Poemas de Farândola, por Maria Cristina Martins

Na dupla chave do familiar-não familiar, Farândola vai criando laços que se entrecruzam em uma dança centenária que conecta a história de uma mulher com “a dança dos maltrapilhos/ a fome e a sede dos saltimbancos/ de tomar as ruas e dançar”.

Poemas de Maria Cristina Martins


Trazemos hoje, mais uma vez, e mais uma vez com alegria, a poesia de Maria Cristina Martins, de seu novíssimo livro Farândola.


Organizando a teimosia não como se arruma o armário, mas como quem expõe a perturbação da ordem, o ruído, o avesso, o fora de lugar, a poeta vai talhando um caminho que vai da casa à rua, do privado ao público, do pessoal ao coletivo, do amor à política. Na dupla chave do familiar-não familiar, Farândola vai criando laços que se entrecruzam em uma dança centenária que conecta a história de uma mulher com “a dança dos maltrapilhos/ a fome e a sede dos saltimbancos/ de tomar as ruas e dançar”. Indo da casa, do familiar, do doméstico, e tomando as ruas, Farândola vai se tecendo como uma aliança, nesse movimento que se desdobra e vai encontrando seus pares, dando as mãos pelo que se reconhecem em suas estranhezas, porque é a condição de estar fora de lugar, fora da ordem, que os une. Ir de mãos dadas (Drummond é um interlocutor importante neste livro) com os que vivem em precarização, os banidos da lei, como os endividados, os camelôs, os mendigos, os sem-teto, estar entre eles, no meio deles, correndo com eles, como lemos em “Estranhos”, é fazer dessa estranheza uma ética e uma política, um modo de estar no mundo, um modo de (não) se sentir em casa.

— do prefácio de Danielle Magalhães

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A casa

as oito portas da casa estão trancadas
vou contar de novo
.
.
.
são seis
as seis portas da casa estão trancadas
tenho um plano de fuga
listas espalhadas pelos cantos
a indicar o lugar correto de cada objeto
cada objeto tem de estar
no lugar que lhe é de direito
decido dormir porque:
1. sair a essa hora pode ser perigoso
2. estou com preguiça
tenho um defeito de uso
aparentemente sem conserto
a casa continua igual, enorme
ou fui eu que não cresci?

A casa II

esta casa em que vivo é esquisita à beça
por isso gostei
fica no subsolo
a sala não tem janela
a área, grande, é exatamente do tamanho da parte de dentro
na parte de dentro tem
sala, cozinha, banheiro e dois quartos
a área e a parte de dentro são paralelas entre si
a cozinha é minúscula
a parte de que mais gosto é onde estou agora
onde pousei a escrivaninha amarela
vejo um matagal
onde passarinhos às vezes dão rasantes
o sol bate em cheio nas folhas
mas aqui dentro fica fresquinho
confusa não estou por nada

A casa III

ter uma casa
ter uma casa para voltar
ter uma casa para voltar e dormir
sossegada e displicente
temer apenas monstros
embaixo da cama
ter uma casa para sempre
ter onde guardar miudezas
inúteis e aconchegantes
para sempre
ter uma casa para ficar
exceto por um casaco esquecido


Vinícius

tábomtábomtábomtábom
disse teu coração
ao que o nosso respondeu
“peixinho, dá um chutinho
dá um beijinho
uma cambalhota”

os meninos descem a rua
atrás de bolas e fantasias
e você?
voará como nosso beija-flor?
visitará florestas encantadas?
lutará pelo fim dos próprios privilégios?
protestará pelos equívocos
da humanidade decadente?
nos perdoará por tudo?
por nada?
pedirá perdão?
será feliz?
terá os olhos doces do pai?
os dentes grandes da mãe?

quem é você, vinícius?
quem seremos nós
depois de você sair do aquário?
depois que não for mais peixinho
nem minhoca nem alien
depois de nos contestar
depois de nos amar
depois de nos odiar
e voltar a nos amar

só sabemos isto:
porque tua vinda será a mais terna
e inquietante aventura
é que agora pedimos
tempo infinito


Tinta a óleo sobre papel

meus meninos dormem
frito no óleo
da tinta e do hambúrguer
mal me recordo de quando fritava
por outros meios
piso devagar no quarto
o ventilador gira no meu coração
o amor total é um espanto

sei a origem do meu susto
por entre borboletas azuis
sapos, besouros verdes e um cachorro hippie
e um cachorro preso por amar demais
e gangues de pássaros, beija-flores
e talvez mosquitos da dengue

parir é abrir uma fenda no tempo
o bebê cresce e eu vou ficando
do tamanho da formiga
que ele vai perceber
assim que pudermos ir à pracinha
que pudermos deixá-lo
mexer na terra
e comer a terra
depois que meu filho nasceu
tudo o que escrevo é para ele
ou sobre ele
ou apesar dele


Início

teu encantamento tem cheiro de dama da noite
gostava que esse enlevo me arrancasse da terra
como quem tira a bola de ferro dos pés de um prisioneiro
gostava que teu cheiro me acompanhasse
mais certo do que anjo da guarda
porque em ti deposito naturalmente
essa fé inabalável dos que têm fome
– Tem mais fé aquele que não tem

tu és um texto sem pontuação
mas com acentos
(não gosto da moda
de internacionalizar nomes
tirando-lhes os acentos)
são como binóculos
melhor: aparelhos de raio x
adivinham o que penso
ao mesmo tempo em que debocham
dos burocratas e doutores
na reunião

és tão assustadora
não tipo a menina que vomita verde
tipo montanha-russa
de que a gente toda gosta de ter medo
menos tu
que preferes exorcismo

gosto de tanta coisa em ti
que nem sei por onde terminar

Meio

gostam quando se veem
depois de tantos dias impedidos pelo trabalho
gostam de tudo que têm feito
até do que não gostam
escrevem:
“minha pele pede a sua
e sua boca sobre ela
minha pele fala comigo
quando você não está
minha pele está ficando louca
marca atos contra sua ausência
faz greve de transpiração”
um poema às vezes é um retrato
uma lembrança às vezes é um gozo
mas nada
nada mesmo
se compara ao dia em que se conheceram
penso até que não deveriam seguir
o curso natural dos encontros
porque nenhum momento
será melhor do que o dia em que se conheceram

Fim

na sua versão de romeu e julieta
só a julieta morria
catei meus cacos e disse
comigo não, violão
aqui você não se cria


Farândola

Se não puder dançar, não é minha revolução
Emma Goldman

será difícil acompanhar
a dança dos maltrapilhos
a fome e a sede dos saltimbancos
de tomar as ruas e dançar

tentaremos nos juntar
na mais sincera intenção
mas pode ser que nos dispensem
(exceto quem esteve por perto
a ponto de ser reconhecido)
outra parte condenará
mesmo sendo a favor
observando que falta direção
a sua direção, claro

em algum momento todos pensam
que é possível fugir
até que batem à nossa porta
pensam que seguir as regras
nos mantém livres
nos mantém vivos
até que batem à nossa porta
de um jeito ou de outro
sempre batem à nossa porta

mas somente em alguns lugares
entram sem algemas
(quando aquele menino
reivindicou o uso de algemas
demorei a entender:
a polícia não precisa delas
quando entra para matar)
arrombaram sua porta
violaram sua casa
seu corpo
quem assistia também sangrou
todos sangram juntos
mas somente a alguns lugares
não se pode voltar depois

aquele menino pergunta:
o que você quer?
ser sempre o que apanha
o mártir, o suicida?
quero ser pedra
noite e poema
esgarçar a fenda da reparação
romper em flor
cobrir o asfalto com nossas flores
até que nossas flores
não sejam mais arrancadas

será difícil acompanhar
a dança dos maltrapilhos
saltimbancos
os invisíveis
os inaudíveis
a patuleia
a súcia
aqueles que têm fome e sede
de tomar as ruas e dançar
sua própria coreografia


A casa IV

procura-se um fiador
com nome limpo na praça
salário bom
comprovado
imóvel quitado
averbado
no mesmo município
de quem precisa de um teto
e não pode comprar

ou terá de raspar as economias
de anos de trabalho
e agradecer o privilégio
de ser um assalariado

o importante é proteger o proprietário
caso não arque com o combinado
e seja despejado

a propriedade é sagrada
e sempre haverá uma marquise

A casa V

o mendigo encontra a marquise
e faz dela uma casinha
tem um colchão
banquinho
cobertor para o cachorro
papelão que imita porta
um retrato
alguns livros

todo mundo precisa de um cantinho
de mimos e lembranças
é possível ver uma casinha
sob um teto de estrelas
em qualquer marquise ocupada


Foto de fim de tarde

perdi os pássaros em seu voo das cinco
e a cabeça branca da eleanor rigby
acompanhando a volta do trabalho
de quem não pode fazer home office
de quem não teme o vírus

só alcancei o que é mais estático
ou aparentemente lento:
as nuvens, o sol

os filtros escondem o que se adivinha
tudo o que me derruba é o que
me põe em pé novamente
a confiança é um ninho
desfeito, refeito
parei de contar quando o tempo
desafiou a paciência
afinada com a precisão de um amador


Inacessível

não escrevo
o que mais me corrói
o que mais me entorna
e me põe do avesso
isso não consigo
nem saber
só sei que
do fio invisível que carregamos
e nos liga a tudo o que é vivo
esse fio que pode ser alma
ou espírito ou coração e cérebro
e nos liga também ao que é morto
porque é pelos mortos que seguimos
sem saber
e por isso sem saber se é útil
desse fio invisível teço as palavras
para materializar
espalhar as palavras pela casa
não me basta sentir o peito
nem fazer sexo
nem comprar uma bolsa
nem dar um mergulho
nem rezar
nem dormir

Arte de Maria Cristina Martins

Leia também, de Maria Cristina Martins e Tássia Veríssimo, o livro Entre Máscaras!
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Que um livro assim surja no meio de uma pandemia, e por causa dela, é auspicioso, e nos traz a oportunidade, por meio dele, iluminar nosso cotidiano mergulhado numa quarentena que desabou sobre nós. — Toinho Castro

Financiamento coletivo: A fonte dos relâmpagos, de Braulio Tavares

Texto de Revista Kuruma’tá


E o financiamento coletivo é o caminho da gente pra por nas ruas, nas estantes, nas praças e vitrolas os projetos que a gente acredita! Cultura no Brasil, cada vez mais tem que sair do povo, da vontade e da iniciativa das pessoas que acreditam nela. Assim a gente vai publicando livro que as grandes editoras não publicam, discos que as grandes gravadoras não lançam, espetáculos e outras inciativas que o tal do mercado não tá disposto a apostar e pôr na rua!

E é na pisada valente do financiamento coletivo que o grande poeta, escritor, músico e outras coisa mais, Braulio Tavares, trabalha seu novíssimo lançamento, o livro A fonte dos relâmpagos, em edição da Editora Arribaçã, de Cajazeiras, na Paraíba (leia-se, Linaldo Guedes e Lenilson Oliveira)!

A fonte dos relâmpagos reúne mais de 40 artigos do Braulio, sobre cantoria de viola, literatura de cordel, poesia em geral, e outras crônicas sobre o que os cronistas tradicionais chamam de “aspectos pitorescos” do Nordeste e da Paraíba. Ou seja, uma riqueza que só mesmo a pena de Braulio Tavares pra trazer pra gente, numa fina escrita, esses retratos de toda uma rede cultural.

Esse texto de hoje na Kuruma’tá é um convite, para que você participe desse acontecimento, que a é a publicação de A fonte dos relâmpagos. Chegue lá no Catarse e colabore, para que a expressão cultura, mais legítima, do nosso povo, se cristalize nesse livro

COLABORE COM O FINANCIAMENTO COLETIVO DE A FONTE DOS RELÊMPAGOS


No livro A FONTE DOS RELÂMPAGOS, reuni 40 artigos que escrevi sobre poesia, música popular, literatura de cordel, cultura oral, como estas memórias do cantador João Furiba, conhecido como O Rei da Mentira, mas que dizia verdades inacreditáveis para quem não é daquelas bandas:

“Nasci no dia 4 de julho de 1931, no sítio Bomba d’Água, de Serra de Cachoeira, no município de Taquaritinga do Norte, no Agreste Pernambucano. Minha mãe lavava roupas à margem do rio quando, num repente, eu vim ao mundo. Muito nova e inexperiente minha mãe correu assustada para casa.- Mãe! – disse à minha avó.
— Acho que abortei na beira d’água!
Minha avó correu para ver e encontrou-me, do tamanho de um preá, ainda envolto na placenta. Pegando-me com cuidado, levou-me para casa julgando que eu estivesse morto.
Quando fiz alguns movimentos, procuraram agasalhar-me melhor. Encubadeira não havia. Com os restos de algodão da roça, embrulharam-me e colocaram-me numa caixa de sapatos”. 


Outra dimensão: O disco da minha amiga Marina Lutfi

Texto de Toinho Castro


Não vou escrever sobre esse disco, Outra dimensão, fazendo de conta de não conheço Marina. E a história peculiar desse encontro, desse conhecimento, é literalmente coisa de cinema. Em certo sentido, é também musical, porque se deu por conta de uma música, Bichos da noite, escrita pelo seu pai, Sérgio Ricardo, sobre poesia do pernambucano Joaquim Cardozo, no seu livro O Coronel de Macambira: bumba meu boi, em dois quadros, de 1963, e o filme Bacurau, de Kleber Mendonça Filho. Mas essa história, por demais contada, eu relembro de outra feita, pra não perder o rumo dessa prosa. Basta dizer que eu e Marina nos conhecemos por meio de um amigo em comum, o Christiano Calvet, que nos colocou em contato.

Estávamos eu e o Chris na Adega Pérola, celebrando nosso reencontro, depois de muito tempo, e comentamos a tal história que envolve Sérgio Ricardo, Bichos da noite e Bacurau. E ele emendou: Você precisa falar com Marina! Pegou o telefone e ligou pra ela, ali mesmo, na muvuca do bar, entre sardinhas e chopes. E tudo isso é pra dizer que a primeira presença de Marina na minha vida, foi a voz.

Eventualmente a gente se encontrou pessoalmente, trocamos ideias, papos, e consolidamos uma amizade maravilhosa. Nesse meio tempo veio a pandemia, eu lancei livro, seu Sergio, pai de Marina, nos deixou e deixou esse buraco na música brasileira. Marina botou pra frente e pra cima, com muita bravura, o projeto Sérgio Ricardo Memória Viva, dando norte e sentido à vasta obra do pai… e lançou um disco. Primeiro um single, Barravento, no aniversário de um ano da morte do pai. Auspicioso. Vibrei! Ela e o irmão, João (Gurgel) mandaram ver, com duas interpretações singulares de músicas de SR.

Mas não era só isso, não que fosse pouco, e agora Marina Lutfi solta seu discaço nas redes, pra todo mundo ouvir. Outra dimensão é um disco da felicidade. É o disco de um país que vai escapando pela tangente, da Covid, dos desmandos de um governo violento e autoritário. É um disco da beleza, do encantamento e do encontro. Com três músicas de Sérgio Ricardo, Barravento, Cacumbu e Esse mundo é meu, sendo essa terceira uma parceria com Ruy Guerra, o disco presta tributo a esses dois, em que se mistura cinema e música, na narrativa de um Brasil destemido. E ainda tem Julio Dain abrindo a audição com a música título e No meio da escuridão, Arnaldo Antunes e Perícles Cavalcanti com Quase tudo, Rodrigo Maranhão, com merecido Grammy Latino por Caminho das águas, em 2006, entra com sua Milonga, e essa dupla constelar, João Donato e Pàulo César Pinheiro, com Ahie, gravado por Donato no seu disco Quem é quem, de 1973.

Eu podia parar aqui, porque já deu a dimensão imensa, luminosa, de Outra dimensão. Mas tem um povo ali, num instrumental sinuoso, ousado, límpido e um monte de adjetivo que eu, enquanto escuto besta o disco, poderia enumerar. É gente que gosta de música, que gosta de enveredar pela música, feito floresta. Instrumentistas de primeira grandeza, e a gente pode sentir o quanto estão à vontade nos arranjos, o quanto tudo é uma construção muito rica, em que cada um bota o melhor de si na maior alegria. Daí o equilíbrio, de uma música que conduz à outra naturalmente, sem desvios ou desvãos, sem hesitações. Porque o disco conta essa história, uma história contra o desânimo, a descrença. Contra a maldade.

E ligando tudo isso, o tecido da voz bonita de Marina. A mesma voz que ouvi naquele telefonema em que nos conhecemos, lá em maio de 2019, quando ninguém imaginava o tanto que ainda ia acontecer no mundo. E desse tanto que aconteceu, deu-se Outra dimensão, um disco para um Brasil muito melhor!

Não é porque sou seu amigo não, Marina… mas que disco danado de bom!

ESCUTE NAS PLATAFORMAS!

Uma possível contracapa se o disco fosse o LP que a gente adoraria que fosse!

Direção e produção musical: Flávio Mendes
Produção executiva: Marina Lutfi
Assistente de produção: Paula Marques
 
Arranjos: Flávio Mendes e Henrique Band
Músicos: Flávio Mendes, João Gurgel, Henrique Band, Marcelo Caldi, Alexandre Caldi, Guto Wirtti, Carlos Cesar, Carlos Pontual, Lui Coimbra, Domenico Lancelotti, Marcos Suzano, Levi Chaves, Diogo Gomes e Everson Moraes.
Coro e palmas: Isabela Ciavatta, Rosa Ciavatta, Daniela Nunes e Lucas Ciavatta
Participação especial: Sérgio Ricardo
 
Gravação:
David Brinkworth no Studio Aurea, em julho de 2015 e no Sambatown Estúdio em agosto de 2015.
Rodrigo Ramalho no Plaza Hi-Fi Estúdio em janeiro de 2017.
Carlos Fuchs no estúdio Tenda da Raposa em agosto de 2017 e julho de 2018.
Todos no Rio de Janeiro.
Mixado e masterizado por Carlos Fuchs no estúdio Sá da Bandeira, em julho de 2021, no Porto, Portugal.
 
Capa:
Foto: Michel Schettert
Design: Marina Lutfi
Realização: Cacumbu
Distribuição: Nikita Music Digital
Assessoria de imprensa: Belmira Comunicação
 

Pequeno Dicionário de Arquétipos de Massa: A Múmia

Texto de Fábio Fernandes


Deitada em sua cama, a múmia observa. Apenas observa: há muito não faz outra coisa.

Seu único consolo é que ninguém sabe o que ela pensa. Às vezes nem ela própria. Basta-lhe ouvir as pessoas entrando e saindo do seu quarto, o chocalhar dos vidros de remédio e o pingar incessante do soro ao lado da cama. Às vezes a múmia pensa que pode ouvir as próprias rugas se formando na pele encarquilhada. Como anéis e marcas em troncos de árvores. A múmia acha que leu alguma coisa a respeito em algum lugar. Mas já faz muito tempo.

Ninguém sabe quantos anos a Múmia tem. Nem ela mesma.

Deitada em sua cama, como se embalsamada fosse, a múmia espera sua hora.


“O Brasil é uma assombração” — Clipe de Marília Parente

Marília Parente foi um grande alento de 2019, com seu primeiro e belo disco Meu Céu, Meu Ar, Meu Chão e seus Cacos de Vidro. Quando tomei conhecimento do disco e o escutei pela primeira vez, fiquei maluco com aquilo! Foi play atrás de play no Spotify, e não teve ninguém pra quem eu não enviasse o link da bolacha. — Texto de Toinho Castro

Texto de Toinho Castro


Estou Desocupado com Outras Coisas Desimportantes
diga a ela que não vou, não vou, não vou
Pois quero olhar os meus amigos,
como se não corresse perigo
e estar contente por estar ausente, por estar presente

Eu vou, eu vou
Quero faltar meu compromisso
diga a ela que eu vou, eu vou, eu vou
Pois quero olhar o seu sorriso,
como se não corresse perigo,
e ser displicente pois nada é urgente
eu quero estar perdido

É tanta coisa na cabeça da pessoa
Eu só quero ficar de boa

Hare om
tat sat
chit ananda

Marília Parente foi um grande alento de 2019, com seu primeiro e belo disco Meu Céu, Meu Ar, Meu Chão e seus Cacos de Vidro. Quando tomei conhecimento do disco e o escutei pela primeira vez, fiquei maluco com aquilo! Foi play atrás de play no Spotify, e não teve ninguém pra quem eu não enviasse o link da bolacha. Aderaldo Luciano, companheiro de aventuras na Kuruma’tá, escreveu um texto sensacional pra revista, e o parceiro Jorge Lz destacou o disco no seu programa Na ponta da agulha e fez um bate-papo sensacional com Marília!

Aí veio a pandemia. 

E nela ainda nos encontramos.

E a música de Marília Parente continua sendo uma poderosa e necessária vacina contra esse inferno em que estamos metidos. Sempre combativa, como artista e como jornalista, Marília não ficou parada entre 2020 e 2021, com projetos paralelos como o Avoada, a música Para la tierra volver, canção inédita sobre conta a história dos camponeses jurados de morte em conflito fundiário no Engenho Fervedouro, no município de Jaqueira, na Zona da Mata de Pernambuco (Aqui se encontram a jornalista e a artista de forma comovente).

Mas chega de história, porque o assunto aqui é o primeiro clipe de Marília!

Com o clipe novíssimo para a música Estou Desocupado com Outras Coisas Desimportantes, Marília se insere na tradição audiovisual pernambucana no melhor estilo faça você mesma! Câmera na mão e ideias espalhadas pela cidade, essa cidade assombratícia que é o Recife. E é com os auspícios assombrados da poesia de Augusto dos Anjos e sob a sombra do fazer cinematográfico de Zé do Caixão, que Marília cria uma narrativa de humor e terror maravilhosa.

Augusto dos Anjos – As cismas do destino

Com roteiro de Marília, imagens realizadas por ela e Juliana Verçoza e montagem de Jeã Santos, o trabalho é experimental, divertido, carregado de ironia e inventivo. Marília joga a caveira na rede, nas ruas e praças, no vagar dolente do Capibaribe, apontando os desmandos dessa vida doida e doída que se vive. Será toda a gente caveira, pra e pra cá nesse mundo, só dentes e ossos, sem saída?


O Brasil é uma assombração, mas, para sobreviver sem pirar, a gente precisa abraçar o caos e a morte. É verdade que queremos e vamos mudar as coisas, mas antes disso é preciso rir um pouco da gente mesmo. — Marília Parente


Estou Desocupado com Outras Coisas Desimportantes, que tá lá no disco que, se você não escutou, precisa escutar agora, é uma música deliciosa, num clima folk anos 60 e temperos indianos que só acentuam o contraste com o Recife da pracinha com escorregador de cimento, que a caveira-star do clipe usufrui enquanto as crianças brincam de bola, brincam de balanço. Porque isso é o Brasil. Quem se importa com a caveira? Na verdade, melhor companhia pra conhecer o Recife. O Recife onde Augusto dos Anjos, na ponte Buarque de Macedo, assombrou-se com a própria sombra. Sombra que deve ainda habitar a calçada da ponte, visível, talvez, na lua cheia.

No mais, Marília Parente é já essa grande artista sem medo de inventar, de meter as próprias mãos no fazer de sua arte, ainda isso signifique carregar uma caveira pela cidade.

É tanta coisa na cabeça da pessoa
Eu só quero ficar de boa


Escute Meu Céu, Meu Ar, Meu Chão & Seus Cacos de Vidro
(Álbum Completo) – 2019

Ficha técnica:

01. Meu Céu, Meu Ar, Meu Chão & Seus Cacos de Vidro (Marília Parente)
Voz: Marília Parente
Efeitos: Ugo Barra Limpa
Synths: D’Mingus

2. Dia de João (Marília Parente)
Voz e violão de aço: Marília Parente
Guitarras: Juvenil Silva e Regis Damasceno
Baixos: D’Mingus, Juvenil Silva e Regis Damasceno
Flautas transversas: D’Mingus
Zabumba, triângulo e efeitos: Alexandre Baros

3. Tristeza não Existe (Marília Parente)
Voz e violão de aço: Marília Parente
Guitarras: Juvenil Silva e Regis Damasceno
Baixo: Regis Damasceno
Flauta tranversa e Mellotron: D’Mingus
Bateria: Rafael Daltro

4. Vasudeva (Marília Parente/Marcelo Cavalcante)
Vozes: Marília Parente e Marcelo Cavalcante
Violão e guitarra: Marcelo Cavalcante
Baixo: Juvenil Silva
Bateria: Gil R
Flauta e teclado: D’Mingus
Voz: Marília Parente
Violão e Guitarra: Marcelo Cavalcante
Sanfona: Jonnez Bezerra

10:53 – 5. A Vida no Cariri Demora (Marília Parente)
Voz: Marília Parente
Violão e Guitarra: Marcelo Cavalcante
Sanfona: Jonnez Bezerra

6. Alvorada (Marília Parente)
Vozes: Marília Parente
Guitarras, baixo, violão, teclado: Rodrigo Padrão
Violas: Feiticeiro Julião
Bateria: Gil R
Percussões: Leo Vila Nova
Palmas: Juvenil Silva, D’Mingus e Marília Parente

7. Estou Desocupado Com Outras Coisas Desimportantes (Marília Parente)
Voz: Marília Parente
Coro mântrico: Marília Parente e Ugo Barra Limpa
violões de aço: Juvenil Silva
Viola e sitar: Feiticeiro Julião
Shruti: Ugo Barra Limpa
Baixo: Diego Gonzaga
Bumbo: Gil R
Sino: Ugo Barra Limpa

8. Viagenzinha de Verão (Marília Parente/ Juvenil Silva)
Vozes: Marília Parente e Juvenil Silva
Guitarras: Juvenil Silva
Baixo: Diego Gonzaga
Violão de aço: Juvenil Silva
Bateria: Gil R
Synth: D’Mingus

9. Eu Quero Ver o Cão Mas Não Quero Ver Você (Marília Parente)
Voz: Marília Parente
Violão de aço e órgão: Feiticeiro Julião
Guitarras: Juvenil Silva
Baixo: Diego Gonzaga
Pífano: D’Mingus
Bateria: Gil R

10. Amor, Disco Voador (Marília Parente)
Voz e violão de aço: Marília Parente
Shruti e violão de aço: Ugo Barra Limpa
Sitar e Viola: Feiticeiro Julião
Coro: Mayra Clara, Sofia Freire, Nivea Maria e Ugo Barra Limpa
Guitarras: Juvenil Silva e D’Mingus
Baixos: Juvenil Silva e Diego Gonzaga
Bateria: Gil R


Raiva

Texto de Toinho Castro


Agosto é o mês dos ventos, das chuvas no Recife. Quando pequeno eu ansiava por agosto. Sempre gostei de ventanias, de janelas e portas batendo, e daquela sensação de que a natureza se fez presente. Era um mês em que o mundo mudava e algo novo se incitava. Da minha janela, na rua Pampulha, eu via a chuva vindo, o vento no rosto, naquele navio que era o edifício Inês. Alceu Valença tem uma bela canção sobre agosto, chamada Lava mágoas.

Nessas tardes molhadas de agosto
Sinto a chuva lavando minha alma
Sinto o frio entrando pelos ossos
Como uma coisa um troço
Não sei explicar

Agosto também é mês de muita gente boa. Jorge Luis Borges, Leminski, Clara Nunes… todos nasceram em agosto. E Julio Cortázar, nascido em 26 de agosto de 1914, em Ixelles, uma comuna de Bruxelas, na Bélgica. Filho de pais argentinos, que regressaram à pátria quando ele tinha 3 anos, Cortázar se tornou uma dos grandes escritores da América Latina com reconhecimento mundial, que perdura até hoje. Recordo aqui Cortázar, não à toa. Ontem, a minha mãe, que vive em Natal, para onde voltou aos oitenta e poucos anos depois de viver 60 anos no Recife, duas cidades tão distantes de Ixelles, contou-me uma história que muito me lembrou um conto do Cortázar. Na pequena história, quase anedótica, há algo que me pareceu um deslocamento da realidade, desses que nos causa certo assombro íntimo, e demonstra que há no mundo mais camadas ocultas que expostas.

Aos 21 anos minha mãe casou e foi morar no Recife, com meu pai. Nem vou falar aqui da mudança enorme, para aqueles tempos, nos anos 50 do século passado. Nem vou falar do grande desmonte do seu imaginário, de menina crescendo nas dunas de Natal, jogada de repente diante do mundo caótico de uma cidade maior e de tudo que estava por vir, como uma nave penetrando a atmosfera, o escudo térmico esquentando, sem saber se conseguiria atingir o solo ilesa. Pois bem.

Contou-me minha mãe que certa tarde foi ao armazém, ou padaria. Ao chegar lá, informou ao homem do balcão que estava ali para comprar raiva. Sim, isso mesmo. Raiva. Espantado e sem saber exatamente o que responder, ele argumentou que lá não vendiam raiva. Que não gostavam de raiva e que não queriam saber de raiva. Minha mãe não entendeu, pois raiva era coisa comum em padarias, armazéns, bodegas de bairro. Pelo menos lá em Natal. Agoniado com a situação e sem saber mais o que fazer, o homem chamou pela esposa, que estava lá nos fundos, a quem foi explicado que minha mãe estava alai pra comprar raiva. Com mais uma pessoa sem saber por que diachos aquela mulher estava ali atrás de raiva, a situação tendia a ficar mais complicada, quando… quando minha mãe, ao olhar ao redor, por fim saltou uma exclamação:

— Olha ali a raiva!! Naquele pote! — E apontou para um pote de vidro numa das prateleiras.
— Minha senhora! Raiva?! Aquilo é bolinho de goma!

E foi então que a situação se esclareceu. Minha mãe explicou que em Natal, aquilo chamava-se raiva, e nunca imaginou que no Recife pudesse ter outro nome. Imagino que todos riram da confusão e dona Lenira voltou pra casa com seu pacote de raiva, ou bolinho de goma.

Passaram-se os anos. Décadas. O mundo revirou-se. Minha mãe viu e viveu coisas que não imaginou viver ou ver. Seus filhos cresceram, meu pai morreu. Por fim, após 60 anos do que, pra ela, constituiu um exílio, ela retornou a Natal, onde vive com meus irmãos. Então continuando a história, disse-me que em Natal, dia desses, foi a padaria. Chegando lá, pediu à moça do balcão por bolo de goma. A moça estranhou e disse-lhe que ali não vendia bolo de goma não; que ela nem sabia o que era. Minha teimou que bolo de goma tem em tudo que é lugar, que não em possível que não tivesse ali, numa padaria como aquela, que tem tudo! Com o circo do bolo de goma armado, minha mãe olhou no entorno e lá estava:

— Olha ali, menina, um pote de bolinho de goma!
— Ah, minha senhora! Mas o nome disso é raiva!


Ri muito dessa história quando desliguei o telefone. Estava diante de um clássico Lenira Castro. No livro Esculpir o Tempo, do cineasta Andrei Tarkóvski, uma espectadora ao escrever-lhe uma carta, comentando seu filme O espelho, diz: De fato não conhecemos o rosto das nossas mães”. Sempre penso nessa frase, sem saber muito bem o que ela quer dizer. A lembrança de O espelho, confesso, me é bastante confusa. É um filme que nunca mais assisti. Mas em momentos como esse, essa frase me vem forte à mente, porque, mais que um rosto, minha mãe é essa história. Mais que uma contadora de histórias, minha mãe são as histórias. É nelas que a reconheço mais intensamente. E é do que sinto mais falta, seu fabular.

Voltando a Cortázar, pensei que essa história da raiva versus bolinho de goma bem poderia habitar um dos seus livros, possivelmente Histórias de Cronópios e de Famas, talvez o primeiro livro dele que li. Me assustei com aquela literatura. Pensei: Então é possível escrever assim!? Sim! Cresci ouvindo histórias que caberiam nas páginas de Cortázar, sem saber que aquilo poderia ser literatura. Sem saber que havia Cortázar, revelando essas camadas do cotidiano e nos colocando em suspensão, assombrados. Cito Histórias de Cronópios e de Famas não só por ter sido o primeiro, mas também, e principalmente, por trazer essa outra história, essencialmente não muito diferente da que a minha mãe contou. De tantas que escutei dela ou do meu pai, ou dos meus tios. Histórias que encantavam a mim, meus irmãos e primos.

Quando eu junto na minha cabeça, Cortázar, minha mãe, Natal, a bodega perto da minha casa, meu pai e todas as histórias compartilhadas em família… tudo faz sentido pra mim. E não importa que não faça pra as outras pessoas.


Dois sons pra escutar agora!

Texto de Toinho Castro


Vírus, de Laura Finocchiaro

Às vezes o rock’n’roll fica muito quieto e comportado, e dá saudade das explosões raivosas, que só ele é capaz, contra o sistema das coisas, contra o que oprime, sufoca, encurrala. Rock de reação, de pé na porta, de “tô aqui!”, pra sacudir e, quem sabe, derrubar as estruturas. E eis que a  cantora, compositora, guitarrista, arte-educadora e produtora musical, Laura Finocchiaro, chega mandando ver com seu single Vírus, que traz letra afiada do jornalista João Luiz Vieira.

No comando da produção e de todos os instrumentos, com parceria luminosa do percussionista e baterista João Parahyba no groove, Laura se solta contra o Vírus que assola o país. Não só o corona, na sua vertiginosa ocupação das nossas vidas, mas os tantos vírus soltos por aí, reforçando a chocante mortandade. A corrupção, as fake news, o egoísmo do negacionismo, diante do óbvio e da morte de centenas de milhares de brasileiros. Uma canção contra o genocídio e o genocida.

Vírus é poderosa, é cortante, dilacerante e carregada da raiva justa, explosiva. Rock’n’roll sem medo dessa artista que, no ano que vem, completa 40 anos de carreira independente, atravessando o cenário da música brasileira, desde a estreia no Lira Paulistana, e ao longo de 11 discos lançados, com consistência, vigor e a sagacidade necessária pra dar saída e voz a esses sentimentos que a gente tá carregando desde que se instalou a pandemia!

Quero te mandar pra lá,,, Patife!
Quero que você se mova,,, Sem vergonha!
Quero te mandar calar… Vil!
Quero que você se exploda… Vírus do Brasil!

Escute Vírus nas plataformas de streaming!


Catiré (Na Bahia foi), de Litieh

E agora para algo completamente diferente. Diferente, mas que, de alguma forma, se soma a um trabalho como o da Laura Finocchiaro, pra falar com a gente nessa confusão em que estamos metidos. Litieh, que eu adoro de coração, traz pra gente essa versão de Catiré (Na Bahia foi). Música linda linda. Tá lá no álbum Catiré, que Litieh lançou em 2015. Tá lá com o tal swing delicioso que só Brasil tem. E é desse Brasil que dá saudade nesses dias duros que vivemos. Então ela, Litieh, vem e me regrava Catiré numa ternura, numa delicadeza comovente.

Dou play no streaming, e dou play de novo. Porque é música de ficar em looping, mantra que nos resgata no ser gente. Nos tira dessa falta de ar e de luz, que se impõe, e nos coloca na beira do mar, de pés firmes, encantados. Na Bahia, onde a gente se desmonta. O trabalho todo de Litieh é esse, carregado desse país revelado pelo afeto, pela conexão com as ancestralidades, pelos ritos e melodias. Tudo cultivado num instrumental finíssimo e costurado com essa voz boa de se ouvir, voz com jeito de reencontro que essa artista te.

Ouvir Catiré é retornar a um Brasil não devastado, para crer na possibilidade de reativar esses centros nervosos da coletividade, da dança pé-no-chão, do que ensina os orixás e nossas avós, Brasil da viola e da roda, de samba, de coco, de ciranda, de maracatu. Escutando essas filigranas de Carité, penso no que estamos destinados a ser, como num sonho, para além de toda violência e desmando a que assistimos. Penso nessa praia na Bahia, ou Pernambuco, ou beira de rio no Pará. É o que somos. Litieh não me deixa esquecer.

Eu sonhei
Ver esse dia chegar
E eu pude, então
Morar na beira do mar

Escute Catiré (Na Bahia foi) nas plataformas de streaming!


Marina Lutfi e João Gurgel, memória viva de Sérgio Ricardo

Texto de Toinho Castro


Na semana passada fez um ano que perdemos essa força humana, cultural, chamada Sérgio Ricardo. Cantor, compositor, escritor, cineasta, poeta, artista plástico, contador de histórias, testemunha atenta e afiada da vida brasileira ao longo de décadas em que não parou de produzir e desafiar o senso comum, com uma arte multifacetada, complexa e bela.

Já contei aqui na Kuruma’tá algumas histórias da presença de SR na minha vida, como menino brasileiro, morando numa casa em que a música brasileira tocava todos os dias e nos alegrava e nos levava a pensar, na vida, nos rumos do país, a pensar em quem éramos no meio de tudo que vivíamos. SR estava lá com a gente, nesse redemoinho de dias e noites, na vitrola, no rádio, na voz de algum anônimo, violão em punho, num bar de Olinda.

Na semana passada, deu-se um ano de sua morte. Eu quis escrever algo e nada me veio, mas escutei seus discos e tratei de ler seu livro O Elefante Adormecido, recebido há pouco pelo Correio.

Mas algo muito bom se tramava no mundo, e nesse dia, 23 de julho, seus filhos, Marina Lutfi e João Gurgel, lançaram, respectivamente, suas versões de duas grandes obras do pai e mestre. Marina com Barravento e João com Conversação de paz.

Marina, João e Sérgio Ricardo

Com sua voz que me encanta, Marina desfia Barravento com a um rosário, rezado na beira do mar. A canção, que saiu no disco Um Sr. Talento, de 1963, vai chegando aos seus quase 60 anos com arranjos e interpretação que dá vontade de dançar, mas no seu centro Marina imprime ainda o chamamento ritualístico que a composição carrega. E tem ainda a voz de SR, num contracanto que emociona.

João nos surpreende com Conversação de paz, originalmente lançada no disco Arrebentação, de 1971, numa escolha de fina ironia, música oportuna como poucas pra esse Brasil que não conversa mais. Moderníssima, bem humorada e contagiante. Um verdadeiro espaço de invenção, em que João se solta com leveza! O clipe, dirigido por ele, chama a atenção para o quanto a obra de SR é carregada de ferça imagética.

Não sou, de longe, crítico musical. Sou mesmo um bom ouvinte, desses que se delicia com coisas assim. É uma maravilha botar essas duas faixas pra tocar, assim, um depois da outra. Inverter depois a ordem e ouvir de novo e sentir como, as duas, sintetizam tanto da vasta obra de Sérgio Ricardo. O lançamento de ambas no dia de aniversário da morte do pai, é uma homenagem e tanto. Mas, mais que homenagem, vejo a afirmação de dois artistas, da coragem de suas escolhas para suas carreiras, sem medo algum do legado enorme de SR.

Marina e João, irmãos, são memória viva, continuidade e expansão desse legado, mas também originalidade, artistas contando sua própria história. No segundo semestre ambos lançam seus discos… tô aqui ansioso por caminhar nessas duas trilhas que já se abrem belamente. Há algo de promissor demais no ar.



O sol descalço de Carlos Cardoso

Texto de Toinho Castro


Mais um livro de poemas de Carlos Cardoso me chega Às mãos. Sol descalço (Editora Record), lançado nesse ano de 2021, é mais um sopro, mais um alento, em meio à confusão, ansiedade e tristeza que se vive num Brasil devastado pelas perdas contínuas da pandemia. O livro é um breve volume, com 71 páginas, de uma poesia que aprendi a apreciar desde seu primeiro livro que li, Melancolia, de 2019, premiado como melhor livro de poesia de 2019 da APCA – Associação Paulista de Críticos de Arte.

Mas não olho pra prêmios… eu olho para a poesia. Para o poeta.

Leio na primeira linha da apresentação de Italo Moriconi, que este é um livro que chega em boa hora. Não poderia concordar mais. Sou avesso a ler prefácios e afins, mas diante do nome de Italo Moriconi, cedi. O que mais eu poderia dizer sobre esse livro, que fosse além da delicadeza e precisão das palavras do Italo?! Muito bem recomendado, é um livro que chega ainda com uma orelha escrita por Marco Lucchesi.

Cabe a mim então, modesto leitor num apartamento em Vila Isabel, dizer que reencontrar ao trabalho do Carlos Cardoso nesse livro, é um prazer literário, raro. Navego de poema a poema, página a página, com naturalidade, pois essa poesia, não porque seja fácil, mas justamente pelo desafio de um trabalho elaborado, que cria uma tessitura de palavras, que vão se sucedendo, puxando o fio de significados inesperados ao longo dos poemas.

Vou lendo e me surpreendendo. Vou lendo e despertando para as imagens que são como construções surrealistas, pela associação do inesperado a cada verso. Muito gratificante a leitura de Sol descalço, para quem quer que ame a poesia e busque pela linguagem madura, depurada, trabalhada com delicadeza e ao mesmo tempo ousadia.

E o que eu gosto é que há uma musicalidade nesse livro, que abre com um chamado altivo… “Que caia o amanhecer”, para depois trazer uma canção. Brincando alinha os versos

Talvez as palavras me fujam
e eu me disfarce de poeta,
o silencio é minha casa
e a construo em linha reta.

Talvez as palavras me fujam
e eu me disfarce, cortejante,
o silêncio é uma pedra
e a chamo diamante.

Talvez as palavras me fujam
e eu me disfarce de criança,
o silêncio é meu pecado,
e meu verso, a esperança.

Talvez as palavras me fujam
e eu me disfarce, assim, amando,
o silêncio é minha arte
e o criei assim, brincando.

uma beleza que vai se confirmando a cada poema. Li também na apresentação que alguns poemas seriam da primeira lavra do poeta, dos temos de sua adolescência mesmo, o que torna o livro ainda mais precioso e instigante, nos permitindo traçar o percurso do poeta, que talvez seja, ele mesmo, um sol descalço em sua trajetória ou liturgia.

Felicidade grande esse livro nas mãos. Prezo demais a força poética de Cardoso. Muitas vezes não entendo o que estou lendo mas sou carregado, não pelo significado possível, mas pelas cadências, pela suspeita permanente do algo mais, do algo além, pela certeza de sua ligação íntima com o mais humano em nós.


“O poema começa” – Luna Vitrolira em livro, disco e filme

Texto de Toinho Castro


Há tempos que tô pra falar desse disco. Quando um disco assim é lançado a gente fica doido pra comentar algo imediatamente, mas tá difícil dar conta das vontades com os nós cegos que a falta de tempo anda dando na gente, né?! É o corre-corre das mensagens no zap, das redes, das demandas do trabalho, das urgências sabe-se lá de quê! Correr pra onde? Correr de quem?! Na falta de uma resposta decente…, corra pro disco da Luna Vitrolira.

Tô atrasado nesse conselho e talvez você já esteja lá, grudado nas faixas de Aquenda – O amor às vezes é isso. E aí você já sabe do que tô falando, da coisa poderosa que é esse disco, e da experiência humana que é escutá-lo. Sendo humanos, nosotros, que outra experiência poderia ser?! Pois falo da experiência humaníssima de escutar a outra voz, que não a sua própria voz, ou dos seus. E o que carrega essa voz.

Conheci Luna tempos atrás, no Recife, por conta de um trabalho em comum. Nos encontramos no numa cafeteria no Recife, no Cais do Imperador. Veja só, século 21 e a gente se encontrando, em pleno Brasil república, no Cais do Imperador. Ter um cais no Recife assim batizado, diz tanto da importância de se debruçar sobre o trabalho de Luna, tanto poético, quanto musical, ainda que a separação entre essas duas coisas seja ilusória, dentre tantas coisas ilusórias que aceitamos confortavelmente. E daí o sangue que esse país ver escorrer diariamente.

Levantar adjetivos sobre o trabalho de Luna é falar bobagens, é outra saída fácil. A poesia de Luna é um chamado, não só pela sua escuta, mas também para que você, ou eu, ou quem quer que seja, não mais se cale diante de tudo que a gente cala. Trem carregado de coisas coisas amargas, mas com um amor subjacente que alinhava a luta. Lutar contra o ódio, o machismo inerente à história mundial, contra o racismo, a violência que arrasta mulheres, e tantas outras pessoas fora do esquemão homem-branco-hétero, à morte, ao medo. Lutar contra tudo isso é ato de amor. Amor, às vezes, é isso.

Há algo forte de esperança na poesia de Luna e sua música. Algo que é a própria existência dessa poesia e dessa poeta, dessa coisa caudalosa, da qual não se pode ficar à margem, admirando… que ninguém precisa disso. Você, hoje, poder abrir um livro publicado por Luna, ou ouvir seu disco nas tais plataformas, é uma afirmação de esperança em ventos outros. De tempos outros, que virão. Tempos que esse trem, do qual falei antes, também vem carregado.

Musicalmente o disco arrasa. É coisa nova, fresca, vibra na frequência precisa. Eletrônica ancestral de múltiplas influências e fluências. Não enquadre! Não parece com esse ou aquele. Na base está o ritmo de Luna, métrica livre que dita o rumo dos sons. Imagino essa cena, Luna caminhando, avançando no seu gesticular, e à sua volta esse redemoinho sonoro, a erguê-la, artista, negra, mulher, senhora da palavra. É disco de poeta? De novo, defina não! É pra escutar. É pra dançar, é pra ser uma coisa boa. Ajoelha e reza, amizade!

Eu queria muito um LP bonitão desse disco, porque nele tudo é muito físico. É o corpo no comando, com sua vivência, de sofrimento, gozo, memória física da história do Brasil, das travessias, desembarques, grilhões, trens lotados, fábricas extenuantes. Corpo que apanha, que dói, que foge e mas que se acolhe em si mesmo, se resgata na dança, no rito. Lembro de ter visto uma apresentação poética da Luna, lá no Teatro Hermílio Borba Filho, no Recife. E de como ela ocupa o espaço com tamanha beleza e verdade. A poeta.

Mas ela não é a poeta que fez um disco. É a artista, que navega do livro pro disco, pro filme Sim! tem o filme Aquenda!); da fala recitativa pro canto, que é fala também; do canto pra coreografia do corpo que tem que se virar no labirinto do país racista, machista e violento. Diferente do livro, o disco é produto de muitas sensibilidades. Sim, o livro também pode ser, a seu modo, mas o disco tem essa natureza mais diversa de contribuições e o disco de Luna é rico nesse sentido, com grandes contribuições, como a produção e arranjos e piano do gigante Amaro Freitas, e gente linda do quilate de Pupillo, Lirinha, Lucas dos Prazeres, Hugo Medeiros, Junior Cabral, Xênia França e as poetas Roberta Estrela D’Alva, Mel Duarte, Cristal, Tatiana Nascimento, Bell Puã e Bione. Constelações nessa noite que paira sobre o país. Guias.

Luna Vitrolira, com seu trabalho potente, abre passagem e deixa rastro. Não fiquemos alheios ao talento e à dignidade dessa poeta.

PS. Batizo agora o Cais onde a conheci, o Cais do Imperador, como Cais de Luna! Chega de imperadores.


Sim, tem mais! É o filme Aquenda – O amor às vezes é isso, que completa essa odisseia incrível dessa artista corajosa. Eu disse completa?! Acho que é mais expande, transcende. Mais que um trabalho completo, encerrado, a poesia de Luna é porta aberta e convite. Leia o livro (Atenção! Ela também participa da antologia 29 poetas hoje, organizada pela Heloisa Buarque de Hollanda!), escute o disco e veja o filme!

O curta-metragem “Aquenda – o amor às vezes é isso”, cuja trilha sonora são 7 faixas do disco e 1 faixa inédita (águas espessas), integra literatura, música, performance e cinema. O filme dirigido por Gi Vatroi e Aida Polimeni aborda o trajeto de cura, libertação e retorno de Luna Vitrolira para o encontro com sua ancestralidade, através de rituais de cura, da ressignificação da ideia romântica de amor e da cosmificação do espírito. A narrativa se passa em um engenho situado numa região canavieira em Pernambuco, para onde a personagem volta em busca do entendimento de suas origens, identidade e memória, conduzida pelo desejo de reconstruir a sua própria história.

“A idealização do filme surgiu a partir do desejo de um conteúdo de impacto visual que representasse a potência do disco, trazendo junto a narrativa do trabalho, com o objetivo de convidar o público a acompanhar a personagem em seu trajeto de busca por sua memória ancestral, a partir do amor enquanto mote para dizer sobre a nossa liberdade. Nesse contexto, o engenho representa um território de poder, domínio, submissão e apagamento, aspectos que caracterizam o projeto político colonial do ocidente e repercutem, há séculos, em diversas camadas da estrutura de nossa sociedade, inclusive em formas disfuncionais e violentas de cativar, estabelecer vínculos e compreender afetos, o que acontece, geralmente, a partir da reprodução da ideia de posse e opressão, quando o tema é “amor”.

— Texto original da postagem do filme no YouTube.