“Vamos chamar o vento, camarada!”

A Kuruma’tá nem ia publicar nada nesse sábado em que reaparece o sol no Rio de Janeiro. Mas ontem foi o show de Jards Macalé, no Festival Levada, aqui no Teatro Seisi-Firjan, ali na Graça Aranha, no centro da cidade. A Kuruma’tá compareceu e quem pode ficar calado depois de um show de Macalé?! [Texto de Toinho Castro]

Texto e fotos de Toinho Castro


A Kuruma’tá nem ia publicar nada nesse sábado em que reaparece o sol no Rio de Janeiro. Mas ontem foi o show de Jards Macalé, no Festival Levada, aqui no Teatro Seisi-Firjan, ali na Graça Aranha, no centro da cidade. A Kuruma’tá compareceu e quem pode ficar calado depois de um show de Macalé?!

Era o lançamento do discaço Besta Fera, que compôs o coração de um show preciso, pesado, corajoso. Quanto rock’n’roll na alma desse cidadão brasileiro de 76 anos, que botou pra arrasar com um banda super enxuta… Guilherme Held na guitarra, Pedro Dantas no baixo e Thiago Silva, rebento do grande percussionista Robertinho Silva, na bateria. Não precisa mais que isso,. Pode até ter, mas não precisa. Esses três +Macalé, esse quatro cavaleiros da música contemporânea brasileira, anunciaram que a boa arte das canções resiste bravamente!

Vocês tem noção do que é ter, vivo, ativo e ao vivo, gravando um disco antológico, um artista da dimensão de Jards Macalé? Um disco em que cada música é uma porrada pra gente despertar, mesmo a mais delicada.

Mais que uma crítica desse show incrível, arrasador, isso aqui é um chamamento pra gente escutar esse sujeito intensamente jovem, capaz de nos surpreender e de ser uma voz contra a mesmice, o marasmo, contra o coração estanque, contra a ruína organizada do poder estabelecido. Macalé, com sua banda, no palco, é lição de vida e de arte. Porque ali as duas são a mesma coisa. Tô aqui agora, no dia seguinte, ouvindo Macalé no Spotify, revendo cada disco, cada inserção desse gênio na realidade brasileira. Realidade brutal, dura, tresloucada, que tem em Macalé um cronista monumental.


No mais, uma salva de muitas palmas para o Festival Levada, que botou Besta Ferra no palco, ao vivo! Foi o último show dessa primeira fase do festival, que trouxe artistas incríveis para o Rio de Janeiro. Com foco em gente que tá começando a carreira, lançando os primeiros discos, o Levada tem na sua segunda fase uma programação de quatro shows de artistas diferentes, que acontecerão no espaço Lab Oi Futuro. Confira:

Dia 19/9: Livia Nery
Dia 20/9: Bia Ferreira
Dia 26/9: Ana Frango Elétrico
Dia 27/9: Lucas Estrela

O Levada se mostra em sua 8ª edição um festival essencial no Rio de Janeiro, com  uma programação cheia de vitalidade, escolhida com sensibilidade e afeto pelo curador Jorge LZ. Até ontem botou no palco oito shows, mostrando seu poder de fazer diferente num momento duro para a cultura local e nacional, um momento que exige jogo de cintura, perseverança e muita garra. E o Levada tem tudo isso!

Então anote na agenda os próximos shows do festival e fique ligados nas redes, porque os shows são gratuitos e a inscrição é online! Você não vai querer perder.


Maracatron | Parte 2

Andando por aí com uma cara de quem sabe mais do que deveria e a enigmática frase Quando foi a última vez? estampada na camiseta surrada, Jadeir defende que o Maracatron sempre existiu. Quando cruzamos nossos caminhos nos corredores estreitos do complexo ele ri para mim e diz que sou seu cúmplice, epíteto que rejeito. Percebo que ele tem acesso a áreas restritas a muitos de nós e não raro o vejo trocando palavras com essa gente fechada, calada, das salas inacessíveis, gente que parece ter nas mãos mais coisas do que seria prudente entregar-lhes. [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro


Há muitas teorias sobre a origem do Maracatron circulando pelos corredores do complexo. O tema é meio que um tabu. Desconfia-se até que seja mesmo proibido… Mas nada aqui é claro, tudo é meio nebuloso e não sabemos exatamente o que é permitido ou proibido, ou quem proíbe ou permite o que quer que seja. Por via das dúvidas, abordamos o assunto pelos cantos, pelas beiradas, em conversas de pé de ouvido. Sempre sussurrando e esperando que gente estranha, coisa que tem muito por aqui, não escute. Uma dessas teorias reza que teria sido construído durante os governos militares. Considerando que isso não poderia ter sido feito nos anos finais do regime ou nos seus primeiros momentos, ficamos com uma janela de cerca de uma década para se conceber e construir tal complexa estrutura. É pouco tempo para colocar em pleno funcionamento um projeto desse porte. Isso nos leva a segunda parte da teoria, que inclui os americanos na história e explica que o Maracatron chegou ao Brasil de navio, vindo dos Estados Unidos, desmontado e encaixotado.  Há quem acredite que a verdadeira natureza da Operação Brother Sam seria, no fim das contas, fazer chegar ao país essa carga. Uma monumental e imperceptível operação de transporte e montagem teria sido orquestrada pelos dois governos envolvidos. Naturalmente surge logo a ideia de que os militares tomaram o controle justamente para construir o Maracatron! Vai saber…!

O terreno do Maracanã seria um local propício, cruzamento de invisíveis linhas energéticas longe do qual não se poderia conduzir as experiências planejadas. Dizem que o estádio Mário Filho foi construído justamente para servir à futura instalação do acelerador como uma espécie de antena. Numa determinada época do ano, ou a cada dez anos, dependendo da versão autorizada, ele estaria alinhado com certa constelação, enviando e recebendo sinais, mensagens cifradas e xadrezísticas que alimentariam os bancos de memória do Maracatron. Mas isso, certamente, é puro delírio.

A teoria mais aceita é a teoria do Jadeir, que ele faz questão de defender quando bebe nas nossas noitadas, e o Jadeir não bebe pouco. Sua teoria diz que o Maracatron foi descoberto nas escavações que precederam a construção do estádio. Várias pessoas na hierarquia da construção civil presenciaram sua fiação e carapaças metálicas vindo à tona. O Jadeir conta que nunca mais se soube deles depois disso. E aí entra em campo, mais uma vez, o governo americano, que substituiu, um a um, todos os trabalhadores envolvidos nas fundações do Maracanã por pessoas que ele, o Jadeir, não tem coragem de afirmar exatamente quem, ou o que, seriam.

Um clássico dessas noites é história do pedreiro que trabalhou nos primórdios da obra e que foi encontrado vagando pelas ruas, alucinado, balbuciando sobre as poderosas energias liberadas sob o Maracanã. logo imaginamos o Maracatron rugindo sob o concreto, sob o gramado… Mas há sempre quem passe pano e alegue que ele, na verdade, queria dizer “sobre o Maracanã”, referindo-se a alegria das torcidas. Enfim… o fato é que não sabemos, apenas arriscamos, ousamos perguntar aqui e ali. As histórias são muitas, entrecortadas, interrompidas e é difícil dizer onde reside a verdade, onde começa a mentira. Arquivos são apagados, pessoas que falam demais somem. Reaparecem tempos depois, em outras cidades, outros países, com nomes falsos. Semana passada mesmo sumiu um que andava falando mais que o necessário, segundo as regras da conspiração que parece pairar sobre nós. Reapareceu dias depois, outro nome, outras memórias, outra função. A maioria das pessoas que já o conhecia não vai encontrá-lo porque ele está em outra seção, outro nível. Mas eu o vi. Falou casualmente comigo como se não imaginasse quem eu era. E algo me dizia que ele estava sendo sincero. Parece confuso? Sim, parece. Mas para o Jadeir tudo parece muito claro.

Como sempre a CIA está no centro desses comentários obscuros que trocamos nas vagas horas vagas. Durantes anos seus cientistas teriam queimado num tipo de engenharia reversa qualquer, tentando determinar a origem do Maracatron e compreender seu funcionamento. Tecnologia alienígena, aborígene ou de um povo antigo e sábio que habitou essas paragens antes da deriva continental. Segundo Jadeir os índios já faziam referências ao Maracatron nos seus desenhos ritualísticos (Oi!?) e que há relatos, sempre os relatos, de antigos viajantes que afirmam ter visto “gente estranha, com roupas estranhas, apressadas, por aquelas bandas”. Por um segundo, na bruma do álcool, quase acreditamos e o Jadeir parece então um maldito xamã invocando sabe-se lá que hiper-realidades… mas o transe só dura um segundo e logo somos outra vez os idiotas que não fazem ideia do dia em que o Maracatron foi inaugurado. Que isso fique claro.

Andando por aí com uma cara de quem sabe mais do que deveria e a enigmática frase Quando foi a última vez? estampada na camiseta surrada, Jadeir defende que o Maracatron sempre existiu. Quando cruzamos nossos caminhos nos corredores estreitos do complexo ele ri para mim e diz que sou seu cúmplice, epíteto que rejeito. Percebo que ele tem acesso a áreas restritas a muitos de nós e não raro o vejo trocando palavras com essa gente fechada, calada, das salas inacessíveis, gente que parece ter nas mãos mais coisas do que seria prudente entregar-lhes. Tudo, quando se trata do Jadeir, parece, sempre, camaradagem. É como se ele fosse aquele detento que conhece os guardas, tem encontros secretos com o diretor do presídio e controla o mercado negro de cigarros.

Hoje gritou de longe para mim que amanhã é dia de final e o estádio vai tremer. Entrou depois com ferramentas e sua inseparável lanterna num dos muitos tubos metálicos que nos cercam, um desses tubos do qual, segundo ele, só se sai do outro lado. Seja lá o que isso signifique.


Kuruma’tá em transe: entrevista com Edney Silvestre

A Revista Kuruma’tá estreia hoje uma nova seção, a Kuruma’tá em transe, capitaneada Aderaldo Luciano e que traz entrevistas que o poeta vai garimpando nas suas andanças. A entrevista que abre a Kuruma’tá em Transe é com o caríssimo escritor e jornalista Edney Silvestre, que fala sobre seu trabalho, inspirações e os rumos que a literatura vai tomando nos novos tempos. Seu último livro chama-se O último dia da inocência e surge depois de nove anos de pesquisa, com uma história envolvente que se passa inteiramente no dia 13 de março de 1964. Com vocês, Edney Silvestre e sua literatura!

Entrevista a Aderaldo Luciano


Num ano que não me lembro mais, década de 80, nas imediações do Sambódromo, no Rio de Janeiro, durante um carnaval, sentei para comer qualquer coisa em um trailer, barraca, boteco, não interessa muito, e travei conversa, pouca, mas boa, com uma pessoa. Eu estava ancorando na cidade, conhecendo a sintaxe carioca, pernoitando nos recantos da Mem de Sá, vivendo suas boates e trabalhando numa companhia teatral instalada temporariamente no Teatro Nelson Rodrigues, na Avenida Chile.

Terminada a conversa, a pessoa saiu para lá e eu saí para cá. Depois me toquei que era um repórter da Globo: Edney Silvestre. Mais de 35 anos depois, sem mencionar o fato, solicitei sua amizade no Facebook e passei, de vez em quando, a trocar umas poucas palavras com ele, como naquele dia no carnaval. Quando da adaptação do seu livro Se eu fechar os olhos agora para minissérie, na própria Globo, pensei em propor uma breve entrevista para a Kuruma’tá. Não foi por causa do lançamento de seu novo livro, mas esse fato é importante agora, pois seu novo livro nos instiga.

Agradecemos a gentileza e generosidade de Edney por tão solícita recepção a minha proposta. Com ele inauguramos, aqui na revista, um espaço para essas performances, entrevistas. Pensei em chamar o espaço de Kuruma’tá em Transe. Não sou um especialista em entrevistar gente e gente importante. Gosto de conversar, tentei ser informal, mas também pesquisei alguma orientação para isso. Vale lembrar que O último dia da inocência, seu novo livro, pela Record, traça o caminho do êxito. Obrigado, Edney!

Aderaldo Luciano


Arquivo pessoal de Edney Silvestre

 


Os leitores mais sensíveis e curiosos gostam de saber um pouco da vida do autor que estão lendo e com eles desenvolvem certos laços afetivos. Você pode nos falar sobre afetividade, dentro de sua família, depois nas relações sociais e de trabalho e como essa construção afetiva (presença e ausência) desenhou-se em alguns de seus personagens?

O jovem repórter narrador de “O último dia da inocência” foi privado de vida afetiva e amparo, quando sua família foi assassinada num complô que remete à ditadura Vargas. Eu, ao contrário, tive amparo e incentivo sempre. Não sei de onde vêm os personagens, como surgem, como continuam, como se encerram. Não os comando. Acredito que isso aconteça com muitos escritores, me lembro de uma entrevista em que Fernando Sabino falava de sua curiosidade ao escrever, aguardando como os personagens agiriam, a cada capítulo. Lembra do Zuckerman de Philip Roth? Nem sei mais quantos romances do escritor americano ele protagoniza. O que percebo, particularmente naqueles e naquelas que continuam vindo de um romance para o próximo (Silvio, que havia morrido em “A felicidade é fácil”, ressurgindo jovem e saudável em “Welcome to Copacabana”; Paulo, de “Se eu fechar os olhos agora”, continuando sua saga como expatriado em “Vidas provisórias”) , é que têm um sentido ético, uma retidão de caráter e busca de humanidade como lembro serem as de meus pais. Ela foi tecelã numa fábrica de tecidos em Valença, onde começou a trabalhar ainda menor de idade. Ele, dono de armazém, reconstruiu a vida com o apoio dela, quando sua “venda” pegou fogo e ficaram sem um tostão, já tendo dois filhos e com um terceiro a caminho. Sou um dos seis frutos dos bravos, incansáveis, Joaquim e Lourdes. Me inspiro na resiliência deles, quando as circunstâncias parecem mais sombrias.

Há um trabalho seu pouco conhecido talvez, e certa vez perguntei informalmente isso a você, que é a tradução. Que trabalho é esse? O que é traduzir? E mais: o que é traduzir textos técnicos e teóricos (você traduziu Existencialismo e alienação na literatura norte-americana, de Filkenstein, e Fundamentos de Filosofia, de Afanasiev)? Em que essas tarefas importaram no seu trabalho (seja como repórter, escritor e leitor)?

Traduzir, descobri com o tempo, me abriu portas de outras culturas, da vida íntima de personagens na América do Norte, França, Espanha, Rússia, entre outros. Tal como havia acontecido quando li, ainda adolescente, na biblioteca pública de Valença, os livros de Jack London, Charles Dickens, Thomas Mann, André Gide, Victor Hugo, Eça de Queiroz, Camus. Algumas das traduções técnicas que fiz – e você foi lá longe, lembrando de “Fundamentos de filosofia”- igualmente me ajudaram muito a percorrer aspectos de cultura que ajudaram na minha formação. Foram, um tanto, como os cursos superiores e as pós-graduações que não tive oportunidade de fazer. Gosto de traduzir e o faço, às vezes, por exercício de escrita, uma vez que é preciso recriar em português, em nosso ritmo e respiração das frases, as frase e respirações de língua estrangeira. Recentemente traduzi do inglês uma peça contundente do David Hare sobre os últimos dias de Oscar Wilde, intitulada “O beijo de Judas”.

Há toda uma geração, a geração a que pertenço, que acostumou-se a ver seu rosto na televisão, entrevistando personalidades, em coberturas de conflitos decisivos para o séc. XX, fazendo reportagens para o Globo Repórter e outros. Recentemente, ao invés de ver seu rosto, vimos sua obra “Se eu fechar os olhos agora”. Como a abertura desse caminho, a pavimentação da estrada, entre o repórter e o autor adaptado se deu? Você buscou? Você sonhou? Aconteceu? Isso é bom para o mercado do livro?

Acredito que se um escritor brasileiro é abraçado por leitores brasileiros, via televisão ou seja como for, apesar da avalanche publicitária e financeira que favorece os best-sellers estrangeiros, isso poderá ser bom para todos os autores, de todas as gerações. Houve uma época, não tão distante, em que a lista dos mais-vendidos era povoada por nomes nacionais como Jorge Amado, Graciliano Ramos, Lya Luft, José Mauro de Vasconcelos, Érico Veríssimo, Luís Fernando Veríssimo, Nelson Rodrigues e outros tantos. Eram refinados e populares, ao mesmo tempo. Há dez anos um romance brasileiro vem, discretamente, batalhando e vencendo os mamutes internacionais: o delicado “Arroz de Palma”, de Francisco Azevedo. Fiquei muito contente com a adaptação que Ricardo Linhares fez de “Se eu fechar os olhos agora” (lembrando que ele já havia adaptado outros autores brasileiros, como Jorge Amado, na novela “Tieta”). O que eu havia proposto ao Ricardo era um seriado baseado em 12 contos diferente, mas ele era apaixonado por “Se eu fechar os olhos” e eu alegremente topei.

Certa vez eu estava no lançamento de um livro de um amigo, autor estreante, quando você chegou, adquiriu o livro, conversou brevemente com ele, parabenizando-o. Como é seu relacionamento com os autores novos? Há alguma procura por parte deles? Você tem um perfil aberto e acessível nas redes sociais, como funciona isso? É agradável, incomoda ou é apenas um prolongamento da vida real?

De certa forma, eu também sou “um autor novo”: meu primeiro romance, “Se eu fechar os olhos agora”, saiu há apenas 10 anos. Enfrentei o descrédito de parte da crítica, como acontece com tantos de nós. O fato de ser visto como “um global”, sem identidade própria, começou a ser vencido com uma crítica altamente elogiosa na Folha de São Paulo, assinada pelo respeitadíssimo Manoel da Costa Pinto, depois com o Premio São Paulo de Literatura, em seguida com o Jabuti de Melhor Romance, e mais as edições internacionais na Inglaterra, França, Alemanha, Sérvia, Portugal, Holanda, Itália. Meus perfis em redes sociais são abertos. Ouço e leio opiniões muitas vezes opostas às minhas. Acredito que se possa aprender ouvindo e discutindo. Só bloqueio ou elimino quando os comentários são ofensivos. Na época em que eu comandava o programa Globonews Literatura, eu sempre equilibrava a apresentação de consagrados, como Milton Hatoum, Adélia Prado, Luiz Ruffato, Saramago, Ohran Pamuk, com autores em início de carreira. Há bom escritores iniciantes em várias partes do Brasil. Alguns são excepcionais. Quais, o tempo e suas obras provarão.

A todo momento se fala em crises setoriais no Brasil. E mais ainda na crise do mercado editorial, o fim do livro impresso, editoras fechando, livrarias idem. Pelos interiores do Brasil profundo, contradizendo isso, acontecem cada vez mais feiras e festas literárias, nos quais os autores locais se confraternizam e promovem suas obras. Há alguma contradição entre o discurso do mercado e a prática literária? O livro digital e a autopublicação aparecem como saída para muitos autores. Você tem algum pensamento formado sobre isso?

Há pouco publiquei um conto, “A festa de Vargas”, em livro digital, numa coletânea de autores brasileiros que saiu pela Amazon. Três peças teatrais minhas (“Casa comigo”, “O brilho por trás das nuvens” e “Sarah em São Paulo”), vão sair breve em audiolivro pela Storytel. Há muitos caminhos, hoje, para o autor que quer partilhar suas criações. As feiras literárias, surgidas na esteira do sucesso estrondoso da Flip, estão aí mostrando que não há mais um único centro de difusão cultural, há muitos, por toda parte do Brasil. Pesquisas recentíssimas mostraram um movimento de recuperação do mercado de livros (saiu matéria na Publishnews). O modelo das megastores, misturando venda de livros com CDs e eletrônicos, é que talvez tenha naufragado. Mas gente do mercado fala, insistentemente, em má gestão dessas redes. Na Avenida Paulista, uma livraria dedicada exclusivamente a livros, a Martins Fontes, vive com seus três andares lotados – assim como seu auditório, onde diariamente há eventos culturais. Vi isso com meus próprios olhos, nos dias em que trabalhei ali para o lançamento de “O último dia da inocência”. Há esperança.

A Kuruma’tá agradece sua gentileza em nos falar.

Agradeço eu.



A ventania na janela são flores pra ela

Gente, mais um texto lindo do Eduardo Frota chegando na Kuruma’tá. Repare só esse começo: Era madrugada quando o vento, inquieto e insistente, deu início ao seu intento. Os sopros tentavam balançar as bordas das cortinas para descortinar o amor, a entrega, a conjunção carnal – o mundo inteiro que cabia naquela microesfera que era o quarto do casal.

Para Bia Cardenas

Texto de Eduardo Frota


Era madrugada quando o vento, inquieto e insistente, deu início ao seu intento. Os sopros tentavam balançar as bordas das cortinas para descortinar o amor, a entrega, a conjunção carnal – o mundo inteiro que cabia naquela microesfera que era o quarto do casal.

Ele queria entrar.

Forçava os vidros da janela sem perceber que ela estava completamente fechada. Ao malogro, subiu corrediço pela fachada e procurou por uma fresta na porta. As pancadas se tornaram incessantes, barulhentas, desafiando o silêncio das horas. 

Lá dentro, o casal aos sussurros. 

Lá fora, o vento aos murros.

Em sublime união, os amantes permaneciam despercebidos. Havia, entretanto, um buraco na fechadura. E para tanto, o vento logo se tornou uma fugidia linha, intermitente e aguda, regendo uma espécie de sinfonia quase muda. Quase… Acalmado, já dentro do quarto, rodopiou pelo ar e envolveu o casal à beira do êxtase.

Arrepios.

Dois longos suspiros.

O vento avoado achando que foi ele quando, na verdade, havia sido o destino.


O drama sertanejo de Bacurau

Armas, drones, armas, mapas, armas, motos, armas, telas, armas, corpos que caem. O que diz esse excesso de corpos armados e de corpos derrubados? Neste faroeste de takes à lá Sergio Leone e Glauber Rocha, todos podem perder ou cair. Podem também desaparecer, aprender a ficar invisível, mas vence a porção-Tarantino dos dois diretores. [Texto de Nonato Gurgel]

O caríssimo, precioso mesmo, colaborador da Revista Kuruma’tá, o poeta potiguar Nonato Gurgel, escreveu belamente sobre o filme Bacurau, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. O texto foi publicado originalmente da página do poeta, mas a Kuruma’tá faz questão de também publicar um conteúdo que só ilumina suas páginas. Vale demais a leitura.

Texto de Nonato Gurgel


Sônia Braga em Bacurau – Foto de Victor Jucá

I – Urbi rural

O premiado filme do Kleber Mendonça (Aquarius) e Juliano Dornelles começa leve, pegada rural, movimentos suaves de pontinhos brancos, na tela escura, que lembram as estrelas de Star Wars. Na abertura, Gal Costa canta ‘Objeto não identificado’, enquanto voamos de olho nos céus iluminados de uma cidadezinha do interior de Pernambuco.

Sertões potiguares e paraibanos servem de cenários para este western nordestino. Onde rola sangue e a vida parece por um triz, Sonia Braga aparece pelo avesso, subverte expectativas, assim como a narrativa, cujos fios demoram na tessitura ou, às vezes, parecem dizer outra coisa, restando ao senhor espectador refazer suas escolhas. Ao contrário do que anuncia a mídia, não acho um filme fácil.

II – Nova Canudos?

A médica Domingas, vivida por Sonia, em nada lembra a doce Clara de Aquarius, mas parece ser solidária, como são solidários os demais habitantes de Bacurau – uma mini cidade com nome de pássaro, ‘uma nova Canudos ou uma Canudos genérica, pronta para explodir’. Bacurau é um lugar que chega até a desaparecer do mapa, mas que sobrevive à margem dos poderes.

Quem demora a desaparecer, na mente do espectador, são os corpos desse drama sertanejo repleto de signos urbanos e referências culturais, como o cangaço e os beatos. Os rostos da pernambucana Lia de Itamaracá e do vilão vivido pelo alemão Udo Kier (Melancolia), dentre outros, formatam a diversidade étnica e identitária dessa margem, cuja trilha sonora parece incluir até o barulho das armas. Margem que subverte, parodia o Brasil do desmonte, nossas violências sociais e subjetivas hoje.

III – Você quer viver ou morrer?

Armas, drones, armas, mapas, armas, motos, armas, telas, armas, corpos que caem. O que diz esse excesso de corpos armados e de corpos derrubados? Neste faroeste de takes à lá Sergio Leone e Glauber Rocha, todos podem perder ou cair. Podem também desaparecer, aprender a ficar invisível, mas vence a porção-Tarantino dos dois diretores. Eles disputaram com Almodóvar (Dor e Glória), dentre outros cineastas, e venceram o Prêmio do Júri em Cannes (antes deles, somente o Anselmo Duarte ganhou, em 1962, com o filme O pagador de promessas).

Neste drama que atualiza o imaginário rural e mistura terror, guerra e ficção científica, é mister ser múltiplo, ambíguo, viver a profusão, o claro-escuro. Na treva, rege o grotesco. O grotesco que é, em Bacurau, o corpo em movimento. Corpo que ataca, atira ou serve de alvo, sem contemplação. O grotesco nas manchas do sangue nas roupas ao vento. No varal, no corpo, na terra, o sangue faz-se presente em tudo, e parece fazer a mesma pergunta o tempo inteiro, independente de gênero ou idade: você quer viver ou morrer?


Ópera de retalhos sobre a verve jacksoniana (100 anos de Jackson do Pandeiro)

Nesse 31 de agosto de 2019 celebramos o centenário de Jackson do Pandeiro, o grande Jackson do Pandeiro, nascido em Alagoa Grande, na região do Brejo da Paraíba. De lá partiu pra embolar o Brasil e transformar nosso jeito de dançar, de tocar, de ouvir e de cantar. O poeta Aderaldo Luciano, que andava sumido da Kuruma’tá, retorna pra falar de Jackson, pra falar com Jackson, no ritmo do gênio e dos caminhos que ligam a Paraíba ao Brasil. [Ópera de Aderaldo Luciano]

Nesse 31 de agosto de 2019 celebramos o centenário de Jackson do Pandeiro, o grande Jackson do Pandeiro, nascido em Alagoa Grande, na região do Brejo da Paraíba. De lá partiu pra embolar o Brasil e transformar nosso jeito de dançar, de tocar, de ouvir e de cantar.

O poeta Aderaldo Luciano, que andava sumido da Kuruma’tá, retorna pra falar de Jackson, pra falar com Jackson, no ritmo do gênio e dos caminhos que ligam a Paraíba ao Brasil.

Texto de Aderaldo Luciano


Discorre o primeiro Cantador:

— Lembro da primeira vez
Que ouvi Jackson do Pandeiro.
Foi de manhã bem cedinho
Na rádio de Juazeiro
O locutor disse assim:
“Já está perto do fim
De nossa trilha de ouro.
Escutem com atenção
Mais um clássico do sertão!”
Tocou: Casaca de Couro.

Foz em off

— Dois momentos na vida musical de Jackson aparentemente se contradizem, mas não funciona assim a escalada de um artista forte e radical como o paraibano. Todos conhecem o êxito de Chiclete Com Banana no qual o cantor assume sua radicalidade negando-se a aceitar o alastramento da música americana entre nós. O Tio Sam não respeitava o tamborim, confundindo samba com rumba, esquecendo-se das originalidades do pandeiro e da zabumba. Mas o tempo e o conhecimento foram abrindo aos poucos os ouvidos e as possibilidades jacksonianas. Ora, a influência do cinema americano substanciava-se no próprio nome, primeiro Jack, depois Jackson. Até que no disco Um Nordestino Alegre entra em cena o samba nordestino Amigo do Norte contando a história da amizade entre esses dois elementos. Todo o arranjo é plantado no diálogo entre a sanfona e o clarinete e um breve bate-papo no qual um americano de sotaque paraibano chama o Jackson de Zacks. É sensacional quando Jackson diz: “Como é, esse minino, gostasse?”

Em 1981, antes de entrar no palco para mais um show em São Paulo, o Rei do Ritmo afirma estrategicamente: “Cheguei a conclusão de que tudo é coco!”. Uma afirmação condizente com toda uma trajetória que teria como balanço primeiro e fundador o coco. A obra de Jackson se confunde com dois ritmos: o mesmo coco e o samba urbano carioca sincrético com o ritmo antecessor. Dentro da panela de pressão jacksoniana ferviam os dois ritmos, um entrando dentro do outro, num matrimônio cujas premissas estavam escritas no fundo da terra.

— Durante o mês de janeiro de 2016 iniciei a série de alusões a Jackson do Pandeiro, o paraibano de Alagoa Grande, autarquia da música brasileira. Certo dia desse mesmo janeiro, Lau Siqueira, então secretário de cultura da Paraíba do Norte, publicou a foto na qual aparece a estátua do Rei do Ritmo vandalizada em plena capital, João Pessoa. É uma prática, infelizmente, comum. A agressão à cidadania se dá de várias formas, inclusive atacando sua memória cultural, daquela maneira. A fotografia, pela assinatura, é de nosso amigo Aurílio Santos. Canta o segundo Cantador:

— Meus olhos pingaram ácido,
Depois de arregalados
Ao ver a estátua de Jackson
Com olhos violentados.
Alguém na febre dos cães,
Não respeitando as manhãs
Dos que zelam a tradição
Jogou tinta em vã labuta
Porque não tinha cicuta
Pra dar ao Rei do Rojão.

Na rota dos infiéis.
O sol teve olhos vazados
O dia perdeu seus pés.
Ritos inegociáveis
Nesses dias tormentáveis
Ferem homens coerentes.
Mas há vontades secretas
Nas mãos de falsos poetas
Com suas pautas doentes.

O certo virou o errado,
O cão mia e o gato late,
A lama é a tinta que está
Na caixa do engraxate.
Quem vandalizou a imagem?
Quem manchou a homenagem
Feita a Jackson, o imortal?
Talvez que nunca apareça
Até que a gente se esqueça
E ache tudo normal.

Cantador:

— Se eu tivesse, de Jackson,
Um pouco do seu carisma,
Migalhas de sua ginga,
O alcance de um seu melisma,
Seria só um babau
Que todo dia se abisma.

O pandeiro de Jackson foi açoite
Pois seus dedos pulsavam de energia.
Todo o Sol se calava, sendo dia;
Transformava-se em Lua, sendo noite.
Para que o incauto não se afoite,
Pegue a música Chiclete Com Banana.
Escute-a por toda essa semana
Reparando no solo do pandeiro.
É açoite, sol, lua e candeeiro.
É a iluminação, pari-nirvana.

Do lado da rua, do concreto, do asfalto, dos cabarés e arranca-rabos, reinou o Rei do Ritmo. Pois é: Zé Gomes Filho, o Jackson do Pandeiro. Do couro e dos guizos do seu instrumento vimos a professorinha Dona Filomena soletrando o Bê-a-bá, valentões acabadores de forrós amolando suas facas, gafieiras intermináveis pelos subúrbios do Rio de Janeiro, mulheres que trocaram de sexo numa viagem feita a Hollywood. O coração de Jackson pulsava saltitante e inebriava nossos tornozelos. O zabumbeiro desprevenido atravessava o rojão se não entendesse sua sincopagem. Dizia que todos os ritmos provinham do coco, inclusive o rock’n’roll. Jackson desafiou Tio Sam, traduziu o linguajar da saparia na Lagoa do Paó (às margens de onde nasceu), ofereceu tutano e xarope de amendoim pra quem andava caindo do banco. Teve até coragem de peitar Gonzagão, dizendo que seu baião, na verdade, era coco. Foi-se embora, encantado e jovem. Parece que ouço sua pergunta mais que atual: — Que briga é aquela que tem acolá?…

Cantador:

— Jackson do Pandeiro e Almira,
Na esquina do destino,
Encontraram-se feito um doce
Que cai na mão de um menino.
Um de cá, outro de lá,
Como o terço bizantino.

Imaginemos agora
Esse Jackson soberano
Rei do Ritmo, Rei da Síncopa,
Rei do Forró Suburbano,
Rei do Coco, Rei da Ginga,
O Páss’ro Paraibano.

Esse Jackson do Pandeiro
Foi primeiro e maioral
Rumou de Alagoa Grande
A sua terra natal
Veio ao Rio de Janeiro
Revelar seu cabedal.

Viva Jackson, inda minino,
Olhar cheio de ternura
Alma repleta de climas
E cantos da saracura
Pelos engenhos do brejo
Doce que nem rapadura.

Viva Jackson do Pandeiro
Filho de Flora Mourão
Pai da quebra do compasso
Sincopando no pião
Subindo e descendo o coco
Desafiando o rojão.


“Buraco velho tem cobra dentro”

Começo mesmo é falando da maravilha que é ser espectador desse filme, despido da cinefilia, e da maravilha que é esses dois cineastas terem mergulhado no Sertão do Seridó, para dar ouvido a essa voz do dentro do Brasil. E com maestria ter relacionado isso ao mundo, processando as tais influências, que prefiro chamar de presenças. [Texto de Toinho castro]

Texto de Toinho Castro


Peço licença para falar sobre Bacurau, o premiado filme de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles que estreia hoje em circuito nacional de cinema. Peço licença porque não sou crítico de cinema e já conferi que muita gente boa e mais preparada desfiou muito rosário sobre significados, metáforas, influências.

Então começo mesmo é falando da maravilha que é ser espectador desse filme, despido da cinefilia, e da maravilha que é esses dois cineastas terem mergulhado no Sertão do Seridó, para dar ouvido a essa voz do dentro do Brasil. E com maestria ter relacionado isso ao mundo, processando as tais influências, que prefiro chamar de presenças. Posso imaginar um John Carpenter translúcido, ectoplasmático, rondando pelo set de Bacurau, menos dando pitacos e mais observando com certo orgulho aquelas duas crias, Juliano e Kleber, fazendo não como ele fez, mas porque ele fez e faz. O que move um John Carpenter, uma Agnes Varda (homenageada do Festival de Cannes que agraciou Bacurau com o Prêmio do juri), um Glauber Rocha, é o que move Juliano e Kleber; um amor de ter visto tantos filmes e se jogar a fazê-los.

Duas coisas que tem se falado de Bacurau é a questão dos filmes de gênero e desse momento que vive o país (o mundo…) em que Bacurau se crava como uma estaca no peito de um vampiro. Pois… O filme brinca com a necessidade de ser enquadrado num modelo, numa prateleira da locadora (Deus! Isso nem existe mais!). Antes de classificá-lo nesse ou naquele gênero (Ficção científica distópica? Terror? Filme de bang-bang?), é preciso ler Bacurau como um filme brasileiro. Brasileiríssimo e daí antropofágico. De novo recorro à imaginação e projeto os Andrades, Joaquim Pedro, Oswald e Mário (que andou pelos sertões) sentados nessa anacronia deliciosa que é a cadeira do cinema, de olhos bem abertos e vibrando a cada cena em que a história de um vilarejo sertanejo se insurge contra caçadores de gente americanos se desenrola, uma encruzilhada em que se cruzam passados e futuros possíveis.

Essa encruzilhada se chama tempo presente, e é aí que Bacurau rodopia no centro do momento político vivido pelo Brasil. A inevitável leitura do filme como parábola do desvario em que o país se arrasta, rumo a que ainda não se sabe. Talvez essa leitura seja mesmo real, correta e, sobretudo, importante. É um filme com senso de espetáculo, que envolve a plateia e ao mesmo tempo a denuncia na função de plateia. Enquanto estamos sentados, torcendo, aplaudindo a tenacidade sertaneja, somos quem assiste. A ação ocorre na tela, e há quem imagine o deslocamento da ação para a realidade, que nos enclausura no que somos.

Mas gosto mesmo é de deslocar o filme desse furacão circunstancial, para exercê-lo como cinema com vida própria. Encantou-me no filme momentos em que a história parece se evaporar num fotograma para dar lugar ao cinema, essa entidade autônoma que se impõe sobre o desejo de se estabelecer narrativas. Mas sem dúvida é um filme de história, de contar história, e essa história implacável pode ser contada em qualquer época. Não está circunscrita ao que vivemos nesse agora que parece não ter fim, pois ela mexe com coisas imersas na alma, com conflitos e atitudes que são de cada um de nós. Olhe bem pra cada atriz, cada ator se desdobrando naquela tela iluminada e se veja neles, entre eles. Nisso reside a dimensão cinematográfica de Bacurau e de seus realizadores.

E aí vem o que quero muito falar. Quando digo realizadores, no plural, enfatizo justamente essa pluralidade do cinema e desse filme. Muito ouvimos falar de filme de autor. Bacurau se livra disso para ser um filme de autores. Quando a dupla de cineastas, atores e equipe, com a produção valente e precisa de Emilie Lesclaux pra segurar a fera que é fazer um filme desses, entra numa comunidade do sertão do Rio Grande do Norte, envolve a população, chama todo mundo pra junto, pra dentro… o que se entrega no final é um trabalho em que pulsa a coletividade. O som ao redor parece ser um trabalho tão autocentrado, em que Kleber Mendonça revisa um tanto de sua vivência no subúrbio recifense (Juliano é responsável pela direção de arte do filme), extrapolando as tensões de classe e a história autoritária do engenho na zona da mata de Pernambuco, enquanto vemos em Bacurau a partilha de visões e a costura de muitas mãos num tecido precioso. O cinema quase sempre é uma arte de muita gente, mas em produções como Bacurau isso ganha uma nova ênfase. De novo o momento político se impõe e nos obriga a lembrar que o filme gerou centenas de empregos diretos e indiretos, numa comunidade que não imaginaria, possivelmente, tirar sustento, inspiração de vida e aprendizado rico de uma realização cinematográfica desse porte.

Recuso-me a ser cinéfilo em certos momentos, sacando de dados, referências e discursos armados para definir e enquadrar o que quer que seja. Talvez me falte mesmo é capacidade para isso. Vai saber… Lembro de certa vez em que assisti, numa Sessão Coruja da vida, pela primeira vez, Do mundo nada se leva, de Frank Capra. Um filme também de resistência, de insistência, de certo poder escondido numa simplicidade muito mal lida por quem se impõe contra ela. Lembro que na manhã seguinte eu caminhava pelo passeio central da avenida Conde da Boa vista, no Recife, quando encontrei meu amigo Roberval. Ele mal me viu e foi dizendo: Viu aquele filme ontem?! Respondi que sim, que sim… Que filme foda, concluímos. E foi aquilo. Uma troca de olhares, um reconhecimento mútuo, uma espécie de identidade comum, que nos unia num lapso de mundo enquanto o tráfego da Conde da Boa Vista rosnava à nossa volta. Ao sair de Bacurau tudo que eu queria era encontrar Roberval, olhar nos olhos dele e dizer: Tu viu? Que filme foda!


Pós-escrito Um breve comentário sobre as música no filme. A trilha sonora sempre foi algo a que Kleber deu muito carinho nos seus filmes anteriores. Acredito que Juliano compartilhe desse mesmo credo. Da importância da música, mesmo do som, quando falamos de cinema. O filme abre lindamente com Gal em Não Identificado, talvez já te avisando a não colocar o filme numa caixa e fazendo troça da ideia de ficção científica. O uso de Réquiem para Matraga, de Geraldo Vandré, pode parecer uma homenagem ao cinema, mas é muito mais uma afirmação do poder dessa canção, do seu poder narrativo, que em pouco versos praticamente resume o filme. Diálogo entre tempos, entre artistas. De arrepiar. Nos surpreende ainda o maestro Nelson Ferreira, com seu recife intrínseco se esgueirando na paisagem do Seridó. Falando em se esgueirar, como não pensar na música sintetizada, Night, de John Carpenter adentrando em cena numa demonstração dos muitos cruzamentos que esse mundo tem, mostrando que há elos poderosos entre coisas que parecem muito diferentes (falo assim cifradamente para não dar spoiler de uma cena que vejo como crucial). Por fim… Bichos da Noite, de Sergio Ricardo, sobre poema do pernambucano Joaquim Cardoso (do bumba meu boi O Coronel de Macambira), nos carrega noutra cena de imenso poder, beirando o sobrenatural, e resgata essa sonoridade que só pode surgir num país como este em que vivemos, lutamos e nos esprememos para passar por portas estreitas.

Pós escrito 2 Esse filme ser lançado no mesmo mês, quase no mesmo dia, do centenário de nascimento de Jackson do Pandeiro é simplesmente auspicioso. Durante o filme inteiro eu só lembrava de Capoeira mata um…

Valha-me Deus, Senhor São Bento
Buraco velho tem cobra dentro

Um conselho pra quem não for a Bacurau na paz.

Juliano Dornelles, Kleber Mendonça Filho e Emilie Lesclaux – Foto de Victor Jucá

A desencavada Ermida do Ó e outras histórias de um Rio de Janeiro primevo

Então, como num pesadelo, na igreja que eles construíram para se livrar da turma episcopal, logo estava morando a turma episcopal – e torrando a paciência deles novamente. O pessoal da Sé vivia dizendo que ia logo construir um templo, mas foram ficando por quase 80 anos. Mesmo tendo sido designado local pra construção – que passou a se chamar “Largo da Sé Nova” e hoje atende por Largo de São Francisco, eles continuaram aboletados junto aos homens pretos. O que só iria mudar com a chegada da Família Real, também. [Texto de Luiz Henrique Neto]

Há quem diga que conhece o Rio de Janeiro. Eu não ouso tal afirmação. Rio de Janeiro é uma cidade que está sempre pronta a nos surpreender a cada virada de esquina. Sempre algo por ser descoberto, percebido, interpretado. Andar pelo Rio é um exercício de poesia, história e mesmo filosofia. Cidade de muitas camadas, sobreposições. Hoje o caríssimo jornalista Luiz Henrique Neto inaugura sua presença na Revista Kuruma’tá remexendo nessas camadas, levantando um dos tantos véus.

Texto de Luiz Henriques Neto


Esta semana fiquei sabendo que, durante a restauração da antiga Catedral, ali na Primeiro de Março, tinham desencavado a antiga Ermida do Ó. Assim, munido da minha câmera e minha nova lente, que eu estava doido pra usar, fui visitar o local. Tem um Museu e Sítio Arqueológico, minúsculos, na velha Sé, mas vale a visita. Vai me dizer que nunca viajou e foi visitar uma igreja que mais tarde descobriu ser do século XX e a maior armadilha de turista, sem nada de interessante dentro?

A Ermida do Ó era uma capelinha tosca e simples, como muitas do primevo Rio de Janeiro. As suas ruínas são essas da primeira e da segunda fotos. Ao seu lado foi construído um Hospício e não, não era para alojar os meus amigos de faculdade, mas o nome que se dava na época à Casa dos Romeiros. Quem exatamente fazia romaria ou peregrinação ao Rio de Janeiro do século XVI ninguém nunca explicou, mas pelo menos casa pra recebê-los tinha. Talvez justamente pela parcimônia desses fiéis é que quando chegaram na década de 80 uns padres pra fundar a Ordem de São Bento, alojaram eles lá. Logo depois, Manuel de Brito, capitão português que veio pra cá com Estácio de Sá e assim se tornou dono de umas terras, doou-lhes um morro e os beneditinos estão lá até hoje. Aliás, por causa desse Manuel de Brito é que a praia que tinha ali onde hoje é a Praça XV se chamava Praia de D. Manuel e até hoje a rua do Fórum se chama rua D. Manuel.

Realojados os padres, o Hospício logo em seguida recebeu outros. Eram carmelitas, com o mesmo intento de estabelecer sua ordem por aqui. Ofereceram-lhes a princípio um morro, mas eles o acharam ermo e distante. Era o Morro hoje de Santo Antônio (ou o que restou dele). Lembrem-se que naquela época a área da Lapa – Passeio, Carioca e redondezas – era um pantanal, e daqueles malcheirosos. Tanto que abriram uma vala pra drenar aquelas águas e renová-las. Hoje é a rua Uruguaiana e por isso ela é uma das poucas retas daquele tempo.

Os carmelitas gostaram da área onde estavam e conseguiram permissão para construir seu convento ali mesmo, em 1611, começando a construção em 1619, quando receberam permissão da Câmara pra usar as pedras da hoje Ilha das Enxadas, onde fica a Escola Naval, mas que na época não tinha nome e passou a se chamar Ilha de Ruy Vaz Brito porque este foi o governador que concedeu a licença de exploração.

A concessão de terreno mencionava a construção do convento e sua “cerca”. Talvez fosse a paliçada, que está na terceira foto. Na base de pedra, podem se ver os buracos onde ficariam os troncos. Curiosamente, é parecida com aquela de “O Novo Mundo”, do Terence Malick, com as toras espaçadas (se bem que no filme estavam mais pra gravetos do que pra toras). A nossa ideia é que qualquer paliçada seja maciça, como um forte, mas provavelmente eles não estavam esperando ataques de artilharia dos índios (contra quem ela foi provavelmente erigida) e queriam poder ver o que estava acontecendo do outro lado – como, curiosamente, os agentes de imigração disseram que queriam o “muro” pro Trump.

Na época, o mar batia até ali. Frei Vicente de Salvador (1) conta que uma baleia certa feita encalhou em frente ao Convento. Por algum motivo de aquecimento global ou fosse lá o que fosse, ainda no século XVI o mar já estava começando a recuar. E, como era um costume tolerado pelos governantes na época, a área que se formou ali passou a ser extensão daquela dos Carmelitas, que dela se apossaram. Até que em 1683 a Câmara botou o olho naqueles terrenos valorizados e resolveu reparti-los e aforá-los. Os padrecos ficaram furiosos, disseram que iam perder a vista, o ar fresco, que teriam o claustro devassado, enfim, botaram a boca no trombone. E não era de bom tom mexer com os caras – podiam ser monges, mas não do tipo que pensamos. Bagunceiros, irredutíveis, insurretos, tinham por algum motivo uma rivalidade com a Ordem da Misericórdia, que já naquela época possuía o monopólio dos funerais. Quando passava um féretro em frente ao Convento do Carmo, eles desciam de porrete na mão pra tocar o terror, hábito esse que mereceu uma ordem real vinda de Portugal pra acabar. Pra dar mais jeito de Ordem religiosa a eles, mais tarde foi nomeado um interventor, que ficou famoso por sua rigidez, Joaquim José Justiniano. O que foi uma pena, porque provavelmente a Igreja Católica não estaria perdendo tantos fiéis hoje em dia se tivesse guardado esses rituais.

Mas a queixa dos padres desordeiros deu resultado. Conta Vieira Fazenda que lhes foi cedido o direito àquela várzea em frente pelo rei, que para tanto argumentou: “os Jesuítas, Beneditinos e Franciscanos ocupam montes e têm fresco em primeira mão; os Carmelitas ficaram na planície e precisam de ar e luz; logo, há toda a razão, e como eles são viventes como os mais, têm direito ao que pedem.”

E tão enfezados eram os capuchinhos daquela época que, quando viram uma pedra fundamental erigida naquele terreno foram lá e arrancaram. As autoridades foram reclamar com eles, que era uma afronta, afinal era um marco real – e um marco real concedendo aquela área aos carmelitas. Os padres disseram que não estavam acima de reconhecer um erro e que a poriam de volta no lugar, o que fizeram.

O atual convento já foi alvo de muitas reformas, o que lhe descaracterizou a fachada. O mais próximo do aspecto original, segundo Vivaldo Coaracy, é a face que dá pra Sete de Setembro, que está na quarta foto. Os carmelitas ficaram instalados no Convento até a chegada da Família Real. Sendo o Paço muito pequeno pro tamanho e pros gostos dos portugueses, eles se adonaram também do edifício ali próximo e foi assim que eles foram sendo empurrados até a Tijuca, na igreja dos Capuchinhos.

Mas antes disso, no século XVIII, eles construíram a atual igreja de Nossa Senhora de Monte do Carmo, a antiga catedral. E como ela se tornou a antiga catedral, com tantas igrejas mais luxuosas, como a Candelária, dando mole? A primeira Sé do Rio, quando ele se tornou uma diocese, foi uma igreja no Morro do Castelo, no século XVII, que, com a mudança da cidade pra várzea e crescimento, foi se tornando cada vez menos frequentada, ainda mais com o templo dos Jesuítas, mais opulento e atraente, ali perto. Quando foi instituída na cidade a Ordem de São Benedito, dos “homens pretos”, foi-lhes concedido alojamento junto à Sé.

Os negros, obviamente, não recebiam um bom tratamento das autoridades eclesiásticas, que muitas vezes os tratavam como provavelmente os viam – seus escravos. Após alguns anos, eles se cansaram, e obtiveram permissão para construir sua própria igreja. Após obtê-la, conseguiram surpreendentemente levantar uma grande quantidade de fundos e construíram a atual Igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, aquela branca do lado do camelódromo – a da quinta foto. Mais próxima do Centro da cidade da época, e relativamente monumental, a turma do Bispo logo achou que ali seria um ótimo local para a nova Sé. Principalmente porque as outras irmandades não estavam a fim de receber ordens de estranhos dentro de sua própria casa, e ali era a casa dos negros mesmo.

Então, como num pesadelo, na igreja que eles construíram para se livrar da turma episcopal, logo estava morando a turma episcopal – e torrando a paciência deles novamente. O pessoal da Sé vivia dizendo que ia logo construir um templo, mas foram ficando por quase 80 anos. Mesmo tendo sido designado local pra construção – que passou a se chamar “Largo da Sé Nova” e hoje atende por Largo de São Francisco, eles continuaram aboletados junto aos homens pretos. O que só iria mudar com a chegada da Família Real, também.

A Família Real chegou e ia assistir à primeira missa no Brasil. Deles, não do Brasil. Obviamente seria uma ocasião de gala, cheia de festança e jaez. O povo da Sé mandou avisar aos homens pretos que era pra eles se esconderem, para que os Bragança não se ofendessem com a presença de negros. O que, obviamente, levou-os a se enfileirarem de cada lado da rua do Rosário carregando palmas para saudar o rei. O espetáculo enfureceu tanto o bispado que a Matriz se mudou para a igreja dos carmelitas, que tinha a conveniência pros regentes que era ali do lado mesmo.

A Igreja sofreu várias reformas, e uma recente restauração. A torre direita é do começo do século XX e aquele Cristo (ou santo) realista lá em cima não tem nada a ver com o resto. Pelo menos ainda conserva o frontão que é considerado o mais bonito do Rio. A recente restauração foi a que desencavou a Ermida do Ó. Ela – e a catedral, é claro – estão abertas para visitas, aos sábados, de 9h30m a 12h30m. Seja um bom carioca e vá visitar. Não temos muito monumentos antigos e com história pra apreciar nesta cidade.

As fotos são imagens variadas da igreja, incluindo os restos mortais de Pedro Álvares Cabral, na cripta desde 1903. Esperamos que tenham se divertido e curtido o tour.

Todas as fotos de Luiz Henrique Neto



(1) Escreveu uma história do Brasil, acho que em 1723, e, pela primeira vez, alguém escreve que o problema do Brasil é a mentalidade extrativista – os colonos vinham aqui somente pra extrair o que pudessem, lucrar o que pudessem, e voltar pra casa, sem intenção de construir uma nação ou permanecer. Certos conceitos da nossa terra são mais antigos do que pensamos.


Luiz Henriques Neto é jornalista, tendo trabalhado no Jornal dos Sports, Sport Press, e colaborado para O Globo e Manchete. É tão velho que escreveu novelas de rádio para a Rádio MEC AM e peças de teatro que ganharam concursos da Funarte, FUNARJ e SENAC e foram montadas por Domingos de Oliveira, Rosane Goffman, Luiz Carlos Maciel e Tina Ferreira. Como roteirista, trabalhou para a Conspiração, nos filmes da Xuxa e na primeira temporada de Vai que Cola, e também para Lucélia Santos e a TV chinesa. É o sócio capitalista da escola de Música EAPE – Espaço de Artes Patrícia Evans.


A poesia de outono azul a sul

O que a gente quer, sem dúvida, é que a Revista Kuruma’tá seja cada vez mais uma casa de poesia, que acolhe e espalha versos e poetas. E é assim, com essa afirmação necessária, que dou boas vindas a poeta Calí Boreaz, com sua poesia atravessada de moderno lirismo… Vou e volto e vou de novo à sua poética, ponte sobre atlânticos, entre pátrias, mátrias, luminosidades. [Poemas de Calí Boreaz]

Poemas de Calí Boreaz


O que a gente quer, sem dúvida, é que a Revista Kuruma’tá seja cada vez mais uma casa de poesia, que acolhe e espalha versos e poetas. E é assim, com essa afirmação necessária, que dou boas vindas a poeta Calí Boreaz, com sua poesia atravessada de moderno lirismo…

escrevo como quem se abrevia
às coisas:
vou ali e já volto
só uma saidinha
pra arejar, ar

Vou e volto e vou de novo à sua poética, ponte sobre atlânticos, entre pátrias, mátrias, luminosidades. E aqui compartilhamos com você, desses poemas, cinco desses mundos, que evocam muitos olhares e muitas vozes. seja bem-vinda, Calí Boreaz, ao fundo de rio da Kuruma’tá…


Compre o livro na Blooks Livraria

dedicatória

vai ficando tarde
tardo. estou abotoando
minha coragem
mudei de casa, de estação
mas de saudade não, não mudei
bem tentei, nos classificados nos bondes
mas teu olho esquerdo é tão
diferente do teu olho direito
ninguém mais desobediente
do que o confuso de peito
está ficando tarde. ok.
tenta apreciar o manuseio de horizontes
o plantio de um novo planeta
ainda intermitente
antes, te dedico a leve chuva
que rodeia os templos


toda varanda quer ser um navio

escrevo como quem se abrevia
às coisas:
vou ali e já volto
só uma saidinha
pra arejar, ar

no dia em que sumi no mundo
(nasci de parto mortal e mais
ninguém me viu)
ali comecei discreta a construir uma varanda
no planeta

abenluada
solidão

repente
a varanda do planeta
ficou escuramente maior

maior que o próprio planeta
não cabe na solidão
nem mesmo nestas
palavras verticais com que vou
vasculhando
oxigênio enquanto
empurro com todas
as fraquezas o portão
de parto que ainda me aparta
dos olhos que me escrevendo
me expandiram

abensomada
ausência

dia destes ainda sou capaz de zarpar, ar

com eles
numa distração do silêncio
na varanda desarvorada
enfim feita navio


o passeio

passeio:
passou enquanto eu passava.
tudo passa, mesmo que não dê um passo
                                                  fica pacificado

é isto: ex-isto.


#dia24 | feliz aniversário

esta noite a Terra
demorará um segundo a mais
a dar a volta sobre si mesma
o pulmão da Terra
entregará um grama mais
de ar aos terráqueos
a água da Terra
adentrará em um milímetro
a incandescência
as falhas geológicas todas
causarão tremores
imperceptíveis
os genomas humanos
nascerão noutra ordem
durante toda a madrugada
e muito mais gente do que o normal
estará escutando Beethoven
ou Caetano
com aroma de café
ou chá de laranjeira
com os pés virados para as estrelas
em redes floridas
e eu só botei esse batom vermelho
pra marcar de beijo a lua
pra você ver
onde quer que você esteja


Mergulhe mais no universo de Calí Boreaz nos links:

casa virtual http://www.caliboreaz.com
instagram @caliboreaz
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Calí Boreaz nasceu em Portugal, onde estudou Direito, em Lisboa, em meio às noites de fado e flamenco. Viveu em Bucareste, na Romênia, onde estudou língua e literatura romena e tradução literária. No virar de 2009 para 2010, atravessa o Atlântico rumo ao sul para viver no Rio de Janeiro, onde se entrega ao estudo e ao ofício do teatro. Na literatura, traduziu do romeno os romances O regresso do hooligan [ed. ASA, Portugal], de Norman Manea, e Lisboa para sempre [ed. Thesaurus, Brasil], de Mihai Zamfir. Seu livro de estreia, outono azul a sul [ed. Urutau, Portugal & Brasil], é um relato poético do exílio e da clandestinidade, e tem posfácio de João Almino e desenhos de Edgar Duvivier e António Martins-Ferreira. Integra também a coleção Identidade vol. II da Amazon Kindle com o conto islandeses. Seus textos têm aparecido também em várias revistas literárias brasileiras, portuguesas e galegas, e em exposições como a Bienal Internacional de Arte de Gaia 2019, em Portugal, e o Hyderabad Literary Festival 2019, na Índia.



Um livro com 50 poemas de Drummond e o futuro

O livro chama-se 50 poemas escolhidos, tem 62 anos de idade e passou por pessoas, lugares, dias, e chegou a mim. Rilda Coelho dos Santos o comprou numa tarde ou manhã de um perdido 9 de agosto de 1957. Suas páginas estão cheias de anotações, numa letra que não parece ser a de Rilda, comparando com sua assinatura na folha de rosto. É a letra, precisa e regular, de alguém a quem esse livro pertenceu depois de Rilda, alguém que aparentemente precisou dele para algum trabalho do colégio ou faculdade… [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro


A gente não compra um livro digital, um e-book, como se diz, a gente compra o direito de acessá-lo enquanto ele estiver disponível. O mesmo vale para o streaming de música ou vídeo. Faço essa reflexão porque ontem fui escutar um disco que gosto muito numa plataforma de streaming que eu assino e não pude encontrá-lo. Não está mais disponível. Possivelmente questões de direitos do artista, da gravadora, da editora das músicas…. vai saber. Bem sei que o sagrado cinema sempre foi assim, a gente assistia ao filme enquanto estava sendo exibido no circuito de salas de exibição. Mas os VHS, os DVDs, e outros formatos de distribuição física de conteúdos, foram nos ensinando que poderíamos guardar os filmes como guardávamos os livros.
Somos uns mal-acostumados.

Com comércio de e-book esse cenário está em transformação e nossa relação com o livro em cheque. Para ilustrar, recentemente a Microsoft encerrou as atividades de sua loja de e-books e todos os livros “comprados” foram excluídos. Os leitores desavisados ganharam vale-compras para serem trocados por outros produtos. De repente aquele livro que você comprou, e nem chegou a terminar a leitura, pode se transformar num mouse.

Escrevo isso enquanto, encerrado em certa nostalgia, olho para um livro que comprei ontem na Banca do Olivar, uma seleção de poemas de Carlos Drummond de Andrade, escolhidos pelo próprio poeta para uma coleção chamada Cadernos de Cultura. O livro chama-se 50 poemas escolhidos pelo autor, tem 62 anos de idade e passou por pessoas, lugares, dias, e chegou a mim. Rilda Coelho dos Santos o comprou numa tarde ou manhã de um perdido 9 de agosto de 1957. Suas páginas estão cheias de anotações, numa letra que não parece ser a de Rilda, comparando com sua assinatura na folha de rosto. É a letra, precisa e regular, de alguém a quem esse livro pertenceu depois de Rilda, alguém que aparentemente precisou dele para algum trabalho do colégio ou faculdade, alguém que leu os poemas com um olhar criterioso, diferente de quem lê como quem passeia, como quem encontra alguém. Quem quer que tenha feito essas anotações se debruçou sobre esse livro como hoje me debruço. O que me leva a perguntar quantos somos os que carregaram esse livro. Quem somos e por onde andamos?

Nesses 62 anos que se passaram, Rilda bem pode estar viva ainda. Assim como quem escreveu todas essas notas miúdas, interpretando Drummond, sua escrita, seus versos. Drummond que se foi, que morreu em 17 de agosto de 1987, trinta anos quase precisos depois que esse livro foi comprado por Rilda. Drummond que não imaginou seu livro, com mais de 60 anos, aguardando, como um imortal, um novo leitor passar desprevenido pela banca do Olivar e descobri-lo e carregá-lo numa nova e inesperada jornada de leitura. No Pêndulo de Foucault, de Umberto Eco, li sobre esse ponto fixo, em torno do qual tudo gira. Imaginei esse livro do Drummond como esse ponto, entorno do qual giramos Rilda, eu e tantos que o seguraram nas mãos, fizeram anotações e enveredaram pela noite escura percorrendo suas páginas.

Eu sabia que a Terra estava rodando, e eu com ela, e Saint-Martindes-Champs e Paris inteira comigo, e juntos rodávamos sob o Pêndulo que na realidade não mudava jamais a direção do próprio plano, porque lá em cima, de onde pendia, e ao longo do infinito prolongamento ideal do fio, para o alto em direção às mais remotas galáxias estava, imóvel por toda a eternidade, o Ponto Fixo.

A Terra girava, mas o lugar onde o fio estava ancorado era o único ponto fixo do universo.

O Pêndulo de Foucault, de Umberto Eco



Carrego por aí meu Kindle, sabendo que preciso mantê-lo carregado ou não terei livros. torcendo para a Amazon não mudar de ideia e fazer como a Microsoft. Talvez em 60 anos meu Kindle esteja largado numa feira de troca-toca, sem função, como curiosidade de uma certa época, de uma certa indústria, que prosperou e sucumbiu, como quase tudo na vida. É bem possível que algum curioso que o pega nas mãos não consiga relacioná-lo à ideia de livros ou leitura. Talvez na mesma feira, na banca de um futuro Olivar, possa ser encontrado meu livro com 50 poemas de Drummond, carregando o nome de Rilda, a data de 9 de agosto de 1957, as anotações do desconhecido ou desconhecida que vasculhou os poemas, talvez com uma pequena anotação minha para o futuro… quem sabe alguém nesse mundo incerto e adivinhado, possa folhear as suas páginas frágeis e amarelas e nele decifre uma vontade de sobreviver a tudo e a todos nós.