mas vivo. Poder acordar perdendo, mas com a ilusão da vitória possível. Hoje não deu, amanhã será.
Hoje, o amanhã é só outro ontem que insiste. E quando vai terminar? Todos os ontens agora acumulados em um só instante contínuo! Que peso, não? Que tempo é este em que o tempo parece ter se esquecido de um direito tão básico que tínhamos: acordar para encerrar os pesadelos. Hoje não deu, amanhã parece que também não vai dar.
Então quando vai terminar? Enquanto ao mundo pesa a tristeza de terem de se isolar uns dos outros. A nós, este peso se adiciona ao pavor de nos vermos tão próximos, mas da barbárie. E como pesa. E como é difícil. A cada dia, a cada entrar e sair de nosso palácio em ruínas, alguma faca fere ao mesmo tempo todos nós. E algum sino que soa parece marcar o hoje correndo livre em direção ao amanhã. O amanhã cada vez mais ontem… O mau cada vez maior. E não porque ele seja grande. Mas porque nós é que vamos ficando menores ao permitirmos que ele prossiga. Antes que ele nos termine. Será que vai terminar?
Antes que ele nos termine. Quando vai terminar? Esse insistir do tempo. Esse jeito sutil de recriar os horrores. Essas âncoras da manhã que nos ancoram dia a dia, todo dia, ao mesmo passado que se mantém presente, sufocando o futuro. Angústia. Desnorte. Quando vai terminar? Quando seremos capazes de alcançar algum amanhã possível? Um hoje em que possamos ter a alegria das pequenas tristezas. Um ontem pra se deixar pra trás. Um agora em que faça sentido nos perguntarmos como começou. Agora não dá. Hoje só dá pra tentar chegarmos amanhã.
Pois é. Meu caro Chico, perdão, mas – ao que parece – seu hoje voltou. Ou seu ontem não passou. Não sabemos. A verdade é que estamos juntos. Ainda. Ainda na mesma canção. Ainda aguardando. O momento. Quando chegar.
O rei nu
Quando eu era criança entrei numa livraria de um shopping na Barra da Tijuca – aquele bairro que fica no Rio de Janeiro, mas que jura que na verdade é uma parte perdida de Miami. Na época a gente morava em Campo Grande, bairro suburbano que não tinha nem filial do McDonald´s que dirá uma loja lotada de contos infantis. Ir à Barra, portanto, era um evento. [Texto de Tássia Hallais Veríssimo]
Vejo sempre a Revista Kuruma’tá como uma encruzilhada, por onde as pessoas passam, param, se encontram, conversam… Nesses tempos de pandemia e quarentena, pensamos a Kuruma’tá como uma janela, um ponto de encontro e uma perspectiva para o olhar o mundo. E eis que entre os que passam e deixam suas palavras, chega-nos a Tássia Hallais Veríssimo, com uma certeira observação dos dias que vivemos.
Quando eu era criança entrei numa livraria de um shopping na Barra da Tijuca – aquele bairro que fica no Rio de Janeiro, mas que jura que na verdade é uma parte perdida de Miami. Na época a gente morava em Campo Grande, bairro suburbano que não tinha nem filial do McDonald´s que dirá uma loja lotada de contos infantis. Ir à Barra, portanto, era um evento.
Lembro que, naquele espaço mágico, dentre tantos livros, peguei para ler um que contava uma história inusitada. Um rei que, enganado por um trambiqueiro, comprava uma suposta peça de roupa mágica que só os inteligentes podiam ver. Na verdade, o rei havia gastado o dinheiro do contribuinte por coisa alguma. Estava nu a desfilar em meio aos seus súditos, que para não despertarem o aparato repressivo do estado fingiam não notar a bunda mole do soberano. O rei também se via nu, mas para não passar atestado de burro, fingia que não sentia a vergonha tomar conta de si.
A loucura só parou quando alguém teve a coragem de falar o óbvio: o rei estava nu!
O Brasil da pandemia é praticamente uma adaptação ao vivo – e em cores de desespero – desse conto. Elegemos um rei que se recusa a aceitar o óbvio e que está rodeado por um séquito que insiste em um universo paralelo no qual remédio para Malária cura de chifre a dor de dente, passando por pneumonia.
No fundo, sabem que o rei está nu. Mas estão há tanto tempo fingindo ver roupas que não existem que não veem como sair dessa sem admitir a vergonha de ter caído no conto vigário. E quem fala as verdades que precisam ser ditas é visto como inimigo. Natural, afinal quem quer ser confrontado com seus medos mais profundos e com a vergonha de ter criado um mito a partir do barro?
O Brasil está – mais do que sempre – divido entre os que enxergam a nudez de um governo que serve apenas ao interesse daquele 1% que detém o capital e os que parecem estar dispostos a se sacrificar para não admitir a própria nudez, pois já se fundiram de tal modo ao rei que não se sentem seguros sem o guia. Tal qual uma criança que se perde numa loja de departamentos.
Mas, uma hora a nudez aparece. Ela sempre aparece. É impossível de esconder.
A nudez aparece nos corpos internados, nos corpos em busca de cura, nos corpos com fome, nos corpos com medo. Estamos todos com medo, mesmo os que fingem ver roupas de ouro no mito.
Aliás, sempre bom lembrar que mitos não existem, tal qual as roupas do rei nu.
E o livro? Meu pai não comprou. Mas, talvez mesmo por isso, nunca o esqueci.
Anjos de Espada
Houve esse tempo em que para dizer algo a alguém você primeiro dizia esse algo a outro alguém, que dizia a outro e isso chegava ao moço no navio, que atravessava o Atlântico, o Pacífico, o estreito de Ormuz, para que ali, outro alguém escutasse e passasse adiante, numa cadeia sucessiva de alguéns até que chegasse ao destinatário. Hoje basta um Enter no teclado para que eu saiba a mensagem, basta um e-mail para que chegue assim um poema, lá de Coimbra, falando de anjos. Quem diria? — Toinho Castro , ao receber o poema de Lu Lessa Ventarola.
Houve esse tempo em que para dizer algo a alguém você primeiro dizia esse algo a outro alguém, que dizia a outro e isso chegava ao moço no navio, que atravessava o Atlântico, o Pacífico, o estreito de Ormuz, para que ali, outro alguém escutasse e passasse adiante, numa cadeia sucessiva de alguéns até que chegasse ao destinatário. Hoje basta um Enter no teclado para que eu saiba a mensagem, basta um e-mail para que chegue assim um poema, lá de Coimbra, falando de anjos. Quem diria? — Toinho Castro , ao receber o poema de Lu Lessa Ventarola.
Mas os meus melhores amigos – os anjos de espada -,
ah estes! comeriam comigo o repasto.
Depois poderia subir o cadafalso feito uma antonieta.
Ou, talvez, no momento da entrega,
apenas chore feito cordeiro a ser imolado,
acreditando ver passarinhos a
sobrevoar
o dia das minhas noites.
Coimbra, 02 de março de 2020
Foto de Catarina Carvalho
João lê Trevisan, leitor de Curitiba
Em tempos de isolamento, nada mais pertinente do que falar de um autor que vive recluso, isolado, a metáfora do isolamento como criação e resistência: Dalton Trevisan, o vampiro de Curitiba. Lido como um dos principais escritores do nosso cânone moderno, detentor do prêmio Camões, ele completa 95 anos no próximo mês de Junho e lê o escritor como um ‘vampiro de almas’.[Texto de Nonato Gurgel]
Em tempos de isolamento, nada mais pertinente do que falar de um autor que vive recluso, isolado, a metáfora do isolamento como criação e resistência: Dalton Trevisan, o vampiro de Curitiba. Lido como um dos principais escritores do nosso cânone moderno, detentor do prêmio Camões, ele completa 95 anos no próximo mês de Junho e lê o escritor como um ‘vampiro de almas’.
Sua obra se destaca pela forte presença de, dentre outros, duas formas culturais: o conto e a cidade de Curitiba. Seu texto breve, escrita curta é, às vezes, incômoda. Com cerca de 50 títulos publicados, sua bibliografia desconstrói a forma-conto e o texto da cidade-clichê, a ‘cidade sorriso’ criada pela mídia, pelo designer, a Curitiba ‘toda de acrílico azul para turista ver’.
Esse autor que desconstrói o conto e a cidade nos chega através do belo ensaio Trevisan, leitor de Curitiba (2019), de João Batista de Morais Neto. Munido de procedimentos como a paródia, a ironia, o intertexto e o corte, esse Dalton leitor da cidade tem forte porção barthesiana, principalmente do Barthes póstumo de O rumor da língua, livro que acentua as questões da leitura, autoria e escrita.
Desde sua inscrição no contexto contracultural das poéticas alternativas dos anos 80, no Rio Grande do Norte, o poeta e prof. João Batista é um dos nomes mais representativos das letras contemporâneas. Autor de Temporada de Ingênios (1980), Itajubá (2007), O veneno do Silêncio (2010) e Bissexto (2019), dentre outros, João é um escritor de ouvido atento aos rumores da língua e aos barulhos do contexto. Sua obra, ‘atravessada pela leitura dos Campos’, destaca-se pela construção de uma escrita concisa, enxuta, linkada num ‘saber com sabor’.
Essa concisão dialoga de forma interdisciplinar com saberes de diferentes épocas, e está presente em Trevisan, leitor de Curitiba (Sebo Vermelho). O texto foi reescrito a partir da dissertação de mestrado defendida pelo autor na UFBA. Nas orelhas assinadas pela professora Cellina Muniz, João é lido como um ‘vampiro às margens do Potengi’.
O livro é curto, denso, mas tem formato simples dividido em 3 partes: ‘Introdução’, ‘Uma antipastoral trevisaniana’ e ‘A cidade como texto’. Essa cartografia sugerida pelo sumário põe em evidência os ‘mitos provincianos do mundo suburbano’, recortados pelo vampiro desde o seu 1º livro Novelas nada exemplares (1959). Além dos mitos da província, o texto de João acentua o apreço do autor curitibano pelos signos e linguagens das classes média e baixa, lendo no autor uma ‘poética da elipse’.
Para compor ‘Uma antipastoral trevisaniana’, João tece uma polifonia com as vozes de Deleuze, Marshall Berman, Leyla Perrone-Moisés, Berta Waldman, Jose Castello, Sanches Neto e Rosse Marye Bernardi. Junto a esses críticos-leitores, destaca-se a voz do poeta curitibano Paulo Leminski, que ratifica a leitura de Trevisan, em torno da cidade tematizada por ambos. Diz o bandido que sabia grego e latim: ‘Curitiba é a cidade dos desejos inconfessáveis. Uma cidade onde a sexualidade é reprimida pela mística imigrante do trabalho.’
Trevisan, leitor de Curitiba tem o seu apogeu na parte final, ‘A cidade como texto’. Nela esplende a porção semiótica do Roland Barthes, ensinando que ‘o texto é o próprio aflorar da língua’. De ouvido na língua e no espaço urbano, João afirma que ‘a cidade é, simultaneamente, conceito e imagem, forma e conteúdo’.
Nessa parte final, um belo recorte comparativo dialoga com os olhares citadinos de Bandeira, Drummond e Pessoa. Além disso, João registra o olhar ‘lírico-dessacralizador’ de Trevisan, e demonstra como ele distorce, para o leitor comum, a cidade de Curitiba, inscrevendo não a cidade histórica, ‘mas a Curitiba que é a sua própria escritura, uma cidade ideal que, para existir, precisa ser evocada’.
Com este livro, cuja economia verbal opera com as mesmas ‘armas’ do vampiro-tema, João Batista cria ‘uma poética da recusa’ que nos ajudar a ler, não apenas Trevisan e Curitiba, mas a sua própria ensaística.
Magrinho
Hoje é dia de gente nova chegando na Revista Kuruma’tá! Trazido até aqui pela mão da amiga e colaboradora Maria Cristina Martins, Cadu Marconi é historiador, palpiteiro e músico, não necessariamente nessa ordem. Mas o que ele é mesmo é um escritor de mão cheia, com uma prosa ágil e provocadora. Bom demais, gente! Seja bem-vindo à Kuruma’tá! [Texto de Cadu Marconi]
Hoje é dia de gente nova chegando na Revista Kuruma’tá! Trazido até aqui pela mão da amiga e colaboradora Maria Cristina Martins, Cadu Marconi é historiador, palpiteiro e músico, não necessariamente nessa ordem. Mas o que ele é mesmo é um escritor de mão cheia, com uma prosa ágil e provocadora. Bom demais, gente! Seja bem-vindo à Kuruma’tá!
Ilustração inventada por Toinho Castro com referências ranbdômicas
Só por achar um pedregulho daquele tamanho no meio da Presidente Vargas já merecia um prêmio. Tu mesmo, duvido achar!
Daí a tentar quebrar a propaganda da Reforma da Previdência embutida na placa do relógio de rua era consequência natural. O bleque-bloque bem que tentou. Era mirrado, mirradinho. Dizoituanos recém completados mas tentou.
Jogou a pedra uma, duas, três vezes e o vidro não arregou, se manteve lá! Mineral porreta o vidro, que atrás de si trazia o anúncio pregando as vantagens de se morrer antes da aposentadoria. Porque os homens velhos do governo são muito religiosos e nisso se encontram nas piores palavras bíblicas: morre, que depois a vida fica melhor.
Não demorou muito pra uma multidão se juntar ao redor: a fúria da horda pacifista se manifestou contra o magrinho. Surgiram primeiro com um cerco e gritos de guerra:
— Não me representa!! Não me representa!!
Em poucos segundos tomaram partido de forma mais clara, quando começaram a abertamente defender um lado (o do mineral):
— Olê, olê, olê, olêêê, vidroooo, vidrooooo! — Ô blequebloquêêê, tomá no cuuuuu, eu defendo é o vidro do Itaúúúú!
Partiram pra cima do magrinho, mas ele como? Retrucando feroz. Peito estufado tipo pombo de calçada, gritou que foda-se a reforma, é que deu 40 graus no marcador, que isso ele não admitia.
Deu-se a confusão. Temperatura é coisa séria. Houve quem defendesse o verão, quem fosse contra, quem achasse que a boa era ocupar o termômetro, não permitindo seu pleno funcionamento.
O magrinho, salvo por sua particularíssima bomba de efeito moral e por outros e outras magrinhas, achou tempo e espaço pra sair dali. Fugiu enquanto se dissipava a fumaça.
Hoje, quinta-feira, há notícias de que a horda pacifista ainda está por ali, próxima ao relógio de rua na altura do número 700. Já chegaram em um consenso sobre a temperatura mas discutem furiosamente sobre o horário.
— 19h30? Claro que não. Acho que já é mais tarde!
Zé Salvador do Ceará: o cordel por trás da pessoa e a pessoa atrás do cordel
Pois bem. Lembram que eu mencionei que sua aposentadoria foi (ou melhor dizendo: tem sido) produtiva? Justamente nessa época publicou um livro de sonetos, ao qual deu o título de “Vai um Soneto aí com Zé Salvador?”, proporcionando aos seus leitores sonetos decassílabos heróicos. Esse livro não contou com a máquina editorial, no entanto. Foi sendo vendido no boca a boca mesmo, em uma aula de militância poética que nos deu o mestre Zé. [Texto de Eduardo Maciel]
Espero que estejam bem. Apesar de tudo. Essa quinzena vim apresentar, a quem ainda não conhece, o mestre do cordel Zé Salvador (conhecido nos cartórios como José Washington de Souza).
Eu o conheci através de uma bela iniciativa chamada Diário da Poesia. E dali surgiu uma amizade e um bem-querer que perdura até hoje.
Nascido na cidade Tianguá, no Ceará, hoje nos brinda com sua ilustre presença na região metropolitana aqui do Estado do Rio de Janeiro.
Na infância, brincava de subir em árvores e ele mesmo fazia seus brinquedos: peões e papagaios (ou pipa, como a conhecemos pelos lados de cá). Também frequentava feiras, onde os cordelistas cearenses levavam suas maletas, espalhavam seus folhetos em meio às mercadorias e os declamavam para a alegria da garotada.
Aprendeu a ler e escrever em casa com a mãe (que além de cuidar do lar, compunha a renda familiar costurando e vendendo bolos). E usava cordéis para fixar na memória a teoria da língua portuguesa, como se fossem exercícios lúdicos. Apenas ingressou no sistema de ensino formal aos onze anos.
Aos dezoito, partiu em busca de um panorama mais agitado e foi morar em Fortaleza, capital de seu Estado, onde estudou parte do curso de contabilidade.
Em fevereiro de 1977 veio visitar uma irmã aqui no Rio de Janeiro. Nessa época, estudava e trabalhava no comércio, lá no Ceará.
Segundo o próprio: “vim pra cá pra passear, mas acabei gastando o dinheiro da minha passagem de volta e tive que arrumar um trabalho para conseguir comprar essa passagem. Continuo tentando comprar até hoje”. Até mesmo contando “causos”, tudo nele é poesia.
Em 1981 conheceu a mulher com quem vive até hoje e teve filhos, cujos nomes prestigiam Gandhi e “As Brumas de Avalon”. Para dar o melhor para a sua família, acabou protelando a conclusão dos estudos e é autodidata em tudo que faz e produz, o que para mim evidencia ainda mais o seu brilhantismo altruísta.
Desde cedo escrevia, e um dia, ao mostrar um de seus textos no liceu onde estudou, ainda no Ceará, disseram a ele que o escrito era um poema. Desde então ele se reconhece como poeta.
Durante a ditadura, foi convidado para escrever para um periódico local em Tianguá. Seu poema “Conversando com a Brisa”, no entanto, não viu a luz do dia, por ter sido considerado subversivo para aquela época. Censurado.
Já no Rio de Janeiro, continuou a escrever sem parar, apesar de ter passado anos a fio sem pretensões literárias, talvez em razão desse trauma da censura.
Das suas idas à Feira de São Cristóvão surgia um apreço cada vez maior pela literatura de cordel que conhecera no Ceará, muito embora nessa época o Zé Salvador ainda escrevesse poemas livres.
No ano 2000 foi primeiro lugar num concurso literário nacional, com o poema “Séculos”. Foi o que faltava para ele abrir sua gaveta de pérolas poéticas. Graças a Deus.
Ato contínuo, participou de trinta e cinco antologias com a editora que o havia premiado, e depois de mais outras cerca de vinte obras em coautoria, para instituições públicas e privadas.
Sua estreia oficial no mundo do cordel foi em 2006, quando escreveu “Pinochet e a Tentativa de Tomar o Inferno”, por ocasião da morte do ditador chileno. Nessa obra, pegou emprestado o “Inferno de Dante” e nesse cenário fez com que o ditador fosse realmente punido, já que ele havia escapado das devidas reprimendas em vida.
Continuou no ofício do cordel, mas de novo sem publicar. Isso mudou drasticamente em 2014, ano em que se aposentou.
Sabem como funciona a assim chamada “aposentadoria produtiva”, né? Então. Mais pra frente eu conto.
Conseguiu notoriedade com o cordel “Brincanagens”, inspirado em confraternizações com seus antigos colegas de trabalho. E a essa altura já escrevia poemas com métrica e rima, tendo dominado sozinho esse leão arredio da poesia regrada. Na jaula do leão, compôs vários cordéis e sonetos. Difícil, eu bem sei.
Mas o melhor vem a seguir, quando Zé Salvador se rendeu ao “Orkut”, lá nos primórdios das redes sociais como as conhecemos hoje. Nas comunidades literárias dessa rede, fez intercâmbio com diversas figuras que o ajudaram a trazer sua técnica à perfeição.
Pois bem. Lembram que eu mencionei que sua aposentadoria foi (ou melhor dizendo: tem sido) produtiva? Justamente nessa época publicou um livro de sonetos, ao qual deu o título de “Vai um Soneto aí com Zé Salvador?”, proporcionando aos seus leitores sonetos decassílabos heróicos. Esse livro não contou com a máquina editorial, no entanto. Foi sendo vendido no boca a boca mesmo, em uma aula de militância poética que nos deu o mestre Zé.
Junto com o livro, foi fazendo cordel assiduamente, num fluxo incessante entre produção e publicação, que perdura até hoje. Inclusive, ele já tem sessenta cordéis publicados, “mais um tanto que estão terminados aqui em minha mesa esperando a oportunidade de publicar”. Aspas dele.
Em 2019 foi primeiro lugar, com o cordel “Mochila que Guarda Medos”, em concurso promovido pela Biblioteca Anita Porto Martins. E nessa altura já transformava crônicas em cordel, o que prova de forma incontestável sua fluidez literária. Esse trabalho itinerou voluntariamente por escolas no Rio de Janeiro, no formato de “oficinas de cordel” por ele ministradas, fazendo do mestre Zé uma figura importante no segmento educacional. Fascinante.
Hoje em dia, Zé Salvador é vice-presidente da UBT (União Brasileira dos Trovadores), em razão de suas várias trovas premiadas e seu comportamento resiliente. Guarda em sua estante o troféu “Arte em Movimento” e se orgulha disso. Também, né? Coisa para poucos. Poucos e bons, eu diria.
Escreve para o portal literário “Entre Poetas e Poesias”, e também é comissionado para escrever cordéis por encomenda.
Palavras do Zé: “todo dia eu escrevo poesia, não tem um santo dia que eu não escreva”. Talvez isso o tenha colocado no lugar de membro elegível da Academia Brasileira de Cordel, onde estão vários de seus amigos. Corre a boca pequena que, com a triste e trágica passagem de Moraes Moreira, ele ocupe a sua cadeira vitalícia na Academia. Vamos aguardar. E torcer.
Ele mesmo, quando perguntado sobre títulos e comendas, se diz despreocupado, por ser “agradecido demais pelo dom de escrever”. Bem que eu disse que ele era altruísta…
Como tem acontecido com todos nós, sofre os impactos da pandemia, e com isso teve que interromper os trabalhos em cordéis coletivos no Nordeste. Mas tudo isso vai passar, e se Deus quiser ele concluirá esse lindo trabalho.
Para ele, “a literatura de folhetos do Nordeste por um tempo foi tratada como uma literatura menor, sendo que uns até a enxergavam como subproduto do folclore”.
Como nos ensina: “por um longo período de estudos sistemáticos sobre a literatura de cordel, a visão sobre esse trabalho era a de um produto coletivo, desprezando-se o criador e dando foco apenas no objeto da criação. Essa tendência se confirmou nas pesquisas de Silvio Romero, Leonardo Mota e Gustavo Barroso, quando foi Romero quem primeiramente usou no Brasil o verbete cordel. O pai do cordel brasileiro, Leandro Gomes de Barros, por outro lado, foi um dos caras que mais divulgou o cordel de folhetos no país.. De qualquer forma, o cordel para mim é algo que valorizo muito, principalmente quando ele está dentro da métrica. Porque o cordel, composto de 8 a 16 páginas, tem que ter a base, o tripé da métrica (com as sete sílabas tônicas ou poéticas) , da rima e da oração. Se não tiver esses três elementos, o texto não é um cordel. Mas existem vários tipos de cordel por aí, como o “martelo agalopado”, “martelo alagoano”, “peleja”, “galope à beira-mar”, “oitavão rebatido”. Por isso, se não for regrado, não vale. No Nordeste, onde os cordelistas são bem mais rigorosos, se você for falar de “cordel de pé quebrado”, podem até fazer chacota de você. E o “repente”? É cordel? Bem, ele é um primo do cordel, porque cordel vem de cordelista de bancada, enquanto o “cantador” vem com a viola ou pandeiro, sempre com um apoiador. Tem “cantador” que canta a obra de outros, e o “repentista” que cria ali na hora.”
Celebrado por grandes nomes da pesquisa de cordel como Elis Regina Barbosa Angelo e Sylvia Regina Bastos Nemer, continua usando o seu chapéu com esse sorrisão franco que podemos ver na foto.
Mas Edu, conta pra gente! O que será que o Zé Salvador deseja despertar no leitor? Vou deixar pra ele mesmo responder: “eu gostaria de despertar o prazer na leitura, pra que ele fique preso à leitura e goste da leitura. Ou então, fazer com que ele se sinta bem. Que tenha curiosidade pelo tema, e que eu possa passar alguma informação com aquilo que escrevo pra ele. Conhecimento, prazer e bem-estar”. E nós temos, mestre Zé. Bem-estar é o que não nos falta ao lermos o seu legado!
Obrigado demais por me deixar compartilhar um pouco de ti aqui na revista. Salve, mestre Zé Salvador!