Elton e Diadora

Elton levou exatamente 5 anos e 10 dias para aprender a amarrar seus sapatos e sabe cantar, no momento, precisamente 27 canções. Também faz as melhores chaves e percebe principalmente as pequenas coisas. Quanto menores, melhor. Naquele dia foi chamado de emergência no plantão. Teve que subir as escadas porque faltava luz no prédio velho, azul e encantador. [Texto de Adriana Nolasco]

Texto de Adriana Nolasco


Elton é chaveiro. Se interessa principalmente pelos tipos de chaves que abrem coisas que não existem mais. Trabalha na mesma esquina desde os cinco anos de idade quando começou a acompanhar o pai, que acompanhou seu próprio pai, que por sua vez acompanhou o pai que também acompanhou aquele que, se dizia, era seu pai. O que fazia daquela esquina um pedaço da sua carne.

Elton John, ariano e vegetariano, assim se chamava porque sua mãe foi a um show na Praça de Espanha, fazia muito tempo, e se apaixonou.

Não pelo Elton (John), mas pelos óculos que usava, pelas roupas brilhantes que vestia e pela mulher que transbordava daquela pele de homem, assim como das suas calças apertadas e do suor que borrava parte de sua maquiagem. Elsa se encantou. Por causa desse tesão repentino, que lhe consumiu as poucas calorias que restavam, a mãe de Elton baixou a própria pressão e se fixou noutros óculos (como uma tábua de salvação). Antes de desmaiar lhe sussurrou um poema sujo e lhe agarrou as bolas, coisa que nunca tinha feito antes. Nove meses e cinco dias depois nascia Elton John de Oliveira.

Seu pai, Fernando, o Oliveira, ainda usa os mesmos óculos, agora com lentes um pouco mais grossas porque está velho e também porque sempre teve dificuldade de ver certas coisas que Elton, por sua vez, sempre viu, com precisão.

Vê, por exemplo, que o pai que usa óculos cada vez mais grossos e conserta chaves cada vez mais complexas começou a esquecer onde deixa as de casa. Esquece também outras coisas tais quais as razões de sua própria vida. Elton também vê que um dia vai acabar substituindo o pai naquela esquina, porém procura não pensar muito nisso, ao contrário. Na maior parte das vezes evita mesmo pensar, o que em geral o leva a pensar ainda mais, casos em que, quando pode, se refugia no banheiro e toma longos banhos. O ideal é quando consegue sair com os dedos dos pés e das mãos enrugados como um pergaminho. E se não tiver um menino que o acompanhe naquela esquina, a esquina irá acabar?

Elton levou exatamente 5 anos e 10 dias para aprender a amarrar seus sapatos e sabe cantar, no momento, precisamente 27 canções. Também faz as melhores chaves e percebe principalmente as pequenas coisas. Quanto menores, melhor. Naquele dia foi chamado de emergência no plantão. Teve que subir as escadas porque faltava luz no prédio velho, azul e encantador. O porteiro que dormia nos intervalos de cada quarto de hora lhe avisou: quarto andar. Diadora. Quarto de dormir. Andar à toa. Dia de sol. Amadora. Achou que era uma brincadeira, mas subiu assim mesmo, lembrando dos jogos de criança, quando amava a escuridão, o que lhe dava grande vantagem.

***

A sorte pode ter formas estranhas, pensou Diadora, é preciso ter olhos bem abertos pra perceber, mesmo que tenha telefonado e chamado por ela. Diadora tinha medo. Da chuva, da tempestade, de portas fechadas, da desesperança. Elton (John) não, tanto que subiu as escadas do prédio azul, velho, encantador e sem luz, quase feliz. Ao chegar, guiado pelo branco daqueles olhos, repetiu: chaveiro, quarto andar. Diadora. Quarto de dormir. Andar à toa. Dia de sol. Amadora. Diadora achou graça naquilo e perdeu seu medo em algum canto do corredor, mas não se importou. Não teria mesmo como recuperá-lo naquele momento, havia outras prioridades. Se cumprimentaram ao som de um trovão. Diadora tremeu por outro motivo. Já Elton elogiou sua roupa, que combinava mesmo com a escuridão, e pediu que se aproximasse da fechadura para que os faróis de seu rosto a iluminassem. Nunca levava uma lanterna consigo, tal qual as pessoas que amam a chuva sempre perdem seus guarda-chuvas, suas canetas bic e seus isqueiros. Era considerado estranho por isso, porém não se importava. Elton também tinha sorte. Alguma. De rosto colado ao de Diadora, além de sentir a frescura e maciez de sua pele, pode ver o que precisava resolver. E levou exatos cinco minutos, tempo que em geral aprendia uma música inteira, pra consertar a fechadura que, no entanto, não estava quebrada. Elton explicou para Diadora que nesse caso, e na maioria deles, o problema era a chave que abre as coisas. Elton consertou a chave, abriu a porta e teve a impressão de ter aberto outras coisas também, mas não soube precisar. O que conseguiu fazer foi dizer que amava a chegada das tempestades, quando o céu gritava e o vento cuspia folhas como confetes. A luz voltou como uma raio. Elton se assustou com tanta clareza e após entregar um folheto de propaganda para Diadora, se despediu e esqueceu de cobrar pelo serviço. Já Diadora se esqueceu de quem era. E simplesmente entrou. As portas estavam abertas. A sorte sempre chega em horas inesperadas. A luz também. Era nove e meia da noite. A chuva tinha finalmente parado.


Querido Manuel

Coisa boa de editar a Kuruma’tá é estar no centro do Rio, bebendo um chope com o Braulio Tavares e receber uma mensagem do Nonato Gurgel, do querido Nonato Gurgel, com um poema para a revista. A sensação é das melhores, ali num tradicional bar no centro do Rio, lendo no celular um poema de Nonato, que diz ele não ser a versão final… mas que já é lindo. [Poema de Nonato Gurgel]

Poema de Nonato Gurgel


Coisa boa de editar a Kuruma’tá é estar no centro do Rio, bebendo um chope com o Braulio Tavares e receber uma mensagem do Nonato Gurgel, do querido Nonato Gurgel, com um poema para a revista. A sensação é das melhores, ali num tradicional bar no centro do Rio, lendo no celular um poema de Nonato, que diz ele não ser a versão final… mas que já é lindo.

Hoje chega-me a a tal versão final. Escolho a foto, de Janeide Cruz, amiga do poeta, para ilustrar o poema. O horizonte do mar de Macaé e o céu azul, os navios, uma evocação a Manuel Bandeira, esse querido.

Obrigado, Poeta!


Querido Manuel

Todas as noites
os navios acesos
dão lições de partir
rumo ao Sertão
Estação Baixada
Pasárgada próxima parada

Neste quarto de hotel
sei muito bem o que fazer com a maçã
mordo
como
retorno à pátria mística
e o seio da sereia sibila

Há dias sangramos assim
ela ele e eu derramados
todos a teus pés irmanados
no desabrigo da margem
que derrama gole pro santo
na ‘dor daquilo que não se pode’

A vida é feita de não ditos eu sei
mas todos dizem que o cuscuz
do Seridó é o melhor
do mundo e isso importa
eu já plantei hortas
hoje planto alegrias

Bandeira, meu amor
prometo rio e correnteza de volta
sertãozinho do Tinguá forever
sol de Paraty na cara
outro amanhecer
só encontra quem perdeu

Macaé-RJ, Agosto, 2019


Rua da Matriz, 97

Eu pegava o ônibus, Jordão Alto ou Jordão Baixo, na Imbiribeira e seguia rumo ao centro da cidade. Atravessava o bairro de Afogados e seguia pela avenida Sul, um caminho desolado, margeado de um lado pelo muro que a separava dos trilhos da Rede Ferroviária Federal e do outro por uma sequência de ruínas e galpões semi-abandonados. O fim da jornada era na avenida Dantas Barreto, uma abominação que foi cortada em meio a um bairro fervilhante, derrubando cerca de 400 casarões, eliminando 11 ruas e uma igreja tombada pelo patrimônio histórico. Ali, nesse cenário de terror urbano, ficava o terminal do meu ônibus. [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro


Foto de Toinho Castro

Há mais ou menos um ano, em maio de 2018, li rapidamente, em meio ao caos dos posts do Facebook, que um ou dois velhos casarões haviam desabado, tristemente ferindo moradores, no centro do Recife, a cidade onde cresci e vivi parte da minha vida adulta. Isso me teria passado como mais um episódio da novela de uma cidade abandonada, com seus históricos sobrados caindo aos pedaços sobre seus habitantes desprotegidos de tudo, não fosse pelo alerta de um jovem amigo, o Pedro Siqueira.

Disse-me Pedro que o sobrado que desabou por cima de outro sobrado era o nº 97 da rua da Matriz.

Eu pegava o ônibus, Jordão Alto ou Jordão Baixo, na Imbiribeira e seguia rumo ao centro da cidade. Atravessava o bairro de Afogados e seguia pela avenida Sul, um caminho desolado, margeado de um lado pelo muro que a separava dos trilhos da Rede Ferroviária Federal e do outro por uma sequência de ruínas e galpões semi-abandonados. O fim da jornada era na avenida Dantas Barreto, uma abominação que foi cortada em meio a um bairro fervilhante, derrubando cerca de 400 casarões, eliminando 11 ruas e uma igreja tombada pelo patrimônio histórico. Ali, nesse cenário de terror urbano, ficava o terminal do meu ônibus.

Dali eu cruzava a pé o que restava do bairro de Santo Antônio, passava pela rua Nova, cruzava em seguida a ponte Duarte Coelho, com seus ferros trançados, para adentrar a rua da Imperatriz e percorrê-la até o seu final, na igreja Matriz da Boa Vista, que fica na esquina com a rua da Matriz, onde eu, finalmente, chegava ao nº 97.

Narrei assim esse percurso, que eu o perseguia em certos sábados auspiciosos, em tom de peregrinação, porque era mais ou menos disso que se tratava. O fim dessa peregrinação era a casa de Humberto.

Humberto era uma espécie de criatura mitológica, uma esfinge rock’n’roll, deslocada no tempo e no espaço. Assim me parecia, naqueles anos, e assim ainda me parece, na memória. No sobrado nº 97, que desabou, lá nos fundos, se abria uma espécie de quintal onde habitava uma microcomunidade, meio hippie, meio estranha. E o que havia lá, afinal, que nos atraía? A resposta é simples, o maná da juventude: discos.

Humberto vendia discos usados (e iogurte natural, feito lá mesmo), e com isso alimentou toda uma geração de jovens recifenses que ali, no nº 97, aprendeu a amar o rock’n’roll em todas os seus matizes. Filhos do Metal, do Progressivo, das estranhezas inclassificáveis, passaram pelos portais da casa de Humberto. Era ponto de encontro, rota de fuga, cruzamento de linhas e bate-papos com raridades nas mãos. Ali a gente podia conversar, comprar e trocar, além de receber a sabedoria de Humberto. Quem passou por lá sabe. Quem passou por lá não esquece.

Aquele sobrado velho é tombado para nós que ali crescemos como ouvintes e companheiros dos misteriosos caminhos da música, é um patrimônio histórico-cultural, centro de um sistema nervoso que até hoje espalha e cultua o rock’n’roll pela cidade. Humberto, um cara que influenciou a formação musical e pessoal de gente que tá aí hoje, fazendo música, movimentando os toca-discos, botando gente pra dançar uma noite inteira. Salve, Humberto, que já se foi, alguns anos atrás, antes do seu sobrado, sem ser notado pela pobre mídia.

O nº 97 da rua da Matriz é um marco obscuro. As autoridades, o governo, a Unesco, não sabem da sua existência ou do seu valor. Não receberá honrarias ou certificados, nem haverá uma placa de bronze com a inscrição: Aqui viveu Humberto.

Humberto Brito – Foto do acervo de Levi Cerqueira

Esse texto foi escrito no dia seguinte à queda dos sobrados e agora o recupero porque às vezes uma lembrança leva a outra, como lâmpadas que vão acendendo sucessivamente, uma a uma, numa rua escura. Na porta de entrada de um sobrado dessa rua está Humberto, que morreu em 2015. Lá de dentro vem um som que eu gosto, uma zoada boa. Gente jovem entra e sai carregando discos.

Manhã de sol. Estou no Recife, de frente para os sobrados derruídos da rua da Matriz. Tiro uma foto. Nos fones de ouvido, no Spotify, um disco do Tangerine Dream, que comprei ali com Humberto, anula os sons da rua, dos carros, das pessoas passando. A casa de Humberto é um lugar em que fui feliz.


E sim, a rua da Matriz, 97, é o nossa rua Nascimento Silva, 107. Só que muito melhor!

PS. Leia o livro Pesado, de Wilfred Gadelha, e mergulhe no entendimento desse universo que formou a cultura musical do rock no Recife.


Juazeiro na Califórnia – Oito poemas de Márcio Fabiano

Há tempos venho pedindo a Márcio, poeta temporão e safadinho, como ele mesmo diz, uma colaboração (ou muitas!) para a Revista Kuruma’tá. E eis que ele me envia esses poemas de sua lavra, escritos, olhe só, na Califórnia. [Poemas de Márcio Fabiano]

Poemas de Márcio Fabiano


Dizer que o baiano de Juazeiro, Márcio Fabiano, é publicitário é dizer muito pouco. Mas é um bom começo. Amigos de muitos anos, mas não o suficiente que nos torne velhos. Ou melhor, que sejamos velhos, na melhor acepção da palavra! E com isso velhos amigos nos define bem. Há tempos venho pedindo a Márcio, poeta temporão e safadinho, como ele mesmo diz, uma colaboração (ou muitas!) para a Revista Kuruma’tá. E eis que ele me envia esses poemas de sua lavra, escritos, olhe só, na Califórnia.

Comecei a escrever antes de ir ver o mundo. Na Califórnia, solitário, iniciei minha obsessão por saudades. As paixões renderam rimas e imagens. Mas não são cupidos eficientes. Continuo solteiro.

A Kuruma’tá é um espaço de amizades e afetos, sempre, e receber Márcio Fabiano e sua poesia é privilégio e alegria. Que seja esta a primeira de muitas presença do poeta na nossa revista. Seja bem-vindo à Kuruma’tá, Márcio!

Toinho Castro
[Editor]

Fotos de Lara Bonfim Braga

O GERENTE COM A GRAVATA DO GARFIELD

Eu nunca vou parir os filhos do gerente com a gravata do Garfield
Nunca vou pôr a mesa para ele jantar nem visitar sua mãe no domingo à noite.
Eu nunca vou convidá-lo para ver um filme com final feliz e nem vou rever o que poderia ser nosso álbum de casamento e ouví-lo repetir que eu estava linda.
Nem vou levar a cerveja para ele beber enquanto assiste o jogo na TV
E nunca vou estar ao seu lado no carro, janelas abertas e o vento como testemunha dos meus dedos em sua nuca.
A nuca do gerente com a gravata do Garfield
Eu nunca

Não vou voltar de uma festa, longo preto e saltos e, no quarto, despir-me enquanto ele observa.
Ele, a fera. Eu, a presa mais feliz do mundo.
Não vou sentir o sexo do gerente com a gravata do Garfield, não vou provar seu hálito, nem negar os seus pedidos e vê-lo aumentar sua fúria.
Não vou acordar feliz ao seu lado.
Nunca
Nesse sonho eunuco, pela manhã, outras acordarão.


POR AÍ

Para onde vou nessa agonia?
Se abro a porta, sangria
Quando a fecho, fobia
Para onde vou nessa noite esguia?
Vejo a pedra, tropeço
Espero a sombra e ela me ultrapassa
Não conto medidas
Não curo feridas
Não busco saídas
Para onde vou?
Não tenho resposta e soluço
Para onde vou?
Apenas a sombra aponta o caminho.


SILÊNCIO

Eu sonhei que você vinha e não falava nada
Pegava na minha mão, apontava o caminho e eu seguia, silencioso
Eu sonhei que você vinha e não falava o que queria
Pedia com os olhos.
Silencioso, eu atendia
cedia com mais força
eu gemia
Após o fastio, você dormia
E, sem palavras, eu te guardava:
– Dorme, amor, dorme!
E, quando acordar, silencia.
Eu estou sonhando.


ANIVERSÁRIO

Bebi, bebi, bebi, bebi.
feito uma cachorra.
Uma louca.
Bebi feito uma vagabunda, abrindo os dentes, salivando sua carne.
Gastei meu riso.
Joguei fora toda minha reputação, riscando as sílabas do início ao fim para mostrar o que realmente sou:
— Feliz aniversário, puta!
Sem arrependimentos.
Eu tenho aspirinas.

Nunca entendi você
Quando estou, ausência
Quando saio, ardência
Quando volto, demência
É difícil amar assim


SOSLAIO

Ele vem, passa e soslaia
Eu sigo
Ele volta e soslaia
Eu finjo
Ele pára e mira
Eu olho para trás
Ele passa na minha frente e senta
Eu soslaio e sigo.


RG

Eu nasci sem pulso
Filho do faceiro, neto do gigante, cresci delicado
Meu pai se enroscou nas teias da rede que ele ofereceu à minha mãe
Ela tentou ser agulha e pôr a teia em ordem
A agulha cegou, o novelo caiu e o fio se perdeu
Eu nasci sem pulso.
Perdido, o fio sou eu.


OS OLHOS DELE

Os olhos dele são compasso.
Negros e redondos marcam meu passo
Nos olhos dele, Íris, eu sou espaço


CONTABILIDADE

Eu não tenho idade
Eu tenho a metade do que vivi
Com o resto, faço planos para os dias que virão
Sem saber que nessa contabilidade cronológica, minhas contas não tem fim nem lógica
Sob essa ótica, sou um calendário apagado que, ao marcar os dias, não vê que o tempo já passou


Cultura Independente de Qualquer Coisa – Conheça a FIQC

A gente ama feira… é como um chamamento, no meio do urbano absoluto, das vidas do interior, da noção de comunidade que ainda persiste a despeito dos automóveis. Enveredamos então a investigar as barracas e não tardamos a perceber que aquilo ali era diferente. Tinha um ar, um jeito diferente do que normalmente vemos por aí. [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro


Era o ano de 2016 no Rio de janeiro e eu e Raquel, companheira de vida e sonhos, vadeávamos pela Tijuca numa tarde de domingo. Nosso para lá e para cá acabou por nos levar à Praça Saenz Peña, um dos corações do bairro, posto que a Tijuca tem muito corações batendo forte. E não é que estando ali demos com uma feira livre, iluminando ainda mais o domingo de sol.

A gente ama feira… é como um chamamento, no meio do urbano absoluto, das vidas do interior, da noção de comunidade que ainda persiste a despeito dos automóveis. Enveredamos então a investigar as barracas e não tardamos a perceber que aquilo ali era diferente. Tinha um ar, um jeito diferente do que normalmente vemos por aí. Numa das barracas estava uma amiga, a Flávia, que contou um pouco da feira, explicou que sim, era diferente, voltada para a produção independente, fora do circuito do comércio e do império cego do mercado. Havia roupa, arte, comida, encontros, conversa, bebidas e sorrisos espalhados em toda parte. Um encanto.

E o que mais nos chamou a atenção foi o nome da feira. Olha só pra isso… Feira Independente de Qualquer Coisa, ou FIQC!

Minha primeira reação foi querer estar ali. Acho que naquela tarde mesmo a Flávia nos apresentou a mente generosa, ou pelo menos um delas, por trás daquela ideia. Assim se deu o conhecimento com Rodrigo Chignall, que nos cativou de simpatia e explicou os comos, os quandos e as razões da FIQC. Atualmente quem está no leme dessa festa é Rodrigo Chignall, a Maiara (Mica) Nascimento e Leonardo Lucas (Léo). Como a feira é uma grande família, eles não esquecem do parceiro Naamã Lima, designer que começou tudo com eles.

Olhe, os dias que se sucederam foram de inventar algo para participar daquela feira. Isso mesmo, virar feirante. Dados às artes como somos, não foi difícil criar uma marca, realizar algumas ideias e armar nossa barraca. Mas como não é dessa experiência que quero falar, vou pular a história de Toinho e Raquel vendendo arte na FIQC para contar o mais importante, que é a feira propriamente dita!

Estamos em 2019 e a FIQC resiste bravamente às intempéries municipais e segue encantando a Saenz Peña!

Cada edição da FIQC, que acontece uma vez por mês, é formada exclusivamente por pequenos produtores. O mote é compre de quem produz, seja uma roupa, uma fotografia ou um hambúrguer. Outra faceta marcante da feira é o espaço dedicado às manifestações artísticas, posto que inicialmente a ideia da FIQC surgiu como criação de um evento de arte e cultura ocupando o espaço público, levando gente para a rua, ou para praça! E a gente sabe que, em geral, quando se fala de arte e cultura, a gente pensa em exposições, em museus, feiras literárias. Mas esses conceitos abrangem muito mais; nisso tudo estão as relações de troca social também, de compartilhar espaço, linguagem, gestual. Ouvir o outro, ver o que o outro produz e vivenciar experiências que transcendam a solidão cultural que, muitas vezes, as cidades nos impõem.

Por isso, Independente de Qualquer Coisa, é preciso encontrar, ocupar a rua e mostrar aquilo que somos capazes de fazer melhor.

As edições da FIQC são temáticas e passeiam pela cultura carioca mas também brasileira. A edição de carnaval, em fevereiro, reverenciou o frevo e a tradição pernambucana da festa de Momo. Coisa linda de se ver. E se você ficou curioso, prepare-se, que no dia 18 de agosto teremos na praça Saenz Peña mais uma edição dessa feira linda. O tema é nada mais nada menos que o Folclore, pois o dia do Folclore é 22 de agosto! Uma aposta linda na nossas tradições orais, nas histórias que povoam o imaginário brasileiro, desse Brasil de verdade que não cabe em definições superficiais. Um Brasil profundo, generoso e diverso, de muitas falas e olhares.

A FIQC busca, a cada edição, representar e espalhar essa cultura.

E agora fica esse convite pra você ir pra praça e compartilhar da diversidade que está aí, produzindo, criando, inventado! Como a turma da FIQC mesmo diz: Desejamos mostrar a todos que a cultura é um direito de cada um e que ela pode ser feita de forma coletiva e horizontal.

A Feira Independente de Qualquer Coisa mostra que a rua e sua dinâmica é cultura, que as trocas podem e devem se dar entre pessoas e que a economia pode ser criativa e cidadã.

Para saber mais sobre essa próxima edição da FIQC, confira o evento no Facebook.

Todas as imagens que ilustram esse texto são da Feira Independente de Quaquer Coisa. Visite o álbum de fotos da feira no Facebook.


A água sempre procura por espaços secos

Era uma criança incomum. Seus ossos eram moles, retráteis. Um a um, dobravam-se feito os de um contorcionista. Os pais, estavam certos disso, aquilo era uma enfermidade, doença. Faltava cálcio. No entanto, a verdade é que o dom do menino estava ligado à crença, dele mesmo, de que seu corpo era pura água. [Texto de Eduardo Frota]

Texto de Eduardo Frota


Era uma criança incomum. Seus ossos eram moles, retráteis. Um a um, dobravam-se feito os de um contorcionista. Os pais, estavam certos disso, aquilo era uma enfermidade, doença. Faltava cálcio. No entanto, a verdade é que o dom do menino estava ligado à crença, dele mesmo, de que seu corpo era pura água. 

Desse jeito era mais fácil.

Chorava – e assim pensava que perdia líquido e se tornava um pouco mais duro, retesado. E corria para ler histórias engraçadas. E pedia aos pais que contassem piadas.

Suava – e assim pensava que a sede nada mais era do que o corpo avisando que seu lado de dentro secava. E corria para o banho deixando a água penetrar os poros.

Urinava – e assim lembrava que quando o líquido era amarelo, melhor mesmo era livrar-se dele na mesma hora. E corria ao banheiro para ver a descarga levar tudo aquilo embora.

Um dia

esgueirou-se com habilidade notável por cada canto do quarto, por cada flanco da casa, por cada esquina da vida, inclusive das que cruzavam com quem ele nem conhecia.

E neste dia

                percebeu o amor – e deixou uma lágrima descer os olhos.

                                correu para contar aos pais – a camisa ficou encharcada.

                                                fez xixi – antes de dormir, para recomeçar no dia seguinte.

                                                                Fluía a vida, fluía a água. E o menino, sorria.

 Latvian circus contortionist performer – circa 1930

A chegada do homem na Lua

À noite, estávamos tocando numa boate de Boa Viagem, se não me falha a memória chamava-se “Gatoca”, e tínhamos sido convidados para dividir o palco com uma banda recifense de quem ficamos amigos, Os Moderatos. Lembro que a certa altura alguém subiu no palco e bradou que um homem tinha acabado de pisar no chão da Lua, e como não sabíamos tocar “Lunik 9” atacamos imediatamente de “Ob-La-Di, Ob-La-Da” – como diria um jornalista, “levando o público ao delírio”. [Texto de Braulio Tavares]


Nosso amigo e parceiro de invenções e versos, o escritor, poeta e homem de muitas artes Braulio Tavares, chega na Revista Kuruma’tá 50 anos depois que o homem pisou na lua, e esse é o tema de sua bela crônica!

Seja bem-vindo, Braulio! Que esse seja o primeiro de muitos outros textos!

Texto de Braulio Tavares


Há cerca de cinquenta anos os astronautas do projeto Apollo 11 desembarcaram na Lua.

Naquele tempo eu lia muito mais ficção científica do que hoje, proporcionalmente. Não no volume total de páginas, mas porque eu lia qualquer coisa de FC que me aparecesse pela frente (era pouco, o que aparecia). Hoje eu me dou ao luxo de ler somente o que parece prestar. (Fora as leituras profissionais, obrigatórias.)

A imprensa cobria o Projeto Apollo diariamente. Eu ainda não tinha o hábito (que só veio bem depois) de ler os jornais do Rio e São Paulo. Mas lia as revistas, principalmente revistas recentes como Veja e Realidade, que meu pai sempre comprava.

Foi numa delas que recebi minha primeira grande decepção: um perfil de Neil Armstrong, o chefe da missão lunar, escrito pela jornalista Oriana Fallaci.

Ora, eu via com olhos deslumbrados a condição de ser O Primeiro Ser Humano A Pisar Noutro Planeta. Para mim (eu tinha 19 anos incompletos) isso era uma glória maior do que ser Sócrates, Leonardo da Vinci, Napoleão, o Papa e Bob Dylan, tudo junto.

Contaminado pela FC poética de Ray Bradbury (que na época era meu autor preferido), eu ficava imaginando os sonhos e as visões que estariam passando pela mente daquele astronauta destinado a ser O Sujeito Mais Importante Do Mundo.

O texto de Oriana Fallaci foi aquilo que os jornalistas chamam de “uma ducha fria no meu entusiasmo”. Armstrong era um técnico, um mero piloto. Um sujeito de absoluta e burocrática eficiência, sem um pingo de poesia, um pingo de imaginação. Parecia esses jogadores de futebol de hoje, que dizem: “Estou bem preparado, me dedicando aos treinamentos com afinco, e estou pronto para dar o meu melhor a fim de conquistar o nosso objetivo”.

Um sujeito assim vai pisar na Lua!! Cadê a poesia?

Não me saía da cabeça (como não sai até hoje) a canção “Lunik 9” (1967) de Gilberto Gil, para mim o hino da conquista da Lua:

Poetas, seresteiros, namorados, correi!
É chegada a hora de escrever e cantar
talvez as derradeiras noites de luar.

Momento histórico, simples resultado
do desenvolvimento da ciência viva…
Afirmação do homem, normal, gradativa,
sobre o universo natural, sei lá que mais!

Ah, sim… Os místicos também
profetizando em tudo o fim do mundo
e em tudo o início dos tempos do além…
Em cada consciência, em todos os confins,
da nova guerra ouvem-se os clarins…

Guerra diferente das tradicionais
guerra de astronautas nos espaços siderais!
E tudo isso em meio às discussões,
muitos palpites, mil opiniões…

Um fato só já existe, que ninguém pode negar:
7, 6, 5, 4, 3, 2, 1, já!
Lá se foi o homem conquistar os mundos, lá se foi!
Lá se foi buscando a esperança que aqui já se foi…
Nos jornais, manchetes, sensação,
reportagens, fotos, conclusão:
a Lua foi alcançada afinal…
Muito bem! Confesso que estou contente também.

A mim me resta disso tudo uma tristeza só:
talvez não tenha mais luar
pra clarear minha canção…
O que será do verso, sem luar?
O que será do mar, da flor, do violão?
Tenho pensado tanto… mas nem sei…

Poetas, seresteiros, namorados, correi!
É chegada a hora de escrever e cantar
talvez as derradeiras noites de luar…

Gil por um lado, Oriana Fallaci pelo outro, e a influência bradburyana foi se atenuando. A chegada do homem à Lua não era uma viagem psicodélica. Era uma façanha tecnológica, e dificilmente seria colocada a cargo de um poeta. Pilotar a Apollo não era tarefa para um lírico-pop-surrealista como Bob Dylan, e sim para (guardadas as proporções) um sujeito concentrado e meio sensaborão tipo Michael Schumacher.

O mais interessante de tudo é que acabei não vendo a descida do módulo lunar. A façanha aconteceu num domingo, 20 de julho de 1969, e justamente nesse dia a banda em que eu tocava, Os Sebomatos, estava se apresentando no Recife. Quando a nave pousou, estávamos no lugar menos indicado para assistir TV: no palco de uma estação de TV, tocando no programa “Dimensão Jovem” do Canal 6 do Recife.

À noite, estávamos tocando numa boate de Boa Viagem, se não me falha a memória chamava-se “Gatoca”, e tínhamos sido convidados para dividir o palco com uma banda recifense de quem ficamos amigos, Os Moderatos. Lembro que a certa altura alguém subiu no palco e bradou que um homem tinha acabado de pisar no chão da Lua, e como não sabíamos tocar “Lunik 9” atacamos imediatamente de “Ob-La-Di, Ob-La-Da” – como diria um jornalista, “levando o público ao delírio”.

Era 1969, era o Brasil da ditadura, o Brasil do AI-5, o Brasil do general Costa e Silva e da Junta Militar EMA (Exército, Marinha e Aeronáutica) que logo ocuparia a presidência da República.

Todas as vezes que íamos de ônibus para o Recife tínhamos que parar no posto da Polícia Rodoviária, descer, mostrar documentos, explicar quem éramos e para onde íamos, e ver um policial checando uma lista de nomes datilografados para ver se figurávamos ali. Claro que não – mas eu olhava a folha e mesmo de-cabeça-para-baixo dava para ver os nomes de líderes estudantis que todos nós conhecíamos.

A Lua? Continuou brilhando como sempre, para os poetas, seresteiros e namorados.


Veja mais na galeria de fotos das missões Apollo

E quem quiser ler mais artigos do Braulio Tavares, recomendamos seu blog Mundo Fantasmo, que reúne seus textos publicado desde março de 2003!

Compre Fanfic, o novo livro de Braulio Tavares!


A cheia de 1975

O Capibaribe cortava moroso o Recife. Visto das pontes em sua lentidão, não se diria que ele seria capaz de tal destruição. Como um gênio preso numa garrafa, silencioso, irado, esperando a tampa ser aberta. Era como se morássemos perto de uma caverna em que dormisse um terrível dragão. Majestoso, porém. Eu amava o Capibaribe e morria de medo dele. [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro


Em 1975 eu era menino, oito anos de idade. Foi o ano da grande enchente que inundou e assustou o Recife. A Cheia de 75. Na data de ontem, 17 de julho, esse evento cataclísmico faz aniversário de 44 anos. Recife sempre foi essa cidade amaldiçoada de águas, com suas palafitas, canais, o mar roendo seus ossos de cidade velha junto aos cais. Água salobra que brotava de qualquer buraco que se cavasse nas suas ruas sem calçamento, do mangue que jazia em toda parte. De dentro do próprio homem… como aprendi do Recife com João Cabral!

…(naquela água macia 
que amolece seus ossos 
como amoleceu as pedras). 
— João Cabral de Melo Neto, em O cão sem plumas.

A gente ouvia as notícias no rádio, sobretudo no rádio. Gente, era emocionante! Tinha uma frase que arrepiava os cabelos. Bastava escutar o locutor dizendo que já chovia muito na cabeceira do Capibaribe para se ficar tenso, observando a chuva cair lá fora e imaginando a cabeceira do rio inchando de chuva. Cabeceira para mim era da cama e a imagem da chuva caindo na cabeceira da minha cama é algo que ainda me é poético.

Naquele dia, há exatos 44 anos, o rio desistiu de suas margens e invadiu ruas, avenidas, casas e tudo mais que encontrava pelos caminhos. Consta que mais de dois terços da cidade sucumbiram à força da enchente. Muitos morreram e milhares ficaram desabrigados. O Recife ficou isolado e submerso. Na Imbiribeira, onde eu morava, apesar da chuva que insistia, o Capibaribe não chegou. Dizia-se que se a cheia chegasse na zona sul, é porque toda a cidade estaria acabada sob as águas. Ou melhor, sob a lama e os destroços, as carcaças de animais, móveis flutuantes, automóveis desprevenidos e sabe-se lá mais que mitologias.

O Capibaribe cortava moroso o Recife. Visto das pontes em sua lentidão, não se diria que ele seria capaz de tal destruição. Como um gênio preso numa garrafa, silencioso, irado, esperando a tampa ser aberta. Era como se morássemos perto de uma caverna em que dormisse um terrível dragão. Majestoso, porém. Eu amava o Capibaribe e morria de medo dele. E ele tinha esse compromisso de encontrar o mar que era irresistível e às vezes todas as águas o alimentavam na fome dessa direção. E o Recife ali no meio, atrapalhando, se espichando e se espalhando, como se não houvesse rio nem mar. Como se tudo ali fosse dele. E não era. Nem será.

Lembro desse dia de forma cristalina porque estávamos no cinema quando tudo começou. Mal se anunciou no rádio que a cidade se afogava, minha mãe ficou doida de preocupação. Eu, minha irmã e nossos primos havíamos ido ao centro, assistir no Cine Moderno uma sessão dupla de um filme de Mazzaropi e A noviça rebelde! Uma verdadeira aventura. E enquanto o milagre do cinema se dava na tela iluminada, entre risos e empolgação, o destino do Recife era selado. Ao fim da sessão saímos à rua despreocupados. Já era noite e diante de nós a praça Joaquim Nabuco iluminada e logo adiante o rio, cínico, como se nada estivesse acontecendo. O mesmo rio que ia devorando outros dois terços da cidade.

E pensar que, enquanto isso, gargalhávamos na sala escura do Moderno com Mazzaropi e viajávamos com Julie Andrews numa Áustria assombrada pelo nazismo em ascendência. Eu e meus primos, mais novos, não entendíamos ainda o significado daquilo e nos deleitávamos com os cenários e a música. O filme era de 1965 e tinha quase a minha idade, um ano mais velho. E creio que foi a única vez em que o assisti. Assisti-lo outra vez seria banalizar esse episódio, do filme que assisti no dia que estourou a cheia de 75. Já o filme de Mazzaropi, não recordo. Era um filme de Mazzaropi, isso bastava para nos divertir. Foi uma passeio incrível e havia no ar, para mim, uma criança, um sabor extra no ar. A tensão da enchente iminente, a volta para casa, de onde veríamos o recife desaparecer.

A gente cresce e compreende o quão triste são esses eventos, a dimensão das perdas, o luto. Mas naqueles dias eu vivi a euforia de algo enorme, maior que eu, que me atirava para longe do tédio da escola e de certa vida suburbana. Os helicópteros cruzando os céus, as notícias no rádio, a preocupação com meus outros tios e primos que moravam do outro lado da cidade, no lado invadido e saqueado pelo Capibaribe. E é curioso como coisas díspares podem se juntar numa encruzilhada da nossa história. A vida da família Von Trap enquanto a guerra arranha o horizonte e minha própria família contando as horas de uma enchente, num canto perdido da América do Sul. Eu, minha irmã e meus primos com os olhos brilhando porque havíamos visto dois filmes enquanto o meso rio que desfilava diante de nós em frente ao cinema destruía metodicamente a cidade. E Mazzaropi em meio a tudo isso.

Exatos 36 anos depois meu pai morreu. Um fio que se teceu entre um dia e outro sem que eu mesmo soubesse e percebesse. Somente hoje, nesses 44 anos anos, eu vislumbro essa simetria, uma equação entre filmes, a cidade, o rio e meu pai. Naquela noite chegamos em casa, tranquilizamos a todos, sem imaginar que anos depois, num mesmo 17 de julho, seria uma noite em que eu receberia numa rua do Recife a notícia breve da morte de seu Antonio. Ao contrário de uma enchente, era como uma vazante. Como se o rio Capibaribe recuasse do leito e eu pudesse caminhar por ele até aquela noite em que voltamos do cinema numa cidade por ele inundada. Aquela noite em que meus pais nos esperavam e ninguém da nossa casa, apesar da enchente que a tudo levava, ia morrer. Como os Von Trap, às margens da guerra, poderíamos cantar, se quiséssemos, tamanha era a nossa inocência.

Hoje, quando eventualmente passo pelo Capibaribe, olho bem nos olhos dele e penso: Eu sei do que você é capaz. E não me demoro sobre as pontes.

Será real essa história?

Aquele rio 
era como um cão sem plumas. 
Nada sabia da chuva azul, 
da fonte cor-de-rosa, 
da água do copo de água, 
da água de cântaro, 
dos peixes de água, 
da brisa na água.
— João Cabral de Melo Neto, em O cão sem plumas.


O dia qu’eu vi

Pedi a Numa Ciro mais um poema para a Kuruma’tá. Pedi porque acho que precisa ter mais poesia nessa revista, mais poesia em toda parte. Pedia a Numa porque ela é essencialmente uma poeta. Poeta, certamente, da loucura e de certo êxtase. Com Numa parece que o teatro grego é a feira, sentimos sabor da cantoria e as máscaras de repente nos assustam e encantam. Numa Ciro faz pontes o tempo inteiro, cosmopolita que é. A poesia reside em tudo que ela faz. [Poema de Numa Ciro]

Poema de Numa Ciro


Pedi a Numa Ciro mais um poema para a Kuruma’tá. Pedi porque acho que precisa ter mais poesia nessa revista, mais poesia em toda parte. Pedia a Numa porque ela é essencialmente uma poeta. Poeta, certamente, da loucura e de certo êxtase. Com Numa parece que o teatro grego é a feira, sentimos sabor da cantoria e as máscaras de repente nos assustam e encantam. Numa Ciro faz pontes o tempo inteiro, cosmopolita que é. A poesia reside em tudo que ela faz.

Ela me mandou um poema mas achou que era muito grande, muito comprido. Eu disse que era bobagem, pois a gente tem liberdade de publicar longos poemas, que tem uma gente que busca por longos poemas. E quando os encontra se deleita e nem acredita que ainda é possível.

Leio o poema que ela me mandou, comprido, e escuto já na sua voz. Cego Vivaldo e Lampião. Eu e você. Os vizinhos e as pessoas passando na rua. E numa ligando esses pontos com versos. O mundo é um teatro e um poema.

Foto de Toinho Castro, do espetáculo Cabaré Concreto

O DIA QU’ EU VI
QUANDO LAMPIÃO LEVOU O CEGO VIVALDO P’RA VER O MAR 
ou
EU NÃO VEJO MUITO BEM

Somente o cinema mudo sabe dizer o que é isso
Isso é coisa de Eros


Estação Primeira

à memória de la mémoire
Dizes mémori
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Introdução ao dia

1.
Eu jamais esquecerei aquele dia ensolarado.
O verão fora do tempo, que ano desachuvado!
Corria o mês de São João, São Pedro trancafiado
Bebendo a água do céu e o chão na terra abrasado.

2.
Acordei naquele dia, ainda estava sonhando.
Levantei tangendo raven e o never me puxando.
Vesti a saia de pálpebras, os olhos abrindo e fechando.
Para onde irei nessa luta entre o logo e o não-sei-quando?

3.
Logo, o logos me expulsou para os lados da saída.
Sem destino, de memória, ouvindo a ópera Aída, 
Segui a passos velozes pisando a dúvida vencida.
Das asas do vento arador, caí nos braços da vida.

4.
Oito léguas mais tarde, uma voz me alcançou.
Uma voz inesperada. Ora, ninguém me avisou.
Tatuei meus pés na estrada. Ora vejam quem chegou!
Nenhum passo para frente, orar pra trás é que eu não vou.

5.
Em segundos minha sorte foi laçada pelas musas.
Ou eu canto o mote certo, ou me assombram as medusas.
Então chamo em meu socorro as fusas e as semifusas,
Metáforas e metonímias. De medo troquei dez blusas.

6.
Quem diria que eu teria aquela surpresa danada?
Do meio do mato escondido salta a surpresa na estrada.
Adivinhou quem pensou que eu quedei atordoada.
Imaginou mas errou quem pensou numa emboscada.

7.
Via tudo acontecendo na minha frente e atrás.
À minha volta rodavam cenas de nunca e jamais.
Vi gente que não me via no mesmo instante e, aliás,
Desentendi quem vivia, se era eu ou os demais.

8.
Escorreguei na surpresa e caí na sedução.
Me deitei nos trilhos do sonho e esperei a salvação:
O apito do destino ou um aviso da razão.
Quem vai me dizer agora? O que diz meu coração?

9.
Meu coração tem razão quando diz que desconhece
As razões do coração de quem depressa me esquece.
Eu esqueço num segundo o Bê, o Cê, e o Esse,
O A, o Zé, e o X do nome de quem não merece.

10.
Não merece o quê, my dear? Vou naquele requebrado
Voltar pra beira da estrada. Lá vou eu de pé trocado.
As musas me largam sozinha nas horas do descantado
E as medusas aparecem, não carecem de chamado.

11.
Como eu estava dizendo quando dei curva no tino,
No instante em que troquei dez vezes de figurino,
Seguirei a estrada afora de Chanel, se me defino.
Até parece esfreguei um lampião aladino.

12.
Eu disse o quê? Lampião? Bonita! vou me acender.
Esse nome alumiou as coisas que eu vou dizer.
Lampião foi a surpresa que saltou e me fez ver
Naquela estrada deserta a visão de quem não vê.

13.
A visão além do alcance somente ao cego há de vir.
A luz dos olhos acende o prazer de se iludir.
A mentira e a verdade se casaram pra fingir
E seus filhinhos herdaram as feições do confundir.  

14.
Foi justamente esse tema que afundou meus pés no chão:
Nem pra frente nem pra trás, batestaca o coração.
É de casa ou é de fora, essa estranha aparição?
Fecho os olhos e escuto mão amolando facão.

15.
Aperto os olhos mais fundo e levo as mãos ao pescoço.
– Vão sangrar minha esperança de ficar velha, seu moço?
– Se não era uma emboscada, fica fria, que alvoroço!
Era apenas a lambida do pensamento no osso. Ouço.

16.
Aos poucos fui desmanchando a pose aterrorizada.
Alternei os pés no chão e caí na gargalhada.
Os palhaços me cercaram e eu virei mulher barbada.
O mágico tirou a barba sem nenhuma navalhada.

17.
Quem disse que em tela dos outros não se mete la couleur?
O mágico, ateu do ditado, ante mim virou danceur.
Daí eu já era outra, um pouquinho mais meilleur.
A domadora das feras com chicote et sans rancoeur.

18.
A mascar chiclete bem alto, tirando a calcinha da bunda,
Fingindo ser dona das feras e do Olimpo oriunda…
… Cansei da jaula e montei na minha própria calunga
E num segundo pousei na superfície profunda.

19.
O picadeiro na Strada era caminho e lugar.
Andarilhos, residentes, gente e bicho a conversar.
Onça pintando perigos, gavião riscando o ar,
Preguiça engolindo saliva com preguiça de buscar.

20.
Era tanta coisa que eu via que nem dava pra saber
Se era real ou encantada a beleza do prazer.
Eu era tudo o que eu tinha e tinha tudo pra ser
O que o desejo quisesse que nem soubesse dizer.

21.
Subi de novo nas asas de um pensamento infiel.
De volta ao futuro dos vivos: um presente tão cruel.
Passei o passado a limpo, mas só matei cascavel.
Dei várias voltas ao mundo em cada lua de mel.

22.
Casei tantas vezes quanto as artistas de cinema.
Casavam e se arrependiam: cada galã!!! que dilema,
Escolher apenas um, jogando os outros no Senna,
ops na cena!
Quem iria recusar rimas raras num poema?   

23.
Não importava quem fosse o belo protagonista.
O mais famoso, o mais rico, o herói, o grande artista.
Sempre havia um mais tesudo, menos mudo, equilibrista.
Entre o homem e a mulher, uma criança se avista.

24.
Um anão apareceu trazendo Macunaíma;
Gigantes-pernas-de-pau andando pra baixo e pra cima.
A ninfa Eco gritava somente as letras da rima:
Das frases que não falava, escoava a sua estima.

25.
Nunca estive nesse conto… mas passava aqui todo dia.
Estranho a estranheza do espanto: é tristeza ou alegria?
Uma saudade aparece Nua! Tesuda! Vadia!
Saudade das que maltrata e mata nas covaRRRdia.

26.
Estou dormindo sonhando? Ou sonhando acordada?
Essa multidão de artistas fazendo palco de estrada…
Somente pra me alertar com essa pergunta malvada:
Por onde a arte caminha? É pela beiiiira do nada?

27.
Quem me olhasse não veria esse íntimo alvoroço,
Andando sem data certa, sem endereço no bolso.
Ai quem me dera papai pra me pendurar no pescoço.
Ai quem me dera mamãe me desse do peito o almoço.

28.
Estou sozinha de novo oh sol inclemente do céu.
Quero fazer malabares nesse tal de mundaréu.
E as surfistinhas da noite? a andar de déu em déu?
Cadê a doida? Quem dava pra louca?
E eu sempre rrrrr-eu!

29.
De repente eu escuto esse raríssimo diálogo:
– Boa tarde, Cego Vivaldo, és de fato meu análogo.
– Boa tarde Lampião, te procurei ali no catálogo.
Esse encontro já estava escrito lá no decálogo.

30.
Esquentei dos pés à cabeça e fiquei toda arrepiada.
Se foi delírio esse encontro yo lo transmito medicada.
Se foi real, cai no mesmo, a fantasia é sagrada.
Irei contar por aí, mesmo sem prova nem nada.

31.
Solo sé que me volvi em direção à conversa,
Para ver com os próprios olhos que novidade era essa.
Disse assim assim com meu rirri*: – olha pra isso sem pressa.
Desliza bem nos detalhes, o inusitado atravessa.

32.
O detalhe foi the best que podia acontecer.
Eu via os dois e eles dois não demonstravam me ver.
Assim eu fui testemunha do mais louco entardecer.
Debaixo de um pé de estrelas armei rede pá escrever.

33.
Não pense qu’stou tão cansada a ponto de me omitir.
Saí de casa tão cedo e como foi duro partir.
Mas quando disse: – Já vou! Vim logo p’ra não desistir.
Agora cheguei nesse ponto: vou me enredar e transmitir.

34.
Quero seguir em silêncio, passo a passo, essa história,
Para botar  sic  ao lado de cada interlocutória
E para isso é preciso que não me falhe a memória.
Se eu conseguir, eu prometo pagar promessa na Glória.

P.S.   OH! Glóóóóória$$$$$!


Secondestation

isso é

de segunda mão

quero dizer

Brechou

ou então…

… de olho na coisa fora do costume…

Metodologia da tarde

1.
Como seguir em silêncio, se a história é barulhenta?
Muito barulho por tanto vou contar até quarenta.
Não quero Babar ali, já me fartei de água benta.
Corri pra roubar o verso que alegra e amamenta.

2.
O desejo abre as asas aos anjos das internetes.
São asas velozes do tempo, avohai marionetes!
Quem corre mais do que eu, pilotando patinetes?
Um pé lá e outro cá, num pescar d’olhos esqueces.

3.
Esqueces que te beijei? Que eu conheço teus segredos?
Esqueço a panela no fogo imaginando folguedos.
Moi crê nos improvisos e sente tremores sem medos:
Criança se vê na vitrine do mais cobiçado brinquedo.

4.
Sigo e persigo os mistérios, porqu’ eu sei que nada tem
Nem aqui nem acolá, nem nos olhos de alguém.
O beijo inventou a boca e o cafuné, foi meu bem.
Eu me mato todo dia, mas não morro por ninguém.

5.
Eu sou cega de nascença sem ser cega de verdade.
Cê entendeu o que eu disse? Nunca nego minha idade.
Eu só minto pra mim mesma, ess’ é minha vaidade!
Orgulhosa que nem faço concessão à novidade.

6.
Nada de novo, anjo bom, foi assim, coisa e tal.
Tal como era uma vez, outra vez desigual.
Se o pecado existe, e a escolha, a preguiça é capital.
Lembro de tudo que eu quero, só esqueço o principal.

7.
De repente, sem querer, vi dois pares de alpercatas.
Parecidas, paradinhas, frente a frente colocadas.
Andei com a luz do cinema… do chão às nuvens aladas.
O corte no olho do sonho acordou as mascaradas.

P.S. Flechei o foco e parei no perfil dos camaradas.

8.
Pareciam dois bonecos de cera de pano ou de pau
Parados no meio da cena antes do ponto final.
A imagem congelada e lá  ao fundo o milharal
Agitado pelo vento survivant et virtual.

9.
Vou mexer neles, nos bonecos, e fazer a cena voltar
Ao tempo em que o mudo cinema falava que ia falar.
Falaram aos quatro ventos que o mundo iria acabar!
Acabou-se hen, Borito**? Era o medo de avançar.

10.
Avançamos tanto que a cena ficou incompreensível.
Mas voltarei ao instante em que tudo era possível:
Lampião a passear descontraído, intangível,
Sem rifle, sem lenço e chapéu, sem nada de compatível.

11.
Por isso desconfiei… se estava mesmo acertando
A identidade do cara, sem cara de banda e de bando.
Mas apostei no disfarce, continuo procurando.
Se acho a máscara não tiro o rosto, nem confessando.

12.
Mana, Hermano, podem crer: o erro é um modo de ver.
Estou plugada e escuto rádio, virei nativa, fui de TV.
Abro a porta, abro os braços: Est-ce-que és tu ou você?
Lisboa paraibana, fiminino arômado prazer…

13.
A noite que tudo esconde é propícia aos canibais.
Ao dormir, sonho com anjos, não me vejo entre os mortais.
Beijo com avidez os lábios da minha paz.
Quando acordo, eu não acordo, eu atiço os animais.

14.
Eu dou asa à cobra, não sou deus.
Porém jamais! usaria as de cetim.
Viveria das sobras do apogeu
De quando eu era anjo-da-guarda para mim.

15.
Les choses, das ding, cabra safado.
Olhos de gata, gatas no telhado.
Cachorro solto meu dono está do lado.
Baby pássara fugiu com seu veado.

16.
Pelos muros do silêncio, uma boca se esfregava.
Mas um deus intrometido, por descuido suspirava
E o perfume do seu hálito fez dormir quem se agitava
E o perfume do seu hálito fez falar quem se calava. 

17.
Daí… disse o que bem quis e os que jamais foram falados.
Jamais nunca se diz nunca e jamais separados. 
“Or now or never”, he say, “maintenant ou jamais”,
tá ligado?
Quem não tiver medo da morte se
                                                       atire
                                                              dos

                                                                       7
                                                                                                         P
                                                                       e
                                                                           c
                                                                               a
                                                                                   d
                                                                                       o
                                                                                           s

18
Assim, pois, falou o truta***, mano a mano, desarmado.
Direto Plateia Via personagem-ressuscitado.
No lusco-fusco da dúvida, depressa foi para o lado
Que dava pras vistas do lago, o daquele espelho falado.

P.S. Falaram que viram Narciso, Si olhando-se pelado.

19.
Esse mundo é nadador e essa vida nada assim.
Dizem mato com os olhos e as paredes ouvem sim.
Não pretendo confundir o começo com o fim.
O fim começa onde acaba e recomeça tudim.

20.
Eu não consigo domar nenhuma concentração.
Jurei escutar conversa dos vultos vulgos do sertão:
Um d’eles desviveu como? E o outro? Não digo não.
Mas agora estão aqui diante da minha ilusão.

21.
Eu m’iludo trezumana, de coração na malícia.
Dou sol à pele que atrai os escravos da carícia.
Ganhei meus dotes de bruxa nos caminhos da Galícia,
Y ahora ya no sé transformar fúrio em notícia.

22.
Já passa das dezenove, só vejo as galáxias do céu.
O sol nem disse até logo, saiu à francesa, nem Kréu.
Foi visitar o oriente, é dele esse t’all mundaréu.
Enquanto eu     pedia na terra      ele ganhou foi o céu.

23.
Lampião esclarecia o que vim fazer aqui.
Vivaldo percebia e, pelos olhos de Zumbi,
Eles eram poliglotas! Simultânea, traduzi
Grego, Araimaco, Latim, Tupi, Yourubá, Guarani.

P.S. Pra Purtuguês de Portugal e Brasilêro Nordesty.

24.
A conversa se arrastava e depois criava tensão.
Nenhum dos dois pretendia esconder a condição
Que fazia deles dois precisarem de oração.
Nas frases jogavam dois tudo pelo sim e pelo não.

25.
Depois de muuuiiiiiiiita conversa, colhi o fruto maduro.
A partir desse momento, nenhum galho é seguro.
Se da morte a vida escapa, ness’ idade eu me aventuro.
“Al di lá delle stelle…”, ouvi cantar o pré-futuro.

P.S. Vivaldo e Lampião brincavam com um anuro.

26.
Um convidava o outro, eles queriam partir
Desde então nem sei p’ra donde, não fui capaz de ouvir.
Vou segui-los passo a passo, só não posso aplaudir
Em cena aberta o perigo é o ator se distrair…

27
… E perder a inocência que permite ele brincar
de ser um e depois outro e quantos puder carregar
Pelas sombras de las noches!.. ou sob um sol de xaxar.
O desastre é confundir onde fica o tal lugar.

28.
Yo me voy sin saber? Para onde irei? hei! vocês dois!!!! Esperem por mim, por Tupã! alcançá-los… hei… depois
Daquela curva onde a estrada se contorceu, mas não foi,
Não foi de dor, foi de risada, ria a estrada, pois, pois…

P.S. Cada vez que acompanhava as brincadeiras do boi.

29.
Fazendo xixi acocorada, avistei o cruzeiro do sul.
Eles foram por ali > D’eles, nem vejo o azul.
Esperei tanto eles dois… vou rezar pra Capitu,
Que adulterou sem saber, se soubesse dava o cu.

30.
Dar qualquer coisa é difícil? Peça ao rico para dar.
Tem camelo e orifício, agulha deixa passar?
Pegue um punhado de pedras sem nem sair do lugar.
Nem que o tesouro for o teu, pirata vai te pegar.

31
Amarcord… pipoca ou cigarro? Eis a questão DaDa.
Quem tem bunda… se vire com a lua. – Vai pisá?
Perguntou São Jorge. – Ou vai montá?
Perguntou seu cavalo querendo cavalgá.

32.
Só tu vendo como eu ri dos escrachos d’ Irakitã!
Sério. Imaginava boleros dançados por um titã.
Quero ver é de perto um disco voador de manhã.
Na hora do sol poente prefiro a percussão de Lan Lanh.

33.
Sedento do dito tem rio que só dá pa precipício.
O passarinho passou levando a semente do indício.
A pregação é diferente do sermão e do comício.
Aos ouvidos tudo igual na largura e no suplício.

P.S.  Une fois qui est donnée «c’est si bon » ao vício…
Dividir o bagulho é tipo tudo-bem-pra-começo-de-ofício.

34.
Essssssscorreguei pur’alísss com lábios-de-entra-e-sai.
Ouvi batidas nas portas que abri pr’os carai****!
“Estrada não tem porta”, riscou com a adaga, um samurai.
Lampião! Cadê o cego? Vivaldo! Arrivolta!  CARAI!!!!!!


Terceira Estação

Sobe e desce e sobe e desce e sobe e desce e sobe e desce e sobe e desce e sob

porém…

Só mente

Eu

diz o não nome!

Isso é tudo

ou

tudo isso passa

Teoria da noite

1.
Era mesmo qu’estar a ver o cinema chapliniando,
Musicado por Capiba e o futebol argumentando.
A pintura surrealista acertava mesmo errando.
Djanira, star na vista! e as cores orientando.

2.
Sorrindo subi o morro a procurar puro sambista.
Chorando vi quando Nasce o samba do Morre na pista.
Na subida vend’os olhos e na descida pago a vista,
Só me interessa cantar com voz de timbre hedonista.

3.
Sei bordar, pregar botão e conversar mundo afora.
A pedidos eu abri as janelas para Aurora .
Senhora me dê seu macho, só quero por uma hora.
Devolvo homem e desarmado com as costelas de fora.

4.
Bora contar cada uma e mostrar quantas terão.
Na nossa conta não falta costela no tronco de Adão.
Se apanhei pra nunca mais! dizer qualquer palavrão,
Quando disse: Paralelepípedo, esperei um caminhão…

5.
… Em vez disso eu ganhei a fantasia e o destaque.
Brinquei na rua e cantei, toquei surdo e atabaque.
Pulei pro bloco seguinte, levando meu badulaque.
Beijei palhaço, colombina e tudo que fosse de araque.

6.
Misturei joia e miçanga e escorreguei na fusão.
Só não caí para trás porque já estava no chão.
Porque já estava no chão, rolei na relva e então
Rodava Eros comigo… a gargalhar meu coração.

7.
Lá do chão eu avistava belo-céu-azul-de-anil.
Fiquei assim o mês inteiro, desde o primeiro de abril.
Tive tanta paciência, que até Jó armou fuzil.
Perguntaru se eu era baiana. Respondi: mais de dez mil.

8.
Porém depois foi me dannndo… um troço de tédio
tão tão danado,
Que deu amargo na boca do ouvido sintonizado.
Disse assim, assim de mim tipo meu eu cansado:
– Não estás vendo esse anil? há muito já está desbotado.”

9.
Nem dez botas de mil gatos, nem 1000 pulos de delfins;
Nem correndo do tarado, nem procissão de Merlins;
Nem avião ou navio, nem asas de Querubins
Vão me fazer alcançar aqueles dois nos confins.

10.
Cada um risca o seu norte, teme o seu-fraco-seu-forte,
E come na mão do consorte quando tem fome de morte.
Bebo eu na minha cuia, tenho amor e tenho sorte.
Dinheiro aparece assim, oh, é só puxar pelo po(r)te.

11.
Se aqueles dois estiverem passeando por aír
Conversando distraídos como estou sonhando aquir
Logo logo eu pego os dois bebendo e fazendo el xixir
Posso até balançar a vista só pra ver pingo cair
r
r
r
r
r

12.
Aqueles erres finais nos versos lá de cima
São firulas da garganta limando a matéria prima.
Gargareje aqueles erres ao estilo pantomima
E piche o nu nas vidraças sprayando a cor da rima.

13.
Nem o sábio rima à toa com rimas que dizem não.
É preciso muita bossa pra rimar barquinho e chão.
Cada vez que acendo vela aparece Lampião.
Maria Bonita me disse: – Lampião tem coração. 

14.
Lampião acendeu praça pro cego Vivaldo ler mão.
O eco visível no cego espalha o dom da razão.
O cego Vivaldo conecta os sinais da vibração:
E fica logo sabendo se naquela mão tem cifrão.

15.
Nisso passou a vizinha num rebolado rodriguiano.
Seis vezes pagando na valsa o reveillon daquele ano.
Estava tão bonitinha… a ordinária em seu plano
Que esbarrou com os dois olhos nesse cego froidiano.

P.S. Só deu N’UMA, num d’Eu n’OUTRA!

16.
Foi nela mesma, em Dorotéia, que a nudez foi consagrada.
A vida como ela é só precisa ser bancada.
Amar e ser feliz, ao mesmo tempo? arre danada!
Princesa que já foi plebeia sabe de um tudo e do nada.

17.
Sabe tudo… esse Anjo Negro: um tanto assim de segredo.
Joga no só e dá brinquedo: sabe onde está o sossego.
Vive de sonho e aconchego. De tudo!!! cria um enredo.
Não sua, nem treme: de medo.

P.S. Caiu do céu muito cedo!

18.
Essa mulher sem pecados tem namorada e namorado.
Sua mãe é falecida, dela só guarda um retrato.
No seu álbum de família mamy sorri com recato:
A mão da mãe no decote de um pulsar inconformato.

19.
O pai da moça comprara um Vestido de Noiva pra’i ela.
A moça de véu e grinalda atravessou a passarela,
No Aterro do Flamengo, só para ver a primavera.
Mas, no meio do trajeto, espiou pela janela…

P.S. …E viu o beijo no asfalto: era mudança de era.

20.
Onde eu deixei o cego? Onde estás oh Lampião?
O mar é perto daqui? Ou mais longe que o Japão?
Deixei Vivaldo sumir pensando naquela paixão.
Perdi Virgulino de vista vendo as aves d’ arribação.

21.
Olha só! quem vejo ali: en-cos-ta-dos-na-pa-re-de???
Parece que são os dois tentando matar a sede.
Vou me hospedar nesse hotel e cair naquela reeeeeede:
Aquele terraço vê tudo, até onde um cara foi meide.

22.
Não posso me distrair mais uma vez, vejam só:
Se eu perco de vista eles dois, mais uma vez, tenham dó!
Dó ré mi  uni duni tê   Aposto que vão pro forró.
No pé da serra tem coquista, tem zabumba e tem xodó.

PS
E tem mais:

23.
Vivaldo cega mais nítido quando afina sua rabeca.
Um Lampião distraído deixou cair a boneca:
– O rabequeiro foi p’a escola? Vê que pergunta indiscreta. 
Deu calado como resposta. Tinha uma senha secreta:

P.S. O cego arregalou a pergunta pra rabeca.

24.
A rabeca respondeu com o toque do arco nas cordas.
O cego aceso de arte, subiu ao palco nas costas
Dos fãs e tietes aos gritos e pegou a dar mil voltas
Nas escalas musicais, com a voz e a rabeca loucas…

25
De tudo quanto era modo o cego falava de amor:
O amor do cego era cego como é cego todo amor;
Cada amor se reconhece e se admira no amor…
… Estar de amor é só deixar o tempo gostar do amor.

27.
O cego cantando dizia, o cego parece que via.
Quanto mais ele rimava mais plateia aparecia
De todo lado que tinha vinha gente e a gente ria.
O cego enxergava tudo o que a plateia carecia.

28.
Lampião, perfumado, não saía do seu lado,
Cochichava ao cantador o sentimento encantado
Que animava a multidão ao ouvir seu rabecado.
Vivaldo quis saber quantos eram no gramado.

29.
É muito difícil contar um a um na multidão.
Mas ideia é que não falta e pra mostrar tem Lampião.
Maria Bonita me disse: – Virgolino tem razão.
Pra quê vigiar número em desarmada multidão?

30.
Pensei, com as ideias da arte, em cair de mão em mão…
… Até caí na conversa da cobra que enganou Adão.
Eu disse a Maria Bonita: Borito foi Lampião.
Ele te deu espingarda no dia que te viu no portão.

31.
Quem vai acreditar agora se eu disser que Lampião
Foi o primeiro afeminado masculino do sertão?
Os lenços de seda… e os anéis de prata… espia o ouro do cordão!
O danado customizou o chapéu d’ Napoleão.

32.
Assim foi naquela noite. Era um novo desafio:
Um Lampião desarmado acendia seu pavio
Enquanto Vivaldo cantava sob o seu próprio assobio
E nas cordas da rabeca, olha o arco em rodopio.

33.
O solo do cego er’ um bordado. E ousaria:
Seu desafio enfrentava era a arte da cantoria.
O poeta era o crítico da sua própria autoria.
De repente…
… Por este canto solista: qualquer um se mataria.

P.S.
E eu, no meio da multidão, fazendo etnografia.


Epílogo

O jogo das luzes

ou

 a peleja das lâmpadas com as estrelas.

Aconteceu naquela noite

01.
De repente, fui convidada a subir no palco do cego.
Vivaldo, o cantador? Enxerga até formiga no prego.
Como então adivinhou minha presença? Eu não nego:
Aquela noite inesquecível foi demais para o meu ergo. 

02.
Um furi-furi na multidão… vou fugir par’uma ocara.
Vou pegar o trem das onze na estação Jabaquara.
Neste instante mim viu eu pintada que nem uma arara.
Entrei na cena e cantei: tenho seiva Nhambiquara.

03.
Comecei a dizer versos para me apresentar.
Cantando disse meu nome e o que gosto de cantar;
Quem sou, de onde vim e quem desejo encantar.
Agradeci o convite e botei o cego no altar.

04.
Assim, no primeiro pé de verso, já driblei competição,
Como são os desafios dos repentistas do sertão.
A nossa peleja era outra: n’era nós dois contra nós, não.
Para nós o desafio era fazer louvação.

P.S. Uma onda de sussurros crescia da multidão…

05.
Ora! ninguém acreditava que pudesse acontecer
Uma peleja engraçada sem as armas do poder.
Ora, ora, vamos ver a graça que isso vai ter:
Nenhum dos dois vai ganhar, nenhum dos dois vai perder.

P.S. Arte não é esporte. Tem outro jeito de ser.

06.
Semente de arte não vinga em solo competitivo.
Não dá folha, não dá fruto, nem sombra pra lenitivo.
Quem é da arte sente a dor do soco lá no umbigo
Quando o EGO se engrandece com a desgraça do “inimigo”.

P.S. Saber rimar não coincide ‘comigo versus contigo’.

07.
À multidão sugeri, com calma, sem alarido:
Levante a mão quem não quer ser no amor correspondido.
Todo mundo olhou pro céu e, pra si mesmo, escondido.
Depois, virou-se pro lado… e se entregou iludido.

P.S. A esperança nunca deixa seu seguidor sem sentido.

08.
Um mar de gente… e as ondas sussurrantes saíam do coração:
Da mina que chorava – perdida – entre o trem e a estação;
Do motoboy que brincava de capacete na mão;
Do soldado emocionado perdendo de vista o ladrão.

BO. Vi até desassassino desamolando facão.

09.
As ondas quebravam no palco e escorriam pelo cu:
Da viúva que vestia sus recuerdos do baú;
De feios carecas de chifres: Todos pós-Capitu;
Da prostituta elegante montada na Grife DASPU.

10.
A cantoria saudava a negra no ministério
Pra desvendar o racismo e acabar com esse mistério
De um país tão cordial só ter branco no ministério.
Somente o preto no branco para escrever BRASIL(s)ério!

PS. Zumbi Abdias Pixinguinha têm medida e têm critério.

BO. O rap mostra onde está quem é quem no cemitério.

10.
Já tem muita ideia contrária em desafio constante.
Não carece de disputa onde se lê Safo e Dante.
A teoria de Darwin não pega em bicho falante,
Nem mulher é retirante de uma custela homilhante.

11.
Vi Mandela com Gandi, bem ali! Oh! na Praça da Concórdia.
Vi Francisco com Jesus tramando misericórdia,
Vi Lennon benzendo hipongos com sete raminhos de córdia,
Vi Tereza de Calcutá ensinando evitar discórdia.

12.
O cego Vivaldo sorria e cutucava Lampião.
Lampião compreendia e falava: “É nós”. Então
Eu vi assim de bem pertinho Jovelina e Jamelão,
Duck, Sarah, Elza e Ella a fazer improvisação.

13.
Madona – mia!!! – uma gata… que geme feito ema:
No Juremá, na França de Flaubert ou debaixo da Jurema.
Lady Gaga, no barco de Leide Lara, nas águas de Saquarema,
Infernizou tanto os paparazzi que eles voltaram pra Ipanema.

14.
Era mais de meia-noite e ninguém arredava Dali.
Nem um casal com sete filhos oriundos do Piauí.
Uma velha enfeitada: brincos, anéis, colares de rubi;
Uma turma de ninfetas descendentes dos Guarani.

15.
Enfermeiros, arquitetos, médicas e dentistas;
Jogadores de futebol, psicanalistas e tenistas;
Cozinheiros e copeiras, feirantes e eletricistas;
Políticos e garis, advogadas e floristas.

16.
Quem seria aquele moço na cadeira de rodas cantando?
Tanta gente de muleta, de bengala e se alegrando.
Crianças correndo a brincar e adolescentes ficando.
Só não vi naquela noite um só vivente chorando.

17.
Impossível descrever os excêntricos ali:
Tinha alguém fantasiado de pirata Bacardi;
Um Homem Aranha subindo no tronco da Mucuri;
Chacrinha compareceu com apito e abacaxi.

18.
O evento parecia um baile de carnaval:
Papangus eletrizados, um rei momo glacial;
Harry Potter, Peter Pan e uma bruxa genial;
Lady Godiva no Pégaso e Frinéia no original.

19.
Os ambulantes venderam, tranquilos, sem gritarias,
todo o estoque que tinham de suas mercadorias:
Bebidas pra refrescar, ou provocar euforias;
Leite, chá, café ou mate pra acompanhar as iguarias.     

20.
– Pipoca, cachorro quente, rabanada e alfenim.
– Picolé, algodão doce, maçã do amor e quindim.
– Sorvete, ponche, refresco, suco de fruta, dindim.
Tinha uísque licor e fódica, tudo tim tim por tim tim.

21.
Foi esse o rolé que eu dei de olho no coração…
… E o coração na boca… só namorando canção.
Não escapamos do bis: a vida é repetição.
Mas… cada bizzzzz é diferente, repara na emoção!

22.
Os aplausos foram loucos, calorosos e até
Só não aplaudiram de pé, porque já estavam de pé.
Falei pé? Quedei numas meninas a brincar de Finca-pé,
Obstinadas num jogo de expressões com o nome ‘pé’.

23.
Ganhava o jogo quem saltasse com o pé direito na tábua
E, num pé só, chutasse o vento e emparelhasse com o pé d’ água.
Nenhuma maneca daquelas julgou que a tarefa era árdua,
Mesmo sabendo que ainda teriam de cantar sua mágua.

24.
Pois então, ainda não disse, a tarefa consistia
Em pescar, na pose do Saci, com presteza e valentia
Palavras e expressões que tinham ‘pé’ na grafia.  
Fiquei pasma admirando aquela estranha pescaria.

25.
A primeira jogou o anzol sem o sinal da largada.
Mas não houve anulação, este item não constava
Na regra do jogo inventado. Atenção na sua jogada:
“Se dá pé, ninguém se afoga”, pescou um dito, a danada.

26.
Quando vimos, a segunda já havia disparado:
– Pé de cabra, pé de vento, pé de mesa, pé de mato;
Pé na porta, pé na bunda, pé na tábua, pé de pato.
Me dá o pé meu louro que eu te dou o meu sapato.

27.
– Não vou perder o pé (Disse a baixinha).
A nerd tomou os pés pelas mãos e, tadinha,
Jurou de pés juntos que não tira o pé da linha.
A vaidosa confessou não ter olhos pra pés-de-galinha.

28.
Olhando de onde eu olhava meu ponto de vista era belo:
Um jardim de pés de moças com talos de pernas al cielo,
Ímpares, os membros sustentavam a ilusão de um castelo
De cartas, de areia, de vento, de sonhos, de luas de mielo.

29.
Pé-de-chinelo, pé de guerra,  pé quebrado.
Enfiar o pé na jaca, em pé de igualdade, pé trocado.
Botar o pé no mundo c’os pés nas costas, pés d’ pecado.
Tem pé quente? Fica no pé de quem por tuas mãos foi coroado.

30.
Pé ante pé, enfiei o pé, apertei o passo.
A multidão vai dispersa e eu seguirei seu compasso.
Sairei à francesa como manda o figuraço.
Para rimar eu fuço tudo quando o sinônimo é escasso.

31.
Nisso que eu ia passando, eu ouvi esse cochicho:
– Sofre que só pé de cego, quem acredita em fuxico.
– Ela já estava com os dois pés na cova por capricho!.
Conversa de duas beatas com os pés fincados no lixo.

32.
Uns cariocas passaram dizendo que tinham prova.
Por isso a boca no trombone quando souberam da nova:
Disseram que viram João Gilberto, dando na ópera uma sova,
Tocando e cantando sem fossa. Tão falando em bossa nova.

P.S. Línguas ferinas sopravam línguas de fogo e de cobra. 

34.
Cadê aqueles dois? Nem fui vê-los no camarim.
Era tanta gente vip de pulseirinha e trancelim.
Cansada, fui rangar no hangar do Zepelim
Voltarei voando pra casa cantando feito um vim-vim.

35.
Em vez disso fui m’imbora béradêra pela estrada.
Vou escrever tudo isso assim que chegar em casa.
Mas agora ainda tenho que andar mui disfarçada
Na minha própria esperança, através da madrugada.


Apílogo

Isso é

Lagos de mel

ou

mel nos lábios do fim

and

a coda não é o end

Ecos na madrugada

I
Irei contar o que eu vi vestida com a saia de pálpebras:
O mundo se abrindo e fechando, nem precisava de mágica;
O povo do mundo chegando, com coisas da terra e da fábrica.
Para tudo decifrar, foi preciso estudar álgebra.

II
Lampião levou o Cego Vivaldo p’ra ver o mar.
Eu não vejo muito bem, mas enxergo o que não há.
Eu vi com aqueles olhos que a terra nos dá de olhar.
Vi o que ninguém viu e nunca jamais advirá.

III
Eu vi os dois bem ali nas belas dunas de areias.
Lampião, para o cego rir, se montava nas baleias.
Vivaldo chamou Caymmi e tocaram às pareias.
Caymmi chamou Jussara e foi música nas veias.

P.S. Para combinar com a saia de pálpebras…
… vesti a blusa das sereias.

IV
Eu vi: Um mar de gente em silêncio…
E na rabeca, Vivaldo a navegar…
Eu vi: Lampião deu ao Cego a luz das velas do mar.
Eu vi: O Cego mostrar a paz que Lampião deu de sonhar.

V
O mar batia nas pedras e em mim batiam as horas.
Lampião fugiu pra casar e Vivaldo foi embora
P’ras bandas de só-sei-quando onde quem canta não chora.
Ora, ora, bora, bora. Olha a Hora!!!!

VI
Eu jamais esquecerei aquele dia ensolarado.
O verão queimando as horas: nem futuro nem passado.
O presente era o mar, onde o tempo mergulhado
Brincava de se mostrar, entre as ondas, disfarçado.

VII
Para quem quisesse olhar, o tempo lhe mostraria
O fim dos tempos e o começo, no presente que morria
A cada segundo que passa, da meia noite ao meio dia. 
Para quem ignorava, o tempo nem se mexia.

VIII
Posso não ver muito bem, mas enxergo o que eu quero:
Os sonhos do meu amor, a alma de um bolero,
A bossa na minha dor. Sem o rock desespero.
Só não vejo como alcançar o tempo que nunca espero.

Notas
* Borito: Bonito 
** Rirri: Fecho-éclair ou zíper
*** Truta: Gíria do rap
****Carai: Gíria do rap


As Árvores

As árvores sabem que estamos de passagem, que não viemos para ficar. Esperam e observam nosso movimento. Elas se movimentam com o vento, com o ruído dos animais, todos de passagem. Observam e presenciam a morte de suas irmãs, que são carregadas em caminhões para serem transformadas em revistas, em móveis, em casas. [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro


Foto: Harmon Rapp

…que depois da morte cada árvore é um deus que ampara as
árvores.

Verso de “Um forasteiro”, poema de Jorge Luis Borges


As árvores sabem que estamos de passagem, que não viemos para ficar. Esperam e observam nosso movimento. Elas se movimentam com o vento, com o ruído dos animais, todos de passagem. Observam e presenciam a morte de suas irmãs, que são carregadas em caminhões para serem transformadas em revistas, em móveis, em casas. Quando uma árvore tomba ela deixa uma presença que ampara as outras árvores. Estão em toda parte, muitas delas latentes, aguardando para despertar num mundo novo, melhor, sem homens ou suas sombras. Estão em contato com outros mundos, outros planetas, outros povos. As árvores são a escrita de deus, sua caligrafia. Seus frutos são sagrados, objetos imantados. Cada um deles traz oito verdades e sete caminhos mas nós os devoramos aos milhares, sem pudor. Varremos com nossa voracidade milhões de frutos sagrados de árvores sagradas e nem mesmo o sabemos, ignorantes que somos. Mas estamos de passagem.

As árvores sabem que nossa literatura não perdurará. Suas raízes estão por todo o planeta, aprofundando-se rumo ao núcleo. Elas se alimentarão desse calor e migrarão no fim de tudo, através do vácuo. Vêm de longe, muito longe, descobriram a paz e acabaram a fome entre os seus antes de nós. Morrem e transmitem a mensagem e não perecerão. Foram os primeiros e serão os últimos a serem chamados, e atenderão. Muito antes nossa história terá sido apagada e nossas ruínas serão alimento de suas mitologias. São sonhadoras e ternas e não exercem poder. Lembram de nós nas suas longas preces porque sabem que estamos de passagem, porque se sentem responsáveis. Comemos os seus frutos e elas esperam que algo nos seja perdoado. Há de fato, uma grande dor no mundo pela nossa presença. Mas estamos de passagem. As árvores o sabem.