Os nossos mortos

Hoje é 2 de novembro, dia de finados, dia os mortos. Lá fora, no prédio vizinho, brincam as crianças. lembrei que meus avós, meus bisavós, tavez tenham brincado assim. Talvez tenham corrido pela rua de terra, em alarido, imaginando um futuro que talvez tenha sido outro. Há outros, para além dos meus bisavós, mergulhados num passado que não alcanço. Seus nomes se perderam, as casas em que cresceram. Nada mais existe. [Poema de Toinho Castro]

Poema de Toinho Castro


Hoje é 2 de novembro, dia de finados, dia os mortos. Lá fora, no prédio vizinho, brincam as crianças. lembrei que meus avós, meus bisavós, talvez tenham brincado assim. Talvez tenham corrido pela rua de terra, em alarido, imaginando um futuro que talvez tenha sido outro. Há outros, para além dos meus bisavós, mergulhados num passado que não alcanço. Seus nomes se perderam, as casas em que cresceram. Nada mais existe. Ou ainda existe, num plano paralelo ou transversal a esse? Vieram antes de mim e sobrevivem em mim de um jeito que nem eu entendo. Estão aqui. meus mortos.

Meus bisavós, avós da minha mãe

onde estão
os nossos mortos
se estão
se há um lugar
além daqui
um segundo andar
uma sala branca
para se deixar
ficar
e se não há
esse lugar
os nossos mortos
onde ou quando
devem estar
em que simulação
de mundo
ou abismo profundo
em que rede posta
devem descansar
depois de tanto
depois de muito
depois desse insano
culto ao mundo
pergunto-me
porque pergunto
porque aos vivos
cabe perguntar
sem respostas
encontrar
sem janelas
por onde olhar
para esse mundo
para esse outro mundo
esse poço escuro
e profundo
onde os mortos
nossos mortos
devem estar

novembro de 2019


Pequeno Dicionário de Arquétipos de Massa: Avatar

E está no ar mais um “verbete” do Pequeno Dicionário de Arquétipos de Massa, série do caríssimo escritor Fábio Fernandes que está sendo publicada periodicamente, a cada 15 dias, na Revista Kuruma’tá, para a nossa imensa alegria!

Texto de Fábio Fernandes


Imagem a partir de foto original disponível na Wikimedia – Domínio público

Você não é você.
Você é muitos, em você cabem multidões. Walt Whitman disse isso.
Você é muitos e muitas. E qual é o problema?
Nenhum.

Outro poeta – Oscar Wilde, você sempre faz questão de lembrar aos seus amigos menos esclarecidos – diz que a melhor maneira de acabar com uma tentação é cedendo a ela. E você segue Mr. Wilde à risca.
Por isso você se monta para a noite.

A cueca dá lugar à calcinha, a calça e a camisa ao vestido, os cabelos curtos à peruca, os óculos às lentes de contato. Olho por olho, dente por dente. Macho por fêmea. Plug and play.

Girls just want to have fun. E você – que tem horror de Nelson Rodrigues e nunca, jamais, em tempo algum quis ser, como ele tantas vezes disse a respeito de outros em suas crônicas, um contínuo de si mesmo, uma pessoa medíocre – sai pra rua pra se divertir.

Corra, Lola, Corra. Que a noite é uma criança, e agora você é uma estrela.


“Que nada nos distraia do amor” — Flaira Ferro Virada na Jiraya

Eu conheci a Flaira Ferro porque ando bem acompanhado. Ou pelo menos porque acompanho as boas redes. De olho no Instagram de Chico César eu vi uma postagem que ele fez cantando com a Flaira a deliciosa Cruviana, que está no seu último álbum do paraibano de Catolé do Rocha, O amor é um ato revolucionário. E é mesmo! A partir aí comecei a companhar também o perfil da Flaira e vi chegando esse disco que agora está nas tais das plataformas de streaming e no Youtube: Virada na Jiraya! [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro


Eu conheci a Flaira Ferro porque ando bem acompanhado. Ou pelo menos porque acompanho as boas redes. De olho no Instagram de Chico César eu vi uma postagem que ele fez cantando com a Flaira a deliciosa Cruviana, que está no seu último álbum do paraibano de Catolé do Rocha, O amor é um ato revolucionário. E é mesmo! A partir aí comecei a companhar também o perfil da Flaira e vi chegando esse disco que agora está nas tais das plataformas de streaming e no Youtube: Virada na Jiraya!

Poucas vezes vi um título definir tão bem um disco! Virada na Jiraya é essa disposição absoluta, esse estado de fúria e encantamento, energia explosiva que derruba portas, porteiras, paredes, que não cabe em si e transborda.

E que disco é esse, gente? É um disco transbordante! Enfurecido e aliviado em 12 músicas que se você botar pra tocar vão mudar seu dia num grande dia. É como se a caravana do Circo chegasse na cidade, adentrasse a praça central para se instalar luminoso, animado, chamando todo mundo pra participar, pra junto, pra cantar palavras de ordem, palavras de poesia e cantos às nossas mães, aos nossos ancestrais, ao nosso futuro contra toda escuridão que parece cerrar o horizonte. É um disco político. Como poderia ser diferente? Não, não de resistência, mas de reação, de partir pra cima de peito aberto. Como poderia ser diferente? Nunca é tarde pra reagir, canta Flaira, com as cantoras e compositoras Isaar, Ylana, Sofia Freire na comovente Germinar. É disco pra ir pra rua, pra cantar juntos.

Faixa após faixa é uma riqueza de ritmos e versos, é teatro, performance e dá uma vontade danada de dançar. Vai do frevo ao rock passando por muitos lugares, numa atemporalidade de dar gosto. A língua afiada de Flaira, irônica e lírica, claro, sai rabiscando poesia nos muros que ela vai por abaixo logo em seguida, contra a boçalidade e o totalitarismo, a favor do amor, do amor, do amor!

Que nada nos distraia do amor
nem mesmo as vitórias da vida
Que nada nos distraia do amor
Nem mesmo confetes e serpentinas
Que nada nos distraia do amor
Nem mesmo os picos de adrenalina
Que nada nos distraia do amor
Que tudo nos atraia o amor

— Versos de Ótima

E num disco tão rico e tão pleno lá está Recife, Pernambuco, os cais, as pontes, o frevo, as ladeiras de Olinda, a rua da Aurora recebendo o sol pela manhã. Talvez eu veja isso por saudade de Recife, que me assombra como a Perna Cabeluda a vagar pelas ruas do centro. Talvez por causa do sotaque ou pelo espírito definitivamente brincante de Flaira. E eu já ia dizer que Recife é essa caixinha de surpresas, mas não há qualquer surpresa com uma artista assim surgindo lá. Recife é isso, é essa vibração atômica. tem sido sempre. A surpresa é esse disco chegar aqui e agora, nesses dias que se pretendem sombrios mas que tem a sombra rasgada por essa energia febril.

Viarado na Jiraya é como todos deveríamos estar. É mão dada e pé na porta! Ou nada muda e a gente não pula o muro pra roubar fruta com as amizades. Aliás, bom dizer, é um disco de amizades e participações, de trocas e união, porque é assim que tem que ser. Tudo vibra pro bem, pro melhor. Que nada nos distraia do amor. Que discos assim nos atraiam o amor. Que a gente escute Flaira Ferro virados na Jiraya, prontos pra ir pra rua, ao sabor dessas doze canções e nos sentindo ótimos!

[Pois é, fiquei empolgado! Bom demais, né?]


Coisa mais bonita



Cidade do caos | Parte IV

Hoje chegamos ao capítulo final desse texto inquieto e provocador do caríssimo Octavio Aragão. É o quarto episódio da saga anarcoartística de Carlo Rabbio e você vai querer saber como termina, ou se termina… nesse país em looping. — O quadro se fechava na boca escancarada da mulher que gritava em silêncio, mas cuja leitura labial permitia ao público entender a frase “Meu Deus, as crianças”. E fim. Cidade do Caos terminava sua primeira exibição sob silêncio absoluto, numa sala de projeção do DOPS.

Hoje chegamos ao capítulo final desse texto inquieto e provocador do caríssimo Octavio Aragão. É o quarto episódio da saga anarcoartística de Carlo Rabbio e você vai querer saber como termina, ou se termina… nesse país em looping.

Octavio, que grande prazer de publicar essa história na Kuruma’tá! Uma história que tá merecendo uma versão em quadrinhos! Olha lá, fica a dica!

Noveleta de Octavio Aragão


O quadro se fechava na boca escancarada da mulher que gritava em silêncio, mas cuja leitura labial permitia ao público entender a frase “Meu Deus, as crianças”. E fim. Cidade do Caos terminava sua primeira exibição sob silêncio absoluto, numa sala de projeção do DOPS.
– Vocês sabem que isso é genial, não é? – disse Carlo Rabbio ao público composto por militares, os chefes do SNI e do DOPS do Rio de Janeiro e mais algumas autoridades, entre elas, um ministro. Nenhuma delas particularmente satisfeita. Gautério Pedro estava quieto e pretendia se manter assim até o fim dos tempos.
Depois de um minuto constrangedor, o governador se manifestou.
– Os senhores tem noção que provocaram, no mínimo, três mortes e uma dezena de feridos, fora o pânico nas ruas por doze horas até a polícia conseguir resolver tudo?– Vai me desculpar, excelência – disse Rabbio, como se falasse com uma criança – mas creio que nós apenas demos voz ao que corrói a população.
– Chega, Carlo – disse Gautério, rompendo a promessa auto-imposta.
– Não sei onde estou que não boto esses subversivos no pau de arara – falou o chefe do DOPS num tom monocórdio.
– Não vamos botar ninguém em pau nenhum – disse o ministro da cultura, limpando os óculos com um lenço de cambraia – Vamos lançar o filme.
Ninguém perguntou “o quê?” em uníssono, mas era óbvio que a pergunta ressoava, inclusive nas cabeças dos autores.
– Em primeiro lugar, – continuou o ministro – o senhor Rabbio tem razão. O filme, em termos artísticos, é bom. Diria até muito bom. A questão é de ponto de vista. Onde os senhores vêem um ataque às instituições governamentais, eu enxergo um alerta contra a iminência de uma invasão comunista. Onde os senhores vêem um povo paranóico, eu enxergo uma população consciente do perigo vermelho. Em segundo lugar, com uma ou duas alterações de montagem aqui e ali, teremos em mãos nosso próprio “O Triunfo da Vontade”, o filme que prova e aprova nosso regime, produzido pelas mãos de dois dos maiores artistas contemporâneos. Lembrem-se, graças à produção desse documentário, eliminamos uma terrorista perigosíssima que procurávamos há anos. Querem melhor carta de apresentação que essa?
Rabbio e Gautério estavam apopléticos, embasbacados, congelados em seus assentos enquanto o ministro continuava.
– Vamos inscrever Cidade do Caos em todos os festivais internacionais. Cannes. Veneza e até Berlim. Não será irônico se ganharmos o Oscar com esse filme? É claro que se nossos gênios das artes plásticas e do cinema se recusarem a reeditar a película em pequenas partes, seremos obrigados a tomar atitudes lamentáveis e suas famílias não saberão de seus paradeiros por, digamos, uns cinquenta anos.
– Por favor, senhores, – disse o chefe do DOPS – recusem.
Eles não recusaram. O filme foi lançado e Cidade do Caos (com o sugestivo subtítulo de “um dia à sombra do perigo vermelho”), apesar do investimento do governo militar, não ganhou prêmio algum. A União Soviética e Cuba boicotaram a exibição do longa, acusando-o de “propaganda descarada de um regime fascista”. Rabbio pensou em reclamar, citando Eiseinstein como o maior panfletário da história do cinema e nem por isso menos genial, mas Gautério o convenceu a ficar calado.
Em meados da década de 80, Gautério morreu de câncer. O regime militar andava mal das pernas e Rabbio havia desaparecido há dez anos, alguns diziam que estava envolvido num projeto de grande porte, mas nada aparecia. Outros afirmavam que estudava telecomunicações ou lecionava em cursinhos no interior.
Um dia, a profecia de Rabbio se concretizou e todas as pessoas, independente de classe social, idade ou posse possuíram aparelhos com câmeras. E foi então que, no dia primeiro de abril de um ano num futuro impensável para os artistas que viveram a ditadura, todos os grandes rios das capitais brasileiras amanheceram com coisas estranhas boiando, montes de carne e metal, engrenagens e ossos, galhos de árvores e estruturas de alumínio. cada uma delas com câmeras acopladas, todas em rede e transmitindo para algo que se chamaria Internet imagens de pessoas assombradas, maravilhadas, aterrorizadas, enojadas, refletindo seus medos, seus sonhos e fantasias em pequenas telas. E então, quando as manifestações tomaram conta do Brasil, clamando por igualdade social e justiça, finalmente o velho Rabbio, com poucos cabelos e a barba completamente branca, deu o ar de sua graça, chefiando um grupo numeroso de artistas gráficos, comunicadores e cineastas de todos os cantos do país, cada um gritando em milhares de celulares, computadores e aparelhos de TV:
– Esses são vocês. Esses somos nós.
E, mais uma vez, veio o caos.


Zerinho

Mas com esse trabalho miúdo, de formiguinha, como se diz, a Kuruma’tá vai cegando aqui e ali. E a gente sabe disso quando, do nada, chega-nos uma mensagem de alguém, dizendo assim: tenho uns textos para publicar. O que acham de dar uma olhada?! Ah, a gente acha ótimo dar uma olhada, ler e se empolgar. E foi assim que nos chegaram os textos lindos do Diego Franco Gonçales. Out of the blue, dizem os americanos. Diego é lá de Caraguatatuba, no litoral de São Paulo. É professor de comunicação, revisor de texto e instrutor de krav-maga. E escreve… escreve bem que só. Seus textos me lembram um amigo querido lá do recife, que escrevia com essa liberdade, esse frescor de palavras. Diego é muito inventivo e muito bem-vindo à Kuruma’tá! A gente publica esse conto, Zerinho, com muita alegria.

A Revista Kuruma’tá ainda é pequena, e snem sabe ainda se quer ser grande, com todas as condições estranhas e obrigatórias de ser grande. A gente gosta de se enxergar como uma aventura e não como uma produção, um projeto ou uma dessa palavras que são usadas pára dizer que algo é um empreendimento sério.

Mas com esse trabalho miúdo, de formiguinha, como se diz, a Kuruma’tá vai cegando aqui e ali. E a gente sabe disso quando, do nada, chega-nos uma mensagem de alguém, dizendo assim: tenho uns textos para publicar. O que acham de dar uma olhada?! Ah, a gente acha ótimo dar uma olhada, ler e se empolgar. E foi assim que nos chegaram os textos lindos do Diego Franco Gonçales. Out of the blue, dizem os americanos.

Diego é lá de Caraguatatuba, no litoral de São Paulo. É professor de comunicação, revisor de texto e instrutor de krav-maga. E escreve… escreve bem que só. Seus textos me lembram um amigo querido lá do recife, que escrevia com essa liberdade, esse frescor de palavras. Diego é muito inventivo e muito bem-vindo à Kuruma’tá! A gente publica esse conto, Zerinho, com muita alegria.

Toinho Castro (Editor)

Texto de Diego Franco Gonçales


foto: PxHere

Foi aos 11 anos que Thi descobriu ser o laser a sua solução.

Diguin apareceu no recreio com aquele objeto ilógico: do tamanho e espessura de um toco de lápis, feito de um plástico vagabundo, com um botãozinho que a cada pressão fazia um crec duvidoso, mas que soltava um feixe de luz verde, concentrada, irreal. O habitat de Diguin – uma roda à sua volta – brotou nem mal ele anunciara a novidade. Seus pais eram os donos da única loja de quinquilharias importadas de toda aquela região, e nos recreios, magnânimo que só, ele concedia a quem pedisse um breve contato com suas maravilhas. Essas ocasiões davam em Thi vontade de colocar tachinhas na cadeira do colega, mas ele não conseguia deixar de fazer parte da plateia.

Que tempo crédulo. Um menino particularmente suscetível entrou em pânico quando o laser – acionado pela menina que, cochichava-se, tinha beijado Diguin – projetou-se do teto do pátio para seu peito. Os demais caçoaram dele enquanto disfarçavam um passo para trás. Ninguém ficou lá muito convencido com o argumento de que não havia perigo: todos viam na TV do que um laser era capaz.

— De verdade, não serve pra muita coisa. — o dono do laser insistiu. — O que de mais legal eu fiz até agora foi desligar a luz de um poste da minha rua.

Desligar, luz, poste: não teve jeito, Thi precisaria conversar com Diguin.

***

Uns dias antes, Thi aprendera que planejar é uma má opção.

A ideia era quebrar a pedradas a lâmpada de um poste que ficava bem na metade do Largão, ladeira próxima a sua casa à qual confluía toda tardinha uma turma de meninos e meninas, ele incluso. Entre conversas e disputas, ali descobriam modos de dar vazão à repentina atividade de suas gônadas, e desde uns tempos corridas de carrinho de rolimã eram a preferência. Thi munir-se de um punhado de pedras para subir o Largão não deixava de ser uma participação nessa busca coletiva — mas fazê-lo sozinho era o seu modo particular. Ninguém saberia.

Ele nunca tinha reparado como um poste podia ser alto, e nem levara em conta a carapaça vítrea que protegia aquelas antigas lâmpadas de vapor de sódio. Até ali, parecia suficiente ter programado duas providências: escolher um ângulo que evitasse acidentes com as janelas das casas e assobiar despreocupado se algum carro ou pedestre porventura passasse. E agora?

Thi tremia um pouco. Respirar era difícil e gostoso ao mesmo tempo. Demorou muito mais do que ele planejara, mas, à custa de quase todo seu arsenal, ele enfim quebrou a proteção da lâmpada. Thi agora inspirou tanto ar de uma só vez que precisou sentar-se no meio-fio. Ficou por ali, desprevenido, olhando os cacos de vidro e já se enxergando sobre o carrinho de rolimã num Largão vitoriosamente escuro, a turma em algazarra e um par de olhos, em especial, pregado nele; e foi por ali que a Portuguesa, moradora da ladeira especialista em doces e disciplina, o pegou pela orelha e o plano descambou. Todos saberiam.

— Tão quietinho… Vandalismo! De onde veio isso? Meu menino tá mudando tanto… — no fim daquele dia a mãe de Thi conversava com o teto, deitada na cama ao lado do pai que só queria dormir.

***

Escaldado, Thi esforçava-se em não pensar sobre como faria a abordagem.

Mas Diguin sentar-se à primeira fila o atrapalhava. Thi era obrigado a olhar para as costas do colega enquanto copiava da lousa a lição de casa de Ciências. “Explique, com suas palavras, a diferença entre geocentrismo e heliocentrismo” misturava-se a “Então, Rodrigo. Não. Diguin. Então, Diguin.”; “Faça um texto sobre os experimentos de Galileu. (20 linhas)” a “Me empresta o laser? Não. Eu posso ver o laser?”; “Abóboda celeste” a “Você se acha. Me dá essa merda.” A caneta fazia sulcos fundíssimos no caderno.

O sinal da saída convenceu Thi de que o melhor mesmo era deixar o laser de lado. Bobagem enorme, afinal, aquela em que ele vinha pensando. Usar a escuridão para se exibir? E para quem nem parece saber direito que ele existe? Pior ainda: tramar tudo isso e atrair sobre si sabe-se lá que maus espíritos e azares? Thi guardou seus materiais na mochila se sentindo aliviado, sensato e um pouco cinza, e o zíper fechando soou como um bom fim de sua infância.

Ele ainda tinha essa decisão na cabeça quando, já na calçada da escola, passou por um grupo formado por Diguin e três amigos. Thi assustou-se ao ver escapulir de dentro dele a pergunta “Como apaga poste?” numa voz que foi pouco menos que um grito. O grupo todo ficou sem saber muito bem como reagir à aparição estrondosa de Thi, e o pipoqueiro se pôs em prontidão para apartar os moleques caso aquilo evoluísse para uma briga. Thi apressou-se em lembrar da conversa do recreio — o laser não servia para apagar poste? O desconcerto virou curiosidade, e Diguin respondeu tirando o laser do bolso e o apontando na direção do poste. Um ponto verde, minúsculo e vivo, tremelicou numa caixinha preta presa perto da lâmpada. Era simples: quando escurecesse, tinha que mirar bem ali e apertar por um tempinho o botão do laser.

— Deixa eu ver. — Thi pegou o laser. Levíssimo. A esfera na ponta dele era feita de futuro. — Te trago segunda? Eu preciso dele.

Thi já ia longe, segurando-se para não correr ou chorar no caminho de casa, quando Diguin — que havia assentido com o empréstimo — discutia com os amigos se era Thiago ou Thiérri o nome daquele bicho caladão e estranhamente persuasivo.

Quando a lâmpada apagou, os gritos da turma foram um misto de vaia e comemoração.

Ninguém percebera o responsável, mas a gritaria trouxe a Portuguesa à janela, e ela ali coçando a cara foi um lembrete a Thi de que tudo estar como o planejado era um sinal de perigo. Muito cuidado com os próximos passos: não se podia pensar neles.

Thi arrastou seu carrinho até o alto do Largão sem acompanhar a tagarelagem dos demais competidores — ocupava-se em esvaziar a cabeça. Dali ele via a sua cria: a faixa sem iluminação no meio do percurso da corrida. As regras daquela semana determinavam ser lá o local onde os competidores precisavam dar um zerinho: um cavalo-de-pau com o carrinho de rolimã, criando o máximo possível de faíscas com o atrito entre asfalto e o metal das rodinhas. Chegar mais rápido no fim da corrida era menos importante do que dar um bom zerinho, e as meninas e meninos do resto da turma, responsáveis pela aferição dessa qualidade, ficavam também perto do poste agora desligado. Vendo-os lá de cima, Thi saía-se mais ou menos bem em não pensar, não planejar. Conseguia evitar a imagem — meticulosamente construída e lustrada até o incidente das pedradas — de si mesmo ressaltando suas faíscas com a escuridão, mas não era capaz de impedir o surgimento de uma pergunta — ela vai olhar pra mim? — e de um desejo — ela vai olhar pra mim.

Um, dois, três, já. A gravidade e a metalurgia fizeram seu papel. Tamanho era o declive do Largão e a eficiência dos rolamentos que os carrinhos atingiram máxima velocidade pouco depois de dada a largada. E então ficou fácil não pensar.


Escorpião Sob o Signo da Seca

Neste dia 27 de outubro o poeta Nonato Gurgel aponta sua pena para o Nordeste, para a Seca, para os sonhos possíveis e os sonhos desfeitos. A literatura, a política, meios de transformar o mundo. Dois aniversariantes no dia de hoje. Duas celas. Duas obras. O Brasil. Obrigado, Nonato. Que poema lindo.

Neste dia 27 de outubro o poeta Nonato Gurgel aponta sua pena para o Nordeste, para a Seca, para os sonhos possíveis e os sonhos desfeitos. A literatura, a política, meios de transformar o mundo. Dois aniversariantes no dia de hoje. Duas celas. Duas obras. O Brasil. Obrigado, Nonato. Que poema lindo.

Poema de Nonato Gurgel


Um escreveu Vidas Secas Caetés
O outro nasceu em Caetés
Irrigou vidas secas
À margem do Velho Chico

O Velho Graça fez em 1ª pessoa
Luiz da Silva em Angústia
O outro é o próprio Luiz
Angústia da Silva em pessoa

O escritor ex-prefeito é lido como
Ficção e confissão segundo Cândido
E diz no Auto retrato aos 56
Que gosta de beber aguardente

O narrador ex-presidente é fundador
De um partido político com Cândido
E diz na cela aos 74
Que faz o melhor café

Ambos viveram e um escreveu
Memórias do Cárcere onde se lê
A ‘desgraça do capitalismo’ e ‘Não há
nada mais precário que a justiça’


Praia de Maracajaú, Rio Grande do Norte – Carnaval de 1998

Hoje a minha mãe, Lenira Castro, faz aniversário. Enfim ela retornou à sua Natal, no Rio Grande do Norte, depois de um longo caminho por outras cidades, principalmente o Recife. Ali, na rua Pampulha, vivemos muitos anos, mais do que ela gostaria ou esperaria. Seu sonho de voltar à sua terra, à rua, sua Avenida Um, origens e família mais próxima, se realizou. Em sua homenagem, por assim dizer, publico esse seu texto de 1998. [Toinho Castro – Editor e filho de dona Lenira]

Hoje a minha mãe, Lenira Castro, faz aniversário. Enfim ela retornou à sua Natal, no Rio Grande do Norte, depois de um longo caminho por outras cidades, principalmente o Recife. Ali, na rua Pampulha, vivemos muitos anos, mais do que ela gostaria ou esperaria. Seu sonho de voltar à sua terra, à rua, sua Avenida Um, origens e família mais próxima, se realizou. Em sua homenagem, por assim dizer, publico esse seu texto de 1998, em lembranças às noites estreladas de sua infância. Esse texto é também uma delicada homenagem à minha tia Bita, irmã da minha mãe, citada de passagem no texto. Uma pessoa que assim, nas entrelinhas, junto com seu marido, meu tio Wellington, proporciona à irmã tantas coisas maravilhosas que é difícil enumerar aqui.

Seu sonho sempre foi também publicar livros, escrever poemas, crônicas… aqui cumpro um pouco desse sonho.

Toinho Castro (Editor e filho de dona Lenira)

Texto de Lenira Castro


Minha muito querida irmã comprou uma bela casa, numa praia linda, como todas as outras da minha terra, e neste carnaval fomos pra lá. Mar azul, infinitamente azul e belo durante o dia. À noite o acho dantesco e tenebroso, é uma escuridão sem fim.

A praia deserta e sem luz me fez lembrar da minha rua, a rua da minha infância, onde me encantava com as noites escuras, porque o céu era um manto negro cheio de brilhante que me faziam sonhar.

De repente senti uma vontade imensa de olha pra cima, como se algo tivesse me dito: Vê se encontras o teu céu perdido… Meu Deus, que surpresas me reservastes? Lá estava o céu da minha infância, igual como eu o deixei. Cheguei a gritar de emoção, chamei todos para ver comigo. Eu queria testemunhas do meu reencontro com as estrelas que eu procurava há tanto tempo. Mais de meio século que não as via, brilhantes, reluzentes sobre o mar de Maracajaú, na minha terra amada. E lá estavam o barquinho, as casinhas e tudo mais, no lindo céu do mundo.

O meu céu perdido no passado.


Mais de dez anos depois, gravando os depoimentos que vieram a se tornar o filme Avenida Um, ela contou novamente essa história, dessa vez para a câmera. Você pode também assistir ao filme completo no YouTube.

Trecho final do filme Avenida Um

Maracatron | Parte 4

Então ele me explicou que percebeu variações inexplicáveis em certos gráficos durante os bombardeios regulares no núcleo do Maracatron. Mapeando o complexo em busca de distorções de realidade, encontrou alguns pontos de reverberação de onde emanavam sons que provinham da superfície, do estádio, através de caminhos tortuosos pelos dutos e paredes, chegando apenas a esses pontos milimétricos da estrutura ao nosso redor. [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro


Montagem a partir de imagens de PxHere

Quando foi a última vez que assistimos um bom jogo? Quando foi a última vez que subimos à superfície e andamos pelas galerias do estádio? Na minha gaveta ficam jogadas algumas fotos que registram nossa alegria, minha, do Jamerson e do Jadeir, assistindo a uma partida de futebol. Hoje caminhamos pelos corredores escuros onde piscam luzes intermitentes, vermelhas, amarelas… caminhamos e mal esbarramos em alguém. Ouvimos ecos da torcida logo acima, que nos ignora. Sentimos um certo arrepio por sabermos, intuitivamente, que a bola raspou a trave, que noventa minutos ainda não definiram um jogo.

Outro dia flagrei Johnson, o filho de John, com a orelha pressionada contra uma parede, tenso, tentando escutar o desenrolar, segundo ele, de um jogo da seleção brasileira, que se propagava em ondas, aparentemente desde a superfície até aquele ponto exato. — Contra quem? — Perguntei. 

— Não sei, mas estamos perdendo. — De repente ele olhou para mim e completou:

— Tem três dias que tô acompanhando esse jogo.

Então ele me explicou que percebeu variações inexplicáveis em certos gráficos durante os bombardeios regulares no núcleo do Maracatron. Mapeando o complexo em busca de distorções de realidade, encontrou alguns pontos de reverberação de onde emanavam sons que provinham da superfície, do estádio, através de caminhos tortuosos pelos dutos e paredes, chegando apenas a esses pontos milimétricos da estrutura ao nosso redor. Nesses pontos, com estetoscópios, ou com o rudimentar método de colar a orelha contra a parede, podia-se escutar o desenrolar da tal partida, entre o Brasil e uma seleção desconhecida. Esse looping dimensional já durava três dias, até onde podíamos saber.

Deixei Johnson monitorando o jogo e saí a procura do Jadeir, aquele cínico. Acabei por encontrá-lo no controle central, debruçado sobre os monitores, atento aos gráficos e números que se multiplicavam nas telas, em busca das coordenadas específicas que irradiavam aquele jogo bizarro.

— Pelo visto não fui o único a encontrar o Johnson…

— E você acha mesmo que eu precisaria encontrar com Johnson para saber que algo está fora do lugar?

— O que será que tem por trás desse jogo?

— O de sempre… o estagiário de sempre bombardeou a partícula errada de sempre com outra partícula errada e agora deve estar tomando café no 5º subsolo. Como sempre. Filho sabe-se lá de quem… Se você quiser destruir o mundo, basta alocar um estagiário no lugar certo, fazendo a coisa errada.

— Como vamos sair dessa? onde a gente acha esse estagiário?

— Quem disse que ele arrumou um estágio aqui? — Respondeu Jadeir, como sempre, ignorando minha pergunta e criando ainda mais dúvidas na minha cabeça. Enigmático, maldito enigmático. Onde ele queria chegar?

— E agora… o que vamos fazer?! — Insisti.

— Temos que descobrir qual é o outro time e utilizar esse dado no reversor fatorial de nêutrons. Talvez assim a gente consiga anular o looping e acabar com esse jogo.

— Mas a gente tá perdendo, Jadeir. Esse jogo não pode acabar agora.

— Volte para a sua cela!

— Jadeir, a gente não vive em celas aqui… mas em alojamentos.

— Chame como quiser… olha, vou dar uma chance pros palhaços. Se esse jogo já dura três dias, a gente pode deixar rolar mais um pouco. Não creio que vá fazer mal maior do que já foi feito à tecitura do que quer que seja.

De repente escutamos a voz de Johnson ecoando pelos corredores e salas:

— Levamos mais um!

Jadeir correu desesperado para pegar o reversor fatorial de nêutrons e executou cálculos complexos que eu jamais esperaria ele que conhecesse. Foi como se a minha mãe começasse a falar aramaico de uma hora pra outra.

— Vamos acabar com esse merda agora! Aposto que é a Argentina!

Jogou o Argentina codificado e anagramatizado no reversor, que emitiu sinais e ruídos típicos de um reversor fatorial de nêutrons. Por fim um apito pareceu soar dentro da minha cabeça. Caí ajoelhado…

— É o apito final… o apito final. — murmurou Jadeir.


Será?

e agora, esse disparar de corpo que não quer ir e não quer voltar. essa adrenalina de dentes. essa coisa fósforo acesso na mente e entre as pernas colorindo o rosto de vermelho. essas perguntas todas, como gigantes cães de algodão, flutuando e ganindo baixinho. ignorando a rua que está num abandono de dar nó no peito e na garganta. ignorando o perigo do grito que não terá ouvidos. [Texto de Laura Limp]

Uma voz nova chegando na Revista Kuruma’tá! Enquanto participávamos do atentamente do Festival Levada recebemos essa mensagem, perguntando se tínhamos espaço para uns textos… e sim, tínhamos. E temos. E assim Laura Limp, atriz, feminista, mãe de três, poeta, letrista, performer, fotógrafa, diretora, tradutora e inquieta. Sim, tudo isso e ainda mais. Quem chega na Kuruma’tá é sempre múltiplo! Detalhe, Laura estava trabalhando com o Levada e foi assim que as pontes se deram!

E aqui está seu primeiro texto carregado de poesia, lírico e onírico e desafiador. Bem-vinda, Laura!

Toinho Castro (Editor)

Texto de Laura Limp


e a feira começando seu monta-monta colorido. e o dia ameaçando chegar mas não chegando. e o vento fazendo as folhas fofoqueiras e amareladas das copas largas das árvores conversarem comigo. e eu lá, meio fingindo que não escutando, mas meio sabendo do que falavam. e essa vontade de sair correndo até que os pés desistam do solo.

e todos os detalhes da minha antiga rua (que é caminho pra sua casa) subitamente tão diferentes. e tudo de estranho nesse trajeto que faço agora, à contra gosto, de volta pra minha casa, ferindo meus  olhos. como a santa na portaria do prédio que eu sabia de cor, porque queria habitar como planta as varandas dele. como o formato de rosto na parede descascada do outro prédio de esquina ou aquela pomba amassada na calçada e ainda viva, sofrendo em silêncio, perto do meio fio partido. e tem também aquele fusca cor de barbante estacionado que nunca saiu de lá e não vai sair porque eu proíbo.

tudo que fazia aquela rua me ser conhecida e ser trajeto (e de um jeito meio bobo ser também afeto) vai virando do avesso, como minhas veias-galhos sufocando os músculos cansados daquela dança estúpida que teimamos em não dançar.

e agora, esse disparar de corpo que não quer ir e não quer voltar. essa adrenalina de dentes. essa coisa fósforo acesso na mente e entre as pernas colorindo o rosto de vermelho. essas perguntas todas, como gigantes cães de algodão, flutuando e ganindo baixinho. ignorando a rua que está num abandono de dar nó no peito e na garganta. ignorando o perigo do grito que não terá ouvidos.

mas depois de tudo pelo avesso e tomando vento e tomando vento e ardendo e retendo poeira e ardendo mais, nada mais assusta. é translúcida a  vontade de sair caminhando assim, num trajeto de flecha torta.  o rosto contorcido e perplexo, antecipando o rio que chega, desgovernado feito tromba d’água, e não poder (ou querer) fazer nada além de deixar que ele siga seu curso como sigo o meu.

sair caminhando, roçando a sola do all star encardido no concreto-tinta-sujeira-cocô-e-pó e sentir a eletricidade dos cabos de alta tensão nos cabelos soltos e o calor do vento atravessando o peito de chuva que vai chegar. enquanto isso, observar os pássaros, que talvez sobrevoem a minha imaginação sonhando, em pleno vôo, com os dias esverdeados de mar.

saí de entre travesseiros e olhares-esfinge com vontade de ficar mais e me dissolver entre as estampas feias do teu lençol e a cor morena da tua pele. para que nunca mais sentisse essa coisa que é partir sem saber de nada, nem de si. para que desaparecesse, como quem nunca esteve caminhando por aí, quase entendendo as coisas. para que desfraguimentasse minhas partículas-memórias em esquecimento líquido e selvagem até ser capaz de, novamente, frequentar aquela feira e seus ruídos sem estremecer com a vontade que me arrasta o espírito, contrariado, até a sua porta. só para juntar os seus caquinhos de mal-entendidos idiotas.

tudo isso porque, um dia, alguém te disse que a gente não era possível. meu amor, te canto como Marina: “pátrias, famílias, religiões e preconceitos. quebrou não tem mais jeito não.”

Imagens de Laura Limp

Cidade do caos | Parte III

Agachada e longe da janela, esticou a mão para o capote largo que deixava sempre na cadeira da escrivaninha, pronto para qualquer eventualidade. Na bolsa, uma peruca loura e óculos escuros. Calçou um par de tênis leves, para o caso de precisar sair correndo, e meteu o 38 no bolso do casacão. Achava que assim estaria irreconhecível. O fato de fazer um calor de rachar parecia irrelevante. [Noveleta de Octavio Aragão]

Noveleta de Octavio Aragão


No aparelho na rua Uruguai, Lara, codinome Adriana, esperava. Três meses e nenhuma notícia de Joel, codinome Eduardo, que havia partido para a Bahia e nunca mais voltou. O Partido não sabia do paradeiro de Eduardo (era importante pensar nele assim, como “Eduardo”, como uma ficção), mas recomendou que ficasse quieta, escondida, pois as paredes tinham olhos, ouvidos e até línguas. Dormir era um luxo ao qual não se permitia desde que o grande líder José Arruela foi executado a tiros dentro de um cinema, logo ali, na Praça Saens Peña, assistindo a um desenho animado. Num momento ouvindo a Cinderela, no outro, varado a bala.
Às sete da manhã, Lara (não, Adriana!) mastigava um pão velho, longe da janela, da qual não se aproximava, quando ouviu a gritaria. Seguiu as regras de segurança, pegou o 38, enfiou-se debaixo da escrivaninha de madeira reforçada e aguardou as bombas de fumaça. Mas não fazia sentido. Não poderiam saber que ela estava ali. Resolveu esperar, sem permitir que a paranóia, essa velha companheira, a dominasse. Afinal, a pessoa perfeita para o paraíso que viria depois da Revolução não poderia ser assim, descontrolada. Teria de ser forte para guiar as massas, os infelizes dominados pela ditadura capitalista, incapazes de pensar por si mesmos.
Esperou acocorada, protegida. Acalmou-se pensando no futuro, num amanhã glorioso que não tardaria, ela ao lado de Joel – não, Eduardo – livres, sob o sol da democracia popular, todos iguais, irmanados pelo país e, depois, pelo mundo. Adormeceu, sonhando com o jardim perfeito, um céu límpido e uma sirene horrível.
Deu com a cabeça no fundo da escrivaninha. Sirenes. A esta hora. Só podia ser uma coisa. Os malditos a tinham descoberto, mas não queriam dar chance de fuga ou resistência. Usavam as sirenes para espantar o povo, liberar a área, como se o prédio dela estivesse em chamas. Desgraçados, desgraçados, desgraçados. Mas não seria fácil. Ela não cairia nas mãos desses covardes.
Agachada e longe da janela, esticou a mão para o capote largo que deixava sempre na cadeira da escrivaninha, pronto para qualquer eventualidade. Na bolsa, uma peruca loura e óculos escuros. Calçou um par de tênis leves, para o caso de precisar sair correndo, e meteu o 38 no bolso do casacão. Achava que assim estaria irreconhecível. O fato de fazer um calor de rachar parecia irrelevante.
Sempre agachada, esticou a mão e abriu a porta dos fundos do apartamento. Esgueirou-se, rezando para nenhum vizinho vê-la (pois caso acontecesse, teria de matar, tudo em prol da Revolução). Saiu pela garagem, que dava para a rua Pontes Correa, e caminhou para a Maxwell, de onde poderia, com sorte, pegar um táxi até o Comando Central, no Méier, e informar ao Partido que tinha sido descoberta.
Na esquina da Maxwell, deu de cara com uma viatura policial e recuou, mantendo o revólver na mão, escondido no bolso. Lembrou do quartel do 1º Batalhão da Polícia Militar, na Rua Barão de Mesquita. O Partido achou que seria uma boa ideia manter um aparelho por ali exatamente por ser próximo dos inimigos. “Eles jamais procurariam tão perto”, foi o que disseram, porque, claro, todos os militares eram burros como portas. Agora, ela estava encurralada.
O que Jo… Eduardo faria? Tentaria criar uma bagunça com um rifle de precisão, mas ela não era boa de mira. Sua especialidade eram explosivos e, nesse caso, de nada adiantaria uma bomba.
E então, do nada, um táxi. Do outro lado das pistas duplas da Maxwell, mas, com sorte e uma boa corrida, com certeza chegaria lá, se jogaria dentro do carro e partiria na direção contrária ao fluxo. Rumo à salvação. Não havia escolha, tinha de ser já. Em três passos estava na pista, mais cinco e pegaria o carro, que já estava engatando a primeira. Lara, Adriana ou seja lá quem ela fosse naquele momento acelerou a corrida.
Mas o carro, um velho DKW, já ia longe. Ela xingou e correu, desvairada, uma mulher de casaco, peruca loura e óculos escuros, numa manhã de segunda-feira ensolarada, berrando palavrões atrás de um táxi no meio da rua. Um homem muito sujo, talvez um mendigo, vendo a cena, apiedou-se dela e fez sinal ao carro, que parou. Laradriana agradeceu à boa sorte, mas infelizmente o casaco, com um peso no bolso, desequilibrou a corrida, fazendo com que sua perna direita batesse no pé esquerdo. A mulher resvalou na calçada, e correu por alguns metros buscando manter-se de pé, mas foi impossível. Lara, sim, Lara, estatelou-se no chão e o revólver saiu do bolso, girando pela calçada.
O homem que parou o táxi correu para ajudá-la, mas congelou ao ver a arma. Ela levantou-se como pôde, apanhou o revólver e ainda tentou pegar o táxi, mas dessa vez não houve milagre. O motorista, antevendo problemas com mulheres armadas e mendigos fedorentos, acelerou e desapareceu. O homem imundo esticou o braço, tentou falar alguma coisa em um tom de voz ameno, mas Lara estava surda. Com o cotovelo machucado, ela se ateve à programação: “sem testemunhas”.
Levantou a arma e disparou. Para alguém ruim de mira e com o braço ferido, o tiro foi certeiro. O homem imundo caiu morto com uma bala na testa.
O som do disparo atraiu a atenção de um grupo de pessoas que vinha do rio Maracanã e logo um deles, Lara não sabia qual, mas pela voz aguda deveria ser uma mulher, gritou:
– Aquela loura atirou no homem! Deve ter sido ela quem matou as crianças!
Sem largar a arma, Lara desembestou pela Maxwell, fugindo do grupo. Ficava se perguntando quem seriam as crianças mortas e o que tanta gente estava fazendo na rua, perto do rio. Tinha até um sujeito com uma câmera de filmagem. Não podia ser por causa dela, devia ser alguma coisa no rio e sua intuição a fez se aproximar da margem.
Lá estava resposta. Os malditos fascistas e sua sanha torturadora. Por entre os urubus, estavam corpos mutilados, cortados, desmembrados, e, olhando com cuidado, ela conseguia identificar detalhes. Aquele pano estampado… não era uma camisa com motivos havaianos que ela havia dado ao Joel. Uma representação do Paraíso que viria? E aquele aro de metal preso no que parecia uma mão descarnada seria uma aliança? Seria possível que fosse Joel ali, despedaçado pelos cães militares?
– Solte a arma, moça! – gritou uma voz, talvez de um policial, talvez de um militar, com certeza de um inimigo.
Lara virou atirando. Acertou um, errou três. Foi alvejada quinze vezes e caiu de costas, ao lado do que acreditava ser o corpo de Joel. Morreu feliz, abraçada à carne pútrida.


*Montagem a partir de foto de arquivo pessoal e imagem do Freepik.