Com o óleo manchando as águas claras, cristalinas, as águas verdes e mornas do Nordeste, a Revista Kuruma’tá não pode ficar calada. A gente fica inquieto, agoniado, longe que estamos daquele litoral que se estende do Maranhão à Bahia. Resta-nos a palavra, pois como logo diz o mestre Nonato Gurgel nos poemas que aqui e agora apresentamos, nada mais político que falar. Então a gente fala. A gente fala no vento que sopra para aquelas bandas, a gente sopra contra a corrente do óleo que avança. Palavra é sopro. Com vocês, a força da poesia de Nonato Gurgel.
Com o óleo manchando as águas claras, cristalinas, as águas verdes e mornas do Nordeste, a Revista Kuruma’tá não pode ficar calada. A gente fica inquieto, agoniado, longe que estamos daquele litoral que se estende do Maranhão à Bahia. Resta-nos a palavra, pois como logo diz o mestre Nonato Gurgel nos poemas que aqui e agora apresentamos, nada mais político que falar. Então a gente fala. A gente fala no vento que sopra para aquelas bandas, a gente sopra contra a corrente do óleo que avança. Palavra é sopro.
Foto de Toinho Castro – Mar do Rio Grande do Norte
I – Nada mais político do que falar
Desde o final de agosto ventos e ondas arrastam manchas escuras pelas praias dos nove estados do Nordeste
São manchas que se deslocam manchas que voltam revoltam manchas que partem repartem dão cria a manchas menores
Pedras de óleos também são vistas tartarugas e peixes morrem barris amarelos boiam no verde azul do alto mar
Venezuela e Shell na jogada? o real chapa hum mas se um muito estranho 194 localidades o que dizem os silêncios da Marinha?
II – Nada mais político do que limpar
Numa torrente coletiva moradores e voluntários da Praia dos Carneiros limparam 30 toneladas de óleos
Até 20 de outubro Pernambuco retirou de suas praias 70 toneladas de óleos
III – Nada mais
O ministro do meio ambiente sobrevoa o crime ambiental que atinge mais de 2 mil km da costa
Condenado por ações ambientais no Sudeste o ministro sobrevoa mas não limpa o óleo entre pedras praias vegetais
IV – Nada
Ele não ele nada ele sequer vê as manchas ele vai viajar para longe Tóquio Pequim Emirados
Ele extinguiu o Comitê contra os desastres por óleos?
V – Águas agitadas como os mares da História
Na noite das águas problemáticas pescadores e marisqueiros narram o óleo que a maré leva aos rios e cidades Oito rios de Sergipe 12 cidades de Alagoas
Somem os turistas da foz do São Francisco e Arembepe Cabo de São Roque Maracajaú Maragogi Costa dos Corais Caraúbas Tamandaré
O Ministério Público acusa de omissão o governo e pede que seja acionado o Plano Nacional de Contingência para incidentes de poluição por óleo em águas
Iremar de Zé Pereira, poeta em seu dia
Fomos até Iremar. Casa fechada, nenhuma respiração, nenhuma luz. Bateu-se à porta. Chamou-se-lhe o nome. Proclamou-se o prefixo. E Iremar respondeu. O castelo se abriu e nós entramos na pedra. Queríamos ver os poemas. Mais do que os poemas observamos o seu trabalho beneditino. Na cabeça seus cabelos são versos de cordel. A vasta cabeleira é uma coleção de sextilhas. A cabeça toda uma biblioteca cordelística a ser desbravada. A pequena máquina datilográfica sobre um tamborete. Papel, tesoura e cola. [Texto de Aderaldo Luciano]
Guardei para o dia do poeta essa história de um poeta passada em 2014. Em São João do Cariri, ali onde o Rio Taperoá carrega as almas em tempo de cheia e em tempo de seca se vêem suas assombrações, viveu um antigo Capitão-Mor já descrito e sonhado por Júnior Cordeiro, galego e feiticeiro. Esse capitão aparecera em sonho e entregara sua botija a uma senhora. É de conhecimento popular que só quem recebe a botija é quem poderá arrancá-la da terra onde está bem guardada. Mas não é sobre essa botija que quero contar. Nem sobre o capitão. Nem sobre a senhora que sonhou o capitão. O caso trata de Iremar de Zé Pereira.
Francisco Almeida (Xicão, artesão e mágico) falou-me de Iremar e de sua veia poética. Disse-me ainda que Iremar vivia sozinho, costumava sair pouco de casa, preferia não receber visitas e desconfiava desses doutores da cidade que aparecem guiados por alguma estrela, de templos em templos. Da Muralha do Meio do Mundo, depois de ficarmos entalados nas pedras, descemos à cidade para encontrar Iremar. Cruzamos a vasta rua principal com seu casario colonial, fomos ao casarão mourisco, atravessamos a rua com destino à ponte velha. No escurecer do dia, quando a natureza está trocando a guarda…
Fomos até Iremar. Casa fechada, nenhuma respiração, nenhuma luz. Bateu-se à porta. Chamou-se-lhe o nome. Proclamou-se o prefixo. E Iremar respondeu. O castelo se abriu e nós entramos na pedra. Queríamos ver os poemas. Mais do que os poemas observamos o seu trabalho beneditino. Na cabeça seus cabelos são versos de cordel. A vasta cabeleira é uma coleção de sextilhas. A cabeça toda uma biblioteca cordelística a ser desbravada. A pequena máquina datilográfica sobre um tamborete. Papel, tesoura e cola. É assim que ele trabalha. Datilografa as estrofes de quatro em quatro, recorta-as a vai colando no livrinho. Terminado, dobra e costura. Ali está o folheto.
Queria dizer aos senhores que Iremar nunca leu Ezra Pound. Iremar é um poeta do Brasil profundo. Iremar conhece as minúcias e minudências do cordel brasileiro. Joga razão sobre a métrica, deita fogo sagrado sobre as rimas. Trabalhou nas frentes de emergência, naquele tempo de seca braba. Talvez tenha até mascado pedras e se banqueteado com suculentas folhas de palma e bananas da macambira. Ou feito amor com algum pé de xique-xique. Não sei. Estava lá no seu poema uma série de verdades. E invenções. Talvez a alma daquele antigo Capitão-Mor tenha sussurrado coisas ao seu ouvido, lhe passado o caminho das ervas, a estrada da solidão. Fui lendo seu texto e solicitando que Xicão fosse fotografando nossa conversa, nosso encontro, nosso espanto.
E aconteceu, como contei a algum amigo secreto, que no meio do poema vi estupefato um acróstico. Não era o acróstico de Iremar. Era o acróstico de Ezra Pound. Mas não podia ser porque nunca que Iremar ouvira falar de Pound ou lera as merdas daquele poeta chato, mas interessante. Estava ali e hoje procuro explicação para isso. Procurou-se e retirou-se de uma bolsa qualquer uma teoria junguiana para o fato, mas não convenceu-me. Ainda. Atribuo o fato à presença do espírito daquele capitão-mor malassombrado que persegue os sonhos segurando um mapa do tesouro. Comprovem comigo. Iremar merece mais que uma crônica sem futuro no Facebook. Iremar de Zé Pereira, hoje é seu dia, o dia do poeta, que é todo dia.
Pequeno Dicionário de Arquétipos de Massa: A Biblioteca Universal
A Revista Kuruma’tá apresenta a série Pequeno Dicionário de Arquétipos de Massa, do escritor e tradutor Fábio Fernandes! Alegria pra gente é ver gente boa alinhando com a Revista Kuruma’tá, chegando junto, acreditando. E agora chega com a gente mais um grande nome da literatura de ficção científica brasileira e fantasia: Fábio Fernandes! Autor de livros publicados no Brasil e exterior, como a coletânea de contos Interface com Vampiro e os romances Os Dias da Peste e Back in the USSR, Fábio também é tradutor de maravilhas como Laranja Mecânica, O Homem do Castelo Alto e Belas Maldições.
Da série Pequeno dicionário de arquétipos de massa
Alegria pra gente é ver gente boa alinhando com a Revista Kuruma’tá, chegando junto, acreditando. E agora chega com a gente mais um grande nome da literatura de ficção científica brasileira e fantasia: Fábio Fernandes! Autor de livros publicados no Brasil e exterior, como a coletânea de contos Interface com Vampiro e os romances Os Dias da Peste e Back in the USSR, Fábio também é tradutor de maravilhas como Laranja Mecânica, O Homem do Castelo Alto e Belas Maldições.
E hoje começamos a publicar na Kurum’tá sua série de textos Pequeno Dicionário de Arquétipos de Massa. Somos brindados então com a presença regular da Fábio na Revista. Seja bem-vindo!
e quem nos livrará dos sonhos com coisas impossíveis, eu me perguntava no instante em que atravessava os pórticos imensos da Grande Biblioteca, entrando naquele espaço positivista, grande, escuro e opressor por fora como convém, mas surpreendentemente claro por dentro, composto de salas pequenas repletas de prateleiras menores ainda, armações toscas de madeira mal pintada de branco que mal batiam à altura da minha cintura mediana de um brasileiro de um metro e setenta e dois centímetros, e uma vez dentro estava dentro, não cabia a mim questionar qual o significado do sonho, um bom bibliófilo não questiona essas coisas, apenas cuida de escarafunchar estantes, é essa a sua função. Mas qual não foi minha surpresa, após poucos minutos vasculhando as prateleiras, ao descobrir um libro de bolsillo, uma edição argentina, emecé editores talvez, uma tradução para o espanhol de um livro de Foucault analisando Corto Maltese, livro bastante raro inclusive se considerarmos o fato de que ele não existe, pelo menos no nosso mundo, que segundo alguns, é apenas um de muitos. Não foi minha única surpresa, pois logo a seguir encontrei um livro precioso, raro até mesmo no mundo dos sonhos (intuo isso porque o livro estava caindo aos pedaços, e sua encadernação dava a entender que fosse um exemplar impresso na década de trinta ou quarenta), e que era uma compilação de ensaios sobre crítica literária escritos por Graciliano Ramos. Se eu pudesse ao menos ter lido os livros em sonho, mas acabei despertando durante uma das buscas pelas prateleiras brancas e empoeiradas, enquanto me desviava de outras pessoas, talvez outros sonhadores como eu, a gente nunca tem como saber dessas coisas, e foi justamente então que acordei, incrivelmente consciente do sonho, mas incapaz de ter trazido os livros comigo. Desde então os procuro, mas nunca mais consegui voltar à Grande Biblioteca.
Nunca fui fã das histórias em quadrinho de super-heróis e, por conseguinte, de suas adaptações para a tela grande. Em grande parte, meu descontentamento vem do maniqueísmo de cartilha que impede a construção mais aprofundada do comportamento tanto dos heróis quanto dos vilões. Comumente, o bem e o mal precisam de estereótipos para sustentar a simpatia e a antipatia do leitor – ou espectador – para que as revistas – ou filmes – rendam alguns trocados. [Texto de Eduardo Frota]
Nunca fui fã das histórias em quadrinho de super-heróis e, por conseguinte, de suas adaptações para a tela grande. Em grande parte, meu descontentamento vem do maniqueísmo de cartilha que impede a construção mais aprofundada do comportamento tanto dos heróis quanto dos vilões. Comumente, o bem e o mal precisam de estereótipos para sustentar a simpatia e a antipatia do leitor – ou espectador – para que as revistas – ou filmes – rendam alguns trocados.
Imagine o Batman jogando uma guimba de cigarro na rua, ou o Homem Aranha avançando um sinal vermelho, ou o Capitão América não cedendo seu lugar num vagão de metrô lotado para uma senhora de idade.
O filme do Coringa passa longe de estar na prateleira de adaptação de histórias em quadrinho. Nem mesmo é um filme sobre vilania. Não fosse a personagem sabidamente a antagonista do Batman, seria uma produção dramática com um certo viés noir. É, sim, um filme de formação.
Não vou falar da atuação monumental de Joaquin Phoenix, nem da iluminação, nem da montagem, nem da edição, nem da fotografia… Muito se falou também das referências ao “Rei da Comédia”, inclusive com a participação de seu protagonista, Robert de Niro.
Mas pra mim, é impossível não lembrar de duas figuras, uma da música e outra do folclore medieval.
A primeira é GG Allin, vocalista de uma banda obscura de punk rock chamada The Murder Junkies. Os shows não eram famosos por conta da música que tocavam, mas sim pelo festival de escatologia que Allin promovia no palco, que incluía defecar ao vivo, beber xixi de prostitutas, bater com o microfone na testa até sangrar e se mutilar com lâminas de barbear. As pessoas pagavam para ver um ser humano incapaz e decadente se humilhar por alguns míseros dólares.
O resultado disso foi o suicídio de Allin, que tinha plena consciência do que fazia e assim o fazia para entreter uma dúzia de espectadores. Todd Phillips, bem antes de ser alçado ao estrelato com sua franquia “Se beber, não case”, fez um documentário perturbador sobre ele, chamado “Hated”. Um dos filmes mais difíceis e pesados que já vi.
Guardadas as devidas proporções, lembra a cena do número de stand up comedy de Coringa.
A outra figura que o Coringa me lembrou é o personagem do século 16, não se sabe se fictício ou real, Till Eulenspiegel. Reza a lenda que ele era um bufão miserável que, expulso da corte por seus números extravagantes, andava por vários reinos fazendo troça dos mais abastados – incitando, inclusive, levantes contra a igreja e a nobreza. O nome do nosso acento ortográfico é exatamente uma alusão à figura de Till, que era considerado um “herói torto” das massas.
Guardadas as devidas proporções novamente, impossível não lembrar da luta de classes que serve como pano de fundo em “Coringa”.
O riso cínico do Coringa, que quando ainda era Arthur era encarado como um problema neurológico, é também uma tomada de consciência quase impossível em uma história em quadrinho do Batman. Não há tempo, naquele suporte, para dirimir o maniqueísmo.
Havia nesse livro que eu peguei com o Olivar uma dedicatória linda. Escrita com letra delicada, caneta de ponta porosa, preta, e adornada com desenhos que evocam a história contida no livro, a dedicatória é endereçada a um casal, familiares de quem a escreveu. Na mesma hora me animei a escrever um texto sobre essa dedicatória para a Revista Kuruma’tá. Na mesma hora pensei em fotografar o livro, a caligrafia cursiva e flagrar aquela gentileza, possivelmente carregada de amor. [Texto de Toinho Castro]
Ontem estive na banca do querido Olivar, aqui na Carioca, centro de Rio de Janeiro, com meu sobrinho, o Gabriel. Se você não conhece o Francisco Olivar, nem o trabalho incrível que ele faz, clique aqui e leia um texto que escrevi sobre ele e sobre esse tal trabalho incrível que o move há 40 anos… vender livros. Mas vender livros, para Olivar, é na verdade o último passo de um processo que envolve muito amor pelo livro e conhecimento da causa, da importância de não permitir que os livros morram, de colocá-los, sempre, em circulação; sempre na mão de alguém.
Mas eu estava falando mesmo era da minha ida à banca do Olivar com Gabriel, e já ia contar do livro que acabei trazendo comigo pra casa. Mais um livro usado para a minha modesta biblioteca alimentada cada vez mais por livros usado. E não faça pouco caso dos livros usados, pois os livros novos tornam-se usados na mesma hora em que são comprados. Livros usados são aqueles que realmente existem; os que moram no limbo das estantes e vitrines das livrarias estão apenas aguardando para se tornarem livros.
Uma das coisas que me maravilha nos livros que compro nos sebos são as dedicatórias. A dedicatória faz parte do livro tanto quanto um prólogo ou os capítulos. Uma vez inscrita na folha de rosto, a dedicatória torna qualquer livro um objeto único, influencia a forma como o lemos, muda seu sentido. Quando leio uma dedicatória num livro, penso naquelas duas pessoas, naquele encontro. Penso no momento mágico em que uma deu com o livro em alguma livraria e pensou na outra…. essa coisa do presente é muito linda, né?! Não falo das obrigações, das datas, de ter que dar um presente. Falo dessa outra situação, carregada de vontade, muitas vezes de espontaneidade, quando uma pessoa se conecta a outra por meio de um objeto mágico, como um livro. Penso logo numa molécula, dois átomos unidos por uma forte ligação que os transforma, a ambos, em uma outra coisa.
Havia nesse livro que eu peguei com o Olivar uma dedicatória linda. Escrita com letra delicada, caneta de ponta porosa, preta, e adornada com desenhos que evocam a história contida no livro, a dedicatória é endereçada a um casal, familiares de quem a escreveu. Na mesma hora me animei a escrever um texto sobre essa dedicatória para a Revista Kuruma’tá. Na mesma hora pensei em fotografar o livro, a caligrafia cursiva e flagrar aquela gentileza, possivelmente carregada de amor.
Só que percebi que quem escreveu a dedicatória foi a mesma pessoa que escreveu o livro, um livro de memórias. Memórias compartilhadas amavelmente com aqueles dois, não só nas páginas como na vida. As histórias ali contadas eram histórias da família, de suas aventuras e graças. Um resgate de infância, um gesto de registrar coisas que de outro modo estariam dormindo no passado e aos poucos sumiriam. Então de repente me veio um pudor… o pudor de abrir a caixinha em que o livro havia se transformado e revelar os protagonistas daquela intimidade. Lembre que quem escreveu aquelas páginas ainda está entre nós e que, de alguma maneira, aquele presente foi parar nas mãos do Olivar, no centro do Rio de Janeiro. Pensei nos mil caminhos que levaram o livro até ali e todos me pareceram meio tristes. Pensei que relevar esse deslocamento seria expor, talvez, um dessas histórias tristes e suas personagens. Será que o casal presenteado faleceu e no desmontar de seu lar os livros foram dispersos, numa diáspora impossível e rastrear? Ou doados? Ou perdidos?
Achei por bem então manter fechada a caixinha dessa narrativa que se criou a partir de uma dedicatória. Teria sido feita num dia de chuva ou de noite estrelada? No aconchego de casa ou na festa do lançamento do livro, em meio a sorrisos e gente estranha? E ali a família subitamente reunida em torno de uma coleção de memórias, de dias na praia, de primos, tios, avós… E aqueço-me na pequena vaidade de compartilhar da intimidade dessa dedicatória, de ser o sujeito oculto, observador de tantas linhas temporais e afetivas se cruzando num pequeno texto, escrito a mão, num certo setembro de 1991.
Contenho minha ansiedade e me sinto o guardião silencioso de um registro de carinho, de palavras de afeto. Desse momento único em que pessoas queridas se encontram e fortalecem, por meio de um objeto mágico, um vínculo que os transforma numa molécula, em algo vivo e vibrante, que brilha à distância. No tempo e nos espaço.
PS. Ainda sobre dedicatórias e meu amor por elas, você pode ler o texto Com um beijo de Judite, que escrevi aqui para a Kuruma’tá, em março desse ano.
Cidade do caos | Parte II
Num misto de curiosidade e caridade, abraçando as bisnagas como se fossem seus filhos, Maria Luiza se aproximou do grupo. Sofreu algumas cotoveladas, mas conseguiu chegar à margem do rio. O que viu ali ficaria com ela para sempre em seus pesadelos, até a noite em que morreria cercada pelos netos ainda não nascidos, num casebre não muito maior que aquele que habitava. [Noveleta de Octavio Aragão]
Maria Luíza passou a noite em claro e agora dormitava no trem, a caminho do trabalho. O tiroteio tinha durado umas três horas, mas foi o suficiente para deixar os nervos despedaçados e espantar qualquer possibilidade de sono. Os vizinho diziam que era uma caçada a criminosos, alguma coisa assim, como no tempo em que o Cabeça de Cavalo assombrava os morros, dando trabalho para os policiais. Agora os bandidos eram outros, uns tais que a patroa chamava de comunistas e que ela não entendia bem o que faziam. – Ah, eles são um terror – dizia dona Melissa, que preferia ser chamada de “dona Mel”, do alto de seus sapatos – Assaltam bancos, querem tirar nossas casas. Dizem que, quando não têm comida, devoram crianças pequenas. E esses monstros querem derrubar o governo. – Que horror! E por que o governo deixa essas pessoas existirem, dona Mel? – Como assim, Maria? O governo não pode exterminar pessoas como se fossem baratas, por mais nojentas que sejam. Afinal, vivemos numa democracia. Maria Luiza não sabia bem o que era democracia, mas pensava que devia ser uma coisa muito boa. De qualquer maneira, comer crianças pequenas… Se a polícia estava caçando essas baratas humanas, então o tiroteio era um mal necessário e, quando dormiu embalada pelo sacolejar do vagão, o sonho foi um arremedo de filme de terror, com baratas gigantes encurralando a ela e aos filhos no canto do barraco até que um policial parecido com os que o marido assistia na televisão matava os bichos. Onde andava o marido nessas horas ela não sabia dizer, mas o sonho acabou ao som do apito do trem, avisando a chegada à Central do Brasil. A esquisitice começou na saída da estação do Maracanã, quando a multidão foi parada por um bloqueio policial. “Não parecem com o moço com o qual sonhei”, pensou Maria Luiza, que tentou passar pelo homens suarentos, barrigudos e mal encarados vestidos com a farda azul da Polícia Militar. – Não dá para passar, não, moça – disse um brucutu. – Mas como assim? Preciso trabalhar! Um rapaz de seus vinte anos, irritado com o impedimento, gritou. – Uns comunistas fizeram baderna e a gente é que paga? Quem vai explicar ao meu patrão que cheguei atrasado? Diante do cassetete do policial, o moço achou por bem guardar sua indignação na garganta, mas Maria Luiza fechou a cara em desaprovação. Como assim, uns comedores de criancinhas fazem o que bem entendem e prejudicam pessoas de bem? Não, ela iria passar e ninguém a deteria. Deu um jeito de circundar o quarteirão, tomando distância do cerco que se estendia por três ruas, visivelmente preocupado apenas com quem desembarcava do trem, como se as pessoas não pudessem chegar por outros caminhos. Com sorte, perderia apenas uns dez minutos, conseguiria chegar incólume à Rua São Francisco Xavier e ainda passar na padaria a tempo de levar uns pães fresquinhos para dona Melissa. Vai que ela adiantaria umas rabanadas para o Natal, na quinta-feira. Foi na saída da padaria que viu a aglomeração perto do rio Maracanã. Um menino de olhos arregalados passou correndo, quase esbarrando nela. – Os defuntos, tia, os defuntos no rio! Num misto de curiosidade e caridade, abraçando as bisnagas como se fossem seus filhos, Maria Luiza se aproximou do grupo. Sofreu algumas cotoveladas, mas conseguiu chegar à margem do rio. O que viu ali ficaria com ela para sempre em seus pesadelos, até a noite em que morreria cercada pelos netos ainda não nascidos, num casebre não muito maior que aquele que habitava. O mais assustador eram os ossos escuros, despontando da carne vermelha, rasgada pelo que pareciam golpes de um facão. Um emaranhado de carne que com certeza eram os restos mortais de três pessoas de sexo indefinido, circundados por arames farpados, cordas e panos nos quais Maria Luiza reconhecia restos de roupas. Pessoas que pareciam mastigadas, moídas, boiando meio submersas entre os dejetos de dois bairros da Zona Norte. E aquele cheiro… Um homem com um microfone aproximou-se dela. Devia ser um repórter da televisão. – Senhora, por favor, poderia nos dizer o que acha que aconteceu aqui? Olhando para a câmera, está bem? Maria Luiza, sentiu-se tomada por uma força maior. Cabia a ela falar para o Brasil o que estava acontecendo naquele bairro chique, onde coisas horrendas não deveriam aflorar. – Foram os comunistas. Eles mataram as pobres crianças. Comeram pedaços delas e jogaram os restos no rio. Foi esta noite. Eu ouvi os tiros. Meu Deus, as crianças… E Maria Luiza foi tomada por um acesso de choro convulsivo, afagando as bisnagas, apertando-as ao ponto de partir uma ao meio. Não lhe ocorreu que os tiros que ouvira na noite anterior foram disparados na Zona Oeste.
O disco (e eu queria perguntar aos mais agressivos se ainda se pode nominar de disco o edifício musical dos trabalhos dispostos nas plataformas digitais), continuando, o álbum (e repito aquela mesma pergunta) Meu céu, meu ar, meu chão e seus cacos de vidro, disposto nos alfarrábios do Spotify, onde o escuto há dias, repetidamente, foi disponibilizado aos mortais em setembro. [Texto de Aderaldo Luciano]
Outro dia, uma declaração de Milton Nascimento causou espanto em nós os orelhudos da música nacionalística. “A música brasileira está uma merda!” ecoou pelas línguas digitais e pelos tímpanos formais da turba atordoada. Eu, membro da patuleia, pensei nas possibilidades miltonianas ao proferir o desabafo. Milton é uma de nossas estacas florais. Mas e talvez nunca tenha ouvido Marília Parente. Aliás poucos a ouviram, pelo menos nos quatro cantos (não confundam com os Quatro Cantos olindenses).
O disco (e eu queria perguntar aos mais agressivos se ainda se pode nominar de disco o edifício musical dos trabalhos dispostos nas plataformas digitais), continuando, o álbum (e repito aquela mesma pergunta) Meu céu, meu ar, meu chão & seus cacos de vidro, disposto nos alfarrábios do Spotify, onde o escuto há dias, repetidamente, foi disponibilizado aos mortais em setembro. Há muito eu gritava como Milton, bombardeado por elementos estranhamente mortíferos. E trombei com Marília.
Lembram daquela mordida que Mike Tyson deu na orelha de Evander Holyfield? Aquela que arrancou um pedaço da cartilagem auricular do fortão dos ringues? Foi assim. A voz, de amplo espectro e poderoso alcance, veio-me do meio do mato caatingueiro, um cardo-petardo. Veio-me também da beira, da terceira margem de algum Riacho do Navio celestial ou do franciscano rio cortando o nordeste em duas metades. Dizem que, no dia seguinte ao da mordida de Mike Tyson, uma empresa de chocolates lançava a orelha de Holyfield em chocolate. Foi assim também comigo.
O grito musical de Marília me fez tremer e me recheou de chocolate, acalmando-me o corpo e a alma. Seus cantos, litúrgicos, benditos, aboios trazem um resumo da música brasileira de primeira. Citações belas, construções inusitadas em melismas, frases tão fortes, instrumentos sertanejos, em cordas e ferros, em céus e praias ensolaradas. Queria que não passasse despercebido, queria que nem passasse, mas se materializasse em shows pelo Brasil e entrasse sem pedir licença na casa de Milton, o nascimento.
Há algo de mantra, há algo de vaqueirama, há algo de urbanidade de inspiração rural. Marília Parente não repete o antigo, nem se mete ao novo, voa pelo céu possível, pelo mar invisível, pelo chão palpável, como o faquir sobre sua cama de vidros ou pregos pontiagudos. Belo caminho aberto entre as pedras que não mais gritam. Nessa situação existencial-política na qual nos metemos e nos meteram, com um diabo-mor de olhar enlouquecido no planalto central do Brasil, ouvir o trabalho dessa pernambucana ousada me fez acreditar na Revolução.
O argumento é brilhante, ainda mais se tratando de um diretor estadunidense: estudantes de antropologia viajam até uma vila longínqua na Suécia para participar de um festival em homenagem ao solstício de verão. A namorada de um deles, que não tem na “bagagem” referências como o estruturalismo, as manifestações totêmicas ou o determinismo é a protagonista que encaminha toda a linha narrativa. Psicóloga de formação, viaja abalada por uma tragédia pessoal.
O primeiro filme de terror de que se tem notícia tinha a mera intenção de entreter o público. Foi em 1896 que Georges Méliès apresentou um curta de apenas dois minutos chamado A mansão do Diabo. Resultado? Uma incauta plateia de cabelos em pé! Bem mais tarde, mais precisamente em 1920, O gabinete do Dr Caligari se tornou o primeiro longa de horror, colocando em discussão o tabu da morte e da quiromancia – quando o doutor em questão, também praticante de quiromancia, prevê a morte de um homem e… acerta! O gênero ganhou força e serviu como um espelho dos medos e anseios de nós mesmos, humanos. No início do século passado, muitos foram os clássicos da literatura de horror que foram transcritos para a tela grande.
Aí vieram os clássicos: filmes de vampiros, zumbis, espíritos e psicopatas. Também houve uma época em que qualquer animal gigante era aterrorizante e rendia bilheteria. Formigas gigantes, aranhas gigantes, vespas gigantes e até lesmas gigantes destruindo os sonhos da sociedade de consumo que se via em pleno declínio em meio a duas guerras mundiais. O contraponto era bem claro. Diferentemente dos insetos sociais, que vivem em colônias, o ser humano não conseguia se organizar para viver em comunidade.
Hollywood percebeu esse filão mercadológico e tratou de se apropriar das narrativas de terror. Cunhou uma estética que há muito tempo se mantém praticamente intocada: paga-se para levar sustos. E aí, convenhamos, sempre vemos mais do mesmo… É boneco assassino, palhaço do mal, criança fantasma, remake de terror japonês e uma série de produções que se prestam apenas a provocar pulos na poltrona e render continuações (já perdemos a conta de quantas vezes Jason já ressucitou). No entanto, dificilmente quem curte o gênero sai realmente assustado de uma dessas sessões. Poucas foram as produções que de fato marcaram a história do cinema e deixaram uma geração com medo de dormir no escuro, como O exorcista, A hora do pesadelo ou O iluminado.
No entanto, desde A Bruxa o cinema de horror ganhou um certo fôlego. Como Méliès já tinha provado, mais bacana do que pregar sustos é fazer com que o espectador fique amedrontado o tempo inteiro, até mesmo depois da sessão. É aquela história: não adianta ver o filme com uma almofada para cobrir o rosto em uma determinada sequência (ou tapar os ouvidos). O terror está lá o tempo inteiro.
Midsommar, do diretor Ari Aster, um dos produtores de A Bruxa, faz isso como poucos. Esqueça os sustos, a trilha sonora incidental que entrega o clímax e esses outros artifícios efêmeros. Nada de monstros, espíritos, possessões ou afins. Nem mansões caindo aos pedaços, casas assombradas ou cemitérios indígenas. Pelo contrário. A vila em que a narrativa acontece é idílica, com moradores receptivos e prestativos, vestidos de branco, no que mais parece ser um Éden. Aqui, o homem é algoz dele mesmo.
O argumento é brilhante, ainda mais se tratando de um diretor estadunidense: estudantes de antropologia viajam até uma vila longínqua na Suécia para participar de um festival em homenagem ao solstício de verão. A namorada de um deles, que não tem na “bagagem” referências como o estruturalismo, as manifestações totêmicas ou o determinismo é a protagonista que encaminha toda a linha narrativa. Psicóloga de formação, viaja abalada por uma tragédia pessoal.
Lá, o grupo de estrangeiros percebe que a linha que separa o que é cultura e o que é maldade é muito tênue. Impossível não lembrar de um texto que circulava pelas aulas de antropologia no primeiro período de algumas universidades, chamado “Os sonaciremas“. Enquanto os aspirantes a antropólogos tentam relativizar práticas nada convencionais, a protagonista encara uma jornada pessoal bem pesada, na qual êxtase e angústia andam de mãos dadas.
Como em seu filme anterior, Hereditário, Aster faz uma direção de atores brilhante. Diferentemente do primeiro trabalho, em Midsommar ele não utiliza reviravoltas mirabolantes e se atém ao argumento até o fim, o que mostra maturidade no ofício de diretor. Inclusive, não há nenhuma surpresa no desfecho. Sua força está na forma como é filmado – diga-se de passagem, irretocavelmente.
Os espectadores com estômago mais sensível talvez precisem de uma almofada em uma ou outra cena, porque a violência em certos momentos é brutal e até mesmo escatológica. Porém, é bem encaixada e coesa com a proposta.
Muito bom poder escrever isto > taí um belo filme de terror!
Cidade do caos | Parte I
Hoje, na Revista Kuruma’tá, temos a honra e alegria de receber um trabalho de Octavio Aragão, bravo escritor com três romances e inúmeros contos, publiocados em diversos países, e criador do inventivo projeto Intempol. Octavio nos chega com o inédito Cidade do Caos, um conto em quatro partes, escrito em 2017 e simplesmente atual e necessário nesse 2019 que se encaminha para o fim. Eu e Octavio, em 2010, sob os auspícios da de Elisa Ventura, da Blooks Livraria, engendramos o SpaceBlooks, um encontro das feras da Ficção Científica no Brasil. E o Brasil do jeito que tá pede mais encontros, mais contos como o de Octavio! Que venham! E agora, com vocês, a primeira parte de Cidade do Caos, de Octavio Aragão! Seja muito bem-vindo à Kuruma’tá!
Hoje, na Revista Kuruma’tá, temos a honra e alegria de receber um trabalho de Octavio Aragão, bravo escritor com três romances e inúmeros contos, publiocados em diversos países, e criador do inventivo projeto Intempol. Octavio nos chega com o inédito Cidade do Caos, um conto em quatro partes, escrito em 2017 e simplesmente atual e necessário nesse 2019 que se encaminha para o fim.
Eu e Octavio, em 2010, sob os auspícios da de Elisa Ventura, da Blooks Livraria, engendramos o SpaceBlooks, um encontro das feras da Ficção Científica no Brasil. E o Brasil do jeito que tá pede mais encontros, mais contos como o de Octavio! Que venham!
E agora, com vocês, a primeira parte de Cidade do Caos, de Octavio Aragão! Seja muito bem-vindo à Kuruma’tá!
– Será um filme diferente – Rabbio, bateu com a xícara de café na quina da mesa, respingando na calça manchada de tinta. As gotas logo entraram em comunhão com a padronagem, assumindo uma invisibilidade camuflada – Uma mistura de documentário e ficção. – Isso não tem nada de diferente – Gautério, atento à porta do botequim, sequer alterou o semblante – O Resnais já fez. É superestimado, mas tá lá, existe. – Seria diferente. Vamos mexer com o inconsciente desta cidade, mesclar artes plásticas e cinema como ninguém fez antes. – Nem o Warhol? – Você está de sacanagem com a minha cara? Eu sou Carlo Rabbio. Você é Gautério Pedro. Quem é esse tal de Warhol? Um impressor de camisetas, um artista de circo, uma farsa. Faremos o filme definitivo, um documentário sobre estes dias fétidos, uma metáfora da ditadura… – Outra? Só eu já fiz duas – Gautério olhou em torno, discretamente. O governo militar costumava pegar leve com artistas premiados internacionalmente, mas não era bom arriscar discursos subversivos em lugares públicos. Felizmente, o único prestando atenção neles era o garçom, que se aproximava com o pedido. Feijoada no verão é coisa de gringo, ou seja, coisa do Rabbio. – Não venha me falar do Lua em Trâmite, aquilo não é metáfora, é uma tentativa de filmar George Orwell com abacaxis no Parque Lage. É uma chanchada. Boa chanchada, mas ainda assim… – Também não gosto muito do filme, mas é meu e enchi o rabo de dinheiro com ele. Ainda ganhei uns prêmios aqui e ali. Não vou cuspir para cima. Mas o que me diz de Os Três Reis Magos à Porta da Babilônia? Também não gosta? – Alegorias… alegorias… – disse Rabbio com a boca cheia, caldo de feijão salpicando a barba – Estou falando de algo épico, real. Câmera na mão, sim, mas com o mundo aos nossos pés, emoção crua. Gautério bebeu o chope, sempre com colarinho para manter a temperatura, e fez uns cálculos mentais. A ideia não era tão genial assim, mas tinha suas qualidades, sendo que a principal era o custo baixo. E também seria uma obra de caridade com o amigo, depois do fiasco no Museu de Arte Moderna. Rabbio tinha sido convidado com toda a pompa para expor suas obras mais recentes – as Parcas Porcas, três esculturas orgânicas concebidas com carcaças de suínos, trapos e galhos de árvores – e, por conta da dificuldade de transporte (e do cheiro) foi obrigado a deixá-las do lado de fora do museu um dia antes da vernissage. O vigia noturno, sujeito muito cioso de sua função, porém pouco afeito a ler a programação do Museu, ao se deparar com aqueles monturos apoiados na parede, provavelmente obra de algum vândalo, não pensou duas vezes e jogou tudo dentro dos contêineres de lixo. Foi um dia animado, que começou com todo mundo correndo ao aterro sanitário para tentar resgatar as peças antes que se deteriorassem por completo e terminou com uma sala empesteada no MAM. Dizem que até hoje, um ano depois do ocorrido, ainda dá para sentir o cheiro e a consequência principal foi Rabbio virar sinônimo de piada no mercado de artes plásticas. – Deixe ver se entendi, você quer refazer as Parcas Porcas e filmar as reações das pessoas, é isso? – Basicamente. Percebi que o grande barato daquele fiasco do ano passado foi o que não percebemos, a interação do público com as obras, o quanto elas impactaram sensorialmente quem as observou a ponto de forçarem uma ação retaliativa. – Por sensorialmente você se refere ao cheiro ou à aparência? – Também, também… mas o importante foi que aquilo era tão repulsivo que forçou o porteiro a tomar uma atitude. E se conseguíssemos reprisar esse tipo de reação, mas fazendo um paralelo com, sei lá, o governo, os militares? Se juntássemos as duas podridões e jogássemos esse símbolo na cara do povão? Por exemplo, na Central do Brasil, às sete da manhã. Ou melhor, no Rio Maracanã, boiando? O que as pessoas fariam? É um roteiro improvisado, mas acho que dá muito pano pra manga. Poderíamos ter uma obra prima nas mãos. Gautério pegou outro chope, como se quisesse afogar o lado esquerdo do cérebro em álcool. Tudo aquilo começava a fazer sentido. – Olha, pode dar certo, mas não vou investir um centavo nisso. Vou usar restos de filme, ok? No final, talvez possamos fazer uma produção surrealista tipo Buñuel. Rabbio bateu na mesa com força. Os garçons, essa espécie que raramente olha quando precisamos, viraram as cabeças como em uma parada de sete de setembro. – Não, nada de surrealismos. Vamos nos ater aos fatos. A única ficção virá dos transeuntes. É sobre isso que construiremos a história. O povo escreverá o filme. Quanto ao dinheiro, não se preocupe. Darei um jeito. Sabe, ainda haverá um dia em que todos teremos uma câmera, cada cidadão poderá gravar seu dia-a-dia e mostrar ao mundo. – Sei, todo mundo mostrando o que faz dentro de quatro paredes – Gautério gostava de Rabbio por causa dessas viagens – E perdendo o pouco de privacidade que ainda temos. Esse será um dia que prefiro não ver.
Continua…
Baú do Braulio: A matéria dos sonhos
Jorge Luis Borges fala, em seu conto “Tlön, Uqbar, Orbis Tertius”, de um planeta fantástico em que as coisas são criadas pelo pensamento. Por exemplo: Fulano perde uma caneta no escritório e pede aos colegas que a procurem. Depois, percebe que tinha deixado a caneta em casa, mas esquece de avisar. Um dos amigos, movido pela expectativa de que a caneta está no escritório, encontra-a e entrega ao dono, que agora tem duas canetas idênticas. [Texto de Braulio Tavares]
Mais uma relíquia, dessa vez uma Relíquia Macabra, com o perdão do trocadilho, emergindo do Mundo Fantasmo para o Baú do Braulio!
O Baú do Braulio é uma seleção, ou como se diz hoje, uma curadoria de artigos que o poeta Braulio Tavares vem publicando ao longo dos anos no seu blog, o Mundo Fantasmo.
Jorge Luis Borges fala, em seu conto “Tlön, Uqbar, Orbis Tertius”, de um planeta fantástico em que as coisas são criadas pelo pensamento. Por exemplo: Fulano perde uma caneta no escritório e pede aos colegas que a procurem. Depois, percebe que tinha deixado a caneta em casa, mas esquece de avisar. Um dos amigos, movido pela expectativa de que a caneta está no escritório, encontra-a e entrega ao dono, que agora tem duas canetas idênticas.
Em outro exemplo, ele fala de uma expedição arqueológica em que os trabalhadores recebem uma descrição prévia dos artefatos que se espera desenterrar ali; eles são encontrados, mas sempre com alguma deficiência, devido aos ruídos de comunicação no processo. Encontram, por exemplo, moedas enferrujadas que têm gravada uma data posterior à da escavação.
Oscar Wilde, que muito influenciou Borges, dizia com razão que é mais frequente a vida imitar a Arte do que o contrário.
Vejam por exemplo o caso do filme O Falcão Maltês, o clássico do filme policial “noir” dirigido por John Huston. O falcão é uma estátua negra que se diz valer mais de 2 milhões de dólares, e pela qual os indivíduos traem e assassinam uns aos outros durante uma hora e meia.
Era um filme “B”, estreia do diretor (Huston só tinha trabalhado até então como roteirista). Humphrey Bogart, que interpreta o detetive Sam Spade, fez o filme inteiro usando suas próprias roupas, de tão minguado que era o orçamento. Para o falcão foram confeccionadas algumas estátuas de cobre, outras de resina (mais leves). A fabricação de todas elas juntas custou cerca de 700 dólares.
Estas estatuetas valem hoje cerca de 2 milhões de dólares, ou seja, exatamente o que o falcão valia no filme (e mais, também, do que o orçamento completo do filme). Por que? Contêm jóias, tesouros? Não: contêm (na frase famosa de Sam Spade que encerra o filme) “a matéria de que os sonhos são feitos”.
Todas as riquezas humanas são riquezas simbólicas. Valem porque acreditamos que valem. Um cheque ou uma nota de 100 reais só valem isto por uma convenção, um acordo tácito. O papel de que são feitos não pode valer tanto.
Os falcões valem porque o filme tornou-se (indiretamente; não foi feito com este propósito) um enorme comercial despertando nas pessoas o desejo de possuí-los, porque se tornaram símbolos de algo famoso. É o nosso desejo que os torna reais, em primeiro lugar, e depois os torna valiosos.
Uma frase famosa de G. K. Chesterton diz que “os romanos não amavam Roma porque ela era uma grande cidade; ela se tornou uma grande cidade porque eles a amaram”. É o sonho nosso que projetamos nas coisas que as faz crescer de importância e de valor.
A Bolsa de Valores, p. ex., surgiu de início como uma aferição do valor das empresas, e depois virou um sistema de avaliação que depende mais do estado de espírito de compradores e vendedores (seus sonhos, expectativas e ilusões) do que da solidez da empresa em si.