Enquanto isso, a cidade procura continuar a vida, com velas acesas, geradores a diesel ronronando em porões e galpões, casais furtivos aproveitando a súbita escuridão. Já os jornalistas se atormentam noite a dentro em busca de especialistas e autoridades que tenham uma resposta ou uma daquelas perguntas que parecem resposta. Mas as autoridades não sabem nada. Nosso trabalho está muito além das autoridades. [Texto de Toinho Castro]
Hoje começamos a publicar aqui na Revista Kuruma’tá a série Maracatron, escrita por Toinho Castro e publicada pela primeira vez na querida Revista Zé Pereira, em 2001. A versão aqui disponibilizada é revista e levemente ampliada e você pode ler a versão original aqui.
Vamos ver até onde vai essa estranha aventura que mistura energias fora de controle, mundos paralelos e personagens sem rumo. Em breve novos episódios! Fique de olho!
Sabe a falta de energia elétrica que acomete a cidade nesse fim de noite? Bem, vamos abrir o jogo aqui, cá entre nós, leitor que não sei onde está e nem quem é, leitor randômico a quem essa mensagem deve ter chegado como um trote, uma surpresa estranha, talvez em meio a uma agradável conversa com um amigo no zap. A verdade sobre o que está acontecendo é… é que a cidade foi engolida por uma gigantesca bolha de plasma gerada acidentalmente durante uma experiência rotineira e, repare, fracassada. A lorota sobre a torre de distribuição que caiu é e somente isso, uma lorota. A torre foi meticulosamente derrubada, após a queda da energia, para servir de explicação ao que não pode nem deve ser explicado. Tem uma equipe secreta de plantão, criada especialmente para simular coisas que precisam ser simuladas a fim de que outras pareçam ser o que não são. Pouco sabemos sobre essa misteriosa equipe mas de alguma forma, que também desconhecemos, eles foram acionados e cumpriram a missão. Missão cumprida. Para todos os efeitos práticos e jornalísticos, a culpa é da torre que caiu por causa de um raio que caiu na torre que não caiu.
Uma de nossas câmeras escondidas registra a evolução do fenômeno
Essa tal bolha, naturalmente, não deveria existir; pelo menos não nessas proporções. Trata-se de um daqueles casos em que um vacilo se transforma num desastre porque um distraído se apoiou na alavanca na qual ninguém deveria se apoiar. O curioso é que outras coisas deveriam ter sido afetadas pelo fenômeno mas, incrivelmente, apenas o fornecimento de eletricidade foi interrompido. As teorias dizem que eventos dessa natureza parariam marca-passos, automóveis e dispositivos eletrônicos em geral. Nada disso aconteceu e a nossa equipe está aproveitando a situação para observar e analisar os fatos. Enquanto isso, a cidade procura continuar a vida, com velas acesas, geradores a diesel ronronando em porões e galpões, casais furtivos aproveitando a súbita escuridão. Já os jornalistas se atormentam noite a dentro em busca de especialistas e autoridades que tenham uma resposta ou uma daquelas perguntas que parecem resposta. Mas as autoridades não sabem nada. Nosso trabalho está muito além das autoridades.
Estamos aqui no laboratório, muito atentos a cada detalhe de tudo que se passa. A bolha, contrariando os otimistas também de plantão, não para de crescer. Esse é o tipo de notícia que eu não gostaria de dar numa entrevista coletiva. Após uma rápida e monumental expansão inicial, que engoliu praticamente toda a cidade, a bolha continua a se expandir, muito lentamente, a partir do seu centro geométrico: o Maracanã.
É isso aí. O Maracanã é o centro irradiador dessa coisa devoradora de mundos, que avança rua a rua, quadra a quadra, consumindo invisivelmente o Rio de Janeiro. E o que eu vou revelar agora nessas linhas é algo que ninguém sabe. Você não sabe e ninguém que você conhece sabe. Ninguém acima de você no seu trabalho, ou acima de quem quer que seja, em qualquer trabalho que você tenha ouvido falar, sabe. Mas eu sei. Eu e um grupo muito restrito de pessoas. Penso, às veze, se é mesmo possível denominar alguém conhecedor de algo assim como uma pessoa. O que é uma pessoa? Alguém que come um hambúrguer numa birosca da esquina, alguém que chega atrasado na repartição… Ao escrever para você, um estranho que viu pular a notificação dessa mensagem no celular, eu mesmo me pergunto se é verdade. Pergunto-me o que é a verdade e como me meti nessa fábula estranha.
Você vai achar que é mentira, porque tem tudo para ser mentira. E, afinal, talvez seja. Talvez seja mentira somente uma outra forma da realidade. Algo que se insurge quando lidamos com o que lidamos aqui, esse lugar obscuro de onde escrevo para dizer que os subterrâneos do monumental estádio Mario Filho abrigam a mais louca experiência científica brasileira. A derrota de 50, os minutos de silêncio sob o manto das vaias, gols anulados e a memória de jogos inesquecíveis que não assisti repousam sobre um acelerador de partículas pan-dimensional, o Maracatron. O monstrengo, como você pode imaginar, opera secretamente e eu não tenho a menor ideia de quem paga nossos salários. Se o governo sabe? Mais ou menos como somente o Papa sabia do Terceiro Segredo de Fátima, se é que você entende o que quero dizer. De fato temos diariamente discussões sobre o que é ter conhecimento de algo. Não tenho também qualquer noção da dimensão do que está acontecendo; sei apenas que esse aparelho é parte de um projeto maior, o desenvolvimento de, claro, uma máquina do tempo. A melhor frase que eu conheço sobre máquinas do tempo é do Jadeir, nosso Engenheiro Adjunto para Raios Catódicos:
— Depois que você vê funcionando nem é tão interessante assim!
Mas bem poderia ser um gigantesco veículo de transporte intergalático ou ainda uma Terra artificial numa dimensão paralela ou transversal. Quem sabe… Há coisas que nem eu mesmo, envolvido até quase o pescoço como estou, sei. O que sabemos é que com certeza afetamos, durante os bombardeios quânticos, as decisões dos juízes, a trajetória da bola nos cruzamentos e cobranças de escanteio. Lances inexplicáveis, amigos do esporte, têm sua explicação na malha de fibras óticas e circuitos que percorre toda a circunferência do estádio. A linha de impedimento se desloca muitas vezes de acordo com cálculos complexos que nossos computadores elaboram para descrever partículas que nem existem. Mas o que importa mesmo, para além desse palavreado todo, é que agora essa bolha plasmática, à falta de um nome melhor, prossegue avançando sobre estradas, casas e supermercados, sobre as pessoas! Não sabemos das conseqüências e estamos curiosos para saber, para anotar, analisar e confrontar com outros dados que temos armazenados e outros que virão. Mas virão mesmo? Haverá depois?
Agora mesmo há uma vibração e um zunido que não havia antes e não sei bem qual a razão disso. Pode ser até o cansaço, mas tenho a impressão de que alguns objetos parecem desfocados. Outro dia li um livro sobre desastres quânticos e criação artificial de buracos negros. Vá apressando a leitura dessa missiva, porque esse tal livro já falava dos zunidos e vibrações que precedem o colapso da trama do espaço-tempo. E que a coisa está evoluindo, parece que nós aqui não teremos que dar explicações a sociedade.
Paisagens do interior + 2 poemas
Uma das coisas que sempre encantou em Numa Ciro é seu profundo potencial poético. Para-me ela, sempre, um poema a beira de explodir, emergir, se infiltrar na realidade, acabando por rompê-la. Numa tem humor, é esperta e cheia de ritmo. Impossível ler um poema seu, quem a conhece, sem imaginá-la cantando, soprando sua voz entre roda de amigos e incautos. [Poemas de Numa Ciro]
Uma das coisas que sempre encantou em Numa Ciro é seu profundo potencial poético. Para-me ela, sempre, um poema a beira de explodir, emergir, se infiltrar na realidade, acabando por rompê-la. Numa tem humor, é esperta e cheia de ritmo. Impossível ler um poema seu, quem a conhece, sem imaginá-la cantando, soprando sua voz entre roda de amigos e incautos. Viva Numa Ciro!
Teatro Cândido Mendes / Ipanema — Outubro/ Novembro/ Dezembro de 2013 Foto de Claudia Ferreira
Paisagens do interior
1. Moça rindo na janela pastorando seu amor Um grupo de analfabetos votando no seu doutor Papagaios indiscretos imitando gravador
cruz na beira da estrada sala-de-estar na calçada faca-peixeira afiada e santa em cima do andor
Isso tudo ainda se vê em paisagens do interior
2. Tem folheto cordelista vendido em banca de feira Matuto em lombo de burro com relógio na algibeira Guinés cantando “Tô fraco” e gado comendo em cocheira
surdo chamado de mouco as santinhas do pau-ôco conchas de quenga de côco e quengas que vendem amor
Isso tudo ainda se vê em paisagens do interior
3. Uma cabra displicente atravessando a rodovia um pavão misterioso namorando a cotovia onça pintada das brabas bafejando a cantoria
pra qualquer dor, um cachete pra viajar, marinete pro escuro, frachilete Lampião tem seguidor
Isso tudo ainda se vê em paisagens do interior
4. O sol caindo na serra e a lua subindo pra ver por um momento se olham: morrer parece nascer quem viu os dois nesse instante, jamais consegue esquecer E pra cantar o elogio desse encontro de amor criou-se o tal desafio: contador-e-cantador
Isso tudo ainda se vê em paisagens do interior
5. Mas existe a tal mudança que mexe em tudo e jamais engana o tempo que passa e passa o tempo na paz Pois não é que a tal mudança mexeu na moça! e o rapaz?
Agora andam de moto não querem vender seu voto da internete, devoto o povo sabe o valor
Isso agora já se vê em paisagens do interior.
Os sete pecados em cantoria
A Gemedeira dos sete pecados na capital dos pecadores sem pecado
I A preguiça
Eu gemia de preguiça dia e noite, noite e dia. Gemo ainda, em todo canto, no quarto, na livraria. Gemerei por toda vida, ai ai ui ui, a preguiça é minha guia.
O gemido é mais gostoso se eu mastigar devagar. Com preguiça bebo água, me arrastando, tento andar. Gemerei a terra inteira, Ai ai ui ui, a preguiça é o meu lugar
Gemo alto de preguiça, gemendo me sobressalto. Gemo baixo quando canso. Diz mexer, escuto assalto! Gemo de tudo e de nada, ai ai, ui ui, a preguiça é meu asfalto.
Só adormeço gemendo, acordar é pesadelo. Fazer sexo é cansativo. Sonhar, nem de brinquedo! Gemo sem fim, sem parar, ai ai ui ui, a preguiça é meu levedo.
Estou com fome, mamãe… chamo gemendo mãinha. Responde a mãe, carinhosa: “Traga seu prato, filhinha!” Não quero mais, já passou, Ai ai ui ui, me cansa ir até a cozinha.
II A Gula
Eu mastigo sem parar. Como sempre o tempo todo. Meu apetite é voraz: ganho do padre e do lobo. Eu só penso em guloseima, Ai ai ui ui, a gula é meu farto consolo.
Já nasci chupando os dedos. Mamei em mamãe e na ama; nas visitas à vizinha de resguardo em sua cama. Mamei até nas cabrinhas! ai ai, ui ui, gulodice me deu fama.
Criança sedenta e faminta, só brincava de casinha. Era sempre a cozinheira e até a boneca, tadinha! vivia com sede e com fome, Ai ai, ui ui ui, me chamavam gulozinha.
Só compro em lojas que têm utensílios de cozinha: Copo, prato, guardanapo, comida pronta, quentinha, bebida de todo tipo, Ai, ai, ui, ui, não quero outra vidinha.
Quando vou ao shopping center, não vejo roupa nem joia; não compro nada pro quarto; oh! doce de paranoia. Eu salto sem pára-quedas, Ai, ai ui, ui, mas num nado sem a boia.
III A Ira
Vivo da ira que eu tenho de tudo que há nesse mundo. Odeio mamãe e papai. Dos Irmãos, ódio profundo. A ira pulsa em cada nervo ai ai ui ui, do meu coração vagabundo .
Irado meu choro ao nascer. Não conheço compaixão. A flor do ódio cultivo, levo um cacho em cada mão. De raiva pretendo morrer, Ai ai ui ui, Flores do mal no caixão.
O ódio danado qu’eu tenho, cresceu com as ervas daninhas, nascidas no abandono; de amores perdidos, filhinhas. Os frutos maduros colhidos, ai ai ui ui, divido com as minhas vizinhas.
As sementes dessa ira fecundo em latinhas de ódio. Nas estufas do silêncio cultivo-as como-se-fossem-d’ópio. Odeio a bondade e a fé ai ai ui ui, eu fumo a ira no pódio.
Apago as estrelas da noite! Quebro a varinha de condão. A fada madrinha eu enforco, Papai Noel pro lixão! com saco e tudo que há dentro Ai ai, ui ui, só guardo a raiva do cão.
IV A Inveja
Eu me mato de inveja, de quem vive sem sofrer e tem tudo e mais um pouco, ganhando a vida ao nascer. Herdei a inveja de tudo Ai ai, ui ui, que está fora do meu ter.
Invejo as pernas da misse, e a cintura de pilão. Quero os peitos de Tieta, ser a musa da canção e ouvir, por onde passar, ai ai, ui ui, “Eu derrubo esse avião”.
A inveja me consome, quando não tenho o que eu quero. Minha inveja tem os nomes das coisas que mais venero. Cobiço as mulheres alheias ai ai, ui ui, Inveja é meu par no bolero.
Quando entrei naquele quarto eu vi com a inveja dos mortos mamãe mimando outro filho no meu cantinho em seu colo papai olhando os seus braços ai ai, ui ui, furei meu pai bem nos olhos.
Saí de casa bem cedo, pra ter inveja bem longe, inveja das que cobiça tudo e todos quando e onde aparece o que desejo Ai ai, ui ui, Pela inveja eu virei monge.
V A luxúria
Eu acordo e me apaixono e passo o dia com vontade. à tarde me pego querendo, a noite inteira, é verdade! Eu vivo nadando em prazer ai ai, ui ui, em luxuri-oh-cidade…
Em tudo que há nesse mundo, que qualquer um diz: bom, bons, existe um mal que eu não troco nem vendo a imagem dos sons o bem e o mal no meu bloco ai ai ui ui, gozam dos dons e nos tons.
Só de pensar me dá luxúria nas pernas, no olhar e nas ideias e o corpo brinca com a alma de vadiar nas boleia dos caminhão nas estrada ai ai, ui ui, pra ter gozo de plebeia.
E como gozarão as santas? E a onça em pleno cio? Psiu, não geme tão alto, te vira na lata, amor mio! cachorra que gosta de funk ai ai, ui ui, pega o trem no assobio.
Caço a noite atrás do dia, o rabo é quente, é um açoite. Quem trepa na cama dos outros não teme lâmina, nem coice. O cu dos outros não é o nosso, Ai ai, ui ui, luxúria nossa de cada noite…
VI A Avareza
Eu quero tudo pra mim. Não abro a mão para dar. Só bebo a seiva da vida, nem a morte vai tomar. Eu tranco a vida no cofre Ai ai ui ui Avareza vai guardar.
Nem Moliére dormindo no seu avaro colchão sonharia com um personagem sovina que nem meu vilão que tem medo de perder Ai ai ui ui até a poeira do chão.
O meu nado sincronizado no lago de ouro derretido cunhou a moeda talismã de tio Patinhas, no vestido. Para fantasia avara Ai ai ui ui A riqueza é o tecido.
Mesquinho, mão-fechada, mão-de-vaca, pão-duro e avarento, são nomes para quem pega carona nas costas do vento Ai ai ui ui E não dá nem um por cento
Uma avara como eu, que tem vergonha de ser, é uma vara envergada nas avarenças do ter ela só sente a avareza ai ai ui ui quando ela teima em são ser.
VII A Soberba
Eu tenho orgulho de mim e de tudo o que é meu. Eu tenho mais é que ter tudo que querem meus eus: eles só pedem ao mundo ai ai ui ui o mundo todo e até Deus.
Ninguém merece o prazer que a vida a mim me oferece. A minha vida se farta na delícia que se esquece de tudo e de todos, nem desce! ai ai ui ui a vaidade me aquece
O orgulho e a presunção são balinhas de festim, se os comparo à arrogância, projétil largado de mim. A tirania é meu forte ai ai ui ui Eu prendo e mato tudim .
Eu sou melhor que você. Ninguém consegue alcançar o lugar onde eu cheguei, de onde eu posso mandar. Mando no reino e no rei ai ai ui ui Mando o bicho te pegar.
A soberba é minha força A vaidade me anima No orgulho eu me sustento A prepotência me estima da tirania eu extraio Ai ai ui ui As truculências da rima
Romeu e Julieta: como escaparam da tragédia
Um romance paraibano (Este Romance faz parte do espetáculo A Peleja da voz com a Língua – O Amor)
Romeu
Julieta! Julieta! Pareces morta!!! Não posso acreditar. Jurei contigo morrer, mas começo a duvidar…
… se vale a pena partir sem a certeza de achar do outro lado da vida o que mais quero encontrar.
Morreste de amor por mim. Algo me diz que não devo arriscar. Sai pra lá punhal safado. Cadê o frade pra nos salvar?
A madrugada já vem. Ouço ao longe a cotovia. Se eu morri, ressuscitei. Quero ver a luz do dia.
Julieta
Não é a cotovia, é o rouxinol: Canta para quem anoitece. Na versão do bardo inglês, anoitece mas não amanhece.
Romeu
Julieta, será que ouço a tua voz? Estarei louco? sonhando, talvez! Eu tento escapar da morte e tu me salvas da viuvez!
Julieta
Romeu, Romeu, tu não morreste! Não preciso, portanto, me matar. Que alívio, fujamos do autor: Ele planeja nos suicidar.
Romeu
Julieta! Como escapuliste? Meu docinho de goiaba! Pela nossa vida amorosa, Shakespeare é quem se atrasa.
Julieta
Romeu meu queijinho meu! Há mais perigo em teus olhos que já viram os olhos meus. Ai meus olhos! ainda não viram tanto. Vai cegar-me a luz dos teus.
Romeu
Tu vês perigo em meus olhos? Queres cegá-los? São teus. Se o amor é cego, Julieta, um cego sábio e feliz serei eu.
Julieta
Apressemos o passo: Isso vai dar em tragédia. Não quero morrer tão nova, prefiro viver na comédia.
Romeu
O autor, com o atraso do frade, quis imitar as desgraças mais cruéis, tal a de Píramo e Tisbe. Prefiro viver nos bordéis.
Julieta
Lets go to América! Aquela! debaixo da linha do Equador, onde não existe pecado e tem gente de toda cor.
Romeu
Pampas, praias, caatingas e cascatas, sambas, maracatus, bossa nova e emboladas; as mais lindas matas virgens, e lindas virgens… desmatadas!
Julieta
Vamos logo pro Brasil, onde a mulher tem razão. Dona Flor tem dois maridos e Maria Bonita: as armas e Lampião.
Romeu
Mas primeiro vamos passar pelo reino de Portugal: Conhecer o Tejo em Lisboa e a sua Indústria Naval.
Julieta
Caravelas, Romeuzinho! Quero visitar em Alcobaça os túmulos de Pedro e d’ Inez: Não puderam escapar da desgraça.
Romeu
Pois… Infelizes os dois sucumbiram às leis da casa real. Nossas casas que se danem, nosso amor é que é real.
Julieta
Mais rápido, Romeu! não quero meu nome naquela expressão: “Agora é tarde, Inez é morta”. Nem morta! quero tal coroação.
Romeu
Brasil, lá vamos nós! Pra Roliude do nordeste. Quem era besta de morrer? Quem quiser que faça o teste.
Julieta
Saímos daquela cova, nem Shakespeare nos viu. Enganamos todo mundo. Atrás de nós?! Nem psiu.
As quimeras são coloridas feito aquarelas
Eduardo Frota nos chega com mais uma colaboração de sua prosa poética para a nossa Revista Kuruma’tá. Colaboração sempre muito bem-vinda, tanto por nós quanto pelos frequentadores da revista! Isso porque seus textos são veículos, ou passagens. Estamos aqui e, de repente, já não estamos, já não somos. “Um passo à frente / E você não está mais no mesmo lugar”, cantou Chico Science. Mas às vezes esse passo é dentro da gente. Assim Eduardo escreve, de dentro para dentro, em passos firmes. [Texto de Eduardo Frota]
Eduardo Frota nos chega com mais uma colaboração de sua prosa poética para a nossa Revista Kuruma’tá. Colaboração sempre muito bem-vinda, tanto por nós quanto pelos frequentadores da revista! Isso porque seus textos são veículos, ou passagens. Estamos aqui e, de repente, já não estamos, já não somos. “Um passo à frente / E você não está mais no mesmo lugar”, cantou Chico Science. Mas às vezes esse passo é dentro da gente. Assim Eduardo escreve, de dentro para dentro, em passos firmes.
Lá vai a menina, colorida. Lá vai a menina, convencida. De que a aquarela da vida é mais bonita quando se confunde realidade com quimera.
Ela tem os sapatos vermelhos, feito os da garotinha que andava pela estrada de tijolos amarelos. Pelo caminho, ela desenha com giz árvores frondosas e verdes, carregadas com suculentos pomelos. Ela preferia estar descalça, mas corre ainda que de chinelos.
Assobia uma canção de Noel, Rosa. Na cabeça, um laço de fita cor-de-rosa. Não mão, um buquê de lindas e cheirosas, rosas.
Lá vai a menina, toda prosa. Lá vai a menina; nossa! Que linda, de bochechas rosadas. A saia azulada, de bordas rendadas.
Que menina colorida. Que menina prendada!
Foto de Johnny Joo / Reprodução
Para o Amapá com amor
E nessas observações, em que é possível delimitar os períodos de análise descobri que, desde 4 de fevereiro de 2019, quando publicamos, eu e Aderaldo Luciano, o primeiro texto na Kuruma’tá, sobre Orlando Tejo e Zé Limeira, tivemos pelo menos um acesso em todos os estados brasileiro, com exceção do Amapá. [Texto de Toinho Castro]
Eu ia começar esse texto dizendo que o Brasil é um longo fio de de histórias, de norte a sul, lesta a oeste. Mas o Brasil é mesmo um trançado de muitos fios, de muitas cores, texturas e destinos. Não é fácil, não é simples dar conta do Brasil em sua vastidão e diversidade de olhares, vozes e desejos.
Daqui do meu vértice, no Rio de Janeiro, para onde trouxe Pernambuco e Rio Grande do Norte comigo, e um pouco da vizinha Paraíba e um tantinho de uma Fortaleza que vivi na infância, daqui olho ao redor e tento vislumbrar essa palavra, a palavra Brasil. Palavra dita pela boca de tanta gente que anda nas ruas, debruça-se nos balcões de bares e padarias. Gente de toda parte, que vem pra ficar, que daqui parte pra outras paisagens e aragens. Como eu mesmo já saltei daqui a outras terras, como o Acre, o Pará, Rondônia, Minas gerais, Brasília… Saltos de ida e volta, que volto carregado dos sotaques e vertigens, de visões de gente em outros balcões, de outros bares e padarias.
Um jogo que gosto de jogar é acompanhar os dados geográficos da Kuruma’tá no Google Analytics. Saber onde estão ocorrendo os cliques, de onde essa gente anda visitando o que inventamos aqui. Tem esse poema do Mário de Andadre, chamado Descobrimento, que sempre me vem à lembrança quando investigo esses sortilégios algorítmicos:
Abancado à escrivaninha em São Paulo Na minha casa da rua Lopes Chaves De supetão senti um friúme por dentro. Fiquei trêmulo, muito comovido Com o livro palerma olhando pra mim.
Não vê que me lembrei que lá no Norte, meu Deus! muito longe de mim Na escuridão ativa da noite que caiu Um homem pálido magro de cabelo escorrendo nos olhos, Depois de fazer uma pele com a borracha do dia, Faz pouco se deitou, está dormindo.
Esse homem é brasileiro que nem eu.
Brasileiro que nem eu, gente que nem eu. Mouse na mão ou riscando a luminosidade da tela de um celular, lá no Norte ou no Centro-Oeste, se enxerindo nos labirintos ternos da nossa revista. E nessas observações, em que é possível delimitar os períodos de análise descobri que, desde 4 de fevereiro de 2019, quando publicamos, eu e Aderaldo Luciano, o primeiro texto na Kuruma’tá, sobre Orlando Tejo e Zé Limeira, tivemos pelo menos um acesso em todos os estados brasileiro, com exceção do Amapá. Ninguém no Amapá deu um clique sequer na Kuruma’tá ou andou curiando nossas publicações.
Mas, naturalmente, mágoas não tenho. Eu tenho é fé e sigo aguardando o clique mítico que virá, eventualmente, do Amapá. Há de vir. Por outro lado sou obrigado a me confrontar com minhas, ou nossas, enquanto revista, limitações. Que voz aqui demos ao Amapá? Quando foi que, num dos 70 textos aqui publicados, vislumbramos os contornos do Amapá? Pois é, em nenhum. Tudo bem que coisa alguma escrevemos sobre Roraima, que nos visitou algumas vezes, mas ainda assim… Nada posso cobrar do Amapá. Como eu disse antes, não é fácil mesmo abarcar o Brasil. Mas com um pouco de vontade e pesquisa no mesmo Google que diz que o Amapá me ignora, eu apendo que o Amapá lá está, com sua cultura, seus rios, mitos e lendas, povos e florestas, desafios, conflitos, buscas e vidas.
Aprendi minimamente, por exemplo, sobre a tradição do Marabaixo, manifestação cultural do povo do Amapá que foi, em 2018, reconhecida como patrimônio cultural imaterial do Brasil. Com sua origem no distante Marrocos, um Marrocos distante no espaço e também no tempo, chegou ao Brasil no século XVIII, com a transferência da colônia portuguesa de Mazagan (atual El Jadida), para o Amapá, fundando a comunidade Nova Mazagão. No Marabaixo se encontram ritmo musical e dança, movida a tambores feitos com essa intenção, as caixas de marabaixo, o sabor da gengibirra, as mulheres com suas saias rodadas a rodopiar e a mútua troca de versos entoados na festa, os Ladrões de Marabaixo.
O Marabaixo é uma dança De tradição centenária Trazida lá da mãe África Por negros daquela área E que nos conta uma história Real e imaginária
(Versos do cordel Marabaixo – A cultura de um povo, de Joseli Dias)
Vou assim aprendendo e me encantando desse lugar que não visitei, mas do qual começo a sentir-me íntimo, talvez porque o cruze, na altura de Macapá, a capital, a linha imaginária do Equador. Talvez porque vislumbre, ao escutar a Canoa voadeira na voz de Patrícia Bastos, num olhar por sobre o Atlântico, prenhe do rio Amazonas, a epopeia de um povo a cruzá-lo, arrastando consigo seus cantos e danças, sua fé e memória dos que partiram mar-a-baixo… O fato é que basta olhar, escutar, compartilhar com o outro para que este lhe energize as antenas, vibre na sua sintonia e abra espaço para uma boa conversa. O fato é que o Amapá vai muito além do maravilhoso Marabaixo, passando pela culinária, literatura e oralidade e tantos outros matizes que nascem das pessoas e comunidades. Ah, vasto Amapá, assim dou eu meu clique em você, te chamo pra junto e escuto o troar das caixas de marabaixo, escuto tua gente, brasileira, que nem eu.
A foto da Fortaleza de São José do Macapá que ilustra esse texto não foi produzida com esse fim. Encontra-se sob licença Creative Commons Attribution-NonCommercial 2.0 Generic (CC BY-NC 2.0). A Revista Kuruma’tá agradece a generosidade do fotógrafo por disponibilizar seu trabalho como Creative Commons.
Meu Seridó
Conheço os espaços solitários e silenciosos dos sertões potiguares, manjo a riqueza da sua oralidade. Num tempo trepidante como o nosso, nada melhor do que abrir um espetáculo olhando no olho, por segundos, a plateia atenta, nenhum ruído. Só o silêncio diz na introdução da peça, um drama repleto de narrativas memorialísticas e pegadas históricas recheadas de música, ironia e humor. [Texto de Nonato Gurgel]
Impactado pela peça Meu Seridó, em cartaz em palcos do Rio de Janeiro nesse fim de semana, restou ao poeta Nonato Gurgel escrever, para falar do maravilhamento da peça e do seu próprio Seridó. Confira ao final do texto datas, locais e horários das apresentações na cidade.
Durante 7 anos, vivi nos Sertões do Seridó do Rio Grande do Norte. Lá, estudei Letras, trabalhei como técnico em agropecuária, em alguns municípios, e vivifiquei uma convivência afetiva com pessoas, bichos, rios e plantas que marcaram definitivamente o meu jeito de ler e ouvir o mundo. Banhado pelas águas dos rios Piranhas e Espinharas fui, com esse memorial hídrico de quem viveu o universo cultural seridoense, assistir à peça Meu Seridó.
Dramaturgia de Filipe Miguez e direção do César Ferrario, o drama abre com um silêncio que, de cara, ganhou os meus ouvidos e olhos. O silêncio do Sertão. Conheço os espaços solitários e silenciosos dos sertões potiguares, manjo a riqueza da sua oralidade. Num tempo trepidante como o nosso, nada melhor do que abrir um espetáculo olhando no olho, por segundos, a plateia atenta, nenhum ruído. Só o silêncio diz na introdução da peça, um drama repleto de narrativas memorialísticas e pegadas históricas recheadas de música, ironia e humor.
O espectador que conhece o Seridó se identifica, nas primeiras cenas, com a linguagem e os motivos usados pelo ótimo elenco, encabeçado pela atriz seridoense Titina Medeiros (mais de duas décadas de teatro e novelas como Cheias de Charme, tv Globo). O texto do Filipe é repleto de palavras certeiras como arenga, acauã, caatinga, chocalhos, juremas, ribeiras e curimatã, o peixe, além de rememorar as experiências da seca e do inverno, a rádio de Caicó, os bordados, e apresentar eventos típicos da região que ficou conhecida no mundo inteiro por causa do algodão Seridó.
Não lembro de ter escutado referências ao famoso algodão. Seria a planta um signo saturado? Seus valores simbólicos relidos em demasia pelas artes e culturas? Não sei. Referência universal, o algodão Seridó foi estetizado no belíssimo poema Não sei dançar, de Manuel Bandeira. Saí do teatro com a sensação de que o drama seria potencializado com o trecho final do poema, assim como poderia potencializar ainda mais a peça, a voz do Oswaldo Lamartine – o menino caçador que nasceu no Seridó, autor de Ferro de Ribeiras e A caça nos sertões do Seridó, dentre outros livros fundamentais para a cultura seridoense. Oswaldo fareja, feito bicho, feito homem, os rastros, as pegadas, os cheiros dos sertões do Seridó. Cheiros do mel, alfenins, queijos, cheiros da terra queimada, da pele queimada, cheiro do couro de vivente chamuscado. Os cheiros, a memória.
Os posseiros, as mulheres
É primorosa a direção de arte do premiado diretor e figurinista João Marcelino (Chuva de Bala, Viagem aos Campos de Alfenim, Hamlet), assim como o design de luz do Ronaldo Costa. Ele transforma o palco num Seridó irrigado de luz como é, ao vivo, a luminosidade no sertão seridoense. Não sou nenhum especialista em teatro, mas diria que a luz é quase um personagem de Meu Seridó, assim como são quase personagens as molduras que formatam o cenário. Molduras luzidias. Longe de limitar ou restringir, elas, as molduras, estáticas ou em movimento, acolhem os atores, sugerem as mutações do tempo, as transformações dos seres, dos mares, possibilitando uma pluralidade de formas.
E o que dizer dos figurinos coloridos e adaptados a diferentes contextos? Pautados no uso da saia, para todo elenco, os figurinos enchem os olhos. Emprestam certa graça e leveza, favorecem o deslocamento dos atores, acentuando as questões de gêneros que atravessam as narrativas contemporâneas. Com exceção do vaqueiro, nas demais personagens a vestimenta funciona. Ou seria esse vaqueiro de saia colorida, uma desconstrução da figura mítica, aquele vaqueiro rígido e marrom que habita o nosso imaginário romântico, desde José de Alencar e Martins Pena?
Seguindo a tendência do teatro contemporâneo, que dialoga com a música e outras artes, Meu Seridó apresenta exímia direção musical do Caio Padilha. Ele nos brinda com variados ritmos sertanejos, o baião, o xote, a ciranda e até um fado luso com alguma dicção seridoense. A sanfona é um espetáculo à parte, assim como a audição – breve, súbita – de um bem vindo ‘ele não’ e o seu potente efeito surpresa. Sintonizada, a plateia aplaude. Creio que mais um ‘ele não’, noutro momento, não faria mal nenhum, como diria a querida Ana Paula Oliveira, sempre linkada no momento pátrio que nos consome e atordoa.
O Seridó foi povoado no século XVII. Formado hoje por 24 cidades do RN e 6 cidades da PB, as identidades seridoenses habitam o nosso imaginário, seja através do canto folclórico do carioca Villa-Lobos (oh mana deixe eu ir / pro sertão de Caicó), ou através do canto pop do paraibano Chico César (ah, Caicó arcaico). Assim como esse cancioneiro que dá ritmo ao imaginário nacional, Meu Seridó cria tons e formas. Traduz um pouco desse Brasil que começa a narrar sua história, na voz dos que estavam mudos até o final do século XX, principalmente os posseiros de pouca ou nenhuma terra e as mulheres. Parodiando Ana C, eu diria que os sem terra e as mulheres são os primeiros que desistem de destruir a terra.
Diversões eletrônicas — Viva Arrigo Barnabé!
Eu já estava há tempos ligado em poesia e Maiakóvski e tudo que vinha filtrado pelos irmãos Campos. Bota aí Mallarmé, os provençais, Ezra Pound, essas coisas, já me achando meio chique; então quando vi o livro, parei ali mesmo, curioso quanto ao personagem que se escondia por trás dele. Parece que aquele livro me reservava mais uma grata surpresa. Meu gosto por literatura estava mais afiado que meu gosto musical, que capengava em certo rock’n’roll que perdia espaço com a nova década. [Texto de Toinho castro]
Era o Ano da Graça de 1983 e eu folheava uma revista chamada Pipoca Moderna. Era uma espécie de pré revista Bizz, reunindo música, cultura pop e assuntos afins. Era um jeito de me manter minimamente atualizado lá no Recife, onde revistas importadas mal chegavam e o rock ainda não era um assunto de destaque como nos dias de hoje. E lá estou eu, perscrutando as páginas da Pipoca Moderna quando me deparo com essa foto, um sujeito com o rosto meio escondido por um livro aberto, Poemas, do poeta Vladimir Maiakóvski. Era tipo uma edição obrigatória, com uma seleção de poemas traduzidos pelos irmãos concretistas Haroldo e Augusto de Campos, e por Boris Schnaidermann, ensaísta e tradutor nascido na Ucrânia e radicado no Brasil. Publicado corajosamente, pela primeira vez, em 1967, plena ditadura no Brasil, esse livro vinha atravessando gerações. Recentemente comprei a edição comemorativa de 50 anos, capa dura, revista e ampliada.
Eu já estava há tempos ligado em poesia e Maiakóvski e tudo que vinha filtrado pelos irmãos Campos. Bota aí Mallarmé, os provençais, Ezra Pound, essas coisas, já me achando meio chique; então quando vi o livro, parei ali mesmo, curioso quanto ao personagem que se escondia por trás dele. Parece que aquele livro me reservava mais uma grata surpresa. Meu gosto por literatura estava mais afiado que meu gosto musical, que capengava em certo rock’n’roll que perdia espaço com a nova década. E eu ainda tinha aquela postura juvenil de só escutar rock; música brasileira era era coisa dos pais e dos tios.
Mas somente até aquela tarde em que Arrigo Barnabé me encarou por trás do livro do bardo russo.
Sim, era Arrigo Barnabé atrás do livro. Fui ler a matéria, de Pepe Escobar, e me deparei com o universo pop/erudito de Barnabé e sua Banda Sabor de Veneno, que cruzavam dodecafonismo e histórias em quadrinhos, tudo maturando numa longa tradição do cancioneiro popular e marginal brasileiro. Não lembro bem do que estava escrito ali, mas me despertou para o que aquele sujeito andava fazendo. Clara Crocodilo, primeiro disco de Arrigo, pareceu-me um farol no meio de uma escuridão que desabou sobre mim. Lendo aquelas páginas pensei: Porra, tô escutando a música errada! Assim, nem estava; não era assim também, mas era o que eu me vi sentindo e foi o que me impulsionou a buscar o disco pelas lojas do Recife.
Lembrando: Não havia internet e eu não tinha pistas desse LP no Recife. Era eu e o centro da cidade, numa busca quixotesca pela luminosidade do meu novo anti herói musical e seu disco-bomba: Clara Crocodilo! O detalhe é que eu não fazia ideia do que havia naquele disco, não havia YouTube para conferir antes se era legal; aquilo nem tocava em rádio ou programas de TV (pelo menos os que eu conhecesse…) Se eu quisesse descobrir, teria que encontrá-lo. O negócio era bater perna na cidade, vasculhar lojas e sebos. E foi o que eu fiz, assim que tive dinheiro para poder comprá-lo.
Lançado em 1980, de forma independente, Clara Crocodilo chegou por fim às minhas mãos numa provável 2ª edição da Barclay, que se não me engano era um selo da Ariola (pesquisem!). Não faço ideia de como esse disco foi parar sob esse selo. Enfim, pude escutar a saga de Clara Crocodilo, o office-boy mutante, vítima dos laboratórios inescrupulosos e da vida tediosa e massacrante da grande metrópole. Vaguei com ele pelos bares, pelos postos avançados das diversões eletrônicas, luzes piscantes e completa falta de sentido na vida, qualquer vida.
Era um balcão de fórmica vermelha
Música brasileira e boteco sempre andaram de mãos dadas, mesmo quando a música era atonal, de vanguarda, despudoradamente contra a canção bonitinha pra tocar no rádio. Clara Crocodilo era pra tocar terror no rádio! Aquilo mudou tudo, trocou tudo de lugar. E no veio que corria o trabalho de Arrigo, eu percebi a música brasileira, sua tradição explodindo mas ali, como um copo de cachaça no balcão, de fórmica vermelha, do bar. Arrigo, curiosamente, com seu manifesto, me apontou na direção da tradição, num movimento inexorável. Minha mãe escutava aquilo e não entendia nada, enquanto aquilo me aproximava dela, do cancioneiro que ela trazia consigo, de família, e que havia se perdido em rótulos industriais da MPB.
Aliás, durante um tempo minha mãe achou mesmo que Arrigo Barnabé fossem duas pessoas, Arrigo e Barnabé. E talvez fosse mesmo, numa espécie de Jekyll e Hyde, desconstruindo a música brasileira e ao mesmo tempo a conduzindo pela mão. Clara Crocodilo, em sua intensidade agressiva, no seu ritmo de HQ mergulhada em ficção científica, na tensão que derramava pelos becos da cidade grande, era uma espécie de relicário. No mesmo bar frequentado por Durango, o office-boy, eu podia imaginar os acordes de Abismo de Rosas, de Dilermando Reis, ou um Orlando Silva. Porque tudo está malditamente conectado.
E dali, da seara de Arrigo, saiu o canto de Tetê Espíndola e de Vânia Bastos, num sonoridade brasileiríssima, que ecoa nos paredões de concreto da Paulista e na Chapadas Brasil adentro. Arrigo estava ainda ligado à dita vanguarda paulista, com o canto falado do Grupo Rumo, que não à toa gravou Rumo aos antigos, reunindo canções de gente como Noel Rosa e Lamartine Babo, Sinhô… e também, claro Itamar Assumpção. Mas isso é outro assunto muito longo! Mas essa gente estava revirando o fundo da lagoa enquanto inventava o novo.
Que discaço é o Clara Crocodilo! Que paulada no fim das contas! Escrevendo assim me dá até uma saudade dele, porque não o tenho mais. Está bem guardado com um bom amigo! Mas a música ali contida espanta nostalgias e abre portas, abre mentes e não deixa pedra sobre pedra. Ali, naquele momento de vida, era o que eu precisava, romper com aquele que eu achava que era. E naquele tempo só um disco poderia fazer isso comigo. E esse disco foi Clara Crocodilo.
À propósito, não abandonei o bom e velho rock’n’roll meio datado que eu aprendi a amar. Tinha espaço pra tudo, agora tinha espaço e esse foi o aprendizado. Mas a saga do office-boy Durango estava ali como um marco, acusando que LP da minha vida tinha virado para o lado B.
PS. Não muito depois, lendo Feliz ano velho, de Marcelo Rubens PAiva, encontro uma deliciosa descrição do seu encontro com Arrigo Barnabé num festival de música universitário. Queria ter estado ali!
Os sons da feira central de Campina Grande
Dias depois Braulio, de novo ele, postou na sua rede social essa incrível gravação. Cerca de 6 minutos de áudio gravado na feira de Campina Grande, sua cidade, na Paraíba.. A gravação é um trabalho maravilhoso de Orlando Freitas, que nos mergulha no burburinho das falas populares, dos pregões, dos passos e ruídos e músicas esparsas. Sons que emergem e submergem em meio a outros sons. [Texto de Toinho Castro]
O poeta Braulio Tavares contou-me essa história, que ele já ouviu de alguém. A música tocando em casa, na sala, aí o filho pequeno olha pro pai e pergunta onde tá a música. O pai responde que a música tá ali na sala, tocando. Sem entender o menino insiste: Mas pra onde eu olho? Pra lugar nenhum, responde o pai. Não tem pra onde olhar; a música é pra ouvir.
A versão contada na mesa do bar pelo poeta, com seu gestual, as pausas e intensidades, era mais interessante, mas creio que pude transmitir a ideia central, de uma geração que parece crescer com a ideia de a música está sempre associada às imagens. Podemos pensar facilmente que tudo isso começa com o videoclip, com a MTV, mas nos anos setenta e imagem já acompanhava poderosamente a música pop. Os concertos, por exemplo, ficavam esteticamente cada vez mais elaborados, na medida em que as tecnologias cenográficas avançavam e os orçamentos das grandes bandas alcançavam patamares nunca vistos. Como pensar o Pink Floyd sem a exuberância visual dos seus shows, ou mesmo das capas dos seus discos? Ou a imagem em branco & preto de Elvis na TV, maior talvez que sua música.
Música e imagem. Parece que foram feitos um para o outro. Parece que foram se buscando enquanto se desenvolviam e se espalhavam pelo mundo. Nós mesmos buscamos essa associação o tempo inteiro. Colocar o fone de ouvido ligado no Spotify e caminhar pela rua, quase como se tivéssemos uma trilha sonora para a nossa passagem pelo mundo. E com isso anular os sons do mundo. Mesmo quando não há telas, seja de cinemas ou de celulares, ainda procuramos formar imagens na mente enquanto escutamos uma canção. Será que foi o mercado que fez isso com a gente? Será que é porque assim se ganha mais dinheiro?
Como escutar sem ver? Como dissociar sons e imagens? O sons são entidades autossuficientes que podem dispensar representações gráficas. Naturalmente, por obra de artistas, podem servir a um filme, uma peça de teatro, etc. Mas no fim das contas, todo som é autônomo. Poderoso em si, em seu próprio discurso.
Dias depois Braulio, de novo ele, postou na sua rede social essa incrível gravação. Cerca de 6 minutos de áudio gravado na feira central de Campina Grande, sua cidade, na Paraíba. A gravação é um trabalho maravilhoso de Orlando Freitas, que nos mergulha no burburinho das falas populares, dos pregões, dos passos e ruídos e músicas esparsas. Sons que emergem e submergem em meio a outros sons. Há uma cadência, um jogo de volumes e tons… E lá está a feira. Sentimos o poder imenso dos sons, sua capacidade de revelar-nos o mundo. Música para os ouvidos, diriam uns. Outros, que isso não é música.
Impossível não recordar de um vídeo que vi., com o músico e escritor americano John Cage. Sempre que penso sobre música ou sons, John Cage me vem à cabeça. Certamente pelo seu intenso trabalho em discutir o mundo dos sons e propor caminhos, por meio de suas composições musicais ou escritos. Mal ouvi esse áudio da feira de Campina e lembrei desse vídeo. Nele Cage fala sobre música e ruído e silêncio. E eu fico imaginando John Cage na feira de Capina Grande, ou de Caruaru, de olhos fechados, escutando o discurso livre dos sons, sem preocupar-se com idioma sou significados. Apreciando somente esse indizível fluxo sonoro que não traz outra mensagem senão a si mesmo.
Quando eu ouço o que chamamos de música, parece-me que alguém está falando e falando sobre seus sentimentos, ou sobre suas idéias de relacionamentos. Mas quando eu ouço o tráfego, o som do tráfego, aqui na 6th Avenue, por exemplo, eu não tenho a sensação de que alguém está falando. Eu tenho a sensação de que o som está agindo, e eu amo a atividade do som. O que ele faz, é mais volumoso e mais silencioso, e fica mais alto e mais baixo, e fica mais longo e mais curto. E faz tudo isso, o que me deixa completamente satisfeito, não preciso de som que fale comigo.
Nós não vemos muita diferença entre tempo e espaço. Não sabemos onde um começa e o outro termina. De maneira que a maioria das artes nós pensamos como sendo no tempo, e a maioria das artes que pensamos como sendo no espaço. Marcel Duchamp, por exemplo, começou a pensar no tempo, quero dizer pensar na música, como sendo não uma arte do tempo, mas uma arte do espaço. E ele fez uma peça chamada Sculpture Musicale, que significa sons diferentes vindos de lugares diferentes e duradouros, produzindo uma escultura que é sonora e que permanece.
As pessoas esperam que ouvir seja mais do que ouvir, e às vezes elas falam de “escuta interior” ou “o significado do som”. Quando falo sobre música, finalmente vem à mente das pessoas que estou falando de som que não significa nada, que não é “interior”, mas é apenas “exterior”. E eles dizem, essas pessoas que entendem, finalmente, dizem: “Você quer dizer que são apenas sons?”, Pensando que algo ser apenas um som é ser inútil. Acontece que eu amo sons, assim como eles são, e eu não preciso que eles sejam algo mais do que são. Eu não quero que eles sejam psicológicos, eu não quero que um som finja que é um balde, ou que é presidente, ou que está apaixonado por outro som [risos], eu só quero que seja um som. E eu também não sou tão estúpida. Havia um filósofo alemão, que é muito conhecido, Immanuel Kant, e ele disse que há duas coisas que não têm que significar nada. Uma é música e a outra é risada. [Risos] Não tem que significar nada, isto é, para nos dar um prazer muito profundo. Você sabe disso, não sabe? [fala com o gato no colo].
A experiência sonora, que prefiro a todas os outros, é a experiência do silêncio. E o silêncio, quase em todo o mundo agora, é o trânsito.
Se você ouvir Beethoven ou Mozart, verá que eles são sempre os mesmos, mas se você ouvir o tráfego, verá que é sempre diferente.
John Cage
(Tradução livre, feita a partir do Google translate)
Em muitas culturas, o som, ou a música, está associada à alguma religiosidade. Repetir o mantra e esvaziar-se de sentido. E no vazio encontrar não significados ou explicações. Encontrar-se. Sem nome, sem origem ou destino. Ser um som. Um som que se basta. Que tem um tom, um timbre, uma duração… e acaba.
O balanço do carro. Foi minha primeira droga. Dei sorte da cidade ser feita de paralelepípedo. Os solavancos eram um colo de mãe pra mim. Ela não era mesmo de dar carinho. Não recebeu e não conseguiu aprender por conta própria. Taí uma coisa que eles tinham em comum. [Texto de Jaciara Rosa]
Hoje tem gente nova inaugurando seu espaço na Kuruma’tá! Trata-se de Jaciara Rosa, mineira que gosta de mansidão, música e palavras. Vive de escrever com os pés fincados no chão e deseja flutuar um pouco, todo dia.
Jornalista pela UFJF, criou e coordena a Dedicata Cultura desde 2006, assessoria e produtora de conteúdo para redes sociais. Também estuda medicina tradicional chinesa e, vagarosamente, vai se construindo terapeuta.
A vontade era de ficar pendurada na janela e sentir a trégua que a brisa dava, à noite, naquele lugarejo sempre quente. Queria ver como era a cidade quando tudo ficava mais quieto. Imagina, com meus cinco anos, o que já não me causava um misterioso céu azul marinho com estrelas… Mas era importante demais manter as pálpebras cerradas.
No banco da frente, o silêncio e a solidão que a minha inocência já percebia e uma tensão no ar por causa do encontro forçado. Eu não queria nem saber. Começava meu ritual de birra lá pelas nove da noite e, eles, seus resmungos habituais. “Que bobeira isso, essa menina tá cheia de mimo. Depois quero ver…”. “Homem chato, eu hein! A gente nunca sai de casa, não custa nada dar uma voltinha, o balanço do carro faz ela dormir logo”.
Eu, com meus cabelos lisos e pretos de curumim e as bochechas cheias de saúde, tinha certeza que o pai ia ceder. Todo dia era isso. Pessoa orientada só pro dever, ele não aceitava a ideia de gastar tempo e gasolina dando voltas pela cidade pra filha única pegar no sono. A mãe, se pudesse, nem no carro nem na casa estaria. Aliás, fazia tempo que só seu corpo morava ali.
O balanço do carro. Foi minha primeira droga. Dei sorte da cidade ser feita de paralelepípedo. Os solavancos eram um colo de mãe pra mim. Ela não era mesmo de dar carinho. Não recebeu e não conseguiu aprender por conta própria. Taí uma coisa que eles tinham em comum. Não, também eram pessoas de bom caráter. Duas coisas e só.
Esticada no banco de trás, sem um pingo de vontade de dormir, continuava apertando os olhos até meu pai cansar da brincadeira inútil e estacionar o corcel verde musgo na frente da casa antiga, a porta na beira da rua e duas janelas altíssimas de madeira. “Pega ela”. “Ela não tá dormindo nada”. “Tá sim, pega ela”. “Uma marmanja dessa no colo…” E lá ia eu, caprichando no peso pra parecer mole, adorando ser carregada pelo corredor de tábuas corridas até minha cama.
Sabia que não convencia ninguém. Mas, para além das pedras que me embalavam e do colo do pai no final, algo mais dentro do meu peito de criança me fazia encenar aquela peça toda noite. O que eu queria, e hoje eu sei, era ver do meu rabo de olho fingido a mão dele pousando na dela, tímidos, ainda desconhecidos. Eu queria ver como era o amor.
13 de março de 2018
De Macabéa às minas do slam ou No princípio era a voz
Este estudo tenciona tornar audível a voz que, em mim, ecoa das leituras e releituras que faço há muitos anos, tentando acertar o meu tempo com a Hora da Estrela. Frente ao romance e, em seguida, ao filme, volto a ser criança, a que pede para que lhe conte aquela história infinitas vezes. Interrogo os mistérios inesgotáveis que habitam a poesia e a música, matérias primas desta obra. [Texto de Numa Ciro]
Este estudo tenciona tornar audível a voz que, em mim, ecoa das leituras e releituras que faço há muitos anos, tentando acertar o meu tempo com a Hora da Estrela. Frente ao romance e, em seguida, ao filme, volto a ser criança, a que pede para que lhe conte aquela história infinitas vezes. Interrogo os mistérios inesgotáveis que habitam a poesia e a música, matérias primas desta obra.
2017. Faz 40 anos que o romance poético A Hora da Estrela foi escrito por Clarice Lispector, exatamente no ano da sua morte. “Não fui ver a baleia que estava a bem dizer à porta da minha casa a morrer. Morte, eu te odeio”2. Vida e Morte: Esse par de significantes, sempre ativo, deu contorno temático ao conjunto da sua obra; à inquietação que a despertava para escrever: “Quando não escrevo estou morta”3; e a curiosidade sobre o inconsciente como saber, esse saber que não se sabe: Quem vive sabe, mesmo sem saber que sabe4. Neste sentido, o texto de Clarice nos põe a nu. Somos pegos de surpresa como uma criança perdida com o endereço no bolso.
1985. Suzana Amaral5 leva às telas de cinema esta obra literária e realiza o desejo de Rodrigo, o narrador: Esta história acontece em estado de emergência e de calamidade pública. Trata-se de livro inacabado porque lhe falta resposta. Resposta esta que alguém no mundo ma dê. Vós? É uma história em tecnicolor para ter algum luxo, por Deus, que eu também preciso. A Hora da Estrela, o filme, é uma das mais belas obras do cinema brasileiro. Para fazer essa passagem impecável da arte literária à arte cinematográfica, a diretora contou com a perfeição do trabalho da atriz Marcélia Cartaxo6 e pode nos apresentar não o retrato de Macabéa, apagando a imagem que criamos dela em nossa leitura solitária. O que há de genial neste filme é que os mistérios de Clarice intocados não permitiram que compreendêssemos tudo: “Sou tão misteriosa que não me entendo”7.
2017. Escrevo este ensaio na tentativa de tornar audível a voz que em mim ecoa das leituras e releituras que faço há muitos anos tentando acertar o meu tempo com a Hora da Estrela. Frente ao romance e, em seguida, ao filme, volto a ser criança, a que pede para que lhe conte aquela história infinitas vezes. Interrogo os mistérios inesgotáveis que habitam a poesia e a música, matérias primas desta obra. O fato é que tenho nas minhas mãos um destino e no entanto não me sinto com o poder de livremente inventar: sigo uma linha oculta fatal. Sou obrigado a procurar uma verdade que me ultrapassa.
A HORA DA ESTRELA
Há uma certeza em mim, uma indecência: Que toda fêmea é bela Toda mulher tem sua hora Tem sua hora da estrela Sua hora da estrela de cinema
O que Macabéa queria mesmo era ser artista de cinema. Mas… Quanto à moça, ela vive num limbo impessoal, sem alcançar o pior nem melhor. Ela somente vive, inspirando e expirando, inspirando e expirando. Na verdade – para que mais que isso? Onde essa menina nordestina encontraria as vias para se articular às redes sociais e dominar a matéria dos signos que a levariam, como atriz, ao set de filmagem?
Clarice toca de forma musical a dor que massacra os corpos despencados no abismo cavado pela divisão social em nosso país, considerado um dos mais desiguais do mundo em distribuição de riquezas: Quem organizou a terra dos homens? Há 40 anos, não passava pela cabeça de ninguém a mais leve desconfiança de que uma moça como Macabéa tivesse alguma chance de se transformar em estrela de cinema. “Já tentei reformar o mundo. Mas quem sou eu, meu Deus, para mudar as coisas?”9. Nos versos de Caetano, “toda mulher tem sua hora de estrela/ estrela de cinema”. Mas Macabéa, que tinha olhar de quem tem uma asa ferida, carecia até do reconhecimento de ser uma mulher: (…) o fato de vir a ser uma mulher não parecia pertencer à sua vocação. (…) mal tem corpo para vender, ninguém a quer“.
Qual seria a hora da estrela? Se, por um lado, os astros nos asseguram uma estabilidade pela constância com que se nos mostram, ao mesmo tempo dizemos que até mesmo as estrelas nascem e morrem. O desfazimento do sujeito “sem chance” de vingar no mundo dos desejos, fazendo vinco em todo e qualquer acontecimento. E assim o tempo dura ou se desfaz a cada frase do romance, e nos suspende como marionetes ao brincar com nossas certezas sobre o nome, o lugar, as pessoas – o homem, a mulher – as coisas, tudo: A Hora da Estrela é a hora da desinvenção do mundo. Lembrando Drummond: “Dessa hora eu tenho medo”10.
ELA QUE SE ARRANJE
Lispector é um nome estrangeiro, de outra distância, mas também provocante de estranhezas, como o nome Macabéa: “É um nome que quando escrevi meu primeiro livro, Sérgio Milliet (eu era completamente desconhecida, é claro) disse assim: “Essa escritora de nome desagradável, certamente um pseudônimo…”. Não era, era meu nome mesmo”. “Eu perguntei a meu pai desde quando havia Lispector na Ucrânia. Ele disse que há gerações e gerações anteriores. Eu suponho que o nome foi rolando, rolando, rolando, perdendo algumas sílabas e foi formando outra coisa que parece “Lis” e “peito”, em latim.11
Escutemos a palavra ‘Macabéa’. Do lado da autora, Clarice era judia, alguns leitores da obra associaram aos Macabeus, antigos rebeldes judeus. É assim que somos fisgados pelos significados. Do lado da personagem, nos mordem os significantes. Esta palavra foi elevada à condição de nome próprio pela escolha da sua mãe: Um nome inventado e dado um ano depois do nascimento da criança. Ao nomeá-la, a mãe de Macabéa escolheu uma palavra que não era considerada, na sua cultura, apropriada para se transformar em nome de gente. Esta escolha demarca para a personagem aquele lugar de onde ela será sempre interpelada para explicar como aquela palavra vingou como seu nome: “Não sei o que está dentro do meu nome”. O que há de seguro dentro dos nomes? O que há de inusitado, no nome Macabéa, recebe o carimbo da fatalidade ligada ao seu nascimento: a recém-nascida era cobiçada pela morte iminente, a qual não deixaria a criança vingar, assim como quando se falam das plantas. A mãe fez uma promessa à Nossa Senhora da Boa Morte que lhe daria esse nome caso a Virgem a livrasse… da morte. Macabéa então é um nome/passaporte que possibilita à virgem nordestina transitar entre a vida e a morte na cidade grande. A Boa Morte sustentou sua vida. E não é por acaso que Macabéa o tempo todo se finge de morta. Não por uma simples adequação descolada do sintagma “Boa Morte”: Mas apenas para o leitor sofrer em seu lugar. Ele que se arranje com isso.
O DIREITO AO GRITO
Durante estas quatro décadas passadas, as mulheres moradoras de favelas e bairros nas periferias dos grandes centros urbanos – em sua maioria negras e nordestinas – deram início a um processo de mudanças, social e cultural, sem precedentes na nossa história: As Macabéas do Brasil periférico se tornaram irreconhecíveis. Não fosse A Hora da Estrela, jamais teríamos este encontro tão íntimo com a alma de moças como Macabéa, que talvez nem existam mais. Ou… não mais aquele olhar, o de Clarice, essa vidente literária do inconsciente: “É que numa rua do Rio de Janeiro peguei no ar de relance o sentimento de perdição no rosto de uma moça nordestina”.
A sensibilidade da autora, aliada à sua destreza em trabalhar com a matéria viva das palavras, nos revela uma verdade captada no que há de mais íntimo e singular na transeunte, o avesso do avesso do flâneur de Baudelaire, e constrói essa personagem fascinante que nos olha de um ponto de onde não podemos escapar. Assim, provoca em nosso corpo uma emoção inquietante, tanto por recebermos a visita das velhas lembranças, quanto pelo despertar de sentimentos ainda desconhecidos. Arrisco dizer que ninguém fica indiferente a Macabéa, oriunda do Sertão do Nordeste do Brasil, nem mesmo aqueles que supostamente estariam fora daquele contexto cultural e/ou social, como diz Rodrigo, o narrador: “Como é que sei tudo o que vai se seguir e que ainda o desconheço, já que nunca o vivi? Ou confessa: Sei de muita coisa que não vi”.
Quando o repórter Júlio Lerner12 perguntou a Clarice onde ela foi buscar, dentro si, a personagem nordestina, ela respondeu que morou no Nordeste, e nos dá a impressão que ela sabe de alguma coisa disso que é preciso saber para ser dito na forma literária: Ela fala de um lugar que nos faz apostar na legitimidade de sua empreitada: ela carrega consigo o Sertão da sua infância em Pernambuco. Haveria esta isca interna que a fez fisgar aquele ar meio perdido do nordestino no Rio de Janeiro, quando foi passear na Feira de São Cristóvão? O que eu vou escrever já deve estar na certa de algum modo escrito em mim.
REGISTRO DOS FATOS ANTECEDENTES
É desse ponto que se posicionam os poetas do Rap, no universo simbólico do Hip Hop. Do ponto de vista de um lugar, apenas desse lugar, se poderá ter a visibilidade de uma determinada situação humana, a partir da qual se confere a legitimidade dos discursos inseridos em neste âmbito onde estão em jogo as relações de poder. “O investimento de uma voz pode constituir o traço que permite a um grupo se reconhecer” 13. Este “lugar de fala”14 é uma novidade que se constituiu como expressão de uma verdade sobre o mal-estar em nossa cultura nos dias atuais, através das vozes15 dos poetas e artistas até então habitantes de um gigantesco túmulo de silêncio: Os cidadãos trabalhadores atrelados à cadeia produtiva das riquezas, mas fora da cadeia de distribuição. Não me escapou neste ponto a lembrança das leituras que Lacan empreendeu sobre a mais-valia para precisar o verdadeiro sentido de alienação.
Este saber sobre o outro não se revela, através da escrita de Clarice, por uma identificação especular com a personagem em si mesma. É como se fragmentos de uma verdade exposta vindos desse lugar puxassem as cordas dos nossos nervos e fizessem vibrar em cada um de nós a voz do que supúnhamos ser a voz da nossa própria natureza. A inquietação maior é motivada pela dúvida sobre esta natureza, pela clarividência com que essa voz interior nos orienta no sentido de seguirmos o trânsito entre o fora e o dentro, o estranho e o familiar, o eu e o não-eu, o eu e os outros: “Se tivesse a tolice de perguntar “quem sou eu?” cairia estatelada e em cheio no chão”. “Quem pergunta é incompleto”.
O que nós analistas dizemos do nosso jeito: quem pergunta é o sujeito, tendo que se virar com essa incompletude pela falta que o constitui, bancar o seu desejo oriundo do oco de seu ser e, mais ainda, não recuar frente a angústia de saber sobre o impossível. Essa voz, que faz ecoar um saberzinho que seja sobre a verdade de nosso impossível ser, ecoa através das ondas sonora imagéticas da escrita ficcional: A moça é uma verdade da qual eu não queria saber. Trata-se da mesma voz que sopra os fragmentos desta verdade aos analisantes, através da associação livre. De repente, estejamos no divã ou na poltrona, viramos a formiguinha passeando na banda de Moebius. Todos somos leitores: o analista, o analisante, até mesmo os leitores.
QUANTO AO FUTURO
Defendia-se da morte por intermédio de um viver de menos, gastando pouco de sua vida para esta não acabar.
No dia 13 de outubro de 193516, Freud recebeu a visita do escritor americano Thornton Wilder17. Conversa vai, conversa vem, Freud confessou o desejo de que a psicanálise fosse assimilada de tal forma que aparecesse na ficção como “romance puro”. Lamentava que este processo talvez durasse séculos, pois alguns escritores utilizavam a psicanálise na ficção de formaesquemática,ressaltando sua natureza clínica. Wilder respondeu que este autor que Freud procurava já existia, era James Joyce e que a sua obra Ulisses faz emergir a psicanálise como “romance puro”.
Não me consta que Lacan tenha se referido em algum lugar a esta visita. Mas calhou de ele ter se ocupado com a obra de James Joyce durante as apresentações do seu Seminário 23 – O Sinthoma18. Lacan disse: “Joyce é o signo do meu embaraço…” e provoca uma mudança sobre como interrogar uma obra de arte, não mais procurando-a entre as formações do inconsciente. A nossa atenção agora deve focar o saber fazer com o sinthoma. O estudo de Joseph Attié19 sobre a obra de Stéphane Mallarmé nos oferece uma rigorosa pesquisa sobre esta virada na obra de Lacan, motivada pela sua leitura das obras de Arte, precisamente a obra joyceana.
Freud sofria com o avanço da idade concomitante ao agravamento da sua doença, o que também fazia aumentar as suas preocupações sobre o futuro da psicanálise. Ele temia que a sua descoberta pudesse se transformar em mais uma ilusão que embalasse o futuro sombrio da civilização que ele sentia como se estivesse a desmoronar. Mal tinham sido recolhidos os escombros da Primeira Guerra e, de novo, já pesava no ar o prenúncio de uma catástrofe iminente, embora apenas um número muito pequeno de pessoas tenha conseguido decifrar com antecedência os sinais dessa catástrofe: a Segunda Guerra, que eclodiu no final de 1939. Freud foi um daqueles que não se deram conta de que o regime nazista estava se fortalecendo no próprio exercício da crueldade com a qual praticou o Holocausto, o genocídio contra o povo judeu, da forma como tardiamente conhecemos.
Durante a Guerra Civil Russa, a família de Clarice Lispector perdeu suas rendas em decorrência da perseguição aos judeus e dos extermínios de muitos deles e se viu obrigada a imigrar de lá, chegando ao nordeste do Brasil em 1922. Clarice tinha 2 anos de idade.
É oportuno nos lembrarmos agora do episódio da queima de livros em toda a Alemanha, no dia 10 de maio de 1933. Este episódio foi justificado pelo escritor nazista, Hanns Johst, como a “necessidade de purificação radical da literatura alemã, de elementos estranhos que possam alienar a cultura alemã”. Freud concluiu que tínhamos progredido: em outros tempos determinados poderes constituídos queimavam os autores e naquela ocasião queimaram apenas os seus livros. No entanto, o grande poeta Heinrich Heine – que Freud admirava e de cuja obra fez comentários e citações em muitos pontos da sua obra – profetizou: “Onde se queimam livros, acabam-se queimando pessoas”. Quanto ao fato do poeta se antecipar ao psicanalista, é bastante conhecido o dizer de Freud, e depois a confirmação de Lacan, sobre o fato de que o poeta, o artista, o escritor criativo descobre antes de todos o que só depois os cientistas haverão de teorizar. Espero que nós analistas possamos ainda retirar lições inesperadas das obras dos autores e artistas contemporâneos.
ELA NÃO SABE GRITAR
Vai ser difícil escrever esta história. Apesar de eu não ter nada a ver com a moça, terei que me escrever todo através dela por entre espantos meus. Os fatos são sonoros mas entre os fatos há um sussurro. É o sussurro que me impressiona.
A ironia do destino escancara os dentes, quando o namorado de Macabéa, que também responde por um nome inventado, Olímpico, joga o peso do nome que carrega na cara de Macabéa, mangando do nome dela. O constrangimento abate o ânimo do leitor. Macabéa, por sua vez, conta o que sabe sobre a escolha de seu nome inventado pela sua mãe, dadas as circunstâncias perigosas. A Boa Morte a salva das convenções do mal-estar onde chafurdam os vivos, nesse mundo organizado pelas convenções sociais criadas para demarcar lugares de poder entre as pessoas: (…) ela era incompetente. Incompetente para a vida. Faltava-lhe o jeito de se ajeitar. Só vagamente tomava conhecimento da espécie que tinha de si em si mesma. Se fosse criatura que se exprimisse diria: o mundo é fora de mim, eu sou fora de mim. Macabéa parece indiferente ao tom irônico de Olímpico e recolhe, em seus (des)encontros, apenas as palavras toscas dele, sem valorizar a artimanha chistosa e violenta com a qual o rapaz a destitui do lugar de desejo. Por que ela não reage? Cadê um pouco de fibra? A nordestina sente ou não sente? Mostra ou esconde aquela dor que todos deveriam sentir?
HISTÓRIA LACRIMOGÊNICA DE CORDEL
A presença fascinante de Macabéa nos atrai pelo apagamento, por uma luz que surge do inesperado, da própria opacidade. Lá, onde nada devia existir, ela vinga. Sua teimosia em viver é um grito que se ouve no silenciar do próprio grito. Ela não fala porque não sabe o que dizer, mas porque não há quem a escute. Há um incômodo que parece vir do sentirmo-nos cúmplices sobre aquela certeza enclausurada no preconceito. A questão é muito sutil e carece de tempo para que essas próprias pessoas conquistem sua voz e o direito de falar. A nordestina é tida por ignorante, menos gente, advinda daquele lugar social de “inocência pisada”20,onde não se é gente de verdade. Mas na verdade, Macabéa dissimula o que sabe, recusa entrar no jogo onde ela já entraria como perdedora. É então que trago para este momento, a voz das Minas do Slam que são na minha leitura as Macabéas falantes. Assim se passaram 40 anos… Agora há quem escute o seu grito. Ingrid Martins, poeta das periferias grita os seus versos de vida e morte em praça pública: “Sendo culpados ou não/ somos julgados sem poder dizer o que somos/ Não temos direito a advogado/ pois somos julgados e condenados nas ruas escuras nos becos apertados/ Onde o nosso maior direito é o de ficar calado/ Todo-santo-dia somos silenciados/ E temos que ser fortes/ porque ainda há quem diga que no Brasil não existe pena de morte”.
LAMENTO DE UM BLUE
Slam é uma competição onde os poetas recitam ou leem seus poemas que devem ter exatamente 3 minutos, cujas performances são julgadas por um júri formado no início das apresentações. Eles devem levar em consideração a forma como o poema é dito para angariar a atenção do público e sustentar a curiosidade sobre o texto. Assim como os saraus que se espalharam pelas periferias de São Paulo e agora em todo o país, o Slam foi tomado pelos negros, pelas mulheres, pelos gays e transexuais, por toda gente que vive de um jeito que não era para vingar como sujeitos. Em sua maioria, são moradores de favelas e periferias das grandes cidades. Dizem que encontraram no Slam um “lugar de fala, lugar de ressignificação”21.
Há o Slam das Minas, constituído apenas por mulheres, como diz a poeta Jade, “como se fosse um outro mundo, um mundo à parte. Há o mundo onde as mulheres não falam e o mundo onde as mulheres falam. O Slam das Minas é o mundo onde as mulheres falam” 22. E falam do que estava calado em Macabéa que tinha o que se chama de vida interior e não sabia que tinha. Vivia de si mesma como se comesse as próprias entranhas.
ASSOVIO AO VENTO ESCURO
Roberta Estrela D’Dalva23, filha de pai nordestino com mãe paulista, é uma das precursoras deste modo de saber fazer com o sinthoma tomando a arte como arma de luta contra a condição de desvantagem das mulheres em relação aos homens com os quais compartilham o mesmo processo de divisão social no nosso país. As poetas do Slam são as estrelas das palavras que fizeram a sua Hora. Agora elas elevaram suas vozes, tomaram a palavra no grito e conquistaram o poder de serem escutadas e mais que isso: donas da voz do seu tempo. “Pois durante anos fomos silenciadas, amarradas/ Abusaram das nossas, as convenceram de que não eram nada/ Só que minha geração não fica mais calada, / Hoje minha boca é meu escudo e minha espada”24.
EU NÃO POSSO FAZER NADA
Podemos fazer uma aproximação entre os momentos iniciais do processo psicanalítico25, quando observamos os primeiros efeitos dessa leitura do inconsciente através de mudanças da posição subjetiva. Com as poetisas do Slam, que já publicam seus livros, reconhecemos este efeito simbólico quando ergueram as suas vozes de um silêncio secular, tomaram a palavra e sentaram-se à mesa das negociações simbólicas na cultura contemporânea brasileira. Assim como observamos no processo psicanalítico essa passagem do destino para a história, é saber notório que os artistas do movimento hip hop deram início a todo este processo. Hoje, as Minas do Slam também apanharam esse primeiro grito e se fizeram sujeitos de sua história pela mediação da arte, a exemplo da poesia de João Cabral: Tecendo a manhã26.
SAÍDA DISCRETA PELA PORTA DOS FUNDOS
O narrador: Macabéa me matou. Ela estava enfim livre de si e de nós. Não vos assusteis, morrer é um instante, passa logo, eu sei porque acabo de morrer com a moça. Desculpai-me esta morte.
Clarice disse27: “Antes dos 7 anos eu fabulava. Eu ensinei a uma amiga um modo de contar histórias. Eu contava uma história e, quando ficava impossível de continuar, ela começava. Ela então continuava e, quando chegava em um ponto impossível, por exemplo, todos os personagens mortos, eu pegava. E dizia: ‘Não estavam bem mortos’. E continuava. Com 7 anos eu aprendi a ler”.
Então… tentando desculpar o narrador, fui buscar na infância de Clarice um lugar para a minha criança, que não cansa de ouvir esta história, e assim tratar minha impotência frente ao destino inexorável de Macabéa, na tentativa de salvar o que de mim morreria com a sua morte.
Clarice28: “(…) quando via um menino ou menina passar na porta de casa perguntava: ‘Você quer brincar comigo?’ Os não eram muitos, os sim poucos”.
Peço a Clarice para entrar na brincadeira e dizer: ‘Macabéa não está bem morta não’. E assim, me acalentei imaginando um encontro entre Macabéa, heroína e mártir do romance, com as Minas do Slam, que tem um dos lemas ligados nos parangolés simbólicos de Hélio Oiticica, com os quais se pode vestir o pensamento para ir à luta: SEJA HEROÍNA SEJA MARGINAL29. Eu li, eu vi: Macabéa saiu da cartomante grávida de futuro.
Vinte e dois anos depois da publicação do romance, Marcélia Cartaxo, a nordestina do Sertão da Paraíba, oferece a Macabéa o prêmio de melhor atriz: um dos mais prestigiados prêmios do mundo. Marcélia ouviu, quase no final, quando Macabéa disse uma frase que nenhum dos transeuntes entendeu. Disse bem pronunciado e claro: — Quanto ao futuro.
O Futuro serve para a gente inventar.
1 Poema de João Cabral de Melo Neto. Livro AGRESTES (1981-1985), in Obra Completa – volume único – página 560. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar, 1994. Obra Completa – volume único – página 560. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar, 1994.
2 Morte de uma Baleia, in A Descoberta do Mundo, Clarice Lispector, pág. 127.
3 Última entrevista de Clarice em 1977, ao repórter Júlio Lerner. Ela pediu para que esta entrevista só fosse ao ar depois da sua morte.
4 Todas as citações em itálico são retiradas do Romance A Hora da Estrela.
5Em 2015 o filme entrou na lista feita pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema como um dos cem melhores filmes brasileiros de todos os tempos.
6 Como atriz, Marcélia Cartaxo, oriunda do Sertão da Paraíba, ganhou, por este papel, o Urso de Prata no Festival de Berlim.
7 “O MEU PRÓPRIO MISTÉRIO, in A Descoberta do Mundo, Clarice Lispector, pág.116. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.
84Versosda canção, “A Hora da Estrela de Cinema” de Caetano Velloso, composta para o espetáculo de Maria Bethânia A Hora da Estrela, 1984.
9 CLARICE POR ELA MESMA, in Cadernos de Literatura Brasileira, pág. 67, 2004.
10 Verso do poema Anoitecer, in A rosa do Povo de Carlos Drummond de Andrade (1943 – 1945), musicado por José Miguel Wisnik. Faz parte dos CDs Pérolas aos poucos, 3003 e Indivízivel, 2011.
13 Tradução livre de minha autoria. Vives, Jean-Michel. La Voix sur le divan – Musique sacrée, opéra, pág. 22, techno. Flammarion, département Aubier, 2002.
14 Sobre isto ler O QUE É LUGAR DE FALA? De Djamila Ribeiro. Belo Horizonte: Letramento, 2017.
15 Ver o artigo que escrevi sobre este tema na revista Z Cultural do PACC- UFRJ: http://revistazcultural.pacc.ufrj.br/vozes-da-periferia-de-numa-ciro-2/
16 Diário de Sigmund Freud – crônicas breves, Artmed Editora, Porto Alegre, 2000. Segundo Michael Molnar, organizador destas crônicas breves, “A visita do escritor americano está documentada tanto nas cartas de Freud quanto nos diários de Wilder. Este encontro serviu de ocasião para uma fascinante discussão sobre literatura e psicanálise, de Franz Welfel a James Joyce”.
17 Embora Freud tivesse elogiado seu livro The Bridge of San Luis Rey, numa carta a Arnold Zweig, como “maravilhoso” e recomendado a seu filho como “extraordinariamente belo”, disse ao próprio autor que jogara fora Heaven’s My Destination e lhe perguntou porque escreveu sobre um tema que não daria para ser tratado poeticamente.
18 O Seminário, Livro 23: o sinthoma, 1975-1976/Jacques Lacan; texto estabelecido por Jacques Alain-Miller; [tradução Sergio Laia; revisão André Telles]. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2007.
24 Mel Duarte, in Negra Nua e Crua. São Paulo: editora Ijuma, 2016.
25 Saber fazer com o real: diálogos entre Psicanálise e Arte / organização Marcia Mello de Lima e Marco Antônio Coutinho Jorge, Editor José Nazar. – Rio de Janeiro: Cia. de Freud: PGPSA/IP/UERJ, 2009.
26 Tecendo a Manhã, do livro A Educação pela Pedra (1962-1965), in
27 CLARICE POR ELA MESMA, in Cadernos de Literatura Brasileira, pág. 59, 2004.
28 Itinerários – Da Rússia ao Recife, in CLARICE – Uma vida que se repete de Nádia Battella Gotlib, pág. 74, São Paulo: Editora Ática.
Direitos autorais 2018 DLCV – Língua, Linguística & Literatura
A cena do filme A hora da estrela, de Suzana Amaral, que ilustra este texto, não faz parte da publicação original na revista DLCV – Língua, Linguística & Literatura.
Festival Levada 2019
O Levada chega ao seu 8º ano e pelos seus palcos já passaram 104 artistas. Gente nova, muitos lançando o primeiro disco, despontado no horizonte. Imagine que Letrux, BaianaSystem, Metá Metá e Carne Doce, entre tantos outros, marcaram presença com seus primeiríssimos lançamentos no Levada. [Texto de Revista Kuruma’tá]
Texto de Revista Kuruma’tá
Gente, é simples… a notícia é boa! Tá tendo Festival Levada na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, com uma programação de arrepiar os muitos e variados sentidos de uma pessoa. Fato!
O Levada chega ao seu 8º ano e pelos seus palcos já passaram 104 artistas. Gente nova, muitos lançando o primeiro disco, despontado no horizonte. Imagine que Letrux, BaianaSystem, Metá Metá e Carne Doce, entre tantos outros, marcaram presença com seus primeiríssimos lançamentos no Levada.
Na quinta passada, 2 de agosto, ninguém menos que a paraense Aíla abriu os serviços, com uma banda afiadíssima na eletrônica! Kuruma’tá se sentiu no futuro! Agora pense, a Aíla foi quem fez o primeiro show da primeira edição do Levada! Que ciclo incrível, pois a moça chegou lançando single novo, o Trema terra!
Aíla no Levada 2019 – Foto Revista Kuruma’tá
E a festa que começou na quinta, apenas começou. A programação traz muita coisa boa demais! Os shows acontecem no Teatro Firjan SESI, no Centro da Música Carioca e no Lab Oi Futuro! Olha aí a lista
O Festival Levada é uma realização da Zucca Produções, com patrocínio e apoio de várias instituições, públicas e privadas, que estão devidamente mencionadas no site do festival pra você conferir. A curadoria… Bem, a curadoria do Levada é do queridíssimo Jorge LZ, produtor e apresentador do Programa na ponta da agulha e colaborador da Revista Kuruma’tá! Só orgulho, né?!
Na página do festival você encontra horários e todos os detalhes que você precisa saber para curtir o Levada. Vá, chame as amizades, convide amores e parentes! Tá valendo! Apoiar o Levada é apoiar gente nova, artistas cheios de energia, e também a manutenção dos espaços cariocas para arte e cultura!
Esse Levada tem o “Selo Bom Demais” da Kuruma’tá!
Bora conferir a turma linda que vai passar pelo Levada 2019?!
Comentário sobre o show da Aíla: Uma parede sonora eletrônica, dançante, moderna, com uma banda impecável, movida pela graça e talento dessa moça que já foi promessa e hoje é missão cumprida! Mas a missão de Ailá se renova o tempo todo e seu novo single, Treme terra, já abala as estruturas. Viva o Pará! Viva Aíla!