Xícaras herdadas | Um conto de Mabelly Venson


Sabedoria de avó é algo sublime. Comecei a perceber isso, na prática, na época em que eu era jovem – tão jovem – que incapaz de compreender os desafios e os ciclos da vida, sofria descomunalmente por situações que fugiam do meu limitado controle, mesmo quando essas, rapidamente se esfarelavam, se deixando levar pelo vento.

Ah, se pudesse voltar no tempo e me embebedar das doses de conhecimento que minha avó, intuitivamente me oferecia e eu, imatura, recusava.

Cai, várias vezes em abismos que eu mesmo cavava. Repertórios infinitos de angústias, dúvidas, reprovações, revoltas. Meu pai, não conheci. Mamãe guardou seu nome, trancado à sete chaves embaixo da língua, levando-o consigo em segredo, para o túmulo antes mesmo que eu tivesse idade suficiente para me revoltar e exigir alguma explicação. De um apartamento bem centro da cidade, fui levada, apenas com uma mala e duas bonecas, para o interior, para viver com Vovó Esmeralda, mãe de minha mãe, aos cinco anos de idade. Uma cirurgia de apêndice, mal feita, tirou Mamãe de nossas vidas.

Eu ainda não tinha 20 anos, mas meu com o coração já era amargo como fel, estilhaçado pela pólvora da angústia, da saudade, da inconformidade. Afogada em autocomiseração e vitimização, diluía minha mísera existência em lágrimas. Via toda minha existência como uma série de sucessivas derrotas.

Em um desses dias enquanto, sentada no chão vermelho da varanda, chorava pela minha cruel existência, Vovó – aquele ser que possuía o aspecto ingênuo e puro de quem já se desatualizou da vida – me fitou enquanto subia os degraus entre o jardim e a casa, se dirigindo até a cozinha. Ela tinha na testa, o aspecto preocupado de quem recorre última estratégia. Em suas mãos enrugadas, um buquê de pequenas flores lilases que espalhavam aquele suave perfume de alfazema.

Minutos depois, enquanto eu já enxugava os olhos com a palma das mãos, Vovó está de volta, agora, caminhando com cuidado, pé ante pé, equilibrando entre as mãos, uma bandeja que trazia de volta, o perfume das alfazemas.

Mal pude acreditar: junto com o perfume, minha avó trazia sobre a bandeja, três peças de seu conjunto de chá. Estranhei, o pequeno bule e as duas xícaras de porcelana antiga, eram as únicas coisas que sobraram de seu enxoval, sendo guardadas, na prateleira mais alta da estante da sala, como tesouro mais valioso que um baú de ouro. Nunca havia presenciado aqueles frágeis recipientes flutuado pela casa. Em meus sonhos de criança, me imaginava passando as tardes bebendo chá com Mamãe. Sorte das xícaras (ou provavelmente minha) que nunca consegui alcançar o auto da prateleira.

Provavelmente o perfume tenha me entorpecido. Fiquei ali parada, assistindo a cena: Vovó pousando, quase que em câmera lenta, a bandeja sobre uma velha mesinha. Em seguida, puxou duas cadeiras, preparando uma pequena festa, o prelúdio de ritual íntimo. Suspirando fundo, esboçando um pequeno sorriso, ela me olhou, fazendo um gesto suave com a mão direita, enquanto a esquerda continuava pousada sobre a mesa.

Vem cá. Sente aqui, meu bem! Vem tomar um chá com sua avó.

Não que me fosse estranho compartilhar a mesa com Vovó – há tantos anos fazemos que somos apenas nós duas, uma fazendo companhia uma para outra. O que estranhei foi o a louça. Durante todos aqueles anos Vovó me preparou, diariamente, uma xícara de chá. Quando criança, logo depois do almoço enquanto nos preparávamos para assistir as notícias do estado – hábito de quem já viveu muitas décadas – ela vinha cozinha, equilibrando dentro de duas xícaras o chá da hortelã colhida de nosso próprio quintal. Segundo ela, era para auxiliar a digestão. Passávamos a meia hora seguinte ali, uma ao lado da outra com olhos colados na televisão e o corpo no sofá de couro sintético. Eu, Vovó e nossas xícaras de chá. Mas, nesse dia em especial, eu estava conhecendo uma nova Vovó. Uma Vovó que parecia ter acabado de ser parida, porém, velha, sábia, alegre, experiente. Dela irradiava um brilho prateado. Seus olhos caídos se tornaram imensos como mar aberto.

Sentadas, nas cadeiras de bambu já desbotadas e carmomidas, Vovó me serviu o chá, não com hortelã, mas de alfazema. Levei a xícara à boca com muito cuidado – Deus me livre de derrubar aquela relíquia – sorvi o primeiro gole lentamente, como quem bebe uma poção mágica. Talvez fosse. Entre o sabor sutil da erva e seu perfume que dançando, adentrava meu corpo através de minhas narinas, ela me contou sobre sua juventude naqueles “outros tempos”. Tempos diferentes de agora, em para a mulher era destinado o serviço doméstico, do terço que era rezado em família todas as noites, de sua infância junto com seus doze irmãos. Pobre Vovó. Foi só naquele dia que soube que ela queria muito estudar, mas só pode frequentar a escola a segunda série primária, sem concluir o ano letivo. Parece que naquela realidade que parecia ser tão distante estudar não era prioridade para as filhas mulheres. Por esse motivo, Vovó aprendeu tudo que pode sobre os cuidados com a terra, o cultivo das plantas, ervas e temperos. Também se aperfeiçoou na costura, que lhe foi ensinada pela sua própria avó em uma máquina de costura movida a manivela – profissão que ainda exerce com maestria, mesmo que a fast fashion tenha colocado as costureiras para escanteio, deixando-as em desuso.

Vovó continuou por horas, revirando dentro de sua vida somente os momentos felizes. Falou amorosamente sobre meu avô e minha mãe, única filha dos dois, sobre o dia em que se mudaram para casa que vivemos até hoje, sobre a infância de minha mãe e seus brinquedos preferidos. Havia momentos em que ela fazia breves

pausas, e olhava fixamente para o nada, mesmo que aquilo fosse o tudo. Era quando seus olhos se umidificavam. Fui percebendo que ela manobrava seus pensamentos, conduzindo-os apenas para as boas lembranças, apenas para os momentos felizes.

Levei muito tempo para perceber que Vovó nunca reclamara de nada em sua vida. Jamais se queixou de sua sorte, de seus infortúnios, de suas perdas, das dores que rangiam através de suas articulações. Se havia alguma tristeza, alguma mágoa, ela deveria guardar com fecho hermético, dentro do pâncreas.

Acredito que Vovó tenha feito essa escolha – conforme conduzia sua vida, à passos agora lentos, deixava pelo caminho tudo aquilo que não lhe remetesse a bons sentimentos. Em algum momento, compreendeu que sua idade não permitia carregar pesos.

A inexperiência da juventude, não me deixou compreender, naquela mesma tarde todos os pequenos- grandes ensinamentos de minha avó. Esse processo se deu lentamente, conforme a maturidade se aprochegava pesando em meus ossos.

Agora, sem a presença de vovó Esmeralda, sempre a alguma tristeza me manda notícias, retorno para aquele dia. Com as xícaras herdadas, me sirvo de doses de camomila, erva-doce, capim-limão ou, quase sempre, de alfazema, enquanto manobro meus próprios pensamentos, os conduzindo apenas para as lembranças dos momentos felizes.


SOBRE MABELLY VENSON
Formada em Matemática e Gestão Escolar, participou de extensões universitárias na área de educação, literatura e cultura. É especialista em Livro, Literatura e Leitura pela Universidade Estadual de Ponta Grossa e aperfeiçoou-se em literatura infantil e em processos de edição para livros infantis e juvenis. Escreve profissionalmente desde 2017 em blogs e revistas digitais, tendo textos publicados na Revista Vida Simples, Cult e Portal Geledés. Tem escrito livros de literatura infantil, contos e poesias. Participou como organizadora e coordenadora de projetos educacionais voltados para literatura, como o Projeto Leituraço e Cem Anos da Passagem de Santos Dumont pelas Cataratas do Iguaçu.


A poesia de Patrícia Meireles

Patrícia Meireles, uma escritora em ascenção, ribeirapenense  escreve apenas poesia e prosa  mas recentemente quis aliar a música, escrita , das suas grandes paixões num clip, poesia declamada em dueto com a colaboração do ator Paulo Magalhães e convidou um rapper internacional Jorge MK nocivo para a edição/ masterizaçāo do mesmo bem como o instrumental.


Patrícia Meireles em cena do videoclip de Se eu partir amanhã

Relembrar

Relembrar é a única coisa
que faz sentido, agora.
sinto que estou perdido
nas lembranças de um passado
bem vivido.
Não vejo futuro, escrever
é o que me mantém vivo.
Quero alcançar o céu
e ser um anjo destemido
e voar, sem medo
que alguém me mate o sonho
de ser longe, livre e puro.
Menino de ouro, que matou
os genes e os valores snobes
que alguém lhe incutiu.
Gostava de dar amor,
a quem ódio ofereceu.
Relembro triste que, ser eu,
desiludiu, quem idealizava uma mente
que nunca existiu.
Mas relembro o que vivi,
e nunca fui senão um ser,
que é pela essência que se guia
em qualquer coisa que faz.
Sou triste por não te abraçar,
Mas feliz por ser eu.


Não vás ainda

Pouso o olhar, apesar do meu rosto
cansado, sobre a tua pele
que conheço tão bem, e tu a mim.
Hoje, eu quis dizer- te o que sinto
apesar da dor na alma, ser uma constante
agonia, perdoa-me..
Sei lá, por ser talvez um ser que nasceu
para criar, e estar no meu mundo sozinho.
Como as folhas das árvores que vão e vêm,
sinto o tempo a correr-me desesperadamente entre os dedos,
a dor ainda cresce mais em mim.
Tenho tanto para te dizer, mas não sei
como fazer, perdoa-me..
Não vás ainda..
sem a tua presença, perco a esperança
e não consigo remar.
Não vás, por mais que eu queira estar no mundo metafísico, eu pensarei em ti
mesmo não estando contigo
fisicamente, a minha alma
Acredita, nasceu para te amar.
Por isso, sei lá,
ainda é cedo para partir.


Partida

Abandono o silêncio,
e rumo à descoberta
de um ser que cobre o mundo
e um cais de areia
em sangue,
um aborto profundo…
De um ser que quis ser
e ansiava tudo aquilo
que algum dia alguém possuiu:
Ser o detentor da sua alma, perdida,
nunca se encontrou.
Então decidiu partir.
Não chores, aflita, com o meu desencontro.
Nunca fui mais que um mero ser
que sentiu demais por nascer,
numa sociedade inquieta.
Recorda-me apenas, não chores, sei lá!!!
Talvez amanhã,
o teu anjo, te torne a abraçar.


Não há algo

Não há algo,
mais terrível do que a pele.
A pele é vunerável ao tempo,
arde no peito.
há na pele o toque que a alma
precisa, para sentir que o tempo
é finito, e não um tornado
a fazer estrago no corpo,
e a degrada-lo, bruscamente
com a passagem do tempo.
O toque sensorial mais belo,
botão que acende o coração.
não há pele que substitua outra,
nem toque mais belo
que tocar na pele e sentir
o cheiro da alma, como uma flor
a desabrochar em pleno inverno;
Mãe, eu tremo de frio
sinto o sangue a esvair-me pelo corpo
Todo .
Se eu correr para os teus braços
vais conseguir ver o que eu sinto agora?


https://youtu.be/kzobpjxsahM

Patrícia Meireles, uma escritora em ascenção, ribeirapenense  escreve apenas poesia e prosa  mas recentemente quis aliar a música, escrita , das suas grandes paixões num clip, poesia declamada em dueto com a colaboração do ator Paulo Magalhães e convidou um rapper internacional Jorge MK nocivo para a edição/ masterizaçāo do mesmo bem como o instrumental.

Participou em Antologias de Poesia( Edita, 2020), ” liberdade” (chiado books) e Inventário dos poetas portugueses- Antologia do País da Poesia- vol 1 ( Maio 2021).

Lançou duas obras ” Des(ordem), o trocadilho sentido ” e ” C carta que nunca escrevi”( 2021) ambas na editora Poesiafaclube.

Continua a escrever para os jornais brigantinos, revistas e sonha continuar a partilhar o que escreve pelo mundo fora. Tem uma “alma inquieta” e é uma observadora estupefacta do mundo e é isso que a carateriza melhor.


registros de um casulo antropofágico | Os escritos de O Rei Ricardo Coração de Leão 

visual que apresenta suas criações principalmente na ilustração. O quotidiano, a solitude, o sentimentalismo e a fragilidade são elementos também presentes nas produções da artista que, de forma íntima e minimalista, comunica em seus desenhos os pensamentos de seu coração. 


pintura do passado

pinto brutalmente um retrato do passado
( sem nenhuma pretensão)
sinto-me enclausurado
E tudo que já retratei
sinto estar despedaçado –
Não trago mais no coração
do que aquilo pelo qual fui cativado ;
E de tudo isso que amei
sei que um dia deixará de ser lembrado …
Infeliz aquele que se vê
Numa pintura feita do passado.


afrescos

Tudo que me dói
vem do íntimo do
In finito
as coisas que não terminam
mímeses falíveis do destino
Dores diluídas em
Instantes indecifráveis
Momentos errôneos, dos quais
não há retorno para a glória
tampouco escape do sofrimento
Assim, tudo que tenho são afrescos
Enfeitando uma existência de influência duvidosa
Aparentes na superfície enganosa
e de tão falsa, talvez bela
;
Detalhes esplêndidos
princípios primordiais.


Passeio contigo
Pela casa das coisas antigas
e vejo tudo que um dia funcionou
O rádio que não toca
As roupas colocadas no cabide pela última vez
As joias expostas em vitrais
se até as coisas úteis envelhecem
Quem sou eu pra vencer na vida?
Lembro-me de quem fui um dia
fragmentos recortados do passado
de sentir as coisas de outra maneira
de usar uma coisa útil que jamais envelheceria
Erguer bandeiras em prol de
Uma idéia fixa do mundo
de que não importava o resto
O passado é um lugar distante e solitário que volto sempre
Uma coisa útil envelhecida
Onde leio os livros tentando encontrar
rememorando alguém que viveu
E morreu
No mesmo solo
O mesmo tempo comum
A Mesma água correndo no corpo
Os olhos abertos
Enxergando o mundo


Apostar em ideias
Inexistentes
Trabalhoso esforço esquizofrênico
Frente a um combate ilusório
Atravesso todo o relevo
E percebo a paz atormentada que há na desistência
Às vezes prefiro as outras coisas do mundo
Só às vezes
Quando não tenho graça.


chuva ácida

Penso nas coisas como
Passageiras.
Como idéias que existem
e podem morrer a qualquer instante.
Como rios voadores vermelhos
que chovem a doença e a violência sobre nossas cabeças afetadas
Trazendo a guerra de outros estados.
Como uma cortina de fumaça,
penumbra dos novos ares,
que avança cobrindo a luz.
Ímpares impactos
que deixam
– apenas –
marcas.


Creio que o pior é quando passa
Quando podemos sair da caverna
do conforto febril
E visitar o seio ardente da desgraça
da Mãe que chora lágrimas de vida
Por não poder nos aguentar.
O homem
– blindado de uma convicção patológica – ,
Tentando entender o porquê,
Procura falsas explicações nas utopias mais distantes
Inventa modos , novas maneiras …
Nada disso é de verdade
Tudo faz parte do mecanismo do conforto
Do alívio imediato
Para estancar uma dor primitiva
Causada pelo próprio.
Mas não importa
Nossas vidas são um crime que não ficará impune
Uma doença a ser tratada
e expelida pelo próprio organismo …
A natureza nunca nos perdoará


Contemplado pela Lei Aldir Blanc 2020 do município de Jundiaí-SP, o livro “registros de um casulo antropofágico” – digital e totalmente gratuito – traz uma seleção de escritos que são desenvolvidos desde 2017 por O Rei Ricardo Coração de Leão. Tratam-se de registros pessoais que, de forma íntima, revelam uma percepção solitária do mundo. 

As produções partem de um lugar intuitivo, que ao mesmo tempo reflete suas inspirações ligadas ao romantismo, seu caráter individualista, sentimentalista e solitário. 

Procurando potencializar e ressignificar em outros formatos essa poética, a solidão do autor encontra a solidão de Maria João, artista visual que apresenta suas criações principalmente na ilustração. O quotidiano, a solitude, o sentimentalismo e a fragilidade são elementos também presentes nas produções da artista que, de forma íntima e minimalista, comunica em seus desenhos os pensamentos de seu coração. 

CLIQUE AQUI PARA BAIXAR O LIVRO

Ficha Técnica:

escritos O REI RICARDO CORAÇÃO DE LEÃO 
ilustrações MARIANA SANTA MARIA JOÃO 
produção executiva LETÍCIA ROSA 
diagramação e design FELIPE LIMA   


Quatro poemas do Sertão Novo

Wellington Silva é professor da rede pública, músico e mestre em Ecologia Humana. Publicou livros de ficção e de ensaios. Publicou-se dezenas artigos acadêmicos em revistas especializadas. A convite contribui à equipe editorial da Revista Utsanga — Rivista di critica e linguaggi di ricerca. Fundou as Edições Parresia em 2019.

Poemas de Wellington Silva


Foto: Santiago Manuel De la Colina | Pexel

A alma dela é terrosa

A alma dela é terrosa
Como o chão da fazenda
Ao pé da Serra Graviola
A alma dela é terrosa
E é aí que a flor floresce
Que a muda cresce
E um néctar seduz
A toda sorte de voadores
(Eu, vocês, nós e eles!)
Quantas vezes morrerei?
A alma dela é terrosa
E eu afundo as minhas mãos aí
Desenho em sulcos simétricos
Por desenhar, somente
E depois vou-me embora
Levando o restante de mim sobre as costas
A alma dela é terrosa, sim, de argila fina…
E um cordão de prata
Me arrasta de volta e desperto
Desviro-me ave, sapo, lobisomem,
E me pego com o rosto colado nela
À balada pequena de um rádio de som abafado
Minha barba antiga retém areia
Minhas mãos tremulam em seu corpo
E é igual a morte de aroma verde e cortante
De grama rasteira que o demo rebenta


Dois lugares

Dizem que o tempo passa
Nuvem que ninguém percebe
Arco, arcabouço, fumaça
Um ardor de amor perene

O campo cheio de aguerridos homens
Os estandartes, as lançam não cansam,
e nenhum grande fim ao nosso sangue, nunca
O vento quente e a poeira fina roem os nossos olhos

O herói é só mais um ser meio cego
e que chora às primeiras notas da canção
Envolvido em paixão confusa, esqueceu a própria mãe

E após, eu sempre digo — Assenta-te aqui,
amigo antigo! Conversemos! A palavra é abrigo
e o fogo não cessa de queimar em nosso
meio, amolecendo o ferro das espadas


Pele de argila viva

a pele furta-cor do homo universalis
no último discurso bendito da paz
(cê ouviu?)
parece a pele de plástico de um replicante

as mãos gigantes dos serventes de portinari
as três filhas da noite em as parcas de goya

a fuligem do archote de prometeu

todas estas cores têm a sua base no vermelho

a carne mesma retém essa luz oval da vida
que se pinta e que se diz

e anseia existir em paz             quando dá…

mas aqui também habitam certas moiras
(notamos serem todas
amantes dos coronéis)


voar

— de uma imagem em ilford b&w assombrosa

no meio mais entremeado da caatinga
no gris mais intenso da mata
no alto mais alto da serra craunã
o derradeiro profeta çampancê
numa gruta contra o vento luta
num movimento frenético de braços

o pó dos tempos no hiato das cigarras
existencialismo revelatório (dmt)

novo mundo jurema preta
o profeta é liberto/repleto
as epifanias das formas arcaicas
um alfabeto na textura dos lajeiros/
o saúda um anu-preto-deus
a loucura de entrever o divino

corre o profeta! seus pés de fogo/
sua voz fanha aguda grita aboiar

— arêrêêêêê!… arriááááá!… arriarrááááá!…
arroiôôôô!… rááááááiiiii!… irraiááááá!…arêrêêêêê!…

e o céu se abre na palma da sua mão vasada


Wellington Amancio da Silva é professor da rede pública, músico e mestre em Ecologia Humana. Publicou livros de ficção e de ensaios. Publicou-se dezenas artigos acadêmicos em revistas especializadas. A convite contribui à equipe editorial da Revista Utsanga — Rivista di critica e linguaggi di ricerca. Fundou as Edições Parresia em 2019. Destacam-se Ontologia e Linguagem (2014), Figuras da indiferença (2019), Gumbrecht leitor de Martin Heidegger (2020), o reneval (2018), Primeiros poemas soturnos (2009), Apoteose de Demerval Carmo-Santo (2019), Os outros, sertão de argila escura (2021). Há publicações avulsas nas revistas Mirada, Ruído Manifesto, Germina, Gazeta da Poesia Inédita (Portugal), Magma (USP), Revell (UEMS), Letras Raras (UFCG), Literatura & Fechadura, Aboio, Diverso Afins, 7Faces, Eutomia (UFPE), Sítio (Portugal), Tyrannus Melancholicus.


As praias estão desertas — A poesia de Kaio Phelipe

Poesia chegando nas águas da Revista Kuruma’tá. É o nosso inbox mágico, que sempre nos surpreende com criatividade e talento.

Kaio Phelipe é do Rio de Janeiro e tem 24 anos. É autor dos livros Não existe pecado no lugar de onde eu vim, Para o homem descansando ao meu lado e Como cuidar de um girassol.


Visita

Da cozinha, vem gritando o meu nome
com urgência de descoberta na voz
e nas mãos traz uma colher
cheia de geleia caseira de cajá
pra que eu prove pela primeira vez.

O cheiro doce inebria os cômodos da casa
comia muito disso na infância, diz
e reserva uma parte para que eu leve comigo
e me sirva no desjejum seguinte.

Prolongo a minha estadia e depois a minha partida
o máximo que posso sem parecer ridículo
paro alguns segundos no hall de entrada
e o namoro onze andares acima
dessa vez com a mão estendida
como quem diz que me ama na língua de surdos e mudos.

No meu embarque, os últimos vagalumes
do mundo me observam no escuro da estação de trem
encaram minha forma igualmente animalesca
carne provisória e esfinge
meu coração-torniquete de término e lamúria.


E agora, homem?

Ainda vivo do que a gente foi nessa rua
depois disso nada mais floresceu
o Centro fica mais feio a cada hora
antes havia um certo charme nisso
agora a feiura alcança patamares absurdos
quase tudo deserto
cheiros esquisitos
filas enormes de gente passando fome
quase todos negros
e não importa quantos políticos a gente desmascare
há sempre um que está por vir.

Queimamos a faixa amarela
que delimita o fim do mundo
e agora, homem?
Nós que testemunhamos a existência
das árvores, os animais e as salas de teatro
nossa revolta que ia ser transformada em um país melhor
mas o país foi por ralo abaixo
como o gozo de um homem no chuveiro e às pressas.

Não somos mais os meninos sonhadores
elevando o amor ao máximo
hoje a gente transa sempre pela primeira vez
com algum menino bonito esculpido entre ferros de academia
como uma máquina
que só fala de si e do intercâmbio em Dublin
e a beleza não era para ser um defeito
hoje a gente senta em um desses bares hypados da Tijuca
em ruas que não dão vontade de entrar
hoje a gente desperdiça dois corações fartos
em conversas chatas sobre propósitos de vida falhos
que a gente conversa para não ficar fora da curva
uma curva cada noite mais alinhada.

Tudo faz de mim alguém que provavelmente não irá vencer
mas enquanto não me envergonho disso
é urgente que eu diga a você que tenho saudades
e a Rua 20 de Abril está horrível
como Torquato Neto disse: aqui não tem mais nada da gente
a literatura é a única que me abraça quando nada mais funciona [e já não é o bastante].

Quando cruzei a 20 de Abril
eu queria que o menino ao meu lado fosse você
e queria presenciar seu rosto
quando se deparasse com o apocalipse
entre o Hospital Souza Aguiar e a Casa de Swing Mistura Certa
e queria saber quais são suas pontuações
a respeito da aniquilação de toda mocidade e fé que um dia tivemos.


Bichos raros

Os dias que não nos falamos
não valem os cacos de vidro
o sangue pingado pela casa
faço planos de vingança
me masturbo pensando em outro
venço as batalhas sozinho
invalido quando estivemos juntos
e depois me arrependo
fico sentado bem vestido
acompanho o final da novela
vinho em uma mão caso eu te esqueça
e celular na outra caso você ligue
quando o tranco aperta
e sua saudade nos arma um encontro
vou forte feito um touro
com um sorriso de quem venceu
porém falso e estagnado
abstêmico do cheiro do teu sexo
de preparar sua roupa pela manhã
envergonhado corro ao banheiro e me masturbo
tento expurgar o desejo que sinto
mas falho
e morro prematuro como um louva-a-deus.


Os perdedores

Suspenderam a fabricação de biscoitos Globo
as praias estão vazias
assim não há como saber o que pensam os homens
que enfrentam o horizonte
ocasião favorável somente para as infiltrações nas paredes
no lado matéria dura, o mesmo cheiro de mofo e ameaça em tudo
o cenário é cadavérico
plantas de plástico se conservam cobertas de poeira
e eu sei que se tivesse te encontrado naquele sábado a noite
nada disso teria acontecido
toda estação acho que minha rosa do deserto vai morrer na próxima
estou de malas prontas
de acordo com meu tio, o homem mais sensato que já conheci
só é possível ser feliz até os trinta e cinco
para mim faltam alguns anos
para você um pouco menos
já quis que fosse verdade que não há tempo para perder
com memórias
recriar o mundo através de narrativas modernas
precisar de outros inícios
o que não quer dizer adiar a época das tangerinas
abandonar alguém é a verdadeira desventura
perder a cumplicidade também
mas aí a minha ignorância e a minha impaciência

o que mais sei sobre o dia de hoje
15 de maio
é que fundaram a expectativa em 92
não tenho memórias desse ano
se vim até aqui,
foi graças à crise híbrida,
a educação pela tragédia
mas veja que não estou muito bem
você achou que eu ficaria tranquilo no mundo
agora veja com seus olhos
na vida a gente comete dois ou três erros grandes
e temos dois ou três amores inesquecíveis
então faça as contas
se eu fosse fiel às minhas promessas
teria visto o extraordinário
teria sido o paraíso, não só
chegado perto
o primeiro dia de saudade é o mais tranquilo
durmo a maior parte do tempo
mesmo que já tenha perdido todas as possibilidades de descanso
daqui a nove luas, não sei
não há mais nada que mude radicalmente minha vida
para acariciar meu coração e expurgar meus fluidos,
restaram edições G Magazine 2005 e poesias de Anderson Herzer.


Kaio Phelipe é do Rio de Janeiro e tem 24 anos. É autor dos livros Não existe pecado no lugar de onde eu vim, Para o homem descansando ao meu lado e Como cuidar de um girassol.


blues e minotauros | a poesia de bruno gaudêncio

Texto de Toinho Castro


Demoro-me a ler. Não levo jeito pra Tik Tok literário na base de ler 10 livros por semana. Os livros chegam aqui em casa e dormem, esperam. Pego um e leio. Largo, e pego outro. Leio pulando poças. Não me obrigo. E quando leio é com amor. Com carinho. E demoro-me nas páginas, perco tempo com elas. Alguns me corrigiriam: Perda, não! Investimento! Mas pra mim, leitura não é investimento. Leitura é perder-se mesmo. Leio pra me perder no livro. As lições que tiro de um livro é o próprio livro, sua leitura.

Dito isto… no ano passado recebi pelo generoso carteiro que sempre me traz livros, um exemplar do livro de poemas blues e minotauros, do amigo, escritor e poeta paraibano Bruno Gaudêncio, com belas ilustrações de Felipe Stefani. Ao longo desses visitei e revisitei suas páginas, idas e vindas encantado com os versos que Gaudêncio reuniu nesse volume azul. E hoje escrevo um tanto sobre ele, tardiamente, talvez. Mas creio que sempre seja bom trazer à tona um bom livro. E blues e minotauros está de categoria de belíssimo livro de poesia. O que não é fácil, nem simples, de se conseguir.

Gaudêncio escreve com o amor dos que escrevem com amor. No prefácio, Henrique Rodrigues aponta a versatilidade do escritor, que vai da prosa ao ensaio aos quadrinhos e à poesia. E é na poesia que o encontro, onde escreve um poema sobre o ato de não escrever um poema. Assim abre-se essa porta que se fecha atrás de mim. A porta do labirinto. Não é à toa a imagem do Minotauro. Não é à toa no plural… essa velada ameaça que há mais de um Minotauro solto por aí. Quanto à imagem da capa, que nos remete a um labirinto geométrico, é enganosa. As ilustrações que acompanham as poesia, se formam em orgânicos labirintos de linhas. Se eu puxar uma linha desmancharei o labirinto?

A poesia de Gaudêncio é o que encontramos caligrafada nas paredes, algo deixado ali por alguém que quis falar aos que transitam nessa senda, de dias e noites alternados, que é a vida. Viver significa deixar ruínas, escreve o poeta. Será a poesia a ruína de mundos anteriores, ou a vida que reina nessa ruína e reconstrói o mundo? Que coisa boa é ler e se encher dessas percepções, derivas, indagações. Essa poesia do labirinto é feita de marcações, passos na areia ou notas na pauta. Sendo assim, talvez funcione como um mapa. Dizem que se você sempre virar à esquerda num labirinto, chegará ao seu centro. E lá, talvez, encontremos o Minotauro com a guitarra de Robert Johnson a murmurar um Blues, a loa que estávamos ouvindo desde a primeira página imantada desse livro.

Naturalmente isso não é uma crítica literária, mas o relato do encontro de um leitor com um livro, com um poeta, na bruma desses dias. Na dedicatória, ele escreveu: Para o amigo Toinho Castro, estes labirintos. Porque o poeta sabe que no labirintos já estamos e é neles que damos uns com os outros. A poesia é fio de Ariadne, Gaudêncio também o sabe e deixa seu traçado para nós. Não para acharmos a saída, mas para nos perdemos ainda mais, adentramos ainda mais a linguagem.

Ao ler blues e minotauros, não tenha pressa.

blues e minotauros é um livro da Editora Leve

O laborioso Ray Harrihausen

Texto de Luiz Henriques Neto


Ray Harrihausen

“Jasão e os Argonautas”, de 1963, está na Netflix. Provavelmente a obra-prima de Ray Harrihausen, uma casa de efeitos especiais de um homem só. Inacreditavelmente, depois de criar o primeiro dinossauro gigante destruindo cidades em 1953 em “O Monstro do Mar” e os discos voadores com bordas rotativas de “A Invasão dos Discos Voadores”, descobriu que não havia muita demanda para criaturas animadas em filmes de alto orçamento e os com pouca grana preferiam pagar 2 tostões para dar vida a “The Giant Claw” porque o público infanto-juvenil que eles almejavam não ligava tanto – pensavam os produtores – para a qualidade.

O que deu impulso à carreira do Harrihausen foi seu encontro com um jovem produtor, Charles H. Schneer, que amealhou fundos para fitas que, ainda que de baixo orçamento, se submetiam completamente às vontades do sujeito com infinita paciência para modelar e animar quadro a quadro tudo que era tipo de criatura que se pudesse imaginar. A primeira parceria dos dois, “Simbad e a Princesa”, esperou por 11 meses Harrihausen completar seus trabalhos, mas estourou a bilheteria e abriu caminho para o laborioso artesão dar vazão às suas fantasias, que em sua maioria envolviam mitologia grega. Daí, em 1963, já com mais dinheiro no bolso, partiram para “Jasão e os Argonautas”. E botaram a casa abaixo.

A fita tem atores melhores, miniaturas melhores e animações melhores. Se a luta do Simbad contra um esqueleto em “Simbad e a Princesa” deixou o público de queixo caído, que tal então uma luta contra SETE esqueletos simultaneamente? Harrihausen inventou um novo processo de animação, que separava atores dos cenários através de iluminação por vapor de sódio, o que evitava ter que pintar quadro a quadro em um negativo de 35 mm os viventes de movendo, e que permitia incluir seus modelos no meio dos personagens e dos fundos. Ainda assim, assistindo à cena abaixo, as explicações que eu acho mais críveis para sua confecção são a) pacto com o Diabo b) magia negra c) viagem no tempo para roubar um computador.

Os esqueletos seguidamente cruzam espadas com os argonautas – na verdade, a coreografia da luta é extremamente empolgante e bem urdida para a época. Os esqueletos mostram jogo de pés para manter o equilíbro enquanto pelejam. A sombra deles é projetada na mesma direção que as dos argonautas. As cenas têm cortes e mudam de ângulo NO MEIO DE UM GOLPE. E ainda por cima têm o fabuloso movimento extremamente definido da animação de miniaturas quadro a quadro.

O Parque Jurássico abriu as porteiras para computação gráfica quando os técnicos, nos estudos preliminares, desenvolveram um programinha que dava borrão de movimento aos personagens informatizados. Filmes rodam a 24 quadros por segundo e em 1/24 de segundo algo que se mova rapidamente vai parecer um borrão no quadro. Nossos olhos também enxergam a essa velocidade. A animação quadro a quadro com bonequinhos é feita com fotos deles parados, então os movimentos parecem nítidos demais, uma experiência bem diferente do que estamos acostumados a ver. Por isso a animação por computador se tornou tão difundida depois dos dinossauros do Spielberg.

Só que depois que passa a onda de ver monstros hiper-realistas se mexendo, quem cresceu, como eu, vendo esses seres animados quadro a quadro, percebe que essa movimentação hiperdefinida em verdade dá a esses entes uma sensação de irrealidade onírica. Claramente essas criaturas são abominações aos olhos de Deus, antinaturais e nascidas em nossos mais infantis pesadelos. Em “Jasão e os Argonautas”, por exemplo, os primeiros movimentos de Talos em meio à soturnez das estátuas gigantes espalhadas por uma ilha desértica e abandonada são arrepiantemente fantasmagóricos. E remetem aos clássicos pesadelos de monstros gigantes perseguindo VOCÊ em meio a uma cidade. E, recentemente, descobri que não sou só eu que gosta desse efeito sobrenatural da movimentação na animação quadro a quadro. Vários filmes mais recentes usaram computação gráfica sem aplicar borrão justamente em busca dessa atmosfera inquietante.

Tudo isso só pra recomendar que, ei, não percam “Jasão e os Argonautas” na Netflix. A imagem está a mais bonita que eu já vi desse filme – eu consigo ver as harpias direito, o que sempre me foi impossível em 20 polegadas de tevê de tubo na Sessão da Tarde ou em VHS (ou em 32 polegadas e DVD). Harpias, aliás, animadas enquanto voam lutando contra uma rede (!!!!!) E, abaixo, o melhor efeito especial de todos os tempos, pra quem ainda não viu. Corram porque todos sabemos que grandes filmes somem da Netflix mesmo quando parece que ninguém se importaria em levá-los para outra plataforma de estrímem.


Violivoz: Um encontro que encanta, redime e inspira

Texto de Toinho Castro —


Ontem tivemos essa alegria absurda de assistir ao espetáculo Violivoz, esse encontro inacreditável de Chico César com Geraldo Azevedo. Sair de casa num Rio de Janeiro tão maltratado, num país tão dilacerado, para ter com essa luminosidade e essa força que é a música desses dois artistas, é uma renovação de fé.

Violivoz se dá num cenário delicadíssimo, que honra as seis cordas desse instrumento que costurou, ao lado da percussão, o coração da música brasileira: o violão. E foi na costura de seus dois violões que Geraldo e Chico desfiaram, em mais de 20 canções, um repertório em que uma pérola sucedia outra. Repertório? Melhor chamar de patrimônio, imaterial, que se materializa na vontade de dançar, de cantar junto, de segurar uma mão e abraçar.

Como é que dois artistas tem uma coleção de músicas como essa? Músicas que todo mundo reconhece facilmente, imediatamente. Músicas que conhecemos os acordes, harmonias e a poesia das letras de cor(ação). E a gente vai ouvindo e se emocionando, porque elas estão carregadas de história, tradição, memória afetivas… de quando tocaram no rádio e as escutamos numa certa primeira vez, que achávamos perdida no tempo e que nos retorna, saborosa. Esse encontro é reencontro que nos alivia.

Cantores, compositores, poetas… carregando o violão que os carrega. O violão que aprendi a ouvir com meu pai, com o disco Abismo de rosas, de Dilermando Reis, que lampejava em nossa casa, em tempos idos. Violões de Baden, Toquinho, Rosinha de Valença, Yamandu Costa e outros tantos nomes que poderíamos enfileirar aqui. A versão instrumental de Bicho de 7 cabeças (que já teve tantas versões), com os dois duelando e se abraçando e se emaranhando como uma hélice espiralada e assanhada de DNA, é de chorar de amor, de se ajoelhar diante desses dois gênios, que residem na grandeza de não pretender o ser.

Geraldo e Chico se completam o tempo inteiro, numa parceria que combina a calma transcendente do primeiro com o espírito saltitante do segundo, ambos mergulhados na alegria que pode ser a representação máxima desse país, desse povo que não para de cantar.

Todo o espetáculo foi um ato, um gesto, uma gesta, de resistência absoluta contra o estado das coisas que quer se impor sobre nossa verve (palavra bem lembrada por Geraldo em suas falas), sobre nosso jeito encantado de viver o mundo, que todas aquelas músicas tão bem descrevem e reafirmam. Foi o ato sagrado do povo que dança, que beija, que vibra e não arreda o pé enquanto o amanhecer chegar. E chegará. Ouvi essa promessa ontem, nas cordas imantadas daqueles violões e daquelas vozes ancestrais, que escuto dentro de mim há tanto tempo. Senti-me criança, possuidor de um futuro iluminado.

Violivoz encanta, redime e inspira. Ô dinheirinho suado bem empregado! Botar dinheiro na cultura do nosso país é acreditar no que ele tem de imenso. Ontem lembrei do meu pai, da minha mãe e dos meus irmãos, com quem aprendi ser brasileiro e ficar assim emocionado.


PS. Gente, Dia branco é nossa Love of my life. Tem essa dimensão que atravessa as pessoas, que todo mundo sabe e todo mundo canta. Se Geraldo e Chico se aquietassem com seus violões, a contemplar a plateia, aquele povo cantaria Dia branco do começo ao fim. Brasileiro nasce com Dia branco espalhada pelo corpo e pelo espírito.


Um jambeiro no Maranhão

Texto de Toinho Castro —


Estava eu a visitar uma comunidade quilombola lá no Maranhão, quando vi um jambeiro enorme. O chão de terra aos seus pés estava coberto do tapete aveludado e magenta de suas flores. Dias depois, pensei que deveria ter fotografado. Mas há coisas que não fotografo, pra guardar na memória. E contar pras pessoas como eu me recordo, sem o testemunho das fotografias. Sinto que as fotos, que tanto tiro por aí, sequestram minha imaginação, e paralisam o instante que deveria ser dinâmico na minha memória. Talvez digam os estudiosos da fotografia que ela é qualquer coisa, menos estática. Talvez seja verdade… mas ainda assim, cada fotografia que tiro me impede de lembrar o que vi.

Então, aquele jambeiro, com seu denso tapete de flores, lá na comunidade de recurso, no Maranhão, é um fotograma límpido e inacessível aos demais, na minha memória. Deve estar a caminho a tecnologia que lerá nossas mentes e fará JPGs da nossa memória, ou dos nossos sonhos. Mas por ora, o jambeiro é um redemoinho alojado na minha rede de neurônios. Em algum lugar do meu cérebro, que nem eu sei onde é. Algo que, no fim das contas, não existe.

Esse dia em que vi o jambeiro e seu tapete magenta de flores cobrindo o chão, era 4 de abril, aniversário do meu pai que já morreu. Data auspiciosa. Ao chegar no Maranhão, lembrei muito de seu Antonio, como todos o chamavam, porque para lá ele diversas vezes, ao longo de seus trajetos Brasil adentro. Íamos, quando eu pequeno, para o aeroporto, para poder falar com ele nas cabines da Telpe, a companhia telefônica de então. Do outro lado da linha, meu pai em São Luís, ou Imperatriz. Sua voz, agora um fantasma. Escrevi um poema sobre isso no Imbiribeira, meu livro que escrevi pra ele, pra minha mãe, para meus irmãos.

meu pai, seu antonio, está morto
mas bem poderia estar em belém
ou imperatriz, ou mesmo santarém
olhando os navios no cais do porto

posso recuperar a sua voz espectral
numa ligação direta a distância
por meio de uma mágica substância
que torne tudo ainda mais irreal

enfim, a morte do meu pai já se deu
restamos minha mãe, meus irmãos e eu
e uma certa noite congelada na memória

noite esquecida dos livros de história
no aeroporto minha mãe, meus irmãos e eu
ouvindo a voz do meu pai que já morreu

É possível que meu pai, seu Antonio, tenha passado por Santa Rita, onde fica Recurso e seu jambeiro (agora meu) no longo caminho entre São Luís e Imperatriz. É possível que existisse já esse jambeiro, próximo à ferrovia, talvez um jambeiro filhote ainda. Jamais saberemos. Jamais saberei.

Lembrou-me, pois, esse jambeiro, os jambeiros que minha mãe plantou, no edifício Inês, em que vivíamos na Imbiribeira. Três jambeiros que cresceram frondosos, essa palavra maravilhosa, e que produziram seus tapetes de flores. Até que foram cortados por uma vizinha que achava que as flores e folhas eram sujeira. Violência é o nome disso. Minha mãe sentiu-se particularmente atingida. Era algo contra ela, contra sua alma. Ela amava os jambeiros e seus veludos magenta sobre o chão. Queriam cimentar tudo, cessar as flores e os sombreados. Eliminar essa coisa incômoda chamada vida. Talvez seja o jambeiro nossa planta familiar. Por isso me emocionei ao vê-lo em Recurso, no dia do aniversário do meu pai, que morreu. Num mundo remoto que ele habitou, percorreu, sem ter tirado fotos.

De volta ao Rio, dias atrás, vi numa rede social as fotos que uma amiga, Angela, publicou da floração dos jambeiros. Ariano Suassuna fala num poema dos “…ouros das acácias do Recife / nos cabelos de sol-pela-manhã“. Joaquim Cardozo e Mauro Mota escreveram sobre os cajueiros e não faltou quem cantasse o verde dos canaviais. Não sei se há poemas sobre os jambeiros e sua floração atapetando nossas ruas, nossas memórias. O jambeiro distante, lá em Recurso, se conecta ao meu pai, e aos jambeiros de minha mãe e sua alma.

Arrastamos assim os vagões dos dias, todos ligados uns aos outros. Cada um carregando sua preciosidade, uma BR no Maranhão, a voz de seu Antonio na cabine da Telpe, dona Lenira lamentando seus jambeiros perdidos.

A leitura do mundo,
da nossa rua e dos vizinhos,
o significado das árvores cortadas
no jardim de nosso prédio
e o jasmim noturno
passavam através de suas palavras.

E agora, também, esse jambeiro altivo, tão verde, majestosamente adornado por uma densa camada de flores no chão de terra aos seus pés. Flores como se fossem sua sombra, circular, dissipando-se nas bordas como as bordas de uma galáxia se desfazendo no oco do universo. Isso tudo diante de uma casa simples, porta e janela, paredes brancas, que a chuva salpicou de barro, ao cair por tantos anos. Essa é a imagem que eu guardo. E que agora, você, que me lê, também guarda. Já de outro jeito, de um jeito que só você sabe e vê. E essa transformação do que eu imagino naquilo que você imagina, é o que me alegra.


Dicas de leitura Kuruma’tá

Não sei se ler é o melhor remédio, mas sem dúvida é bom demais. Ou melhor, pode ser bom demais quando a gente recebe assim umas dicas certeiras. Hoje a gente, aqui na Kuruma’tá, vai destacar algumas leituras que estão valendo MUITO a pena.


Não sei se ler é o melhor remédio, mas sem dúvida é bom demais. Ou melhor, pode ser bom demais quando a gente recebe assim umas dicas certeiras. Hoje a gente, aqui na Kuruma’tá, vai destacar algumas leituras que estão valendo MUITO a pena.

SANTUÁRIO,
de MAYA FALKS

Começamos com o livro Santuário, da Maya Falks, editado pela bravíssima Macabéa Edições. Que leitura maravilhosa! Que livro instigante, divertido, cheio de ironias e lampejos de alegria e tristeza. Enquanto os céus giram sobre a “pacata cidade” de Santuário, vidas ali se debatem contra o tempo, contra a pobreza, a falta de perspectiva. Vidas vividas aos fragmentos em muitas facetas narrativas, que nos surpreendem a cada momento. A cada virada de página. Vale viver Santuário e sua senda. Pequenas histórias que contam uma história maior. Cada um de nós, de alguma forma, habita Santuário.

Vale destacar a beleza da edição da Macabéa. Que livro caprichado, que editora dedicada ao fazer literário. Um trabalho gráfico primoroso embala as histórias de Santuário, com direito a um mapa (com guia turístico!!) da cidade e dois cartões-postais com cópias de ilustrações originais de Maya Falks.

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A FONTE DOS RELÂMPAGOS,
de BRAULIO TAVARES

Eita, que livro danado de bom! É desses que a gente lê de uma enfiada só. Mal abre a primeira página, quando vê já tá na última. E querendo mais! Assim são os livros de Braulio Tavares. A fonte dos relâmpagos, edição guerreira da Editora Arribaçã, reúne textos publicados entre 2013 e 2016 no Jornal da Paraíba, e depois migraram para seu blog, o excelente Mundo Fantasmo.

O livro é uma seleta de causos, histórias, personagens e paisagens, alinhavando os caminhos do Sertão, das cantorias, folhetos de cordel. É o tal do mergulho nas culturas do povo, o Brasil profundo, denso e imenso, onde nascem os relâmpagos e chicoteiam as trovoadas do verso incontido. Braulio é um contador de história das histórias. Como se estivesse numa feira, ou num boteco em Capina Grande, vai puxando a prosa e, por meio de sua narrativa, se descortinam a vida de João Furiba, o Bicho do Mazagão, Lourival Batista e Zé Limeira (e consequentemente Orlando Tejo), e muito mais, como se adentrássemos um rio caudaloso de cultura.

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NOSSOS PRÓPRIOS VAZIOS,
de FRANCK SANTOS

Encerramos as dicas com o novo livro do poeta maranhense Franck Santos. Nossos próprios vazios saiu do forno há pouco, pela Editora Primata, que vem fazendo um trabalho bonito publicando a turma independente. A gente recomenda esse livro, que nem lemos ainda, porque já conhecemos o trabalho de Franck, e apostamos tudo na qualidade desse seu novíssimo rebento. Temos aqui a beleza do seu livro de poemas prefiro regar as plantas (também da Primata!), e seus versos nos fazem esperar o melhor de sua prosa, pois Nossos próprios vazios é um romance. A gente recomenda a literatura em que a gente acredita!

Sobre o enredo, a editora nos dá alguma pista… “Tomo um chocolate quente. Fumaça de incenso perde-se ou acha-se no ar. Um vento anuncia mais chuva. Sempre gostei de chuvas, ventanias e tempestades, me acalma a alma, faz meus pensamentos se ajustarem e preciso disso tudo agora. Ouço o barulho de um papel amassado que rodopia na varanda; se a lua surgisse agora no céu nublado que avisto, eu choraria”.

Suficiente pra correr atrás de um exemplar e atravessar suas 88 páginas com alegria.

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