A dança da Chuva

Os poemas estão sempre chegando nas águas da Kuruma’tá, vindos de toda parte, de todo tempo. Poemas feitos por gente que anda por aí, que atravessa os campos e as ruas, que senta na varanda para ver a chuva cair, com sua dança, com seu contornar as coisas, ganhar o mundo. Grato, Juraci, por fazer chover hoje, aqui. [Poema de Juraci Augusta da Cruz]

Os poemas estão sempre chegando nas águas da Kuruma’tá, vindos de toda parte, de todo tempo. Poemas feitos por gente que anda por aí, que atravessa os campos e as ruas, que senta na varanda para ver a chuva cair, com sua dança, com seu contornar as coisas, ganhar o mundo. Grato, Juraci, por fazer chover hoje, aqui. — Revista Kuruma’tá

Poema de Juraci Augusta da Cruz


Da janela ouço a musica
E vejo a dança

Cai a chuva
Molha o telhado
Rega a amendoeira
Passa na biqueira
Desce e rega a rua
Fazendo-se um rio de riso solto

Cai a chuva
Cantando
O som da via
E a vida canta
Gota após gota
Sem alarde
Num balé de harmonia e paz

Cai a chuva
Ela não machuca
Canta e, suavemente chega ao chão
No chão vira riacho, ao pé da calçada
Não briga com os obstáculos
Rodeia cada pedra e segue
Cantando
Bailando
Numa prece de gratidão

A chuva como a vida, dança
E dançando ensina
A cair sem alarde
Seguir sem se impor
Falar sem gritar, sem levantar a voz
Driblando obstáculos
Dançando livre
A dança da plenitude
Da humildade
E da esperança de virar mar
E amar.

Macaé, julho de 2020

Playlist I

Inauguramos hoje na Revista Kuruma’tá as observações musicais de Aderaldo Luciano, com sua Playlist. São textos e músicas pescadas no cotidiano. São frutos dessa quarentena que se prolonga e é preenchida com buscas e encontros nas ondas da rede e do Spotify!

Observações musicais de Aderaldo Luciano


1

Titane segurou minha mão, tranquilizando-me. Foi me guiando, me mostrando os pequenos acidentes na pauta, revelando as margens da estrada, a tessitura da Areia, o ouro do seu timbre, a riqueza de seu cantar. Eu estava triste. Eu era triste. Eu fui triste, mas caminhei, deixei a Titane o direito a meus olhos, a meus ouvidos, a meu coração. No fundo do sertão, onde tudo é vivo, onde tudo é mistério, onde tudo é reflexo aurífero, nós caminhamos para a eternidade. Era final de tarde. O sol pedia socorro. E nós o socorríamos.


2

Veio a tarde como veio a chuva, preparando-se, prenunciando-se um pouquinho fria, um ‘cadinho cinza. Nesses esquemas, a saudade de minha terra também se achega. Naquele tempo, não muito longe, eu me deitava, pegava Borges e me abraçava com ele. Mas agora, está aqui, cantando a terra, Sandra Belê. Mugido do tempo, ruminação dos recantos saudosos. Essa minina tomou o rumo do mundo, trilhou o caminho da cacimba etérea. Me leva com tu que eu voo.


3

Se não fosse a saudade, eu teria certeza de minha inexistência, da inexistência do meu tempo, do final dos meus sonhos. Minhas dores não me fariam saber o sabor do dissabor. Então Socorro Lira me oferece a cabeça da canção do mundo numa salva de prata. Ela, Socorro, e Vanja Orico abriram-me a armadilha e aqui estou, uma lágrima e um nó no peito, uma vontade de confessar meu futuro e predizer minha leveza. Não, não estou triste, é sodade, meu bem, sodade do meu amor!


4

E vem lá de longe, de não sei de onde de dentro de mim, a voz de Buika, a força de Buika, a vastidão de seus caracóis vocais. Ela sabe que estou quedado no assoalho dos deuses. Ela sabe de minha fragilidade atemporal. Um sopro basta para me despedaçar. Ela sabe. E completa a audição. Os acentos e as notas, a rouquidão rasgando o peito, uma brasa descendo sobre o sentimento. Eu poderia gritar-lhe: “Yo vengo a ofrecer mi corazón!”


5

O tempo rude que nos envolveu, o povo rude que nos amaldiçoou, esse tempo e esse povo não são capazes de assassinar as sensibilidades, fechar as portas do sonho, barrar a negociação secreta da sobrevivência. Ouço agora Ane Brun e penso em cada palavra. A vida promete muito e muito oferece e muito cobra. Um toque de mão pode acender a vida. Devemos carregar a esperança nos ombros, mesmo com a realidade desse tempo e desse povo nos empurrando pelo penhasco.


O último voo

Foi principalmente após o rompimento com Clarissa que Rômulo, retornando à casa da mãe — azul e de janelas amarelas, na esquina da rua dos Araçás, número 126 —, deprimiu-se de vez. Tentou cinema, puteiros, boates, comprimidos, tai-chi, trilhas no meio do mato, uísques, academias, livros de autoajuda, encontros em grupo. Nada serviu. Afinal, nem mesmo o psiquiatra encontrava alternativas ou mentiras. [Texto de Huggo Iora]

Temos hoje uma nova voz na Revista Kuruma’tá, que nos chegou pelos caminhos virtuais, pelas conexões randômicas que vão se formando e se consolidando. É sempre bom quando chega alguém novo por aqui, como uma chuva boa que cai, o frescor que vem pela janela aberta! Seja bem-vindo, Huggo!

Texto de Huggo Iora


Foi principalmente após o rompimento com Clarissa que Rômulo, retornando à casa da mãe — azul e de janelas amarelas, na esquina da rua dos Araçás, número 126 —, deprimiu-se de vez. Tentou cinema, puteiros, boates, comprimidos, tai-chi, trilhas no meio do mato, uísques, academias, livros de autoajuda, encontros em grupo. Nada serviu. Afinal, nem mesmo o psiquiatra encontrava alternativas ou mentiras.

Então, num entardecer calado, de raios solares despencando oblíquos do céu, uma pomba pousou na janela da cozinha enquanto Rômulo enchia um copo d’água. Ali, com aquele olhar puro do animal, os dois travaram um vínculo. O homem, num gesto instintivo, decidiu alimentar a pomba com farelos de pão que jaziam sobre a mesa. Estendeu sua mão côncava até o rosto da ave que suavemente beliscou os petiscos. Ela carregava um sinal púrpuro no meio da testa acinzentada. Rômulo riu, e sentiu uma alegria invadir algumas células do seu corpo. Fazia tempo que não sabia o que era isso.

Rômulo manteve seus principais compromissos. Dava banho na mãe cedo, todas as manhãs, e aulas de geografia ao ensino médio do colégio público Fernando Pinheiro Vespúcio. Entretanto, o restante dos seus dias era preenchido pela devota atenção às pombas. Alimentando-as diariamente, em menos de dois meses, mais de cem pombas vieram morar sobre o telhado da casa da mãe de Rômulo; tornando-se conhecida entre a vizinhança por: casa-poleiro.

Ele perdia horas admirando maravilhado o comportamento simples das aves, as relações que travavam entre si, a maneira como alongavam a musculatura do pescoço, a leveza sublime dos voos alegres. Particularmente, Rômulo se deliciava ao assistir às revoadas em bando que as pombas davam nos crepúsculos da manhã e tarde. Comparava o evento a um balé grandioso; emocionava-se quando comentava aos amigos remanescentes.

Remanescentes porque depois de transformar o jardim de sua mãe num pombal, grande parte do seu círculo de amigos, colegas, conhecidos, desfez-se. Falavam agora de Rômulo — e de seus novos hábitos, costumes exóticos — sob uma capa de julgamentos e análises. Suspeitavam de a loucura, causada sobretudo pelo impacto emocional do término de seu relacionamento com Clarissa, ter consumido a maior parte de sua inteligência. Ninguém mais curtia ficar perto dele. Possuíam asco sobretudo dos piolhos e das doenças contagiosas.

Certa vez, voltando cedo do trabalho – pois havia marcado uma consulta para sua mãe que vinha urinando um líquido espesso e marrom há semanas -, Rômulo viu Lauro, vizinho de longa data, espalhando bolinhas de veneno pelas calçadas, misturando-as com uma ração de pássaros. Foi na direção do pilantra, que tampouco tentou disfarçar o que estava fazendo. Os dois trocaram ofensas e depois quase caíram na porrada — não fosse Edna, a costureira manca e fofoqueira da rua, a escandalizar berrando por socorro.

Mesmo no enterro da mãe, Rômulo não conseguia tirar da cabeça os pensamentos das pombas que o esperavam. Recebia as condolências dos presentes com um aceno de cabeça automático, seguido de um fechar de olhos trêmulo e saturado. Sabia que não teria mais de dedicar boa parte de sua vida aos cuidados da mãe. E isso, sombriamente, alentava-o. Sobraria momentos bastantes para desfrutar da companhia dos pássaros e de suas purezas. Aguardou o anoitecer e, após a despedida de todos, retornou à casa; às pombas.

Quando Rômulo, ainda na semana de luto, descobriu que Sabrina, professora de história e única amiga de trabalho sua, fora demitida da escola por causas injustas — segundo seus princípios e morais —, o homem indignou-se severamente e numa atitude animal foi ao diretor pedir as contas. Não aguentava mais o comportamento humano; a hipocrisia das relações; as estruturas sociais; a manipulação do povo; a luta de classes; a concentração de poderes e direitos; os discursos imersos em ideologias. Exausto estava de tudo que enxergava ultimamente comum nos humanos. Desejava apenas enclausurar-se no calor da casa, do ninho, junto às aves e seus doces arrulhos, sonoros e úmidos como o despertar do sereno noturno.

Corridos três meses que Rômulo não saía do seu “habitat”, senão para fazer compras, começou a sentir dores agudas, pontadas que pareciam lhe perfurar a pele e os músculos das costas, logo abaixo das escápulas. Imaginou serem os rins. Atingiu quarenta graus de febre. Ardeu na cama. Molhou lençóis e edredons. Gemeu na solidão. Depois suspeitou ter contraído algum fungo das fezes das pombas, devido à semelhança dos sintomas. Afastou-se assim delas. Ainda que ateu, recorreu num desespero impotente a Deus, para que este o salvasse de tal quadro. Orou tudo que conseguiu lembrar da época de eucaristia. Chamou o nome da mãe. Inutilmente.

Na hora derradeira, quando a vista se anuviou de sombras, Rômulo viu uma pomba destrancar a janela do seu quarto e abri-la, permitindo que uma claridade morna invadisse a escuridão do cômodo. De postura imponente, o pássaro pousou no peitoril e encarou o homem — macambúzio e magro e totalmente entregue em seu leito. Arregalando os olhos num esforço tremendo, mirando o sinal roxo na testa da ave, Rômulo se ligou que era a mesma pomba do primeiro encontro naquele fascinante fim-de-tarde na cozinha, quando enchia seu copo com água e o pôr-do-sol dourava a poeira que caía da cortina. O homem esgarçou a boca num sorriso agradecido e demorado, sem desviar os olhos do ser alado, parado na janela.

De repente, por detrás da ave, uma manta se formou com a vinda das demais pombas. Elas mantiveram-se voando numa certa altura, conservando um bater de asas que gerava um som etéreo, terapêutico. As maçãs-do-rosto de Rômulo enrubesceram e suas sobrancelhas tomaram vida. Das costas, rompeu-se um empenado par de asas. O corpo minguou enquanto o peito inflou as fibras. Canelas deram lugar a patas. Leve, o indivíduo empertigou-se sobre a roupa de cama rapidamente, coçando suas penas com o bico. Balançou o pescoço. Não possuía mais os braços, nem compromissos, nem planos, nem preocupações ou questionamentos. Sentiu-se pleno, sem a sensação de desencaixe que o consumia quando homem.

A pomba do sinal púrpuro subitamente abandonou o peitoril, juntando-se às outras. Rômulo, sem perder tempo, atravessou o quadrado da janela com natural destreza e seguiu em direção ao bando. Sob os raios certeiros do sol, distantes montanhas desnudavam pétalas e sombreavam suas silhuetas finais, um pouco antes de adormecerem com a descida da noite, e as pombas executavam seu magnífico espetáculo no céu. Rômulo, integrando agora o balé, dançava e voava, como uma estrela inefável dos palcos.


Um noite no ferro-velho de Bodoni

Sentamos eu e Ray, lado a lado, na beira do rio. Logo atrás de nós jazia um foguete abandonado, no ferro-velho do nosso amigo em comum, o sonhador Fiorello Bodoni. Da última vez que o vimos já estava doente… lá longe os foguetes, rumo a Saturno ou Vênus, riscavam o céu desde o horizonte num arco. Eu e Ray sorríamos feito crianças que, afinal, éramos. Brindamos com nossos copos cheios de licor de dente-de-leão aos foguetes, ao espaço e aos sonhadores, como Bodoni. [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro


Nesse pandêmico e quarentênico ano de 2020 o planeta Marte está em pauta. Graças às aspirações megalomaníacas de um certo Elon Musk que, a jogar foguetes para o alto, pretende enviar até lá uma missão tripulada, quiçá colonizadora. Quem que já esteve em Marte, como eu, bem sabe que essa tarefa não é para bilionários mas para poetas. Quem me passou esse ensinamento e me levou pelas dunas vermelhas do quarto planeta a partir do sol foi ninguém menos que Ray Bradbury.


Sentamos eu e Ray, lado a lado, na beira do rio. Logo atrás de nós jazia um foguete abandonado, no ferro-velho do nosso amigo em comum, o sonhador Fiorello Bodoni. Da última vez que o vimos já estava doente… lá longe os foguetes, rumo a Saturno ou Vênus, riscavam o céu desde o horizonte num arco. Eu e Ray sorríamos feito crianças que, afinal, éramos. Brindamos com nossos copos cheios de licor de dente-de-leão aos foguetes, ao espaço e aos sonhadores, como Bodoni. O rio estava sereno e as coisas não haviam mudando muito naquele arrabalde. Parecia que o progresso inteiro havia avançado noutra direção, desviando daquele trecho do rio, do ferro-velho, daquelas ruas escuras, de casas com janelas amareladas pela luz das antigas lâmpadas.

Isso aqui é um ermo, Ray. — Eu falei.
Você não viu isso aqui ainda antes do ermo. Quando Bodoni montou o ferro-velho nada havia por aqui. A outra margem do rio ainda não havia sido aterrada. Bem ali, disse-me apontando com o dedo trêmulo, havia uma vacaria e para aquelas bandas, tudo que havia era um bar suspeito chamado A Cabana das Ostras. Fui lá uma vez com Bodoni e o velho Bramante. Pra nunca mais.

Caímos na risada, eu conhecia a fama da Cabana das Ostras, que já não existia há anos. Tudo ali era uma inexistência. Tudo havia ficado pra trás. Mesmo Bodoni havia ido embora depois que seus filhos cresceram e seguiram seus próprios rumos, um deles em direção às estrelas. Bodoni não chegou a ver esse sonho se tornar um outro sonho, a que chamamos de realidade. Nesse instante um outro foguete se ergueu na plataforma, como uma espécie de sinal, uma lembrança do que somos feitos. De que somos essa fuga contínua para fora, mar afora, céus afora. Olhei para Ray e sabia que ele pensava em Bodoni e no foguete adormecido no ferro-velho que, como tudo ali, tinha uma vida latente. Ele tirou do bolso da jaqueta uma pequena caixa de madeira e ficou com ela nas mãos por um tempo, a revolvê-la entre os dedos. Na superfície lisa da madeira reparei que havia pequenas estrelas incrustadas, feitas de algum metal que talvez fosse bronze ou latão, ou alguma liga que não é desse mundo. Algo caído do céu.

Depois de me olhar no olhos em silêncio, co a caixa numa das mãos e a outra segurando o copo de licor, que bebericava de vez em quando, ele abriu um leve sorriso, iluminado por todas as luzes distantes que nos rodeavam. Por fim deu uma pequena sacudida na caixa e escutei que algo sacolejava ali dentro. Ao abri-la revelou seu secreto conteúdo: uma chave. Ray vinha carregando isso com ele há anos, desde a ultima vez que vira Bodoni, no hospital.

— É a chave do ferro-velho. Bodoni me deu para guardar, no hospital. 

Eu sabia o que ele tinha em mente, desde o momento em que ele me ligou, propondo irmos beber na beira do rio, junto ao ferro-velho, em honra ao querido Bodoni, que se vivo fosse, estaria fazendo aniversário naquele dia. 

Ray virou a chave na fechadura e abrimos o grande portão do ferro-velho. Ele caminhou até o pequeno escritório de madeira, ali nos fundos e fez com que algumas lâmpadas vagas acendessem e iluminassem, diante de nós. o foguete. Nossos olhos estavam cheios de lágrimas… de saudade, espanto, felicidade e melancolia. Forçamos a portinhola do foguete, entramos naquela engenhoca saída da cabeça de Bodoni e era como se entrássemos nos seus sonhos. Ray estava com o dedo no botão de ignição e não fazíamos ideia do que ia acontecer, uma grande explosão ou um grande silêncio. Se ali não fosse o ermo que era, se houvesse por ali um menino ou um gato sorrateiro, testemunharia o ferro-velho ganhar vida e o foguete sacudir seus metais em meio a ruídos e faíscas, e escutaria o gargalhar de dois velhos amigos, dois velhos companheiros, meio bêbados de licor de dente-de-leão, seguindo rumo ao espaço, a Alpha Centauri ou Sagitário A*, para nunca mais voltar.

Para Ray Bradbury, no seu centenário.
Inspirado pelo conto O foguete, publicado em 1950

Ray Bradbury. Foto: Reprodução.

A letra A de Vinícius Terra | “Máscaras de azulejo escondem o desejo”

Eu não conhecia o Vinícius Terra, nem seu trabalho, e esse é o grande encantamento da arte… a descoberta. Estou sempre atento, de ouvidos e olhos abertos, para não ficar nadando no mesmo mar. E adentrar o mar que esse artista me abre hoje nesse dia frio e chuvoso, de um mundo em indefinida quarentena, é um alento de vozes e imagens. Um alento de palavras nesse país movido pela língua portuguesa… que eu já ia dizer que Vinícius usa como instrumento, mas não é isso, não é instrumento. É essência, coisa entranhada na alma e nas demandas da vida. [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro


Devo dizer que num vão de ignorância eu não conhecia o Vinícius Terra, nem seu trabalho, e esse é o grande encantamento da arte… a descoberta. Estou sempre atento, de ouvidos e olhos abertos, para não ficar nadando no mesmo mar. E adentrar o mar que esse artista me abre hoje nesse dia frio e chuvoso, de um mundo em indefinida quarentena, é um alento de vozes e imagens. Um alento de palavras nesse país movido pela língua portuguesa… que eu já ia dizer que Vinícius usa como instrumento, mas não é isso, não é instrumento. É essência, coisa entranhada na alma e nas demandas da vida.

Lançada no álbum Eles não sabem a minha língua, Máscaras de azulejo é, composição do Vinícius em parceria com o beatmaker 2F U-Flow. Trançada delicadamente numa ponte harmônica com a dupla portuguesa Lavoisier num belíssimo videoclipe, Máscaras de azulejo nos chega agora num videoclipe inspiradíssimo, dirigido e produzido de Victor Fiúza (diretor do clipe “Ok Ok Ok”, de Gilberto Gil e de documentários como “Racionais MC’s: Uma História Musical”  e “Quatro Dias Com Eduardo”). Em preto & branco de renovar o fôlego, a costura fina de imagens produzidas por diversos artistas mundo afora, num jeito de superar as limitações do mundo em pandemia, amplia a dimensão da canção, recarrega de energia sua narrativa. O silêncio imposto ao feminino nessas travessias atlânticas de que se fez nossa história de nação.

Sou a letra A – última: Flor-do-Lácio, primeira a ver seus passos; Passeio, olhar no passo, teu seio alimento, embaraço; A bruxa na Inquisição, transportada à escravidão; A mucama a olhar pro chão, cruz, caravela, distorção. História mal contada, a roupa mal passada; Garganta amordaçada, carne estrangulada; Retalhada, calada, abafada, abusada, judiada, malvada, desejada, mal amada, mas… Eu sou aquela… Eu sou a fera… A trela, a outra, a cela; Índia, serra… Ásia, ilha, África, bela… Península, planície, praia, favela. Ela: Guarani, Tupy, Kaiowá à espera de quem nunca virá, nunca dirá, nunca amará, Areia, terra, água, mar, ar… Em falta, na boca de quem prova Falta trova, rainha? Eis aqui tua prova…

Escuto e vejo, presencio a força desse trabalho dilacerado e dilacerante. Que grande oportunidade me é dada de estar no lugar e no tempo de músicas assim, sem medo, sem meias palavras, sem atalhos. Impossível não ser tocado e chamado à reflexão, de ter que olhar para si mesmo e rever, continuamente, o próprio papel nessa história. Como desfazer esses nós da alma? E esse silêncio transbordante de palavras, represadas, nos movimentos violentos da colonização, da escravidão, dos porões, dos quartinhos de fundo, do fundo, do murmúrio.

Florbela Espanca, Cora Coralina, Carolina de Jesus, Noêmia de Sousa Alda Lara, Cecília Meireles, Filomena Embaló, Vimala Devi, Manoela Margarido…
Sou sim: em si, em mim, em ti!
Sou todas as mulheres que li, ouvi, senti!
Sou cria das entranhas, filhas, irmãs
Rara rima, bandeira, poesia, novas manhãs!

Máscaras de azulejo. Escuto e vejo emocionado. De novo e de novo, em looping, para fixar esses versos e essas imagens. Para não esquecer.

Máscara de azulejo em todas as plataformas


E agora é hora, para mim, de mergulhar no trabalho de Vinícius Terra com gosto, com a sensação incrível de ter descoberto algo poderoso.


Agostos de Haroldo de Campos

Nas décadas de 1980 e 1990, lá no Recife, vivi de ler Haroldo de Campos, e seu irmão, Augusto. Contaram-me sobre o fim do verso, que eu tanto amava, sobre a temperatura informacional do texto, uma frase da Teoria da Poesia Concreta, que eu achava ser, justamente, um verso lindo. Eu tinha esse livro, da editora Brasiliense, que eu lia tentando compreender aquele novo mundo que se abria pra mim, tão longe de São Paulo, em tantos sentidos, que eu estava. [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro


Em 16 de agosto de 1929 nascia o poeta, tradutor e ensaísta Haroldo de Campos, em São Paulo. Na mesma São Paulo ele veio a falecer, poucos dias depois do seu aniversário, em 19 de agosto de 2003, aos 73 anos.

Nas décadas de 1980 e 1990, lá no Recife, vivi de ler Haroldo de Campos, e seu irmão, Augusto. Contaram-me sobre o fim do verso, que eu tanto amava, sobre a temperatura informacional do texto, uma frase da Teoria da Poesia Concreta, que eu achava ser, justamente, um verso lindo. Eu tinha esse livro, da editora Brasiliense, que eu lia tentando compreender aquele novo mundo que se abria pra mim, tão longe de São Paulo, em tantos sentidos, que eu estava. Tão longe e tão perto, como se diz. Sentia-me no bairro de Perdizes ao folhear as páginas dos irmãos Campos e seu fiel parceiro, Décio Pignatari.

Eu não compreendia tudo e nem concordava com tudo. Eu não queria a morte do verso (nem eles!), mas aquilo me colocava em movimento. Aquelas páginas já haviam sido lidas, relidas, discutidas, repensadas e eu, sem dúvida, chegava bem atrasado ao debate. Mas o debate era fresco e urgente na minha cabeça. Essa é a importância dos livros… enquanto eu os lia vivia sua história e enfrentava os dilemas, contradições, com minhas ideias e discutia com meus amigos, atrasados como eu naquela festa. Para mim a poesia concreta sempre será nova e desafiante. Sempre que a acesso me ponho a pensar. Devo muito disso a Haroldo de Campos.

Pude encontrá-lo certa vez, na minha primeira visita ao Rio de Janeiro, junho de 1993 (Conto essa história aqui). Era o lançamento de Bereshith: a cena da origem, sua tradução para um trecho do Livro do Gênesis e um trecho do Livro de Jó. Aventurei-me de ônibus na noite da cidade, sem conhece-lá, até a Gávea, na livraria Marcabru. Levei comigo o meu exemplar de Qohelet/O-Que-Sabe, sua tradução para o livro de Eclesiástes que eu havia comprado há pouco na Dazibao, livraria que deixou histórias e saudades. Para Antonio, este Poema Sapiencial bíblico, que nos diz tanto ainda hoje. Foi isso que ele me escreveu na folha de rosto do livro. Depois pude escutá-lo, emocionado, recitar os versos (sim, o verso não havia morrido) do Livro de Jó, de quando Deus responde a Jó.

Com Haroldo de Campos eu li Maiakóvski e a poesia russa, li Ezra Pound, Konstantinos Kaváfis, Sousândrade, Joyce… É uma contribuição inestimável de uma pessoa para outra. E isso é somente a ponta do iceberg, porque todas essas leituras se ramificam em mil outras leituras, numa coisa que puxa outra; pois a única vida possível é puxando o fio da meada.

Tenho alguns dos seus livros, outros se perderam no caminho, mas mãos dos amigos que pegaram emprestados e nunca devolveram. Espero que tenham lhes feito o bem que me fizeram e aberto as mesmas e também outras portas. Tive um exemplar de A educação dos cinco sentidos, editado em 1985, creio. É um livro pelo qual tenho especial apreço e ao qual sempre retorno. Foi um dos que sumiram no sorvedouro de livros que são as amizades. Comprei, já no Rio de Janeiro, uma outra edição, da Iluminuras, que vem com um CD com poemas, em que recupero aquela voz que escutei há 27 anos numa pequena e querida livraria na Gávea. No livro tem o poema Ode explícita em defesa da poesia no dia de São Lukács, em que diz da poesia:

porque não tens mensagem
e teu conteúdo é tua forma
e porque és feita de palavras
e não sabes contar nenhuma estória
e por isso és poesia
como cage dizia

Sempre que vou a São Paulo penso em Haroldo de Campos, na aventura luminosa da poesia concreta. É quase sempre como se estivesse em meio aos seus poemas, ao seu Galáxias, texto infinito que li no Xadrez de Estrelas e do qual Caetano Veloso inventou sua Circuladô de fulô, emanando as forças do povo, o inventa línguas. Haroldo era essa confluência de caminhos, encruzilhada que distribuía jornadas. Tenho dele a minha jornada que nunca acaba, infinita como Galáxias, a emendar uma narrativa na outra. Compondo leituras e histórias e buscando o sempre o novo, não somente pelo novo simplesmente, mas pela tradição que ele carrega.

Obrigado, Haroldo.


Carimã e açaí, ecos da criação

Há exatos 15 dias, escrevi aqui sobre um mingau de carimã que bebi em Salvador há dez anos e do qual jamais esqueci. A vontade bateu e resolvi fazer o mingau desde a produção da farinha de carimã. Pus a macaxeira de molho e assim ficou por 10 dias, sem trocar a água. Poderia ter deixado por oito.

Tirei da água, esmigalhei com as mãos, separei os fiapos grandes e lavei bastante a massa puba. Pus dentro de um pano e espremi para tirar o excesso de água. Essa massa, chamada puba, é utilizada para fazer várias coisas, mas minha finalidade era a farinha. [Texto e fotos de Raíra Moraes]

Texto e fotos de Raíra Moraes


Carimã

Há cerca de 15 dias, escrevi aqui sobre um mingau de carimã que bebi em Salvador há dez anos e do qual jamais esqueci. A vontade bateu e resolvi fazer o mingau desde a produção da farinha de carimã. Pus a macaxeira de molho e assim ficou por 10 dias, sem trocar a água. Poderia ter deixado por oito.

Tirei da água, esmigalhei com as mãos, separei os fiapos grandes e lavei bastante a massa puba. Pus dentro de um pano e espremi para tirar o excesso de água. Essa massa, chamada puba, é utilizada para fazer várias coisas, mas minha finalidade era a farinha. Então dispus em uma bandeja de alumínio, em cima de um pano, e pus no sol para secar.

Ali ficou dois dias porque não bate sol de forma uniforme na parte externa. De vez em quando eu subia para olhar, tirar da sombra e remanejar a bandeja para onde estivesse o sol. Devidamente seca, peneirei e bati no liquidificador o que ficou na peneira, por sugestão da minha mãe. Finalmente a farinha pronta, ontem fiz o mingau!

Ele pode ser feito com leite de coco ou de vaca. Optei pelo coco. Fiz o leite, com coco fresco e, maravilhada, vi aproximar-se a hora de experimentar de novo aquele mingau que ficou na minha memória “palativa”! Gente, que delícia! Fiquei tão feliz de conseguir fazer e de ter ficado tão gostoso!

Quem me passou a receita original do mingau foi meu querido Alicio Charoth, um grande pesquisador e conhecedor da cozinha baiana e também das PANCs. O carimã é uma farinha muito saudável, sem glúten, rica em ferro, proteínas, fibras e carboidratos. E saber que a que tenho aqui foi feita com minhas mãos, meu carinho, e sem absolutamente nada artificial, torna tudo muito gratificante e maravilhoso.

Açaí

Depois de muito refletir sobre uma das minhas recentes inquietações, a que fala sobre, se tudo acabar, eu teria feito tudo que tive vontade, tratei hoje de tirar um dos derradeiros, e preciosíssimos, sacos de açaí do congelador! Estou segurando os dois últimos a sete chaves, pois, se acabar, avimaria!

É um prazer inenarrável para nós, nortistas, beber esse ouro negro, ainda mais para quem está fora do seu habitat há anos… Esclarecendo que açaí não é essa gororoba fajuta que bebem os demais mortais que não estejam no Norte do país. Revira-me o estômago aquelas tigelas cheias de granola, guaraná, leite condensado, banana, amendoim, e sei lá mais o quê!

Entendam: o açaí é sagrado para nós, e ele é bebido puro, apenas com farinha de tapioca ou de mandioca, e, no máximo, açúcar. Eu, marajoara, e apreciadora raiz, bebo só com farinha de mandioca. Tomo açaí desde os oito meses de idade. Minha mãe conta que, lá em São Sebastião da Boa Vista, município do Marajó onde nasci, nossa vizinha batia açaí e todos os dias ela separava para mim, que era gordinha e louca por açaí, uma generosa tigela “do grosso”!

Minha irmã mais velha, Luciene, era quem ficava incumbida de dar para mim. Obviamente ela bebia mais do que eu! Imagina se ela perderia a oportunidade de tomar o açaí “do grosso”! (Esclarecendo: temos três categorias de açaí: fino, médio e grosso). Quanto mais encorpado, mais caro. As famílias mais pobres geralmente bebem o popular, o fino. E a vizinha separava o “do grosso” para mim! Ela me amava!

Hoje, minha preferência é pelo “médio bem grosso”. Os bons batedores de açaí sabem fazer isso maravilhosamente. O açaí grosso raiz é tão encorpado que são verdadeiros pedaços de polpa. Esse não me apetece muito. Mas, o “médio bem grosso” é aquele na medida de tudo.

Estamos na época de açaí! Minha mãe mandou um áudio lamentando e dizendo o quanto ela está sentindo por nós, os filhos que moram fora, não estarmos lá para aproveitar. Tudo é melhor: a qualidade, a quantidade e o preço. Pensem numa coisa linda, cheirosa, saborosa: é o açaí nesta época! E eu aqui descongelando na maior tristeza, e desespero, de acabar…


Os gatos e os artistas

Depois de passar a ter gatos, tenho percebido que muitos de meus amigxs envolvidxs com a arte: todos tem gatos, pretendem ter ou já tiveram. E eu comecei a reparar nos felinos, e vi neles uma série de pontos de congruência com o íntimo do artista. Percepção feita, e comecei a pesquisa, né? Pensem uma pessoa apegada às próprias ideias… [Texto de Eduardo Maciel]

Texto de Eduardo Maciel


Olá, minhas queridas e queridos kurumateiros!

Depois de passar a ter gatos, tenho percebido que muitos de meus amigxs envolvidxs com a arte: todos tem gatos, pretendem ter ou já tiveram. E eu comecei a reparar nos felinos, e vi neles uma série de pontos de congruência com o íntimo do artista.

Percepção feita, e comecei a pesquisa, né? Pensem uma pessoa apegada às próprias ideias… Então….

Apurei por exemplo que “Segundo dados da Associação Brasileira da Indústria de Produtos para Animais de Estimação (ABINPET), existem mais de 23 milhões de gatos no Brasil. O número cresceu mais de 20% nos últimos 6 anos segundo o IBGE 2017. O crescimento corresponde à 8% de aumento por ano, enquanto que os cachorros ficam à 4% ao ano.”(Fonte: www.folhavitória.com.br)

Dado antigo, eu sei, mas não encontrei nenhuma apuração mais recente. (Se alguém conseguir por favor deixa aí o link pra mim nos comentários)

Ok. Então de fato existe uma tendência em curso onde as pessoas no geral estão preferindo gatos a cachorros. 

Mas e com relação aos artistas? Num outro artigo, apurei que “Pessoas que gostam de gatos ou de cachorros têm personalidades diferentes. É o que sugere um novo estudo, feito por pesquisadores da Universidade Carroll, nos Estados Unidos. Os autores mostraram que os amantes de cães tendem a ser mais ativos e sociáveis, e também a seguir mais regras, enquanto os apaixonados por felinos seriam mais introvertidos, sensíveis e mente aberta.” (Fonte: www.veja.abril.com.br).

Fazendo o paralelo, acho que, assim como os felinos, artistas tendam a ser introvertidos em sua produção, além de sensíveis e de mente aberta. Eureka! Provado fica que a relação entre gatos e artistas tende a ser uma relação bem bacana e completa!

Okay, para que não digam que não posso provar, cata essa: “Na literatura os gatos sempre tiveram o lugar de figuras ilustres e veneradas pelos autores. O poeta Charles Baudelaire adorava gatos e a eles dedicou famosos poemas e muitas horas de contemplação, sendo criticado por lhes dar mais atenção do que à sua família. Edgar Allan Poe escreveu “O gato preto”, considerado um dos contos mais admirados na literatura universal, em que mostra a dualidade no homem, afetividade e perversidade.” (Fonte: www.biblioteca.pucrs.br)

Com isso, dou o braço a Bodelaire. Sem descuidar da família, né?

Precisa de mais alguma coisa? Sim! Conta essa pros teus amigos artistas que tem gatos em casa! Nunca te pedi nada, vai….


Sobre fazer casas de papel com mãos trêmulas

Uma cidade qualquer, não importa. É mister saber que são três da madrugada e que, no canto do bar, encostada na parede mofada, há uma máquina daquelas de tocar músicas. Vai lá, pega uma moeda nos fundilhos dessa calça desalinhada e desbotada e escolhe uma. Deixa por minha conta a próxima rodada. [Texto de Eduardo Frota}

Texto de Eduardo Frota


Uma cidade qualquer, não importa. É mister saber que são três da madrugada e que, no canto do bar, encostada na parede mofada, há uma máquina daquelas de tocar músicas. Vai lá, pega uma moeda nos fundilhos dessa calça desalinhada e desbotada e escolhe uma. Deixa por minha conta a próxima rodada.

É a hora do lobo – esse negócio meio assustador de estar desperto no horário em que sua velha mãe gostaria que você estivesse dormindo. É o limite entre a lucidez e a incerteza. Quando o tempo-besta se desamarra da gente feito uma linha frouxa na barra da sua melhor camisa de festa. Mente sã, corpo são. As mentiras que o seu corpo tenta esconder da sua mente são vis. É tudo em vão. 

Então estamos combinados. Vamos ouvir as nossas canções prediletas até ficarmos pobres de dinheiro e mendigos de espírito, bêbados de sono, irretocavelmente despenteados e com a boca cheia de fel e sal. A letra fala sobre um palhaço que anda em pernas-de-pau, mas que não consegue mais trabalho no circo porque seus membros todos tremem quando lembra que seus últimos números não provocaram sequer um sorriso.

O seu nariz tá ficando vermelho por quê? Ah, sim. Deve ser alergia.

O palhaço agora lamenta não conseguir fazer outra dobradura que não seja a de uma casa. O palhaço da música. Cachorro, pássaro, tulipa, pipa, carro, cavalo, desaprendeu tudo. Só lembra como dobrar uma casa no campo onde ele pode guardar seus discos, seus livros, seus camaradas de palhaçada e suas piadas sem graça. Numa cidade qualquer, não importa. É mister saber apenas que há um coreto bem no meio da praça.

Os seus olhos estão ficando vermelhos por quê? As, sim. Deve ser afasia.

Acontece que estão acabando as músicas e as moedas. Sempre acontece. E o que a gente faz com a dignidade que ainda nos resta? Ah, mas que merda! Agora é hora do solo de violão e a essa altura o palhaço já decidiu que vai virar domador de leão nessa vida. É uma função bem menos arriscada. Pior seria vender algodão-doce colorido na entrada. Puta que pariu, imagina?

Seu nariz e seus olhos estão ficando arregalados por quê? Ah, sim. Deve ser a hora em que vão jogar sabão nos nossos pés e virar as cadeiras vazias de ponta-cabeça apoiadas em cima das mesas. Não, não quero rachar um táxi porque acordei fora de hora, meio lobo, só vou me desdormir mais tarde. Vou seguir a pé por aquela rua vazia ali que mais parece reflexo de espelho de banheiro.

Um olho vermelho no picadeiro e o outro parado palhaço na Lua cheia.


Aponte para aquela janela: A arte e a poesia de Diego Garcez

Conheci Diego Garcez anos atrás, no Recife. Trabalhamos juntos num projeto, envolvendo TI, dados, formulários e afins. Feito isto, passou-se o tempo. A gente se desconectou e não soube dele por alguns anos. Tempo que passa pra todo mundo enquanto tece reencontros. Acabou que reencontrei Diego recentemente, pelas vias do Facebook, aquela troca de surpresas. Surpresa maior a minha, pois reencontrei uma outra pessoa da que eu conhecia. Isso deve ser alguma espécie de oxímoro… deve haver uma figura de linguagem para isso, reencontrar uma pessoa que é nova pra você! Reencontrei um Diego artista, poeta, longe do Recife, de âncora lançada em Lisboa. [Desenhos e poemas de Diego Garcez]

Conheci Diego Garcez anos atrás, no Recife. Trabalhamos juntos num projeto, envolvendo TI, dados, formulários e afins. Feito isto, passou-se o tempo. A gente se desconectou e não soube dele por alguns anos. Tempo que passa pra todo mundo enquanto tece reencontros. Acabou que reencontrei Diego recentemente, pelas vias do Facebook, aquela troca de surpresas. Surpresa maior a minha, pois reencontrei uma outra pessoa da que eu conhecia. Isso deve ser alguma espécie de oxímoro… deve haver uma figura de linguagem para isso, reencontrar uma pessoa que é nova pra você! Reencontrei um Diego artista, poeta, longe do Recife, de âncora lançada em Lisboa.

Seus desenhos me encheram os olhos, cadenciados em versos. Que beleza! Na mesma hora pensei na Kuruma’tá, que cairiam muito bem mas páginas da Kuruma’tá. E aqui estão seus trabalhos, e até um flagrante do seu atelier, onde nascem essa imagens instigantes, que nos demandam pensamentos, que nos agarram pela retina. Algo de selvagem, algo de contido, algo de poético.

Que bom no meio de uma pandemia, de uma quarentena sem fim, surgir assim uma beleza que nos encanta e comove. Que beleza, Diego! Que reencontro bom. Seja bem-vindo à Revista Kuruma’tá! Sinta-se em casa.

Espero poder dia desses, sentar contigo num café em Lisboa e conversar sobre poesia e arte e sobre os dias.

— Toinho Castro [Editor]

PS. Essa conexão da Kuruma’tá com Portugal tá ficando séria!

Desenhos e poemas de Diego Garcez


canetas diversas sobre papel canson 180g A3

you love the ocean
because you are
this

sometimes
violent
sometimes
violet


canetas diversas sobre papel A3

Qual lado? Da Ponte 25 de Abril

Quando volto
E passo
Por baixo

Converso
Com o diabo

Explico
A ele
Que não adianta
Marcar hora
Com o outro
Lado

O esboço do nosso corcovado

Porque com o trânsito
Lá de cima
Ele estará
Sempre

Atrasado


Canetas e lápis diversos em papel Canson A3 180g

Os Fios Que Juntam
Afastam

Casal de namorados
Que ainda não se viram
Tropeçarão
Como fios desencapados
Numa festa
Daqui a sete anos
Beberão o fim dos goles
Tomarão
Um comprimido barato
E quando loucos
Descobrirão que há sete anos
Moraram lado a lado
Vão achar que era a bala
Mas foi placebo
feito
Com o papel
Desse desenho

Nanquim e Canetas Coloridas em papel A3 180g

a janela
olhou-me
e disse
pode apagar a luz?


canetas diversas sobre papel canson 180g A3

Há sempre
essa coisa da morte

essa coisa de ir-se

E se metade ficar
metade já foi?

Há sempre a parte morta
Que vive

Escorada
Na parte viva
Que

Não sabe o que fazer
Porque ainda não
Aprendeu
A morrer

Então vive a escorar-se
Nessa coisa de ir-se


Canetas diversas sobre papel Canson 180g A3, ao som de Androginismo, Almério

Se
Todo mundo
Fosse filho de
Filho de

Ninguém seria filho da
Filho da

Sonhei contigo, Almério
Comíamo-nos
Deglutinávamo-nos
Em pedaços grandes
De osso e prato

Após
Esse amor

Era tango
Bailávamos

Carnavalize
Almério

Frescalize-se

Viadize-se

Para nos Carnavalizarmos
Frescalizarmo-nos
E viadalizarmo-nos

Sem isso, o mundo fica uma merda
Preto de um lado, branco do outro
Uma merda!


Vendem-se Calçados Para Enfrentar a Vida

No começo
Fizeram-me de monstro

Pintaram-me
De ausência

Retiraram
meu nome

Jogaram-me
No lago de peixes
devoradores de sobressaliências

Saí
Tranquilo

Andava ainda mais
Erguido

Logo
Tiraram os moldes
Pediram amostras

E fizeram
De mim
Modelo

Para suas botas


Cuspi
pra dentro
O Abaporu
De fora

E comi
pra fora
O Abaporu
De dentro

Fiquei assim

Naquim sobre papel Canson 180g A3

Hoje não teria
Nada
Não fosse
Uma ida
Na esquina

E esse gato

A arranhar
Meu juízo
Azucrinar
Meu instinto
Ferrar
Minha libido

Vai-te embora
Misera

Foi-se
Agora é teu

Vira-te-vira


La ursa não quer dinheiro
Porque La ursa é pirangueiro
(salvou foi muito)

La ursa sente falta
É do que faz falta

Por exemplo
Enxergar
Quem está vendo

Por dentro
De si mesmo


Esse é meu atelier, chama-se faço a mínima ideia. Não, esse não é o nome, poderia, mas não é. Ando com muita dificuldade para nomes. São irmãos de definições e ainda não as tenho como artista, espero nunca tê-las como pessoa. Mas já tenho atelier, chamo de “tamanho”? Porque daqui vai ser difícil trabalhar com coisas maiores e as mais sujas.

Não importa, vou preparar melhor com o tempo, tenho ansiedade, mas não pressa. São coisas distintas. Se estiver em Lisboa, venha me visitar. Quem sabe lhe desenho aqui, tens tempo? Podemos tomar um vinho e falar de literatura, ando a escrever um livro. Tudo parte daqui.
Se estiver longe, visite-me diariamente. Todas as obras estarão à venda, exceto as que tem preço.

Importante avisar: a principal obra será sempre a janela. Chamo de “studio aponteparajanela” ?