Ninguém precisa mesmo acreditar

Juan Pablo Villalobos é um escritor mexicano contemporâneo que já conquistou, além do meu coração, algum espaço no mundo agressivamente competitivo do comércio de papel pintado contendo histórias. No mundo editorial, um lugar nas prateleiras, um lugar ao sol; mesmo espremido entre um milhão de títulos, algum espaço, uma obra em andamento, distribuída pelo mundo, crescente. [Texto de Terêncio Porto]

Texto de Terêncio Porto


Juan Pablo Villalobos é um escritor mexicano contemporâneo que já conquistou, além do meu coração, algum espaço no mundo agressivamente competitivo do comércio de papel pintado contendo histórias. No mundo editorial, um lugar nas prateleiras, um lugar ao sol; mesmo espremido entre um milhão de títulos, algum espaço, uma obra em andamento, distribuída pelo mundo, crescente. Pelo menos é o que parece até o momento. Seu primeiro livro, FESTA NO COVIL, de 2010, uma novela de menos de cem páginas escrita genialmente a partir do ponto de vista de uma criança de 12 ou 13 anos, foi traduzido pra mais de 10 línguas e está sendo preparada uma adaptação da mesma pro cinema. É uma obra brutal e veloz, hiper coesa por se tratar do ponto de vista sintético de um ser que ainda não experimentou o mundo para fora das fronteiras de sua casa, listando inclusive que conhece de fato somente 16 pessoas, 17 ou 18 se for pra considerar pessoas mortas na contagem. Seu pai é um narcotraficante sanguinário, vivem no meio do deserto, isolados num rancho fortemente guardado por capangas, onde o menino tem um zoológico particular, entre outros luxos, pra que se mantenha entretido. Esse livro, apesar do reduzido tamanho, me marcou muito por algumas razões, em particular pela sagacidade da construção do ponto de vista infantil e por conter uma das cenas mais violentas que eu já li ou presenciei. Ou seja, combinando essas duas marcas, quando você joga a violência dentro do ponto de vista infantil, dá pra imaginar o quão radical isso pode ser.

FESTA NO COVIL faz parte de uma trilogia mexicana completada por SE VIVÊSSEMOS EM UM LUGAR NORMAL e TE VENDO UM CACHORRO, um livro que dá pra se escangalhar de rir do começo ao fim, sinceramente. O humor é uma marca na obra de Juan Pablo. Além da violência e do sarcasmo, que é em si uma espécie de violência do humor. O livro do meio da trilogia, SE VIVÊSSEMOS EM UM LUGAR NORMAL, é o menos brilhante, mas ainda assim brilhante, e parte fundamental desse arranjo triplo que parece um clássico acerto de contas com sua origem, por mais clichê que isso possa parecer. Os dois últimos, inclusive, com toques fantásticos na melhor tradição latino-americana. Toques discretos, porém marcantes, sem negar as origens ou inspirações, flertar, homenagear ou brincar com elas, pra então ir adiante.

Superado o acerto de contas, ou não, porque a aritmética do afeto é sempre incerta, o fato é que o livro que se seguiu à essa trilogia, o NINGUÉM PRECISA ACREDITAR EM MIM, me encantou ainda mais que os outros, parecendo realmente que o tal acerto de contas, independente do resultado afetivo / emocional, deu uma musculatura de intenções fabulosa ao autor. Acho meio ridículo dizer que ele se superou porque tudo que vem depois necessariamente superou o que veio antes, ao menos numa perspectiva cronológica, mas também numa perspectiva de acúmulo de trabalhos, porque se somam em camadas. E, apesar de pra mim este ser o melhor livro, me parece que o NINGUÉM PRECISA ACREDITAR EM MIM não seria tão crível ou tão apetitoso se Juan Pablo não tivesse se desenvolvido, em aspectos diferentes da sua escrita, no processo da trilogia etc.

Ele pôde pegar a singeleza e a sagacidade do primeiro livro, o atavismo e o ressentimento com a pobreza de sua origem (do México, não necessariamente de sua origem pessoal, da qual não sei nada) do segundo, e o surpreendente humor do terceiro, mordaz e realmente hilariante, frondosamente hilariante (efeito similar, pra mim, em termos de ficar com frequência com a face doída de tanto rir, até hoje, só com o AGORA É QUE SÃO ELAS, do Leminski, e o PERGUNTE AO PÓ, o mítico clássico do Fante), pra então, revestido por certo tônus que só o fazer criativo pode conferir, se entregar à construção de uma nova obra totalmente autêntica, mais robusta (não só pelo tamanho, mas sobretudo pelo vigor narrativo) que as anteriores, e ainda mais deliciosa. E isso tudo mantendo-se fiel a si (ou ao que pareceram ser seus “propósitos” nas obras anteriores) pois NINGUÉM PRECISA ACREDITAR EM MIM evoca todos os temas e subtemas pregressos de sua obra. Porém, ao invés de soar repetitivo, soa totalmente inovador.

E para fazê-lo estrutura o livro no qual ninguém precisa acreditar, conforme o título, em alternadas vozes narrativas, fragmentando-as com soberba precisão evolutiva, por assim dizer. Alternâncias dadas não só entre os dois supostos protagonistas, o jovem doutorando mexicano ironicamente batizado Juan Pablo Villalobos – peroetnicamente mais “alemoado” que o escritor (nas edições brasileiras de seus livros há sempre foto do autor pra gente verificar que ele é mexicano com bastante cara de mexicano, em contraponto à personagem, descrito com cabelos e olhos claros) –, e a em princípio antagonista, sua conterrânea ex-namorada, etnicamente bem mexicana / maia, que o acompanha na viagem de estudos para Barcelona. Ambos naturalmente narram em primeira pessoa, porém com a distinção da voz feminina se organizar num diário, enquanto a masculina narra o presente, o que lhe acontece. Somam-se a essas vozes as missivas escritas pelo primo (endereçada ora a um, ora a outro) que empurrou os dois pra um contexto marginal na viagem – experiência que a priori era pra ser um idílio – e outras escritas pela mãe de Juan Pablo pra ele, onde rigorosamente só fala de si em terceira pessoa, “a sua mãe acha…”, “a sua mãe pensa que você deveria…” etc. E as missivas têm essa mesma característica, um tanto delirante, dos interlocutores autorreferentes fazerem o tempo inteiro perguntas (retóricas ou não) que eles mesmos respondem, num estilo um tanto opressor e hiper cagarregras.

O antigo casal mexicano vive separado em terra estrangeira (sem raízes, sem vínculos) e perdidos em seus objetivos. De fato, a mulher nunca teve um, seguindo o namorado, ou ex, na viagem, mesmo depois de ter tomado um pé na bunda as vésperas do embarque, e depois ser convencida a ir, por obra do tal contexto marginal pro qual são empurrados. Os dois se enredam numa trama policialesca, costurada entre uma profusão de estrangeiros e uns poucos locais, e que se equilibra – somadas às questões undergrounds / criminosas – entre ironias acadêmicas e literárias ao longo de todo o livro. De uma forma emocionante e fluida, que impele à leitura, bem como mais densa e misteriosa que a adotada nos livros da trilogia. Mais bolañamente aberta, plural. Dando conta de toda ambiguidade que a metalinguagem e as mudanças de narradores podem causar, de uma maneira bem feliz, criativamente falando. Ao ponto de, mais ou menos na segunda metade do segundo tempo de jogo, a antagonista assumir o protagonismo, e este de fato ser oferecido de bandeja às mulheres da trama, evoé, e desta forma o livro se encerrar totalmente feminino, tendo os machos como meras lembranças do passado. Isso depois de, ao longo do desenvolvimento da trama, ter esbarrado em várias questões de gênero, particularmente mordazes nas abordagens porque permeadas por citações a questões contemporâneas a la Judith Butler etc.

O que há de mais brilhante, no entanto, é o fato de, em determinado momento (que entra / acontece discretamente, porém num crescendo), o desenrolar da trama propriamente dito começar a comer o próprio rabo, subtraindo a credibilidade do desenrolar policialesco, arrastando a verossimilhança da história pra possibilidade de tudo não passar de criação literária, flertando com essa ideia numa medida muito boa pra que se mantenha a ambiguidade até o fim. Em determinado momento Valentina, a ex-namorada que assume o protagonismo, consegue pôr as mãos no que seria o manuscrito que estamos lendo, ou do lido até aquele determinado ponto porque pra frente não estaria escrito ainda, deixando também a dúvida se o diário da Valentina até ali seria escrito por ela mesma ou por Juan Pablo, esses tipos de paradoxos inebriantes. Um recurso que me lembrou imediatamente o PORNOPOPÉIA, do Reinaldo Moraes, e o LEVIATÃ, do Paul Auster, que também brincam com isso. E certamente lembrará uma penca de outros que eu não li, não é exatamente a maior novidade do mundo.

A maior novidade do mundo é a forma como o Juan Pablo, autor, engendra isso, tudo ao mesmo tempo numa linha, porque tudo acontece a seu tempo e toda leitura em princípio nos entra de maneira necessariamente linear, mas uma linha que se equilibra e se embola nela mesma. Como uma figura de Escher na qual a água cai de um compartimento a outro, depois a outro, depois a outro, até chegar no topo, mas como se um arquiteto apresentasse isso como proposta, pra você acreditar na obra, obra de alvenaria mesmo, com orçamento (o custo-verossimilhança) e forma de pagamento etc. Você poderia dizer “você tá de sacanagem, arquiteto?”, bem como poderia também se constranger, fingir acreditar, ou quem sabe acreditar que o tal arquiteto possa realizar uma mágica ou sei lá (vivemos tempos de insegurança, de muita incerteza). Uma espiral contorcida no plano, transformada em círculo, porém uma linha, no fim das contas. É, de certa forma, um moonwalk na crista da onda da metalinguagem, um floater (manobra do surf que faz com que o surfista flutue inverossimilmente na crista da onda, por alguns segundos que parecem eternos) porque marca a ferro a possibilidade ambígua do que está sendo lido ser uma verdade inventada, como toda literatura de fato o é. Você segue lendo até descobrir (ou lembrar) que o lido é mentira, papel pintado, ou que está sendo escrito pra se descobrir o que é a verdade, tecendo aí um dos sumos da literatura: quando esta duvida de si mesma, graciosamente, dando uma dimensão ainda maior a qualquer suposta verdade que possa existir por aí.

P.S.: Se você, Juan Pablo Villalobos, mexicano com cara de mexicano, um dia ler essas linhas, e ficar aterrorizado porque eu não entendi nada do seu trabalho, me perdoe. É que eu o adorei demais, e daí vieram esses delírios em torno do mesmo.


Duas badaladas para as duas da madrugada

Os sinos estão tocando. Você escuta também? É uma espécie de hino que inunda o tímpano. Consegue ouvir os timbres? Tateiam livres o ar até entrar no escuro da cabeça, outrora oca. Ouça! Os sinos estão tocando em mim e já me confundo, porque não sei dizer se isso é o começo de algo lindo ou se é de algo ruim, [Texto de Eduardo Frota]

Texto de Eduardo Frota


Os sinos estão tocando. Você escuta também? É uma espécie de hino que inunda o tímpano. Consegue ouvir os timbres? Tateiam livres o ar até entrar no escuro da cabeça, outrora oca. Ouça! Os sinos estão tocando em mim e já me confundo, porque não sei dizer se isso é o começo de algo lindo ou se é de algo ruim, finalmente, o fim. Ei-las, as duas possibilidades, as duas badaladas, as duas almas, o brilho inteiro de duas luas às duas da madrugada, as duas pupilas dilatadas às duas da madrugada, duas madrugadas dilatadas pelo tempo que corre lento, bem lento. Os sinos estão tocando em uníssono e agora eu acredito que você possa os escutar também. Sinto de perto o seu tímpano vibrando, anunciando que o ar ao redor não é mais o mesmo, é bem mais sereno, corrediço feito uma leve lufada de vento. Olha pra mim e me responde: os sinos estão tocando em você? Vamos fugir para onde? É o começo de algo lindo, é pulsão de vida vindo, anunciada por duas badaladas. Duas da madrugada e somos só nós dois que os ouvimos. Os sinos estão tocando.


Todo o mel tem sal, não duvide: coisas do brejo paraibano

As noites foram sempre agitadas nos engenhos, o serão, as conversas de assombração, as visagens, os malassombros, todo o fio da “puxa” estava recheado dessas reinações. A noite foi mais forte e o breu mais agudo. Nascemos, nós do brejo, rodeados pela história dos engenhos, ladeados por engenhos fazendo história, acompanhados pela triste história de homens cujos suores adoçaram o fel de nossas vidas. [Texto de Aderaldo Luciano]

Texto de Aderaldo Luciano


1. O engenho de Aluísio fica vizinho à antiga propriedade do Pe. Maia, em Areia, na Paraíba do Norte. Aluísio era um galego desses que encontramos pelo brejo, olho aceso, herói verdadeiro, terror dos meninos que, como eu, adentravam seu território sem pedir licença. Nós o respeitávamos como a uma entidade guardiã das matas e capoeiras. Seu engenho ainda está de pé e funciona sazonalmente.

A moenda está em dia, parecendo uma escultura da pós-modernidade. Essas rodas moveram o mundo brejeiro em certo tempo. Fizeram a vida girar, fizeram a vida voltar ao ponto de partida a cada volta. As tachas de ferro, da maior à menor, iam fervendo a garapa, o caldo da cana, até que, na última e menor delas, se formava o mel, o melado, grosso e escurecido, cheiroso e doce, mas carregado de suor.

Dessa tacha menor, o mel era levado para uma outra tacha, fria. Alguém de braço forte e ágil deveria trabalhá-lo com uma espátula, em giros rápidos, cobrindo e recobrindo, molhando a mesma espátula na água para não grudar. À medida que esfriava, o mel ia tomando uma textura mais pastosa. Antes de endurecer era deitado nas tábuas de rapadura, formas de madeira, onde, descansado, transformava-se em rapadura. Foi a rapadura nossa maior guloseima, nossa mais antiga paixão.

As noites foram sempre agitadas nos engenhos, o serão, as conversas de assombração, as visagens, os malassombros, todo o fio da “puxa” estava recheado dessas reinações. A noite foi mais forte e o breu mais agudo. Nascemos, nós do brejo, rodeados pela história dos engenhos, ladeados por engenhos fazendo história, acompanhados pela triste história de homens cujos suores adoçaram o fel de nossas vidas.

Moenda do engenho de Aluísio

2. O sol fugidio suspirava arquejando, assassinado pela rotação da Terra, ilusão louca. Em sua falsa caminhada pelo céu, ele, o sol, entra pelas portas, janelas e corpos, vivos e idos, da casa grande e abandona-a ainda a pino, no zênite. Entra, mas não sai, visto que, em um segundo turno, entrará novamente, para desfazer-se em sombras logo mais às 18 horas.

Na cidade de Serraria, na Paraíba do Norte, vislumbramos a Baixa Verde. A estrada de barro vermelho e alaranjado, percorrida nos cavalos da motocicleta, é sempre declive, escorregando pelo flanco dos morros, demarcada por cercas de arame farpado em troncos de sabiá. A chuva deixou escrita sua letra em forma de vala curvilínea, sensual e traiçoeira.

Na primeira encruzilhada, a Casa Grande sorri amarelada pelo sol da História Colonial e suas nuanças. O fausto de suas linhas humilha a solitária senzala à frente. Mas seus dias de glória e poder decaíram como um todo, acompanhando os momentos decisivos do brejo. Lembro, com estremecimento, que meu pai comandou essas terras, capataz e feitor.

O engenho está calado e mudo, seus bois de carro perderam-se no canavial da ilusão, seus escravos foram alforriados pela morte, seus senhores obrigaram-se a escalar as paredes escorregadias do desengano. Linda Baixa Verde, bela arquitetura: qual guardião zelará por ti o resto da vida inteira? Enquanto estive em tua presença, ouvi muitos dos teus desabafos, compreendi teu silêncio e reverenciei tua longevidade.

A casa grande da Baixa Verde

3. No final da estrada que dá para Pilões, vindo das terras da antiga usina Santa Maria, à esquerda, inicia-se a estrada que terminará em Serraria. Estrada de barro, veredas bem marcadas. Também do lado esquerdo dessa estrada encontraremos dois engenhos de fogo morto, caldeira fria, mudas moendas, bagaceira livre. Um é o engenho Boa Fé. E mais adiante vemos apenas o que sobrou do antigo e opulento Poções.

Sua chaminé aponta para alguma constelação oculta no céu, pois até a lua se esquiva do seu bolorento olho. O tempo, pelo brejo paraibano, passou rápido, rasteiro e devastador. Ninguém se deu conta desse tempo réptil e muitos cultuam a ascensão, maldizendo a queda, o tombo ribanceira abaixo. O brejo é rico em histórias de assombração. O brejo é pródigo em histórias reais, moldadas pelo lodo, pelos fungos, pelo esquecimento. No Poções, a engrenagem sonha oxidada.

Quando as trevas desceram, os antigos engenhos de cana-de-açúcar e seus senhores tornaram-se o espectro esquálido do seu passado de poder, ouviu-se o grito da terra, cobrando seus domínios. Calaram-se as moendas, suas bocas engolidoras fecharam-se para sempre. Suas imensas tachas, onde se preparavam o mel e a rapadura, vomitaram o fogo das caldeiras sobre o dorso dos seus donos. Os agregados e trabalhadores alugados (cortadores de cana, cambiteiros, tangedores, carreiros) viram-se asfixiados na derrocada dos seus patrões.

O fogo-morto instalou-se geral. A capoeira invadiu as cumeeiras, a vida abandonou as vigas, o verme (eita, Augusto) operou meio às ruínas. Hoje, a roda da moenda reflete meditativa sua sobrevivência solitária. O bueiro, vestido de autoridade desautorizada, mantém-se como marco do que foi e nunca mais será. Os odores da garapa cozendo são tão fortes quanto o cheiro da “puxa”: mas resta apenas o almíscar do abandono sob o som da última lágrima do derradeiro senhor.

O que restou do engenho Poções

4. O casarão de José Rufino está lá, assentado à beira do precipício. Suas vetustas paredes, pestanas e ventosas, observam o vale de imensidão. Tenho certeza que vê os revoltosos de 1817, cansados, caminhando à margem do riacho, subindo até o início da Rua do Bonito. A senzala, o pátio, o tronco desaparecido, tudo carcomido pelo tempo. Se houve gritos, o chicote rasgando as carnes, ou se houve gemidos, os senhores se lambuzando no sexo violento, o chão de pedra e o éter acima os guardarão para sempre.

Mas esse Casarão nos fala loquazmente de severas lembranças. Um tempo de fausto e opulência, um tempo doce para os senhores, um tempo amaro para os sem nada. Sem nada pois suas vidas e até suas almas pertenciam aos primeiros. Parece, por pequenos indícios, que Areia, a Terra dos Bruxaxás, onde nasci, contraiu grande dívida secular, paga a cada dia com sangue e surpresas. Mas também parece que essa dívida não foi assinada pela raia miúda. As mãos do homem comum não assinaram o fatídico pacto.

Indiferente, como marco e marca desses tempos, o Casarão se assina carrancudo. Suas subdivisões, cômodos, escadas, assoalho, fogão, sótão, janelas e luminárias retiveram energias estranhas. Esse Casarão poderia ser mais alegre, ter mais vida, mais cor, mais canções. Adquiriu os ares e as faces de repartição pública. À noite, me disseram, um cavaleiro apeia a sua porta, bate três vezes com a aldrava, ninguém lhe abre a pesadíssima madeira. Decepcionado, monta novamente em seu cavalo paramentado e risca em desabalado trote em direção a Pilões de Dentro. Deixa um risco de fogo e fumaça. Os moradores o observam pelas frestas dos postigos. Quando ele some no mundo, vão dormir em paz com seus pesadelos.

Fachada dos fundos do Casarão de José Rufino

Baú do Braulio: “Grande Sertão: Veredas” em cordel

O romance Grande Sertão: Veredas (1956), de Guimarães Rosa, já teve adaptações para o cinema (pelos irmãos Santos Pereira), para a televisão (por Walter Avancini), para o teatro (por Bia Lessa) e certamente teve muitas outras – estou citando apenas as primeiras que me vêm à memória. E tem cordelização do Grande Sertão, por Edmilson Santini. [Texto de Braulio Tavares]

Ontem estivemos com o grande artista Edimilson Santini, um mestre cordelista, lá na Galeteria Cruzeiro (onde nasceu a Kuruma’tá!), na saída Rio Branco do metrô da Carioca. Outros amigos estavam reunidos à mesa, como Aderaldo Luciano e Marcio Martins, e também com a presença randômica do grande livreiro Francisco Olivar, sempre com os ouvidos na conversa e de olho na sua banca fantástica. No meio da conversamos com Santini sobre o texto que Braulio Tavares publicou no seu site, o Mundo Fantasmo, sobre seu aventuroso cordel em que adaptou Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. Que tarefa, que empreitada! E bem sucedida! Combinamos que valia a pena compartilhar esse texto do Braulio na Kurumu’tá. E aqui vai!

Texto de Braulio Tavares


O romance Grande Sertão: Veredas (1956), de Guimarães Rosa, já teve adaptações para o cinema (pelos irmãos Santos Pereira), para a televisão (por Walter Avancini), para o teatro (por Bia Lessa) e certamente teve muitas outras – estou citando apenas as primeiras que me vêm à memória.

A literatura de cordel, principalmente a das décadas mais recentes, tem adaptado uma enorme variedade de obras literárias. Entre elas algumas coisas que nos anos 1970, quando comecei a estudar a sério essa produção editorial, seriam impensáveis.

Naquela época, eu não imaginava ver cordelizações das peças de Shakespeare (já tem, por Stélio Torquato), nem dos contos de Edgar Allan Poe (já tem, por Evaristo Geraldo e Rouxinol do Rinaré).

E tem cordelização do Grande Sertão, por Edmilson Santini.

As principais dificuldades para quem quiser fazer qualquer adaptação desse romance são:

  1. o gigantismo do texto, com centenas de personagens e dezenas de episódios;
  2. a complexidade da linguagem;
  3. a riqueza de subtemas sugeridos a cada passo, em áreas que vão desde o romance de cavalaria até a fauna e flora sertaneja, desde o misticismo oriental até as guerras sociais da Primeira República.

Dá pra botar isso tudo num cordel? Não, não dá. Mas dá para fazer o que Edmilson Santini (ator, educador, poeta cordelista atuante no Rio de Janeiro) fez. Fazer um panorama geral da história, e acompanhar de perto a linguagem poética.

Edmilson Santini

Porque a linguagem de J. G. Rosa é acima de tudo poética, no trato com a palavra (as incessantes escolhas verbais, processo criativo que ele pregava com devoção), com a frase, com as sonoridades, com as conotações etimológicas.

Podemos esquecer (nesta análise) as qualidades imensas que ele tinha como romancista, e cuja largueza não dá para formatar dentro do cordel.

Nesse ponto, Santini constrói seu cordel (em estrofes variáveis, mas sempre próximas das formas “canônicas”: sextilha, septilha, décima, parcela) num trabalho minucioso de cortar-e-colar, onde as frases de Rosa são trazidas para dentro do versos e rimadas com as do novo autor.

Abençoadamente, Rosa escrevia muito em redondilhas maiores implícitas. Sua prosa é toda ritmada. Na maioria dos casos, é só cortar – a frase já está com métrica perfeita.

O folheto de 44 páginas se abre assim:

Desta rima a gente parte
Entre a fala e o papel.
Tem sertão em toda parte,
Desenredo em carretel:
Deus e o Demo na Rua,
À luz do sol e da lua:
São Veredas em Cordel. (p. 1)

Os personagens são introduzidos com um pé no romance original e outro no folheto:

Sou protegido de quem?
De um Sertanejo Pajé,
Compadre Meu Quelemém,
Quelemém de Góis, que é…
Meu Quelemém de Cardéque,
Seu sorriso é um pléque-pléque:
Alpercatas de Sumé… (p. 1)

O mesmo se dá com os cenários famosos:

Liso do Sussuarão?
Nem não pude acreditar!
Como alguém atravessar,
Vivo, um Inferno, socavão,
Buraco-chã, grande vão…?
Chão ali tem parentesco
Com rastejante grotesco
Tão grande se emenda em si
Vida em vago corre ali
Liso do Inferno Dantesco. (p. 8)

Uma das regras da adaptação é: “Ninguém está reproduzindo a obra original, pois isto, além de impossível, é desnecessário.”

Adaptar é captar algo da forma, e algo da chama.

É, no caso de obras literárias, escolher um diapasão (toda grande obra tem um diapasão diferente para diferentes camadas: enredo, personagens, linguagem, simbolismo, retrato social, etc.).

A adaptação de Santini vibra na mesma frequência da linguagem rosiana, o que não é pouco, e o fato de se dar nas fórmulas do cordel ajuda a fazer brotar certas pulsações poéticas (em rima e métrica, principalmente) existentes no original, e que muito admiradores de Rosa não percebem, porque são leitores-de-romance sem formação poética. Sem ouvido pronto para perceber as sutilezas propriamente poéticas.

E não é só a escolha verbal ou a cadência do verso. A prosa de JGR é visual, captadora de presenças físicas, o que a torna cinematográfica. Eis a inesquecível passagem em que Riobaldo, menino, vê chegarem de madrugada na fazenda os jagunços armados até os dentes, quando ouve pela primeira vez a canção de Siruiz:

Como quem surge da quina
Da noite, vem da cozinha,
Meu Padrinho, uma lamparina,
Acesa à mão o encaminha:
Abriu a porta, e um desabado
Chapelão, cinema alado,
Me botou pasmo: Lá vinha…

Cinco homens, dez esporas,
Pés semeando poeira,
Dedos quantos, quantas horas,
De caminhada, canseira…
Vi um tal que, pelo vulto,
Pressenti pacto no oculto:
A sombra encheu cumeeira… (p. 14)

Os episódios secundários são pulados por cima, mas o folheto acompanha passo a passo a trama principal de traições, trocas de chefia, perseguição e vingança final. E a linguagem corre junto. Hora de tiroteio, prosa de tiroteio:

E tome lá, cabroeira!
Tome tiro, tome broca!
Broca de mato de loca…
De louca guerra, crueira…!
Cranco de nó de madeira…!
E foi que foi, na escora
De cada pé de pau-tora,
Raiz de cruzado jogo,
Saiu do chão, botou fogo:
Mundo danado caipora…! (p. 26)

Hora de poesia, prosa de poesia:

Noite de toda fundura,
Em Diadorim pensando.
No céu li a Escritura
Das estrelas, soletrando…
Quem disse que ler estrelas
No Sertão não nos faz vê-las,
Por escrito alumiando…? (p. 38)

Existe uma forma meio preguiçosa de escrever cordel, que é a tentativa de ficar perto do vocabulário, do tom, da forma-da-frase do cordel tradicional. Eu mesmo faço isto às vezes, geralmente por mero motivo prático – escreve-se sem pensar muito, “ao correr da pena”, pensando apenas na clareza do dito e na rima do escrito.

Mas o cordel – como aliás, é sempre bom insistir, qualquer tipo de poesia ou de literatura – é feito por quem o faz, na hora em que está fazendo.

Cumpridas as exigências básicas (rima, metro, estrofe), no instante de escrever é cada qual por si, e com o que tem.

O Veredas – Versão em Cordel de Edmilson Santini mostra que o Romanceiro Popular Nordestino é como o Sertão rosiano: está em toda parte. E qualquer um pode entrar ali, porque ele impõe suas leis. As leis do Romanceiro e as leis do Sertão são poucas, mas são de ferro. O que vem depois disso, é o dom de cada um.

Escrito e publicado em Mundo Fantasmo em 20 de setembro de 2019.


Esaú e Jacó: o outro, o leitor

É no Catete onde mora Aires – o ex-ministro aposentado que oferece almoços (repletos de salmão e ofícios), para os gêmeos Pedro e Paulo e a bela Flora. É também no Catete onde termina o Conselheiro ‘apalpando a botoeira, onde viçava a mesma flor eterna.’ [Texto de Nonato Gurgel]

Texto de Nonato Gurgel


Publicado em 1904, Esaú e Jacó é o penúltimo livro de Machado de Assis. Uma das primeiras coisas que chamam a atenção neste romance, é que se trata de um texto sobre a diferença. Uma prosa sobre a discórdia. Sobre temperamentos opostos às ideias políticas – republicanos x monarquistas. Uma ficção do ‘desacordo no acordo’.

Esaú e Jacó é um livro sobre o outro. Um texto sobre o leitor. Com ele, Machado dialoga o tempo inteiro. Nesse dialogismo, o autor pede que o leitor volte a página; ratifica ser melhor ler com atenção, faz distinção entre homens e mulheres, como leitores, e poupa o leitor apressado de alguns porquês. Esse diálogo com quem lê atravessa toda a narrativa. Nela predomina o intertexto com autores com os quais Machado dialoga ao longo de sua produção estética, como Homero, Dante, Cervantes e a Bíblia.

Como reza a ‘Advertência’ do autor, Esaú e Jacó são os seis cadernos escritos pelo Conselheiro Aires com tinta encarnada. Leitor que amava os livros e suas releituras, homem chegado às Letras clássicas, Aires gostava de escrever cadernos, bilhetes e cartas. Cordato, esse diplomata não era chegado a paixões nem casamentos. ‘Era homem de todos os climas’. Tinha o feitio do solteirão que elege a solidão a ser atravessada a sós…

É no Catete onde mora Aires – o ex-ministro aposentado que oferece almoços (repletos de salmão e ofícios), para os gêmeos Pedro e Paulo e a bela Flora. É também no Catete onde termina o Conselheiro ‘apalpando a botoeira, onde viçava a mesma flor eterna.’ Alguém vai morrer em Esaú e Jacó; e não é Aires. Ele e o seu memorial estarão vivíssimos no último romance de Machado, Memorial de Aires.

Neste livro feito de micro-narrativas, pequenos contos, canções sertanejas, quadrinha espanhola, ditos populares relidos, Machado dialoga com o alemão Schlegel, de Conversa sobre a poesia e Outros fragmentos que diz: ‘um crítico é um leitor que rumina. Ele deve, portanto, ter mais de um estômago’. Em Esaú e Jacó lemos: “O leitor atento, verdadeiramente ruminante, tem quatro estômagos no cérebro, e por ele faz passar e repassar os atos e os fatos, até que deduz a verdade…’


Agora ele flutuava no espaço

Entrou no mar com os dois pulmões cheios de ar, o direito e o esquerdo, um tanto sôfrego, à procura do amor. A primeira onda farfalhou pelo corpo e afagou a alma. A segunda o atingiu violentamente no rosto, como uma bofetada. A terceira o cobriu por inteiro, da cabeça aos pés, afogou a alma. Não havia mais horizonte. [Texto de Eduardo Fronta]

Texto de Eduardo Frota


Foto: Pxhere

Entrou no mar com os dois pulmões cheios de ar, o direito e o esquerdo, um tanto sôfrego, à procura do amor. A primeira onda farfalhou pelo corpo e afagou a alma. A segunda o atingiu violentamente no rosto, como uma bofetada. A terceira o cobriu por inteiro, da cabeça aos pés, afogou a alma. Não havia mais horizonte.

Ele agora flutuava no espaço.

Bateu as pernas cansadas e mergulhou rumo ao fundo do mar como se filho de peixe fosse, com os dois olhos bem abertos e muito ardidos pelo sal que queima. O sol que teima em ficar brilhando lá em cima. Queria ter guelras, queria ter escamas, queria encher o peito e gritar por ela….

— …

Procurou-a por entre os peixes, por entre os poucos feixes de luz refratados que iluminavam o lugar, desabitado. Braçadas encurtadas, pernadas alongadas, coração violentamente sobressaltado.

Encontrou-a onde a correnteza fazia a curva, em meio à água já turva. Uniu-se a ela em um ósculo inevitável. Os dois pulmões cheios de mar, o direito e o esquerdo, sem fôlego, à procura do amor.

Ele agora flutuava no espaço.


100 anos de Isaac Asimov

Escrevo o nome desse livro solenemente, porque e me introduziu a um universo tão vasto e tão rico que até hoje me surpreende e encanta. Acompanhei de olhos brilhando as aventuras de Lucky Starr em Mercúrio, nosso pequeno vizinho às margens do Sol. Aquele livro era como se fosse, ao contrário o que se poderia imaginar, o pico de uma montanha sólida, ou melhor, o pico visível de um iceberg. Após esse livro empreendi minha descida às profundezas, guiado pelo coração enorme que Asimov havia se tornado em mim. [Texto de Toinho Castro]

NOTA
Importante leitura a que tive acesso no dia de hoje, 14 de maio de 2020. Confrontando o homem Isaac Asimov com minha memória afetiva, de ainda muito jovem, 12 ou 13 anos, vasculhar seus livros e o mundo da ficção científica nas livrarias do Recife… Leitura recomendada e para antes da leitura do meu texto: What to Make of Isaac Asimov, Sci-Fi Giant and Dirty Old Man?

Texto de Toinho Castro


Eu adorava passear no aeroporto Guararapes, naquele velho Recife em que eu morava. Era talvez meu passeio predileto. Amava a praia também, meu outro passeio predileto. Ambos eram, ao seu modo, fronteiras. A partir da areia da praia, depois dos arrecifes, depois das ondas, estava o além. Lá longe passava um barco, um navio que deixa o porto para trás. Aquilo era uma espécie de emoção contida. Iam pra longe, pra longe dali. Para outros países, falar outras línguas. O aeroporto era a mesma coisa, fronteiriço. Os aviões aceleravam na pista e subiam, deixando pra trás esse menino, de olhos grudados na silhueta que se afastava e de ouvidos atentos ao ruído dos motores, sumindo no vento.

O aeroporto era um passeio da família. Lanchar no Café Palheta, observar os pirarucus no lago da praça em frente, um jardim projeto pelo gênio carinhoso de Burle Marx, No aeroporto vi Luiz Gonzaga, sentado na escada que espiralava ao amplo primeiro andar, onde havia um restaurante. Parecia um deus, cercado por seus asseclas. Minha mãe, ou meu pai, sussurrou “Aquele lá é Luiz Gonzaga”. Mas eu sabia. Nunca esquecerei essa imagem. Volta e meia, ela me vem à cabeça, assim, num dia nada a ver… tô assim de bobeira e lembro de Luiz Gonzaga sentado na escada do aeroporto. De alguma maneira essa imagem evoca meu pai.

No aeroporto, lanchando, como disse antes, no Café Palheta, demos com Péle, que me botou no braço e autografou uma foto da minha mãe com meu irmão, que ela deve guardar ainda. Lá também vi, de certa feita, Moura Cavalcanti, advogado e político da ARENA, que fora, ou era então, governador biônico de Pernambuco, nomeado por Geisel. Éramos de esquerda e aquela figura, representante da ditadura, não nos animava nem um pouco. Recordo dele aqui porque tempos depois li que ele estava no carro que se acidentou levando também seu amigo, o poeta Carlos Pena Filho, de quem muito admiro a poesia. O poeta veio a falecer por conta do acidente dias depois. Muito jovem, aos 31 anos. Eternizou a boemia recifense, não sem ironia, com os versos de Chope:


Mas como a gente não pode
fazer o que tem vontade,
o jeito é mudar a vida
num diabólico festim.

Por isso no Bar Savoy,
o refrão é sempre assim:
São trinta copos de chopp,
são trinta homens sentados,
trezentos desejos presos,
trinta mil sonhos frustrados.

Quem eu conheci também no aeroporto dos Guararapes foi Isaac Asimov. Não, não… o célebre escritor de ficção científica não estava aguardando o voo de alguma conexão, perdido no Recife, contemplando os painéis de Lula Cardoso Ayres. Foi na loja da Sodiler que o encontrei.

Oainel de Lula Cardoso Ayres no aeroporto dos Guararapes

Havia essa editora, a Hemus, que publicou diversos títulos de Ficção Científica numa coleção apropriadamente chamada FC Hemus. Entre os diversos autores o mestre Asimov era, sem dúvida, um destaque. Cada livro dessa coleção ostentava o nome do autor em letras grandes, magenta, que eu reconhecia de longe. Sempre que eu ia no aeroporto passava na Sodiler para paquerar com os livros de Asimov. Os títulos eram como sereias me chamando… Fundação, Eu, robô, 827 Era galáctica. O que me amarrava ao mastro era ser muito pequeno para ter meu próprio dinheiro e esbanjá-lo com aqueles livros cujas histórias eu muitas vezes imaginava a partir das sinopses que eu lia nas contra-capas. Mas às vezes eu tinha o meu dinheirinho e numa dessas oportunidades eu comprei um dos livros que estava acessível à quantia que jazia no meu bolso: O grande sol de Mercúrio, de Isaac Asimov.

Escrevo o nome desse livro solenemente, porque me introduziu a um universo tão vasto e tão rico que até hoje me surpreende e encanta. Acompanhei de olhos brilhando as aventuras de Lucky Starr em Mercúrio, nosso pequeno vizinho às margens do Sol. Aquele livro era como se fosse, ao contrário do que se poderia imaginar, o pico de uma montanha sólida, ou melhor, o pico visível de um iceberg. Após esse livro empreendi minha descida às profundezas, guiado pelo coração enorme que Asimov havia se tornado em mim.

Asimov nasceu na aldeia de Petrovichi, na antiga União Soviética, e que hoje faz parte da Rússia. Hoje, 2 de janeiro de 2020, nesse ano que mal começou, ele completaria 100 anos se vivo estivesse. Visionário, dono de uma grande inteligência, produziu uma vasta literatura perene e jogou na nossa cara muito do que hoje nos desafia a compreensão, esse novo mundo, conectado pela internet, iluminado ou ameaçado pela inteligência artificial. Outro dia li que a sonda Voyager 2 havia cruzado a fronteira do Sistema Solar, adentrando o espaço entre as estrelas, como a sua irmã, a Voyager 1, havia feito em 2016. Todos lembraram de Carl Sagan. Eu lembrei de Asimov.



Em nome do Pife, do Som e do Espírito Santo

Em março de 2013, a Academia Brasileira de Letras recebia a exposição de xilogravuras de Ciro Fernandes. Manancial artístico inigualável. Ciro, em atuação constante, alcançou um patamar superior na xilogravura brasileira. Telas complexas e tão detalhadas que chegam a confundir o olhar do expectador. Ciro não fere a madeira, oferece a ela a oportunidade de tirar a roupa e se revelar sedutora. Ciro risca a pele da madeira sem tatuá-la, com a delicadeza do gênio abre-lhe coração. Ciro é zeloso: acaricia a madeira como Jacó acariciou a pele branda de Rachel. [Texto de Aderaldo Luciano]

Texto de Aderaldo Luciano


O tocador de pífano, de Ciro Fernandes

Em março de 2013, a Academia Brasileira de Letras recebia a exposição de xilogravuras de Ciro Fernandes. Manancial artístico inigualável. Ciro, em atuação constante, alcançou um patamar superior na xilogravura brasileira. Telas complexas e tão detalhadas que chegam a confundir o olhar do expectador. Ciro não fere a madeira, oferece a ela a oportunidade de tirar a roupa e se revelar sedutora. Ciro risca a pele da madeira sem tatuá-la, com a delicadeza do gênio abre-lhe coração. Ciro é zeloso: acaricia a madeira como Jacó acariciou a pele branda de Rachel. Ciro Fernandes é de Uiraúna, na Paraíba do Norte, vive no Rio e eterniza-se na arte. A Academia Brasileira de Letras com aquele evento alcançava a redenção. Andei por cada obra com o olho milimétrico, chegando n’O Tocador de Pífano fiquei detido, transitando o tempo.

Banda de pífanos de Caruaru

Minhas mais remotas lembranças de uma banda de pífanos levam-me às margens do Rio São Francisco, em Propriá, no Sergipe. Ali onde o calor entra pela boca do rio e desce sobre os viventes, devagar e sempre. O São Francisco foi o primeiro rio que vi de verdade. Nessa primeira vez, passei sobre ele por volta das 4 da manhã. Viajava num velho ônibus da São Geraldo que vinha de Natal, no Rio Grande do Norte, passava em Campina Grande, descia por Caruaru, se mandava para dentro das Alagoas, parava em São Miguel dos Campos seguia para Aracaju. Antes de Aracaju, deixou-me na entrada de Propriá. Não havia ninguém me esperando. Com minha mochila, caminhei a pé por mais ou menos dois quilômetros até à Rua Japaratuba, à procura da casa onde viveria por dois anos. Em lá chegando, sentei praça sob o comando de Salatiel Franciscano do Amaral.

Pois bem, desse tempo passado no Sergipe conheci todo o sertão e as cidades para baixo de Propriá. Em Brejo Grande fui batizdo nas curvas do rio. Na antiga Neópolis, atravessei para Penedo, numa balsa barulhenta com medo de ser arrastado pelas águas.Eu tinha 17 anos e vi e escutei pela primeira vez uma banda de pífano, banda cabaçal, zabumba, como queiram. A Briga do Cachorro Com a Onça e O Besouro Mangagá foram minha primeira aula. E ainda não ouvira falar da Banda de Pífanos de Caruaru. Aquilo arrebatou-me de tal forma que fiquei desarrazoado. O casamento dos pífanos, um na melodia, outro numa espécie de contracanto, a zabumba marcando num compasso diferente de tudo que eu ouvira, uma caixa malassombrada marcando um xaxeado e um par de pratos como um enxame de chuveirinhos juninos.

Nunca mais parei de ouvir esses sona. Depois encontrei com João do Pife, em Caruaru e, com seus discos debaixo do braço, fui fazer uma comparação dele com Zé da Flauta, nos discos de Alceu Valença. O pife é o sopro da vida, é o bicho escondido rosnando enfezado. Tenho certeza que Deus era um tocador de pife e foi soprando nele, num pife feito de taboca, que deu vida ao Homem com seu sopro fiel. Foi mesmo. E vou mais além em meu sonho de jeca: a trilha sonora do Universo, independente de Stephen Hawking, é a Briga do Cachorro Com A Onça!

Os pífanos iniciais

A tradição do pife brasileiro ainda necessita de boas apreciações. Sendo um instrumento primitivamente da mata, feito a partir da taboca ou do bambu, muitas vezes do próprio talo da folha da abóbora ou do mamoeiro, o pife detém a magia elemental. Tirar o som de um instrumento, ao mesmo tempo rústico e sofisticado musicalmente, com uma escala complicada, não é nada fácil. O pife, como todo o instrumental, é caprichoso, requer tanta dedicação, tanto estudo e tanto apuro que muitos de nós que tentamos tocá-lo ficamos pelo caminho.

Minha arqueologia pessoal, como disse, encontra o pífano na infância quando a tribo de índios de João Pé-de-bolo saía no carnaval areense tocando, fatalmente, a marcha dos índios cariris. Aquele som parecia feito de bolinhas sonoras galopando, invisíveis, até nossos ouvidos. Brotaram-me a admiração e o afeto. Mas, também como falei acima, João do Pife apareceu-me um dia traduzindo uma imensa mesa de possibilidades. Das músicas folclóricas ao mais sofisticado jazz, o velho pife dava conta, dependendo do bico e das acrobacias digitais do tocador.

Independente de toda uma casta pifeira nacional, minhas raízes trazem-me sempre os quatro cavaleiros pelos quais afeiçoei-me na vida: João, Biu, Zé e Edmilsom do Pife. Para mim é o quarteto fundamental porque os primeiros que escutei detidamente tentando entender as frases, as síncopes, os dobrados, os trinados, as longas viagens e precisas estalagens. A partir daí, imaginei certa vez a imagem de Deus criando o homem e, olhando o barro inerte, entrando na mata, retirando um pedaço de taboca, lhe furando o corpo. Assoprou-lhe, dançando os dedos, e derramou a Vida do seu próprio Sopro dentro de nós.


https://www.youtube.com/watch?v=rE6q207tLCQ
https://www.youtube.com/watch?v=ap1jlgVAEf0
https://www.youtube.com/watch?v=FAl0aAGaP_o
https://www.youtube.com/watch?v=TqYtxt1UHv8

Experiência Copacabana #1

Hoje acordei cedo para ver se a prefeitura limpou essa porcaria dessa Copacabana direito. E até que tava descente. Tendo em vista o hecatombe de humanos que vieram assistir os fogos. Ainda tinha bastante gente dormindo bebadas pelas ruas. Eu tenho um pouco de inveja de quem consegue beber assim. Beber até cair. Não tenho essa manha. Por falar nisso. Sabe quando você tá num bar as oito da manhã virado no rolet, tomando a décima quinta saideira e daí passa alguém com fone de ouvido indo correr. Hoje era eu esse cara! Eu alterno, eu alterno. [Texto de Francisco Paschoal]

E a Revista Kuruma’tá faz questão de começar o ano no primeiro dia, porque não temos tempo a perder! E nesse primeiro dia a gente traz, orgulhosamente, um episódio do Experiência Copacabana, a página de crônicas sobre o bairro que inquieta, traduz, engana, mistifica, exalta e explode o Rio de Janeiro!

Toinho Castro (Editor)

Texto de Experiência Copacabana


Hoje acordei cedo para ver se a prefeitura limpou essa porcaria dessa Copacabana direito. E até que tava descente. Tendo em vista o hecatombe de humanos que vieram assistir os fogos. Ainda tinha bastante gente dormindo bêbadas pelas ruas. Eu tenho um pouco de inveja de quem consegue beber assim. Beber até cair. Não tenho essa manha. Por falar nisso. Sabe quando você tá num bar as oito da manhã virado no rolê, tomando a décima quinta saideira e daí passa alguém com fone de ouvido indo correr. Hoje era eu esse cara! Eu alterno, eu alterno. Ai passando em um boteco desses que só vão fechar no apocalipse mesmo, eu encontrei alguns amigos tomando a décima quinta saideira, aí tive que tomar umazinha com eles. Expliquei que esse ano tava focado no trabalho, economizando dinheiro e saúde e não havia feito nada no Ano Novo. Ai um deles mandou assim.

— Saca o Tim Maia?
— Sim!
— Então, ele só aguentou até o que ele aguentou pq ele ficou uma época naquela seita maluca e deu uma desintoxicada. Tá ligado?

A história mitíca do albúm Racional do Tim é invocada em mesa de doidão sempre. Pesquise no google sobre esse albúm e escute Tim Maia Racional! É um bom programa.

— Eu odeio festa de ano novo, mas eu fico ansiosa se eu deixo passar em branco. Aí acabo fazendo alguma coisa e aí não consigo mais parar até.. sei lá, dia 05. – Todos riem da piada de Bia, e de mais outra piada com branco e Ano Novo que ela fez e que eu não vou contar aqui que pode ter criança lendo. Bia é daquelas pessoas que eu conheço da noite e tenho no face mas não sigo. Figurinista ou cenógrafa. Se não me engano.

Thiago está atento ao celular. Ele é uma das figuras da mesa que eu conheço melhor. Ele é um geniozinho dos apps e programador. Trabalha para caramba, ganha bem, mas segundo ele seu trabalho é opressor e ele precisa de uma farmacologia complexa para se manter atuante na sociedade. Ele desenvolveu um app foda e que só um seleto grupo usa e esse app encontra o chilli out mais próximo.

— Sem você ter que passar o carão de ter que postar se alguém sabe se tá rolando algum eventinho as 8 da manhã. – Thiago vai explicar mais uma vez como o app dele funciona. Como ele busca o chilli out perfeito, os tipos de chilli out, se é com música ou sem, se o gráfico manipulação química ainda tá ascendente ou se a galera está já tá gastando, se tem gente solteira e até mesmo dicas de primeiro socorros. Em um certo o app apitou chamando atenção de todos na mesa.

Essa é minha deixa para ir embora. Thiago e Bia insistem para que eu vá. Dizem que é um chilli out épico em apartamento enorme da Republica do Peru, de um cara que acabou de perder o pai e herdou uma grana e o apt, que o cara tá desnorteado e quer ir até dia de reis festejando. Agradeço o convite mas termino minha long neck desejando Feliz Ano Novo para todos e finalizo dizendo para a galera beber bastante água. Indo para casa olho para os milhares e milhares de apartamentos em Copa e o que não deve de tá rolando nesse dia primeiro. Quantos surubas de arromba ainda estão em em andamento nessa primeira manhã. Aquela palhaçada de ir ver os fogos e voltar para casa é nada perto do que rola mesmo sem que ninguém veja.

Leia mais na página Experiência Copacabana!


Ano que vem será diferente

O moço que passou da direita para esquerda – atrás de mim – passa agora da esquerda para a direita e tira a segunda foto. Outras cores. Outras sensações. Influenciada, eu também tiro outra. Vício do compartilhar mais uma vez. Eu quero e não quero voltar pra casa. Talvez eu deite aqui na balaustrada mesmo. Talvez eu entre pela porta da sala. Talvez eu entre com fones de ouvidos desligados. Mas isso só eu vou saber. Eu só queria silêncio. Comportamentos quase que obrigatórios. [Texto de CARU]

Texto de CARU


Datas obrigatórias. Falsa realização de descanso. Cheiro de dendê. Uma certa paz. Tenho fome de coisas gostosas. A Bahia me dá. Fora. Vento. Sol. Mar. Eu saio a pé pra ver o pôr do rei. Pessoas param para tirar foto da paisagem que vive no meu olhar. E mesmo que more, eu também tiro uma foto no celular. Compartilhamento de sensações. Um casal desce na areia da praia do Rio Vermelho, que é azul. Tocam seu violão em miniatura. Uma criança pula as ondas ao lado de sua mãe. Estavam a espera do alimento que vem do mar. Dezoito horas. A hora que – depois de singrar pela Baía – o peixe chega. Chega quando o sol se vai. Eu permaneço. O moço que passou da direita para esquerda – atrás de mim – passa agora da esquerda para a direita e tira a segunda foto. Outras cores. Outras sensações. Influenciada, eu também tiro outra. Vício do compartilhar mais uma vez. Eu quero e não quero voltar pra casa. Talvez eu deite aqui na balaustrada mesmo. Talvez eu entre pela porta da sala. Talvez eu entre com fones de ouvidos desligados. Mas isso só eu vou saber. Eu só queria silêncio. Comportamentos quase que obrigatórios. Não é de todo mal, não é mesmo. Mas só chegam mais. Mais. Mais e mais. E quanto mais chega, mais chegam, mais eu me escondo. Antes não era assim. Eu fingia. Deixava passar. Hoje sinto o muro ao meu redor. Eu mesma fui construindo minuciosamente. Sou boa com construções. Firmes. Porém, (ainda) dá pra ver por cima. Às vezes só não precisava ser obrigação. Só quando for pro meu santo. Defumador. Cheiro de água de flor de laranjeira e água marinha. Dendê no almoço e depois das festas. Oraieieo, eu peço calma e serenidade. Okê arô, fecho os olhos e saio arrumando tudo. Determinações de fim de ano. Odoyá. Jogando coisas fora. Organizando o caos visível. Coisas novas. Venham. Ano que vem será diferente.

Foto: CARU