Da música e da poesia de Joana Hime: Entreventos

Entreventos é a primeira dessa série, uma composição da Joana em parceria com seu pai, Francis. E aí vem outro afeto, o piano de Francis Hime , esse piano que escuto há tantos anos. Lembro nitidamente do seu disco Passaredo, de 1978… eu tinha 12 anos e lá estava Francis Hime entre nós. E escutá-lo aqui, nessa conversa musical com a filha, é de arrepiar, né?! [Texto de Toinho CAstro]

Texto de Toinho Castro


A cerca branca das acácias lá de casa… Esse verso que escuto na canção entreventos, de Joana Hime, já me comove. Na minha rua de infância, em que vivi uma vida, havia acácias, que vi ser plantada, que vi cresce, que vi florir. Ariano Suassuna tem os versos de um poema em que fala das acácias do Recife, onde cresci:

Ela era leve, e tinha os olhos garços
como o paudarco-âmbar da “Acauhan”,
e os ouros das acácias do Recife
nos cabelos de sol pela manhã…

Então por conta de um verso, escuto de novo e de novo Entreventos, poema/canção que inaugura o projeto de mesmo nome, de Joana Hime. Porque minha conexão com músicas é feita de afetos e Entreventos é cheia de gatilhos afetivos. Começando pela sua raiz poética, que já me chama a atenção, pois que o projeto é de um livro de poesias, a ser lançado, e que terá 10 dos seus poemas transformados em canções, ao sabor dos meses.

Entreventos é a primeira dessa série, uma composição da Joana em parceria com seu pai, Francis. E aí vem outro afeto, o piano de Francis Hime , esse piano que escuto há tantos anos. Lembro nitidamente do seu disco Passaredo, de 1978… eu tinha 12 anos e lá estava Francis Hime entre nós. E escutá-lo aqui, nessa conversa musical com a filha, é de arrepiar, né?! Some-se a isso o violoncelo de Jaques Morelembaum, que me causou a primeira e indelével impressão em 1998, com a trilha de Central do Brasil,de Walter Salles. Veja só a sensibilidade e senso de cultura de Joana Hime ao cruzar no seu trabalho tantos caminhos brasileiros. Somos o que trazemos coma gente. Somos o algo mais que fazemos desses caminhos.

Inspirada na obra do poeta português José Luis Peixoto, Entreventos é ainda uma ponte com Portugal; esse Portugal que nos é querido e familiar, esse encanto de nos entendermos, de olharmo-nos através do Atlântico com carinho. “Fiquei muito impactada com o livro ‘Morreste-me’, este título ecoou em mim. Quase sempre minhas ideias nascem de outro algo que li, ou que vi ou que ouvi. Escrevi esse poema pensando no meu pai, acho que como uma forma de já ir elaborando sua ausência no futuro. O João da canção sou eu, sempre gostei de escrever sendo outra pessoa” — diz Joana. E mal começa a música e ouvimos a voz de José Luiz Peixoto recitando os versos que, a seguir, serão reelaborados como canção pela voz de Joana, em diálogo com outra participação portuguesa especialíssima, a poeta e atriz Carolina Floare, que é outro afeto.

Meu vínculo com Portugal
é profundo, desde a poesia
até a melancolia suave.

— Joana Hime

Joana diz que não se vê como cantora, mas no canto se encontra confortavelmente e nos encanta e transporta com ela para esse território tão caro À nossa cultura que é o encontro da música brasileira com a poesia, essas duas que estão sempre a se buscar e se encontrar em pontos luminosos, como esse que Joana Hime nos oferta em Entreventos. E para o bem de todos, vem mais por aí… a próxima se chama Casa, e também é parceria com Francis Hime.

O single Entreventos foi gravado no estúdio da Biscoito Fino e já está disponível na plataformas digitais!


POESIA DE DENTRO Pilulas sessão da tarde — Vídeo-poema que é parceira de Joana e Francis Hime. O poema constará do livro a ser lançado e terá também lançamento, em breve, em forma de canção.


Aristocracia Carioca | Gerson King Combo: o Mercadão do Rei Black

O chapéu com penacho e a capa preta ficam no armário do apartamento simples, no térreo, Rua Carvalho de Souza, área central de Madureira. Para ir às compras, todos os sábados de manhã no Mercadão de Madureira, Gerson Rodrigues Cortes — 63 anos, carioca, flamenguista, viúvo duas vezes, um filho, uma neta — leva do traje que o tornou Gerson King Combo. [Texto de Dimmi Amora e fotos de André Vieira — Cedido pela Revista Zé Pereira]]

Texto de Dimmi Amora e fotos de André Vieira

Texto publicado originalmente no número 4 da Revista Zé Pereira, em fevereiro de 2008, na seção Aristocracia Carioca

Hoje perdemos o grande Gerson King Combo. Fica esse buraco na cultura carioca e na música brasileira. Em sua memória publicamos hoje esse texto da Revista Zé Pereira, de fevereiro de 2008, em que acompanhamos o mestre, o Rei do Soul brasileiro, num passeio pelo Mercadão de Madureira… onde mais?!


Capa da edição original da Revista Zé Pereira – Fevereiro de 2008

O chapéu com penacho e a capa preta ficam no armário do apartamento simples, no térreo, Rua Carvalho de Souza, área central de Madureira. Para ir às compras, todos os sábados de manhã no Mercadão de Madureira, Gerson Rodrigues Cortes — 63 anos, carioca, flamenguista, viúvo duas vezes, um filho, uma neta — leva do traje que o tornou Gerson King Combo, o rei da black music no Brasil, um único ornamento: o cordão grosso com pingentes de dente de tigre e microfone de bronze.

Diante de um Mercadão repleto de quinquilharias brilhantes made in China, Gerson não teria vida fácil se quisesse brilhar como brilhou nos subúrbios do Rio na década de 70. Anônimo, e tranqüilo com esta condição, ele vagueia por entre as mais de 600 lojas do mercado inaugurado em 1959, em busca dos produtos indispensáveis, de novas paixões de consumo e do trivial.

Um galho de arruda, óculos escuros e outras mercadorias provocam lembranças no homem que está presente na música popular desde a era do rádio. Apesar de todos os revezes nestas quatro décadas, Gerson e o Mercadão mantêm-se vivos e ativos. Neste passeio pelo maior shopping popular do país, o rei do black conta à Zé Pereira as histórias do início do rock e da black music por aqui, de racismo, das alegrias, das decepções, do subúrbio.

Capa preta americana

Ao lado do presépio de Natal montado pela administração do Mercadão, fica a Orixás em Festa, loja de artigos religiosos. Velas de sete dias estão em promoção, a R$ 1,45. Máscaras de madeira, ornadas com pedras e marfim, importadas da Nigéria, podem valer de R$ 200,00 a R$ 3.000,00. Na frente da loja e ao lado do presépio, um exu Tranca Rua das Almas, de 1,80 m, veste uma capa preta que custa R$ 350,00.

Desde que o dono da loja, Pedro Silva, coloco-a na porta, a imagem, que não está mais à venda, virou objeto de culto. Mulheres beijam-na. Semanalmente, garrafas de cachaça colocadas como oferenda são recolhidas pelos funcionários. Semanas atrás, Latifa, neta de Gerson, foi passear com o avô e, vendo a imagem do homem negro, imponente e risonho vestido com a capa preta, não hesitou:

— Vovô!

Gerson é católico, vai à missa todos os domingos na Paróquia do Santo Sepulcro, respeita as religiões afro, mas não gosta da semelhança. Sua capa preta tem outra origem, e nem é originalmente black. Foi idéia do instrumentista Cesar Camargo Mariano, branco o suficiente para ser barrado numa boate do Harlen, em Nova Iorque, no início da década de 70.

— Eu estava no Harlem, excursionando com o Simonal e o Cesar Camargo. Eu era tímido e o Cesar dizia para eu adotar as roupas que os negros usavam lá: “Vai para Madureira com isso que você vai arrebentar. Bota capa, luva, bota esta porra toda”. Eu não queria usar, porque os caras eram cafetões. Ele insistia que aqui no Brasil era outra coisa. “Porra Gersão, tá perdendo tempo”, dizia o Cesar. Cheguei aqui e adotei. Minha segunda esposa, a Angélica, costurou a primeira capa. Foi aquele sucesso — conta Gerson.

Além dos cafetões nova-iorquinos, inspiraram o visual de Gerson, o King Curtis Combo, de quem ele copiou o nome, e James Brown, ambos adeptos da capa na época.

Tropa de elite

A fantasia de Papai Noel está logo na entrada da Loja Fantasias, Galeria H do Mercadão. Lá dentro, um manequim de colete preto, acolchoado. Da cintura para baixo, apenas uma lingerie. A boina com a caveira do Bope, completa o visual Capitão Nascimento, o sucesso do momento. R$ 59,90. A versão infantil (R$ 39,90) não tem cinta-liga, é claro.

Gerson é filho de um policial militar, seu Jovelino Cortes, um dos responsáveis pelo fato de um negro nascido na subida do Morro São José ter passado a infância e a adolescência longe do samba.

— O sambista era visto como marginal. Meu irmão, Getúlio Cortes, era muito americanizado, e foi um dos primeiros DJs. Comprava discos e levava pra gente dançar. Mas não tinha samba.

Gerson conta que, com a chegada do rock, a cisão foi total. Os sambistas viam os roqueiros como homossexuais. Só mais velho Gerson se reconciliou com a turma do samba. Hoje, é vizinho de Tia Doca da Portela e presença em seus pagodes. Com a polícia, ele mantém um respeito formal. Seu problema agora é com um dos movimentos que ele ajudou a criar: o funk carioca. Gerson tem pavor de uma parte do movimento que usa a música para fazer apologia do crime ou fala (e faz) sexo explicitamente:

— Juntar o black e este funk dá choque. Temos um problema social, com esta periferia carente. Não precisa dessa coisa de chamar mulher de prostituta, cantar que vai comer a mãe. Nós, que fizemos letras com cunho social, não temos nada com isso. Não temos nada que bandido é melhor. Nem polícia é melhor nem bandido é melhor. Este funk é um modismo que não vai vencer. A não ser que queiramos que vire uma Sodoma e Gomorra. A idéia é até policiar isso. Já fui a baile que tinha sexo explícito.
Madureira Tênis Club

A Madureira que Gerson nasceu era muito diferente. Mesmo sendo morador do asfalto, ele e o irmão e as duas irmãs traziam latas de água da bica que ficava no fim da Rua Andrade Figueira. Poucas ruas eram urbanizadas e o transporte coletivo eram os bondes. Hoje, o bairro é o principal pólo comercial do subúrbio do Rio. Pelo menos 17 linhas de ônibus passam em frente ao Mercadão, além das centenas de vans e kombis que a ajudam a tornar o tráfego ali um inferno.

A Madureira de antigamente lembra um pouco a Mercearia Rosa da Conceição. Encravada na Galeria G do Mercadão, ela se diferencia por ainda oferecer grãos em sacos de dez quilos. É possível encontrar o acaçá, uma farinha de milho branco ou vermelho, usada na culinária baiana (R$ 2,60 o quilo), e a ervilha extra-macia a R$ 3,20. Sinal dos tempos, atrás do balcão estão os enlatados como milho e azeite.

— A vida não era mole não. Eu tive uma infância muito triste. Nós não podíamos nada. Onde hoje está este Mercadão, havia o Madureira Tênis Club, onde crioulo não entrava — conta Gerson.

A Madureira de hoje tem um pouco da transformação que Gerson ajudou a construir na sociedade brasileira. O clube que não aceitava negros se mudou e deu lugar a um entreposto de hortigranjeiros, que ficou pronto em 1959. Anos depois, no remanescente Madureira Esporte Club, Gerson entrou pela porta da frente, com o grupo Renato e Seus Blue Caps, onde aprendeu a cantar. Agora, a porta dos fundos no Mercadão — que a patir a inauguração da Ceasa de Irajá, em 1976, foi se transformando num centro comercial — é apenas uma opção.

— Eu nunca quis sair de Madureira, do subúrbio. Gosto daqui, me sinto em casa, com os amigos. Tinha até vontade de ir morar no Recreio, eu faria amigos lá também, mas eu acho que não saio daqui mais não ­—profetiza Gerson.

Especiarias

Gerson é procurado quase diariamente por jornalistas de todo o mundo. Simpático, carismático e educado, tendo acompanhado o surgimento do rock no Brasil, ele é, hoje, um ícone da música negra no país, e cult até na Zona Sul. Na década de 70, era raro ele aparecer na imprensa. Um dos poucos momentos, foi quando a jornalista Lena Frias, pelo “Jornal do Brasil”, fez a primeira reportagem sobre o movimento black no Rio.

— Fomos para alguns bailes e ela fez uma grande reportagem. O título era “O novo ritmo da Zona Norte”. A partir dali, o black estourou. O black deve muito a esta moça — agradece Gerson.  — Na Zona Sul, nunca tivemos muita entrada. Só tinha um baile, no Olímpico, em Copacabana. Mas enchia.Vinha todo o pessoal dos morros.

Depois da reportagem e de muitos bailes suburbanos que consolidaram o ritmo no Rio, Gerson Gravou dois discos: “Gerson King Combo”, em 1977, e “Gerson King Combo volume II”, em 1978. Depois de anos sem reedições, eles saíram em CD. Apesar de os discos em vinil terem virado peça de colecionador, Gerson não ganha praticamente nada em direitos autorais. Vive do salário de funcionário público e dos poucos shows que, na linguagem dele, pingam.

Na galeria K, num cantinho meio escondido do labiríntico Mercadão, a Rio Flora Especiarias guarda raridades dos temperos. Entre um cesto de sal grosso (R$ 1 o quilo) e uma lata com erva de bugre (R$ 10 o quilo), estão ervas raras que temperam os pratos de grandes chefs do Rio. O quilo do estragão, adocicado e picante, custa R$ 140. Já o cardamano,  importado do oriente, não sai por menos de R$ 160. Mas nem os mais raros temperos da Rio Flora, alcançam o preço já pago por colecionadores por um disco em vinil de Gerson: R$ 250.

— Eu preferia um pouco menos de fama e um pouco mais de dinheiro — confessa.

Amores

Na cozinha, Gerson também é rei. Adora receitas italianas e não fica sem macarrão em casa. A maior parte dos alimentos são comprados por ele nos sábados no supermercado Rede Economia, ou no Shopping da Carnes, que oferecem melhores preços. No Mercadão, Gerson ainda compra peixe fresco, na Peixaria Domenico Baroni, que pertence a Carlos Barone, filho de Domenico. Ali, em novembro, o camarão rosa, de bom tamanho, podia ser comprado a R$ 12,99 o quilo. O peixe preferido de Gerson é o namorado (R$ 11,99 o quilo).

— Faço o namorado a escabeche, com molho de camarão. Quando vou para a cozinha, deixo a turma doida — revela, sem modéstia, o rei.

Gerson aprendeu muito na cozinha com Angélica. Os dois eram dançarinos nos show promovidos pelo radialista Jair Taumaturgo, que em seu programa “Hoje é dia de rock”, na Rádio Mayrink Veiga, criou uma espécie de semente do rock no Brasil. Mas eram amigos, já que ele era casado com a cantora Elizabete Marques. Em 1962, Gerson perdeu Elizabete e sua primeira filha durante o parto. A depressão foi grande, só curada com a ajuda de Angélica.

— Ela foi me consolando, me consolando e acabou me consolando quase 30 anos. Foi uma vida com ela — conta Gerson que perdeu a segunda mulher em 1990.

Depois da morte de Angélica, só namoros eventuais. Nos relacionamentos, diz que nunca viveu preconceito. Ao contrário. Era e continua sendo mais paquerado por mulheres de pele mais clara. Com as mulheres de pele mais escura, ele se sente mais rejeitado. A agitada vida romântica de Gerson não aparece nos primeiros discos. Ele preferiu caminhar por uma área mais difícil, com letras  que tinham como objetivo a afirmação do negro. Seu clássico, “Mandamentos Black”, diz: “Falar como fala um black/ Andar como anda um black/ Usar sempre o cumprimento black”.

— Isso me traz reconhecimento até hoje, mas me criou problemas. Tinha pouco espaço na mídia. Hoje, acho o negro já não precisa de tanta afirmação. Já tem ministro negão, presidente de CPI negão. Há 30 anos não tinha isso. Agora, minhas letras ficaram mais românticas — conta ele, que tem 12 músicas inéditas para gravar e continua produzindo e ouvindo soul music. — O DVD dos The Temptations não sai do aparelho.

Arruda e Escadinha

Nas manhãs de sábado, Gerson entra no Mercadão pela Rua Conselheiro Galvão e vai direto ao segundo andar. No box 23, Arthur Costa está a espera do cliente fiel com uma ramo de arruda. Todos os sábados, Gerson leva para casa a planta, e não faz com ela nenhuma iguaria:

— Coloco com um copo d’água atrás da porta. Ali, se vier qualquer coisa ruim, para o mal, bate e vai embora na hora. Isso me foi ensinado pela minha avó, que era rezadeira.

A tradição nunca foi esquecida, nem nas épocas de maior fama. Gerson conta que o assédio era tanto que passou a andar menos pelas ruas do bairro. Nesta época, foi morar com Angélica e seu único filho, Gerson Júnior, na Vila da Penha. Num fim de semana, ele notou que estava sendo perseguido e parou o carro em Madureira, próximo a casa de sua mãe. Foi interpelado por dois homens que queriam que ele entrasse em outro veículo. Gerson não estava disposto a entrar, mas os homens disseram que o músico Roberto Ribeiro estava esperando por ele. A arruda deve ter ajudado: quem esperava era José Carlos dos Reis Ensina, o Escadinha, um dos maiores traficantes da época.

— Foram subindo o morro. Quando cheguei lá em cima, tava o Roberto Ribeiro, o Beto Sem Braço, o Bezerra da Silva, todo mundo num pagode, promovido pelo Escadinha. Ele queria todos os artistas famosos de Madureira lá. Tomei um susto danado e a Angélica quase morreu do coração — lembra.

Escadinha era conhecido de Gerson desde a infância. Estudaram na mesma escola, a Cristo Rei, em Vaz Lobo. O traficante que deu trabalho à polícia do Rio na década de 80 e acabou assassinado em 2004, após cumprir sua pena de prisão, tinha uma outra imagem para Gerson:

— Ele era um bom aluno e um bom menino na escola. Todo mundo gostava dele. Eu chamava ele de Zeca e, naquele dia, nos falamos e fiquei contente.

Terrorista

As lojas que vendem pipas e assessórios continuam resistindo no Mercadão. São três, no segundo andar, com modelos de cores e preços semelhantes. Em destaque, as pipas com escudos de times de futebol e as com personagens folclóricos ou polêmicos, como Osama Bin Laden. Numa loja, o vendedor diz que a pipa não está à venda. Em outra, que acabou. Ninguém quer ficar com fama de terrorista.
Gerson também não quis levar esta fama na década de 70, durante a ditadura. Quando seu disco foi lançado, ele teve que ir prestar depoimento no Departamento de Ordem Pública e Social (DOPS) da Polícia Federal.

— Queriam saber minha ideologia. Eu disse que era dançar e namorar. Cheguei a dizer que não entendia o que acontecia com os brasileiros que não podiam protestar se no mundo todo protestavam. Ele achou que eu era meio inocente. Nós éramos inocentes mesmo. Não tínhamos esta raiva. Só procurávamos um espaço para o black.

Ao carisma de Gerson, nem a ditadura resistiu.

— O delegado ficou meu amigo. Disse para eu não levantar bandeira negra, nem branca. A verdade é que não podia ser tão radical. Era o que conversávamos porque senão iríamos presos. Não tínhamos uma guarida que tinha um Gil, um Gabeira, um cara da Zona Sul. Se a gente fosse preso, a gente ia entrar na porrada, como eu vi muita gente tomar porrada quando eu era pára-quedista. Tive que sair do Exército em 1965, por causa da música — relata Gerson que, ainda militar, viu Gilberto Gil e Caetano Veloso presos em sua unidade.

Papel de arroz, do Roberto e do Tim

Não tem para ninguém. A loja mais cheia do Mercadão é a Casa do Papel de Arroz. Um aglomerado de gente com máquinas digitais na mão, ocupando metade do corredor da Galeria G indica onde funciona a loja que produz papéis comestíveis. Por módicos R$ 5, é possível comprar um A4 com a cara do filhinho, da filhinha, do netinho ou da netinha e colocar no bolo de aniversário. Por R$ 9, você leva um tamanho A3. A vendedora também oferece foto na camisa e em imã de geladeira.
O sucesso da loja mostra o quanto a imagem é importante hoje em dia. Gerson é do tempo em que a imagem estava engatinhando. Quando começou, era no rádio que se consagravam os astros e para onde ele e seu colega atual colega de majestade, Roberto Carlos, foram.

— O Roberto foi no programa do Jair com o Snakes. Ele, o Tim Maia, o Erasmo Carlos e o Alírio, já falecido. Fizeram um teste e nem foram bem. Eles eram esquisitos. O Roberto era manco, o Tim era gorducho, o Erasmo era grandão e o Alírio baixinho ­— diverte-se o Rei Black.

Gerson conta que Tim já implicava com Roberto, a quem acusava de não saber cantar, e fez com que ele saísse do grupo. Mas, dos quatro, foi Roberto quem acabou levando a coroa. Na TV, o plano era americano e ninguém percebia a falta da perna do cantor ou sua voz pouco potente. Só seu sorriso simpático e contagiante.

— O Roberto sempre foi carismático. E aprendeu muito com a gente. Ele e a Wanderleia andavam no trem da Central, onde o pessoal do subúrbio voltava para casa cantando e dançando rock. Eles até passavam da estação pra ficar com a gente — relembra.

O mago e o maluco beleza

Nos sábados, a entrada principal do Mercadão, pela Avenida Edgar Romero, está lotada de camelôs. A maioria vende CDs piratas e o ritmo preferido são os funks e hip hops de cantores americanos. Legal ali, somente a banca de jornal que também vai sucumbindo. Revistas e jornais são poucos. Livros, nem mesmo do ex-colega de trabalho de Gerson na Polygram (atual Universal), o agora mago Paulo Coelho.

— Eu o chamava de cabeção. A gente dizia que ele era diretor da VEC. Era a diretoria do Vai Enganar Caralho. Ficava lá, fazendo criação. Depois que se juntou com o Raul, eles ficaram doidos de vez — conta.

Como bom criador, Paulo também copiava. Gerson conta que, ao chegar ao Brasil da excursão com Simonal, no início da década de 70, vestiu suas novas roupas e foi divulgar suas músicas na Avenida Rio Branco, Centro do Rio. Lá, foi xingado de tudo quanto é nome por quem passava no ônibus.

— Mas eu respondia: tudo bem, eu tô com dinheiro e carro com motorista. Você ta duro ai dentro do ônibus. Foi um perregue. Contei isso pro Raul e pro Paulo e ele disse: “Tu fez isso, mesmo?”. Depois, os dois foram para a Rio Branco fazer passeata para divulgar o disco deles.

Violada no auditório

Quebrar violão também já não era novidade para Gerson em 1967, quando Sérgio Ricardo quebrou o dele ao ser vaiado no Festival da Record. Um ano antes, em 1966, Gerson já tinha destruído um, mas na cabeça de um espectador durante um show da banda de Renato:

— Foi um show em Cataguazes. Eu estava estreando como cantor. E também o Leno e a Lílian. Estávamos todos muito nervosos e quando eu desci do palco, o Leno e ela iam entrar. Vi um cara passando a mão na bunda da Lílian. Não conversei. Peguei o violão do Leno e quebrei na cabeça do cara. Depois fiquei só com o braço, me defendendo de uns 15.

Pomba da paz

Durante muitos anos, o movimento black teve uma cisão. Seus dois principais ícones musicais, Gerson King Combo e Tony Tornado, não podiam ser chamados para dividir o microfone. Talvez nem o palco. Os dois ex-pára-quedistas ficaram inimigos no Festival da Canção de 1969. O motivo: a briga para ver quem cantaria “BR-3”, música de Tibério Gaspar e Antonio Adolfo, símbolo daquele concurso.

— O Tibério estava me procurando para ensaiar a música e o Tony disse que eu não viria porque eu morava em Cosmos, que era muito longe. Quando eu cheguei, eles já estavam ensaiando. Eu acabei cantando “Ave Gloria Day” com a banda do Dom Salvador, e ficamos em quinto lugar. Eles ficaram em terceiro. Quando me contaram esta história, fiquei para morrer. Ali criou um iceberg entre a gente.
A paz entre os dois é recente e nem precisou que os amigos comuns comprassem uma das pombas brancas (R$ 15 a unidade) vendidas nas lojas de animais vivos, no segundo andar do Mercadão. Também não houve um almoço com as galinhas, coelhos, patos, marrecos, faisão ou cabrito (R$ 80 cada filhote) para comemorar. Gerson também não comprou um espumante na Brumore, galeria H, sua loja de bebidas preferida no Mercadão. Mas, garante, agora está tudo bem:

— Eu perdoei ele. Acho que cada um tem sua hora. Era a hora dele, ele foi feliz. E quando chegou a minha hora, eu também fui feliz.

Coreógrafo do Chacrinha

Depois das quinquilharias chinesas, os produtos mais vendidos no Mercadão são as bijuterias, vendidas por todo o primeiro andar. Na Letícia Bijoux, a vendedora conta que a moda agora são os braceletes (que podem custar até R$ 15). Mas não saem de moda os apliques de cabelos. Pretos, ruivos, coloridos, louros, podem custar entre R$ 5 e R$ 45.

O aplique dá ao visual feminino um jeito meio As Panteras (originais). Ou, abrasileirando, meio Chacretes. O Velho Guerreiro deve a Gerson a criação destas personagens:

— Eu era um exímio dançarino. Mas na época quem dominava a dança na TV eram umas bichas bailarinas argentinas que ficavam com negócio de “uno, dos, tre” e não dava nada certo. Eu trabalhava na TV Rio e o Chacrinha estava lá. Com ele, só tinham duas mulatas grandonas que não sabiam dançar. Fizemos um teste para escolher mais garotas e fazer um grupo, que eu ensaiava. As primeiras chacretes fui eu que ensinei a dançar. Rita Cadillac, Índia Apache e tantas outras. Quem popularizou a dança na TV fui eu — orgulha-se Gerson.

Ser dançarino antes de ser cantor (Gerson só foi aprender a cantar no meio da década de 60) fez dele um showman com uma presença de palco invejada por muitos músicos, entre eles Tim Maia:

— Ele ia aos meus shows para aprender. Ele dizia para mim: negão, tu não cantas porra nenhuma. Mas eu queria ter nascido no teu corpo com a minha cabeça e a minha voz.

Viva Gerson King Combo!

A gente agradece à Revista Zé Pereira que cedeu esse texto pra gente publicar nesse dia triste em que perdemos o Gerson!


Texto escrito e publicado pela primeira vez antes da implementação do acordo ortográfico. Publicado agora com revisão original.

Playlist III

Confira as observações musicais de Aderaldo Luciano, com sua Playlist. São textos e músicas pescadas no cotidiano. São frutos dessa quarentena que se prolonga e é preenchida com buscas e encontros nas ondas da rede e do Spotify!

Observações musicais de Aderaldo Luciano

11

Não penseis vós que eu sou sombrio, que busco as escuridões, os subterrâneos, as tocas, as grutas e grotas por onde a luz do sol não ousa. Não. Sou um dançarino pelas ruas aziagas, sou um pingo no sobrado avoengo, sou um glúteo espontâneo desligado do samsara, vou descendo a ladeira em desabalada carreira. Lá embaixo estarei entre os sete e estaremos à frente da dança eterna, do ritmo mais elétrico em gritos e aleluias à vida. Vem.


12

Fui com Marlui até o pé de pitanga. Toda a pitangueira tem perfume. A pitanga é uma fruta pequena, com polpa rara e semente profusa. Não como a pitomba, cujo caroço atende por quase toda fruta. O cheiro e o sabor da pitanga é o amor que deixa rastros. As folhas da pitangueira, maceradas, incendeiam as narinas e expandem os pulmões. O amor de pitanga se propaga quanto mais pilado, quanto mais sangrado. Que maneira de amar!!!


13

O cheiro do cajá espalhou-se pela vizinhança da casa. Desde que me entendo por gente, quando pude ver o céu como um ventre, esse cheiro era esperado todos os anos. A casca grossa da cajazeira, as raízes brotando acima do solo revolvendo a terra eram uma parábola sobre o colo de minha mãe, Dona Mocinha. Minha mãe é a terra, minha mãe é a floresta, minha mãe é a cajazeira frondosa, minha mãe é. A trilha sonora de minha mãe é Nazaré. Pereira.


14

Madrugada em Santiago de Cuba, silêncio total. Nus, acendemos um Cohiba numa brasa da fogueira, demos baforadas, observamos a fumaça cortando desenhos contra a lua. Pensei nos mártires, pensei nos que lutam. Ela me perguntou se um dia eu voltaria a ilha. Lhe respondi que o futuro é descontrolado e que o fogo tem prazo de validade. Aproveitamos o fogo. Aproveitamos a brasa. Fumamos até ficarmos cinzas. Na ilha, o sol nasce e se põe sem sair de sobre nós.


15

Essa minha alma que partiu de ontem. Essa minha alma que chegou-me assim. Assim como a herança destinada por quem não conhecemos, um antepassado que nunca falou aos nossos corpos. Fui derramado, ainda sonho, no corpo quase infantil da moça brejeira, doce e sem maldade. Cruzei estradas apenas embrião. Arrastei correntes, ainda microgente. Quando abri os olhos, via Alim Qasimov. Ouvi a melodia. Era um lamento de interrogações. O agradecimento diante da imensidão.

A estrada longa e larga

— Sobre a primeira semana do Festival e Laboratório de Artes Performativas Linha de Fuga 2020

Texto de Alexandre Gigas


Passou a primeira semana, em Coimbra, do Festival e Laboratório Internacional de Artes Performativas Linha de Fuga. Nela, desdobrei-me em várias personagens, numa linha de fuga esquizofrénica; o assistente de produção, o crítico de fuga que observa e escreve, o artista que de forma fugaz participa de exercícios colectivos das oficinas e, por fim, o poeta que observa e foge de todas essas personagens para voltar a si. Assim, este poeta que vos escreve, não falará de nenhuma particularidade artística do festival até ao momento, mas num todo caótico, que procurará ordenar.

A curadora do evento, Catarina Saraiva, promove a discussão sobre a Democracia, ou a importância do anonimato na democracia. Este é um lugar para essa discussão, nascendo na polifonia de línguas dos artistas participantes e das geografias de onde provêm. A discussão dá-se entre reuniões onde se buscam acordos, assembleias deliberativas e plenários efémeros, com que esta comunidade artística se relaciona entre si e com a cidade que a acolhe. Parece-me que é sempre assim, em todos os momentos do nosso quotidiano, mas não será. Na deambulação pelas ruas, penso que a maioria dos indivíduos que aqui habita continuará alheado do evento e da discussão que ele promove. Apesar de todos termos de procurar o lugar de diálogo com o mundo que nos rodeia, somos vítimas da ditadura capitalista do tempo, a pressa imposta pela necessidade de sobrevivência. Esta, mais do que tudo, retira-nos a capacidade de escuta e de diálogo, tornando-nos ditadores da nossa própria vida e dos que nos rodeiam. Cada vez mais raro, no mundo urbano, o alcance da respiração pausada das tarefas primordiais, ou dos cantos que embalavam a lavoura, ou do cuidado do gesto repetido como um mantra ditado pelas mãos.

Eventualmente, o evento conquistará alguém distraído da ditadura, através de estratégias de comunicação que me fazem imaginar uma pessoa na tona da água, a fazer um esforço hercúleo para flutuar, gritando “Venham! A cultura é segura!”. A Cultura é segura, como o tempo de escuta e diálogo são seguros. A democracia é de todos e é manifesta em curiosidade sobre o outro e afecto para o outro. As pessoas são muito importantes, pois esta discussão da democracia pela arte, propõe afectos. Aliás, os afectos estão subjacentes às propostas artísticas, às ligações entre os artistas, a equipa de produção, as pessoas que são público, ou vizinhos, ainda que temporários. Os afectos são maiores pontos de escuta do outro, de se colocar o mais possível no lugar do outro, na linguagem e pensamento do outro, na vontade de erguer o futuro com o outro. Pelo meio poderá vir a nossa opinião, como elo de ligação, como forma de resistência ou como atitude cívica ou afirmação de activismo. Seja como for, será o afecto que conduzirá essa consciência de nós para a construção em conjunto e só ele permitirá que esse edifício social não se torne efemeramente em ruína. Esse labor da construção é permanente, até quando dormimos e sonhamos.

O meu sonho, no que a este evento concerne, prende-se com  a busca pelo lugar de dança (ainda que a uma distância de segurança). A dança espontânea entre pessoas num mesmo espaço, na sua observação uns dos outros, dos seus movimentos e dos seus olhares, é um dos afectos que a ditadura pandémica nos está a retirar. Assisti no evento a três momentos de dança. O primeiro no âmbito de uma oficina, em que a minha estranheza a ver pessoas dançando, distantes entre si, com máscaras que lhes cobriam metade da face, me alertou para tudo o que estamos perdendo. O segundo e terceiros momentos fora do festival, onde pessoas procuraram esse lugar de dança em sítios isolados, que lhes permitiram desenvolver esse acto ilegal e subversivo que combate o medo. 

Já o medo não se vê nos múltiplos pormenores que a cidade oferece; seja na intermitência e cruzamento de formigueiro adormecido dos transeuntes, que inventam um novo quotidiano; seja na mudez dos espaços fechados; seja nas ausência de tudo o que não está e se suspende na dúvida se voltará a existir. O medo sente-se nas palavras oficiais das instituições, na aleatoriedade das regras com que elas tecem uma teia invisível. A aranha institucional tece-nos fomentando em nós atitudes mesquinhas e individualistas, por vezes narcísicas de algumas pessoas sós. Encontro homens de braços caídos, com olhares de quem procura a sua mãe, tentando não olhar as mudanças que se operam e que os não privilegiam mais. Homens de braços caídos desenhando as ruas, de cabeça erguida para os pedestais, onde homens de braços caídos e sós choram arrogância com grunhidos e trazem no olhar o último estertor do capitalismo cultural que os alimenta. 

Vejo também mulheres construindo fortificações sem pedras, onde todos cabem e todos são chamados a construir (Uma trabalheira isto de construir!). Castelos de nuvens onde, mais que medo, se respira cuidado e atenção pelo próximo. Penso há uns meses que me encontro num jardim morto, onde ainda assim brotam flores. Estas flores são polinizadas pelos afectos, em actos e palavras; as flores são poesia e a sua existência, neste canteiro efémero, é Arte. 

O que se constrói, nos plenários laboratoriais em que testamos a democracia directa, pode não vencer e o nosso futuro ser uma “nuvem de hidrogénio assexuado” promovida pelo ódio nacionalista ou a morte pelo amor aos  objectos, que é o amor pela nossa história. Podemos todos morrer de História. A estrada é longa e larga.

Fotografia de Augusto Fernandes

Um amor para dormir

Vovó usava o verbo “dormir” como a Bíblia usa o verbo “conhecer”: no sentido sexual. Às quatro da manhã, com um copo d’água na mão no meio da cozinha, pensava mais uma vez que, para mim, o auge da intimidade é mesmo dormir junto. Só que no sentido literal. [Texto de MAria Cristina MArtins]

Texto de Maria Cristina Martins


– O auge da intimidade é dormir junto, minha filha! – dizia minha avó.

Vovó usava o verbo “dormir” como a Bíblia usa o verbo “conhecer”: no sentido sexual. Às quatro da manhã, com um copo d’água na mão no meio da cozinha, pensava mais uma vez que, para mim, o auge da intimidade é mesmo dormir junto. Só que no sentido literal.

Julia Roberts era uma prostituta em Uma linda mulher e não podia beijar Richard Gere na boca. O beijo era o estopim para uma possível paixão, e uma prostituta não deveria nunca se apaixonar por um cliente. Pois, para mim, o estopim é conseguir adormecer ao lado de um homem. Talvez apenas numa ordem diferente: conseguir adormecer ao lado de um homem mostra que estou apaixonada. Mas, quando os personagens do filme se beijam, já não estão apaixonados?

Isso eu sei hoje, depois de vinte anos de atividade sexual. Primeiro veio o comportamento repetido; daí, a percepção e a tentativa de análise sobre ele. Não é racional. Não disse para mim mesma que nunca deveria adormecer ao lado de um homem, mesmo que tenha acabado de transar com ele. Tampouco recebi esse conselho de alguém. Já que transou, que mal há em dormir depois? É o que a sociedade pensa. Mais do que isso: sempre fui mal vista quando quis ir embora depois do sexo, ainda que o parceiro, em seu íntimo, também quisesse. Pior ainda quando pedia para o rapaz partir.

Uma visão imediatista diria que tenho medo do que o homem poderia fazer comigo. Afinal, ao dormir, ficamos no nosso estágio mais vulnerável. Não que seja um medo infundado. Cada vez mais me parece bem verossímil acontecer uma violência nessas condições. Mesmo em casos de violência contra homens, os agressores costumam ser homens. A questão é que tenho essa dificuldade desde o início de minha vida sexual, quando era uma boboca que aceitava a predominância do falo, uma idiota que passou cinco anos seguidos transando com apenas um homem que não me fazia gozar, e que me traía com qualquer mulher que caísse na sua lábia. Acredito que o conhecimento que tenho hoje sobre o que um homem é capaz de fazer com uma mulher, mesmo quando diz que a ama, reforçou meu receio de dormir ao lado deles, mas não é esse o motivo original.

Eram quatro horas da manhã, o homem na minha cama dormia desde as duas. O encontro foi bom, começou cedo, por isso acabamos dormindo cedo. Também não somos mais tão jovens. Quer dizer, ele acabou dormindo cedo. Eu rolei na cama, tentando fazer o mesmo. É impressionante como insisto em algo que sei que não funcionará. O peso mais pesado da esperança. Quando vi que não conseguiria mais uma vez, levantei, fui fumar um cigarro, ler um livro, beber um copo d’água.

Pensava sobre o assunto, quando me lembrei dele. Assim, de repente, me veio à cabeça o colega de faculdade com quem havia dormido, no sentido literal, no mesmo colchão em um encontro de estudantes, devido à escassez do material. Consegui dormir ao seu lado não como um bebê, porque bebês em geral não dormem pesado – quem inventou essa expressão não tem filho! Consegui dormir como alguém que toma um ansiolítico pela primeira vez. Puxei pela memória… Ele era um dos três homens com quem havia conseguido dormir até hoje. O outro foi meu marido por alguns anos. O terceiro, nunca mais vi. Pode-se alegar que havia mais gente na sala. Mas houve pelo menos outras duas situações similares em que meu comportamento foi o usual.

Peguei meu celular e procurei aquele colega nas redes sociais. Talvez seja mais importante usar essa minha característica para reconhecer um amor do que ficar tentando fazer análises sobre os motivos. Se tivesse tido essa esperteza com o canalha com quem namorei por cinco anos, não teria perdido tanto tempo. Se tivesse me lembrado desse colega antes… Quando Julia Roberts e Richard Gere se beijam, eles já estão apaixonados! No mínimo, será alguém com quem poderei dormir depois de transar. Isso é muito importante para as ocasiões em que preciso trabalhar no dia seguinte. Tomara que ele esteja solteiro e também goste de mim.

Arte de Maria Cristina Martins

Dois hotéis em noites distantes

Certa vez viajei a Foz do Iguaçu, para conhecer as Cataratas. Eram férias bem vindas num período difícil do trabalho, pouco animador. Esperava, talvez, que a monumentalidade da natureza aplacasse o que quer que me afligisse. Mas nada disso interessa ao que vou escrever nesse texto. Tudo que importa é uma foto. É verdade que é possível que a foto importe por tudo que falei antes… a expectativa da grandeza das cataratas, o trabalho que me angustiava, a súbita sensação de que tudo estava por ser alterado. [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro


Foto de Toinho Castro

Certa vez viajei a Foz do Iguaçu, para conhecer as Cataratas. Eram férias bem vindas num período difícil do trabalho, pouco animador. Esperava, talvez, que a monumentalidade da natureza aplacasse o que quer que me afligisse. Mas nada disso interessa ao que vou escrever nesse texto. Tudo que importa é uma foto. É verdade que é possível que a foto importe por tudo que falei antes… a expectativa da grandeza das cataratas, o trabalho que me angustiava, a súbita sensação de que tudo estava por ser alterado. Talvez…

Na primeira noite fui à janela do quarto do hotel, e reparei no cenário que se apresentava. A lateral de um prédio que hoje, na memória, imagino como o hotel vizinho; suas pequenas janelas, quase todas fechadas, os nichos dos aparelhos de ar-condicionado, as linhas retas e sem imaginação, o acabamento prosaico, de época. Acima pairavam uns céus avermelhados, certamente pela emanação da iluminação pública, e logo à frente os prédios da cidade. Nada que me dissesse que perto dali as águas do rio Iguaçu despencavam com violência e ternura no abismo geológico cavado pelo tempo.

Poucas janelas acesas me acenavam de longe; eu mesmo era uma janela acesa na noite de Foz do Iguaçu. Lá estava a lâmpada do meu quarto presa ao teto, alimentada pela energia da usina de Itaipú, aquela monstruosidade, logo ali perto, ronronando, moendo as águas do rio para gerar a eletricidade que avermelhava as nuvens. Peguei a câmera e voltei à janela. Enquadrei a noite, o hotel vizinho, sabendo que tudo que eu teria dessa foto era a melancolia de uma cidade pequena e, àquela hora, silenciosa.

De todas as fotos que tirei nessa viagem, essa é a que mais permaneceu como retrato daqueles dias. Havia as cataratas, toda aquela beleza das cataratas desabando sobre mim, passeios, lugares novos, sabores, paisagens… e o que fica de tudo isso é o noturno dessa foto. Minha breve solidão naquele quarto de hotel numa cidade tão longe de tudo. Li no Mochileiro das Galáxias, de Douglas Adams, que nos momentos de tensão cada pessoa emite um sinal, algo como uma frequência que “simplesmente comunica uma noção exata e quase patética do quanto a criatura em questão está longe de seu local de nascimento”. Eu estava, naquele instante, longe demais de Natal, com suas dunas de areia fina e o vento sempre a soprar. Longe demais do Recife onde cresci e por onde vadeei por tantas ruas e noites como aquela. Longe demais do Rio de Janeiro, de onde vim, atravessando a madrugada brasileira num voo gelado, que fez uma breve escala em Curitiba, da qual vi somente o aeroporto e as luzes cintilantes que se afastam na escuridão.

Roland Barthes, em seu livro A câmara clara, fala do Punctum, que é algo que se sobressai numa foto, que a atravessa e chega a nós num sobressalto. “É esse acaso que, nela, me punge (mas também me mortifica, me fere)”, diz Barthes. Naquela noite inteira havia um Punctum, que não estava na fotografia, mas que era justamente ter feito aquela foto, ter clicado, a partir da janela, aquela paisagem inóspita, feita de prédios e janelas, aquele céu alaranjado. Um ato que me traspassava, um alfinete que me prendia como a uma borboleta num daqueles quadros que assombram os museus de história natural. E desse ponto de vista, preso àquela janela, que recupero aquele instante sempre que vejo essa fotografia.


Anos depois, vagueando pela web, dei com essa fotografia, da fotógrafa inglesa Natalie Curtis, e revivi o mesmo sentimento, de estar debruçado numa janela em Foz do Iguaçu. Pareceu-me uma foto análoga à minha. Nada sei sobre ela, sua história, sobre como se deu esse clic, em tempo e lugar certamente muito distinto. Não sei se o que Natalie sentia ou pretendia, se pretendia algo, ao enquadrar essas janelas de hotel, esse céu, esse letreiro luminoso que bem poderia estar na minha foto. Nada saber sobre essa fotografia, datada de 4 de junho de 2007, permite que ela me fale da mesma maneira que a minha foto me falou, permite que ela me faça a mesma pergunta ainda sem resposta.

“Beverly Grove, 4/6/07 from Vapours © Natalie Curtis 2007”


Linha de Fuga. Set 2020. Os dias com Lula Pena. (ou: Canta-me, ó musa). Cante.

COIMBRA. Por três dias andou-se sobre Sol. Como? Com Lula Pena. Foram só três dias, mas nestes atravessaram-se dias e dias e dias e dias. É mesmo assim quando o -três- consegue carregar em si um ciclo que se fecha: início-meio-fim. A serpente comeu a cauda. Encontramos o silêncio no cume da montanha dos sons. Lula propôs aos artistas que experimentassem o -piano- e eles entenderam o convite: ela, no fundo, queria que o piano fosse desafiado em sua concretude. [Texto de LuLessa Ventarola]

Texto de Lu Lessa Ventarola


COIMBRA. Por três dias andou-se sobre Sol. Como? Com Lula Pena. Foram só três dias, mas nestes atravessaram-se dias e dias e dias e dias. É mesmo assim quando o –três- consegue carregar em si um ciclo que se fecha: início-meio-fim. A serpente comeu a cauda. Encontramos o silêncio no cume da montanha dos sons. Lula propôs aos artistas que experimentassem o -piano- e eles entenderam o convite: ela, no fundo, queria que o piano fosse desafiado em sua concretude. Que os sons fossem respondendo aos seus próprios apelos. Que o compasso fosse buscado no descompasso – na trilha do erro, do experimentar. Pensamento serpenteou; penser-serpent de Valéry estava ali. [Note-se: o piano era de cauda.] A dado momento, no ápice, fomos todos [en]levados a um continuum, e, de relance, vislumbramos o Mistério que nos sobrepõe. A calmaria encontrada em meio à tormenta. Este silênciodesons, aconteceu no segundo dia – o MEIO. E assim se deu porque os artistas-residentes confiaram-se, em entrega, à convocação de Lula. Também, pudera… no primeiro dia – o INÍCIO, ela, feito musa, encantou a todos. Como se flutuasse em sua própria Voz (assim mesmo, com maiúscula) disse que -acreditava na poesia. E que -o silêncio era sexy. Quem, em sã consciência, não se deixaria levar? No terceiro e último dia: canções se costuraram em conversas. A poesia fez passagem na roda; jogada de um para outro, feito bola, como se todos estivessem em recreio de escola.

Por FIM, nenhum corpo segurou-se. Dançamos –

Foto de Lu Lessa Ventarola

Lu Lessa Ventarola, Coimbra, 19 de setembro de 2020.


Este texto integra a coletânea produzida pelo grupo Crítica de Fuga, que acompanha os trabalhos dos artistas e as atividades do Festival Internacional de Artes Performativas – Linha de Fuga.


A crítica como dádiva para a profanação do papão da crítica

A crítica, por não ser polifónica, também porque o espectador comum ausenta-se frequentemente da função de dar voz à potência da criação, posicionando-se tantas vezes na mudez – posição confortável e desresponsabilizada ou temerosa, sintetizada num simplificado “gostei”, ou “não gostei” (lá está, o valor) – constitui-se assim como o papão em termos de autoridade pouco dialógica. Estremece [Texto de Ricardo Seiça Salgado – Festival Linha de Fuga]

Texto de Ricardo Seiça Salgado

Membro do grupo informal auto-organizado Crítica de Fuga, para o Festival e Laboratório Internacional de Artes Performativas – Linha de Fuga | 12 Set. a 4 Out. 2020, em Coimbra.


Fotografia de Augusto Fernandes

A crítica das artes performativas tornou-se num papão na cabeça do senso comum, pelo menos no seio das artes performativas: existe e não existe; quer-se-lhe mal mas anseia-se a sua presença; teme-se e deseja-se. A palavra parece contaminada, repleta de paradoxos e geradora de medo. Perdeu-se a crítica por razões económicas e, de certa forma, por razões políticas. Talvez tenha acontecido isto por se ter tornado rara e pela ênfase da sua dimensão valorativa, comprometendo uma ética da receção que é contextual e sociopoliticamente determinada (mesmo que na democracia ela se almejar consentida), tornando uma parcialidade empoderada e aparentemente empoderadora numa totalidade.

A crítica, por não ser polifónica, também porque o espectador comum ausenta-se frequentemente da função de dar voz à potência da criação, posicionando-se tantas vezes na mudez – posição confortável e desresponsabilizada ou temerosa, sintetizada num simplificado “gostei”, ou “não gostei” (lá está, o valor) – constitui-se assim como o papão em termos de autoridade pouco dialógica. Estremece. Nas placas tectónicas a crítica de fuga não pretenderá ser essa “crítica curatorial” do que deve ser e, por isso, profanamos a crítica para devolver ao comum a possibilidade da sua dessacralização.

O problema é sempre o posicionamento de Deus-coisificado no seio do papel que cada um tem nas artes (veja-se o recente posicionamento do “Deus-curador”, ou do “Deus-programador”, pouco abonatório para os projetos emergentes). A democracia chama-nos e por isso, por mim, inspirado no fluxo de Rancière, vimos aqui tomá-la como espaço predileto de quem joga o seu papel de espectador emancipado, na produção de um mundo plural pelo sensível – menos julgamento e mais o assumir da sua posição entrelaçada no círculo mágico que constitui a arte da performance, numa perspetiva de construir as grelhas de análise percetivas de um encontro artístico e sociopolítico, e assumir a forma como somos afetados e afetamos, ao nível do sensível e do pensamento, como um possível guia por vir.

Procurar, então, formas de relação emergentes que façam da realidade artística uma ficção persuasiva da existência em conjunto, um trabalho de tradução das traduções enquanto encontro que, no meu caso específico, gostaria que se conectasse com o pensamento crítico e experimental, cruzado com os saberes socio-humanísticos. Interessa, então, o como perceber determinada lente do mundo que clarifique ou ensaie novas relações com as coisas da vida individual e coletiva ou, por outras palavras, entrar num diálogo do mundo e das suas possíveis cosmovisões, que nos abram novas perspetivas de ser-estar através da arte.

A crítica é chique mas aparece cerceada nos efeitos do que a constitui como reação, talvez porque apenas ande à procura dos buracos (mais uma vez, o valor). E isso, em Portugal, só poderá ser sintoma do que poderei chamar por um défice de democraticidade crítica, mais pelas consequências institucionais do que é ter ou não ter uma crítica do que pela crítica per se (todos são, afinal, livres de escrever a sua posição). É que a crítica não deixa de ser uma voz que dá voz e isso, na sua dimensão valorativa pode alimentar a cultura como mercadoria das conveniências, poluindo o debate do lado criativo quando se posiciona enquanto trincheira.

A crítica solilóquio minou o diálogo enquanto espaço predileto da democracia, diria, pela sua propensão totalizadora e pouco aberta à experimentação (como se o mainstream contentasse a precariedade do ofício). O próprio espaço onde ela é publicada tornou-se mediador do empoderamento que vislumbra, por vezes cegamente, ou às apalpadelas no circuito do preconceito. Embarcamos, então, na tarefa profanadora sem, contudo, nos posicionarmos como críticos de profissão, ou como críticos do valor. Assim, reage-se ao tema do festival Linha de Fuga, propondo uma ação experimental, a crítica de fuga. Fuga será, portanto, sinónimo de entusiasmo para, no buraco, o fole poder tomar o ar – sabendo, porém que se a intenção é tapá-lo, como disse o poeta, outro buraco se vai abrir.

A economia e a política da crítica só poderá, então, ser o espaço da dádiva, da criação de um pensamento que produz um comum, à maneira também de Steiner (como lembrou Carina Correia nas conversas do grupo), em que a crítica deve brotar de uma dívida de amor, plasmando as portas da nossa perceção e pressionando a arquitetura das nossas crenças com seus poderes transformadores, como ele nos diz. Falar por si para a criação de um comum é, parece-me, o que queremos ensaiar. Neste grupo informal, vimos de diferentes contextos, alguns de nós nem nos conhecemos, e é essa informalidade que se tornará, talvez, o território da profanação em marcha, para uma democraticidade crítica no horizonte.

A crítica, afinal, é efetivamente essa procura do afeto profundo no seio do encontro. Pensar em conjunto será, então, a lição mais profícua do que é a democracia, uma criação de comuns que se consuma enquanto dádiva. E como sabemos, a dádiva é horizontal e não aceita favores nem obrigações. O ego é sempre empoderado pelo outro que nada pede em troca e, como tal, vibra com esse empoderamento sensível acolhido. Por isso, talvez nem a valoração (ideológica e estética) que subjaz ao conceito da crítica será pertinente para a posição que assumimos. A crítica de fuga procurará a expressão do encontro no tom da troca e, provavelmente, constitui-se mais como uma pedagogia radical desse encontro. A fuga deve sempre ser para a frente, nas curvas simbólicas da nossa diferença.

18-09-2020


Este texto integra a coletânea produzida pelo grupo Crítica de Fuga, que acompanha os trabalhos dos artistas e as atividades do Festival Internacional de Artes Performativas – Linha de Fuga.


Uma fotografia #3

Não sei quem são essas pessoas, nem onde ou quando essa foto foi tirada. E quem será a fotógrafa? Talvez fossem quatro amigas viajando e uma delas tirou a foto. E talvez exista por aí uma segunda foto em que ela aparece e cuja fotógrafa foi uma outra do grupo. Qual? qual dessas três saiu da cena e cedeu lugar à amiga, para assumir o posto por trás da câmera? Uma foto assim deixa margem para tantas especulações… Estarão vivas ainda? Lembram desse passeio? desse dia? Ou preferem esquecê-lo? [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro


Não sei quem são essas pessoas, nem onde ou quando essa foto foi tirada. E quem será a fotógrafa? Talvez fossem quatro amigas viajando e uma delas tirou a foto. E talvez exista por aí uma segunda foto em que ela aparece e cuja fotógrafa foi uma outra do grupo. Qual? qual dessas três saiu da cena e cedeu lugar à amiga, para assumir o posto por trás da câmera? Uma foto assim deixa margem para tantas especulações… Estarão vivas ainda? Lembram desse passeio? desse dia? Ou preferem esquecê-lo? Falavam o meu idioma ou essa foto percorreu países e fronteiras antes até chegar, décadas depois, à Praça 15 no Rio de Janeiro, e às minhas mãos num sábado de sol?

Foi frequentando a Praça 15 que eu soube dessa história. A história da fotógrafa viajante do tempo. Qual era o lance dela? Viajava para uma determinada época, comparava uma câmera, filme, ou se fazia de qualquer que fosse o método fotográfico da época. Simulava uma vida, pacientemente fazia amizades, participava de grupos, encontros e tirava fotos. Revelava as fotos e as deixava em algum lugar, às vezes ao acaso. Outras vezes pedia a alguém para guardar. Depois retornava à sua própria época e iniciava uma jornada investigativa para reencontrar as fotos e descobrir o que delas foi feito, se ainda existiam e o quão conservadas poderiam estar, ou se simplesmente haviam desaparecido no redemoinho do tempo. Todos temos uma perda de tempo que nos alimenta a alma. Essa era a dela.

Não é uma história que todos saibam. Circula entre poucas pessoas que frequentam a praça. Fiquei sabendo porque sou amigo do Mário, meu dealer de selos, e esse é o tipo de ideia que trocamos. Na verdade, qualquer pessoa que ande por ali comprando fotos é suspeita de ser a viajante. Ou o viajante, já que apostamos ser uma mulher apenas por suposição, porque não aguentamos mais narrar histórias com homens e suas máquinas. Dizem mesmo que ela não utiliza nenhuma máquina para viajar no tempo, porque o tempo não é uma estrada em que você precise de um carro. A única coisa necessária para viajar no tempo é você. O tempo é uma linguagem. Domine essa linguagem e você poderá conversar.

Será tudo isso verdade? Ou eu e Mário imaginamos essas fábulas para iluminar nossos sábados na feira? Ao mesmo tempo não deixo de pensar que toda vez que comprou uma foto velha estou sendo observado de longe por essa misteriosa e hipotética viajante. Será que um dia ela baterá à minha porta, para reivindicar a foto das suas três amigas? O registro desse encontro que pra ela pode ter sido ontem! Pois são assim as viagens no tempo; num dia você está 50 anos no passado e no dia seguinte está de volta, ao exato momento em que você partiu. De súbito me pergunto: será que ela está na foto? Será que agora mesmo, enquanto a seguro nas mãos, posso ver seu rosto e, eventualmente, reconhecê-la nas ruas do Rio, em Copa ou mesmo na praça? O mundo é esse lugar, cheio de “quem sabe?!” e “Tomara!”, como se essas duas expressões pudesse nos salvar do tédio de não poder viajar no tempo.

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Uma fotografia #1
Uma fotografia #2


Penélope 19 | Uma ópera doméstica de Armando Lôbo, com Gabriela Geluda

Ter, nesses dias, uma ópera para ouvir, ver e viver, é um alento. Quando Aramando me falou pela primeira vez do trabalho e me enviou um link para assistir, pensei em como era auspicioso uma ópera para falar sobre o que estamos passando com esse mundo revirado pela Covid. Não pelo clichê disseminado do que seja uma ópera, mas pelo que uma ópera sempre possa ter de inesperado e intenso. [Texto da Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro


Amanhã, dia 19 de setembro, às 19h (No canal da CO.MO – Companhia de Micro-Óperas), estreia nas plataformas digitais uma das grandes e gratas surpresas artísticas desse ano pandêmico de 2020. A mini-ópera Penelópe 19, escrita e dirigida pelo músico pernambucano Armando Lôbo e interpretada pela atriz e soprano Gabriela Geluda. O tema é a quarentena que se impôs sobre nós, o isolamento físico que desde março desse ano emaranha nossas vidas por conta da Covid-19. Mais que isso, o tema somos nós mesmos, nas nossas casas, redesenhando o que somos e buscamos, o eco da nossa voz reverberando nas paredes, nos objetos, numa reinterpretação do mundo a partir desse ponto em que habitamos, o lar. É como se cada um de nós estivesse na matéria condensada de um big-bang prestes a expandir, mas que se contém em si mesmo ao custo de poderosas tensões.

Ter, nesses dias, uma ópera para ouvir, ver e viver, é um alento. Quando Aramando me falou pela primeira vez do trabalho e me enviou um link para assistir, pensei em como era auspicioso uma ópera para falar sobre o que estamos passando com esse mundo revirado pela Covid. Não pelo clichê disseminado do que seja uma ópera, mas pelo que uma ópera sempre possa ter de inesperado e intenso.

Por ocasião desse lançamento, no último 15 de setembro tivemos um papo muito bom com Armando e Gabriela sobre os caminhos de Penélope 19, que teve também a presença do querido amigo e parceiro Jorge LZ, do Programa na Ponta da Agulha e que você pode assistir no vídeo abaixo!


Assista também aos dois trailers produzidos para a divulgação de Penélope 19


Com linguagem experimental e ao mesmo tempo comunicativa, Penélope 19 é uma das poucas óperas existentes em formato de curta-metragem, a primeira brasileira. Uma transposição alegórica do épico para um apartamento do Leblon, em tempos de quarentena. Todos os sons da composição foram coletados na residência de Gabriela Geluda. Os utensílios domésticos foram processados de forma a se constituírem em texturas. Um instrumento tradicional indiano (também pertencente à soprano/atriz) serve de apoio harmônico em alguns trechos da obra. O único som que não veio do universo doméstico de Geluda é o de uma viola dinâmica sertaneja, que pontua o excerto de Pur ti Miro, de Monteverdi, em versão re-elaborada por Armando Lôbo.

Gravada em um único dia, Penelópe 19 contou com uma equipe enxuta e empenhada em fazer valer o mote Um smartphone na mão e uma ópera na cabeça! E funcionou lindamente e nos traz nesse redemoinho que nos engoliu, esse maelstrom, uma luz acesa, um norte criativo que motiva a manter a cabeça fora d’água e respirar fundo.

Equipe de Penélope 19


Com Penélope 19 inaugura-se a CO.MO – Companhia de Micro-Óperas, e com isso a promessa de que mais óperas virão!

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