Eu sei que é junho

Acaba que me criei, por conta da música e da literatura, dos quadros de Guignard, nessa espécie nostalgia, que flutua melancólica até a alegria mais pura. Deixo me carregar por ela mas sem esquecer que ainda há graça sim. Sem esquecer que é possível alimentar as brasas interiores e fazer migrar para o presente os gritos das quadrilhas. [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro


Quadrilha da Avenida Um, no bairro do Alecrim, em Natal – RN (1953)

Vivo para ver junho chegar. Bem sei que é uma afirmação dramática, exagerada mesmo. Vivo, afinal, para muitas coisas e pessoas. Mas a chegada de junho é algo que anseio desde as primeiras horas de janeiro, ainda sob a alegria de qualquer espumante que se estoure. O barulho da rolha, pipocando na passagem do ano, talvez seja o primeiro estampido que dispara meu coração rumo ao ruído dos fogos e à fumaça das fogueiras que repousam na minha infância. Daí pra frente é uma contagem regressiva cotidiana. Nada tenho contra maio, mas quando ele termina uma alegria danada me invade.

Há pouco mais de vinte anos vivo no Rio de Janeiro. Quando aqui cheguei perdi no radar o sinal do São João. Junho chegava e eu andava pelas ruas sem encontrá-lo. Certamente por morar onde morava, na zona sul da cidade. Não via suspeitas de festa, nada de bandeirinhas coloridas ou gente reunida nas calçadas. Talvez nos subúrbios que eu ainda não conhecia, que não havia ainda alcançado por ser tão cedo, houvesse o tempo diferente das fogueiras acesas. Lembro de passar certa vez na frente de uma Lojas Americanas, em Ipanema, e ver uma barraquinha enfeitada de bandeirinhas e bolos e alguns produtos “típicos” da época. Pensei: Meu Deus, é junho…. É São João. Que vazio me deu.

Hoje é diferente, as festas juninas invadiram a cidade. Invadiram até julho e agosto, para caber na agenda apertada do ano. Naturalmente é tudo muito diferente da rua Pampulha, nos anos 70, muito diferente de Caruaru ou Bezerros, que não cheguei a curtir. Diferente do Nordeste. E é claro que tem que ser assim. Mudou o mundo, eu mudei. Tudo mudou. Mas andar pela cidade e ver bandeirinhas e a movimentação da criançada indo para a festa da escola já me anima. Mas ainda preciso voltar à terrinha para viver de novo o São João, e ver que mesmo lá tudo também mudou.

Alberto Guignard – Noite de São João, de 1961, óleo sobre madeira, 50 x 46 cm

Para mim o Ciclo Junino sempre foi a festa triste. Se havia a alegria das brincadeiras de ruas, do milho assado, havia também a temperatura que caía e a bruma da fumaça das fogueiras que a tudo cobria. Havia certa melancolia nos gestos, talvez porque fosse ancestral colocar o milho nas brasas da fogueira para assar. Talvez pelo colorido faiscante das estrelinhas. Ou porque escutávamos Luiz Gonzaga cantar a saudade das noites de São João, das noites brasileiras sob o luar do sertão. E era assim que o sertão se cristalizava na cabeça de uma criança, em plena Recife, urbana e litorânea. Dava pra imaginar o terreiro de terra batida estendendo-se até findar o halo da iluminação, o cheiro da canjica cozinhando nas panejas, o ruído seco dos passos dos pares a dançar. Uma série de signos que conectavam gerações de nordestinos.

A foto que ilustra o começo dessa crônica mostra a Quadrilha da Avenida Um, no bairro da Alecrim, em Natal, no Rio Grande do Norte. Era o ano de 1953 e no canto direito vocês podem ver a minha mãe, ajeitando o chapéu de palha do matuto. Os enfeites pendurados, as roupas, os noivos, o chão de terra. Tudo isso constrói um caminho até a mim, até aqui, nesta tarde de São João no Rio de Janeiro, onde me sinto que nem um exilado, enquanto os fogos brilham na noite da pátria distante, mas também tão perto, tão dentro.

Olha pro céu, meu amor / Vê como ele está lindo…


Há todo um imaginário das festas de junho baseado na lembranças da meninice. Quem o cantou parece que cantou de longe, sempre de longe. Gente que desceu para o Sudeste e carregou as visões que agora só cabiam em canções e crônicas. Veja só que coisa, no mesmo ano de 1953, no quando minha mãe ainda brincava vividamente no Alecrim a Quadrilha marcada em francês por Israel Botelho, o Tenente Israel, o pernambucano Antônio Maria publicava no Rio de Janeiro o texto Véspera de São João, um lamento de saudade de uma festa já inalcançável. Os rituais da família, as adivinhações, tudo desenhado em detalhes doloridos pelo cronista debruçado sobre a máquina de escrever, que lhe serve de elo com o passado, para muito além de sua janela aberta sobre Copacabana.

Trecho da crônica Véspera de São João, de Antônio Maria. Do livro Crônicas, publicado pela editora Paz e terra, em 1996.

Acaba que me criei, por conta da música e da literatura, dos quadros de Guignard, nessa espécie nostalgia, que flutua melancólica até a alegria mais pura. Deixo me carregar por ela mas sem esquecer que ainda há graça sim. Sem esquecer que é possível alimentar as brasas interiores e fazer migrar para o presente os gritos das quadrilhas. Morando hoje em Vila Isabel, Zona Norte do Rio, marco o compasso da minha própria tradição subindo a escadaria da Igreja de Santo Antônio. Acompanho a missa, aproveito os quitutes das barraquinhas e lá do alto vejo a cidade e cada janela acesa me parece um balão a ganhar o céu. Um balão que voa até Pernambuco, por cima do recife, de onde, ainda menino, o vejo. E ele ruma para dentro, para o sertão, levado pelo vento que vem do mar, até desaparecer.

E reaparecer, quando o espumante pipocar nos primeiros segundos do ano que vem, e me vier à mente e ao coração vibrante o barulho dos estalinhos, o fole roncando e os pares de mãos dadas. Em algum lugar existe ainda a fogueira de paus verdes que meu pai armou na rua e que nunca queimou.

Igreja de Santo Antônio de Lisboa, em Vila Isabel, Rio de Janeiro

Recentemente o querido amigo e livreiro Francisco Olivar me presenteou com um livreto comovente, uma edição de São João do Nordeste, do poeta recifense Mauro Mota. Trata-se da publicação de uma palestra que o poeta proferiu em 16 de junho de 1952, sobre as festas juninas, na sede do Rotary Clube do Recife. Isso já era, ali nos anos 50, uma espécie de saudade, a história do São João precisando ser contada nos salões da grande cidade. O poeta é didático e afetuoso. Começa brigado com o São João, por conta do barulho dos fogos, das bombas transvalianas estourando pela cidade e acabando com o sossego possível. A partir daí, desse mal jeito, enveredamos pela tradição também possível. A história enraizada da festa, a cultura religiosa do milho, o casamento, os desafios de cantadores… passando pelas comidas e jogos de adivinhação, magia e mistérios das noite de junho.

Em frente à fogueira
Zuza espaduado,
benzeu-se sereno
e fa oração:
— chô — cão!
— chô — cão!

Depois levantou
a vista pro céu
pra ver se o espiava
senhor São João.

E meteu os pés nusinhos nas brasas de fogo quente.
— Danou-se, só quemtem os pés de sola!
Porém Zuza, vadiando, andou prá lá e prá cá!
Caxeteando se agachou pondo fogo no cachimbo!
Depois, puxando a poistola, atirou fixe no chão!
Vaiva senhor São João!
Vivôôô!

Ascenço Ferreira — Cana Caiana — Recife, 1939

Percorremos nas 36 páginas do livro um território encantado, protegido por uma redoma que o poeta tece, a fim de que todos possamos olhá-lo com atenção e gaudá-lo na memória, não mais como participantes. Pelo vidro da redoma vemos o brilho do estourar das bombas sem que nos chegue seu com. Rais de uma trovoada tão distante que não podemos escutá-la.

E então descobrimos que a fogueira se apagou há muito tempo. E que, no lugar dela, só existem cinzas. As cinzas da lenha e as cinzas do nosso encantamento.

Ao fim, Mauro Mota encerra sua fala revolvendo as próprias cinzas, evocando, não poderia ser diferente, o poeta Manuel Bandeira, que no seu livro Libertinagem, de 19933, escreveu sobre certa noite de São João. Sempre que eu passava, mais novo, em frente à casa em que Manuel Bandeira viveu parte de sua infância, na rua da União, no Recife, eu pensava nesse poema.

Profundamente
Manuel Bandeira

Quando ontem adormeci
Na noite de São João
Havia alegria e rumor
Estrondos de bombas luzes de Bengala
Vozes, cantigas e risos
Ao pé das fogueiras acesas.

No meio da noite despertei
Não ouvi mais vozes nem risos
Apenas balões
Passavam, errantes

Silenciosamente
Apenas de vez em quando
O ruído de um bonde
Cortava o silêncio
Como um túnel.
Onde estavam os que há pouco
Dançavam
Cantavam
E riam
Ao pé das fogueiras acesas?

— Estavam todos dormindo
Estavam todos deitados
Dormindo
Profundamente.

*

Quando eu tinha seis anos
Não pude ver o fim da festa de São João
Porque adormeci

Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
Minha avó
Meu avô
Totônio Rodrigues
Tomásia
Rosa
Onde estão todos eles?

— Estão todos dormindo
Estão todos deitados
Dormindo
Profundamente.

Do livro Libertinagem, de 1930.


O título desse texto foi tirado de um verso do poema Junho, de Geraldo Valença, musicado pelo seu sobrinho, Alceu Valença, no disco 7 desejos.


Crônica dos últimos momentos

Maldito livre arbítrio, controlado pelas corporações, pela publicidade, pelo último modelo de celular e pela lanchonete multinacional da esquina. Mesmo a ideia de escovar os dentes não era dele, mas da pasta de dentes. Logo mais iria remover o sabor da maionese com um chope gelado em outra esquina, sob os auspícios de outras tantas marcas. [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro


O grande desafio da vida é descobrir quem segurar pela mão quando o fim do mundo bater à porta e alguém gritar pra a gente correr. Porque no fim das contas a única coisa que importa é quem a gente segura pela mão. Vanderson olhava suas próprias mãos no banheiro da lanchonete, enquanto as lavava da gordura do hambúrguer e pensava no quanto estava despreparado para o fim do mundo. Se o mundo acabasse amanhã, a quem ele daria a mão? Quem fugiria com ele? Quem o faria correr sem rumo e inutilmente pela cidade, mas de mãos dadas, irreversivelmente de mãos dadas, quando as cinzas e a lava de todos os vulcões os cristalizasse uma escultura que seria descoberta mil anos depois, pelos povos vindouros, visitantes de um planeta curioso a perscrutar nossa história soterrada?

Terminou de lavar as mãos e deixou a lanchonete. Sentia ainda o frescor da água gelada que sempre aparecia nas torneiras naquela época do ano. Caminhou solitário pela rua com o sabor da maionese vagabunda na boca. Deveria ter escovados os dentes… Na verdade nem deveria ter comido o hambúrguer. Maldito livre arbítrio, controlado pelas corporações, pela publicidade, pelo último modelo de celular e pela lanchonete multinacional da esquina. Mesmo a ideia de escovar os dentes não era dele, mas da pasta de dentes. Logo mais iria remover o sabor da maionese com um chope gelado em outra esquina, sob os auspícios de outras tantas marcas. E ali, no encontro com os amigos para o tal chope, olhou em volta e se viu, desolado, outra vez de mãos vazias. Ali cada um correria para um lado diferente na hora em que o chão tremesse.

Pois então que o chão não trema já. Que não seja agora, pensou ele.

Mas isso, ele logo descobriria, não era uma decisão dele e sim dos telejornais. O chope encerrou na melancolia de sempre, todo mundo meio insatisfeito. Todo mundo tendo bebido um pouco além da conta e voltando para casa de ônibus ou metrô. A pressa em catar trocados para o cobrador não olhar com cara feia para você, oferecer moedas para facilitar o troco e ele não aceitar e te devolver mais moedas ainda. Em algum ponto, pensava Vanderson, dobramos na esquina errada e o testemunho desse erro estava em toda parte. Era algo que sobressaía acima das coisas quase sempre naquele horário, pós-trabalho, pós-chope-pós-trabalho… um ruído contínuo, insistente, que denunciava o lixo em que havíamos nos metidos.

Antigamente as pessoas ficavam nos coletivos olhando para o nada, para dentro. Mas era um dentro poço-sem-fundo… Um dentro hipnótico feito de vazio, de um esgotamento de fim de dia.

Agora são os celulares. Todos mergulhados nos celulares… joguinhos, redes sociais, mensagens de textos, o zap e as últimas fake news. O ônibus balança e socoleja algo dentro da gente, algo que se fizesse barulho o barulho seria ouvido em toda parte.

Vanderson foi pra casa. Apartamento de um quarto, no bairro da Glória. Cozinha pequena, banheiro pequeno, janelas pequenas, uma delas voltada para coisa alguma e a outra para o corredor do andar. Vista zero, vento fresco zero. Insone, cerveja no freezer para que algo pudesse fazer sentido enquanto acessava a internet e se descobria sem e-mails. Não que não tivesse amigos ou compromissos ou correspondências. A prova disso é o chope de fim de expediente e uma agenda de telefone com gente em quase todas as letras. Sem falar do vizinho gente boa que sempre o cumprimentava no elevador, ou o porteiro com quem se atualizava sobre o futebol e as reuniões de condomínio que ele faltava pontualmente.

Dominando a sala havia um poster monumental de 2001 – Uma odisseia no espaço, único filme que Vanderson afirmava gostar. Dizia, na verdade, que era o único filme havia assistido, ainda que não faltassem testemunhas oculares das suas diversas e levianas sessões de cinema. Ele chamava o poster de O Monolito e muitas vezes ajoelhara-se diante dele pensando sobre a vida, sobre o seu primata interior, tantas vezes tão à flor da pele. Costumava dizer que não é fácil aturar o mundo lá fora quando se tinha um poster como aquele na sala. Para os amigos de bar contava a história que, certa noite, fora dormir e ao acordar deu com o poster pendurado na parede. Para ele uma óbvia intervenção de forças além da compreensão.

E foi ali, diante do poster, na manhã seguinte, que ele soube que o mundo estava prestes a acabar. Uma coincidência idiota… passou a noite anterior com isso na cabeça e de repente o mundo resolve acabar, ou resolvem acabar com o mundo. Assim de uma hora para outra teria que tomar certas atitudes, ligar para alguns amigos, arrumar as malas. Pensou que se o mundo ia acabar deixaria as malas arrumadas; também havia decido, há tempos, que não correria.

Tentou fazer umas ligações mas o serviço telefônico, que mesmo nos melhores dias não prestava, começou a dar sinal de suas falhas finais. Ligou a TV num último gesto do desespero por constante atualização e tudo ficou esclarecido. Sentado, calmo, assistiu as imagens, ao vivo, das ondas gigantescas que varriam os oceanos. Ainda que não estivessem claras as razões para o cataclismo, um esbaforido apresentador do telejornal apontavam os dados precisos, como altura, velocidade e destino de cada uma daquelas ondas. Cidade tal, cidade essa e aquela. Rio de Janeiro! Lá estava a onda dedicada ao Rio de Janeiro… enorme, com uma força descomunal, crescendo em tamanho e vigor a cada quilômetro percorrido. Algumas cidades já haviam sido destruídas e não faltava muito para que o bairro da Gloria sucumbisse sob a violência das águas. O próprio sinal da TV tinha ido para o ralo, junto com as regras que definem o que chamamos de civilização.

Deixou as malas no apartamento, mera convenção íntima. Suas roupas não seriam espalhadas por aí mas navegariam até que baixassem as águas, para serem descobertas em mil anos, sempre mil anos. Relíquias. Fechou janelas e desligou o gás. Seu apartamento não estaria entre os que explodem.

Muito bem, pensou Vanderson, o que eu faria se o mundo fosse acabar? Dar a mão a alguém e esperar a grande onda que sempre esteve a caminho. Esperá-la de mãos dadas e caminhando como quem vai, não salvar o mundo, mas descansar com ele. E nesse pensamento ele estava quando de repente ouviu alguém chamar seu nome. Em meio ao corre-corre que o cercava, em meio à confusão que rodeava sua ternura interior, seu nome vibrou no ar. Era nítido, límpido, imperioso. Olhou ao redor atravessando tudo com o olhar e sentiu um chamado. E correu. Contra seus planos, ele correu. Contra seus desejos e anseios de ser o primeiro a ser carregado por aquela onda ele correu. Correu muito numa direção precisa como a onda. Ele era a onda, e se arremessou contra a multidão, contra os automóveis descontrolados e ônibus lotados no engarrafamento sem rumo.

Sentiu-se devastador, mais poderoso a cada passo que corria. Era como se ele fosse destruir o mundo. O chão vibrava sob seus pés e sentiu um vento forte com cheiro de maresia, o mesmo cheiro dos seus dias de infância, que varreu tudo ao seu redor e se adiantou a ele, indo além. A grande onda havia chegado à cidade e a engolia sem dó. Há quanto tempo corria, em que direções? Em quantos círculos ele se afundava mais e mais enquanto o mar se erguia?

Só sabia que corria pelas ruas da cidade enquanto a onda rugia nos calcanhares da civilização, gigantesca, inevitável. Corria ignorando o pânico, a inutilidade das máquinas e as mortes ao redor. Emaranhou-se pela cidade, percorrendo caminhos que somente a água devastadora percorreria, porque eram caminhos há muito perdidos.

Alcançou, finalmente, o seu propósito, o centro horizontal e vertical da sua busca. Recostou-se ofegante na parede do velho beco, o velho beco perdido na cidade e na memória. Sentindo a pressão do volume da água que a tudo carregava, olhou para o lado e viu alguém, ofegante como ele, cansado de correr e que também acabara de entrar no beco. Tinha tido a mesma ideia, ouvido a mesma voz que ele, e ninguém jamais saberia a o que os levou até ali. Entreolharam-se rapidamente e teriam dado as mãos, se já não fosse tarde demais.


CARNE DOCE – 6 anos depois…

Uma das características que marcam o Levada é a busca por alguns nomes que estejam no início de carreira e, melhor ainda, se nunca tiverem tocado no Rio… e é aí que coisa fica interessante, pois é preciso vasculhar e estar atento à movimentação numa área que ainda não tem muita visibilidade. [Texto de Jorge LZ / Programa na Ponta da Agulha]

Texto de Jorge LZ / Programa na Ponta da Agulha


Foto: Jorge Lz (2019)

No final de semana passado consegui finalmente rever o Carne Doce ao vivo e a experiência foi emocionante… emocionante, pois a minha história com o grupo começou anos atrás… precisamente em 2013…

O Festival Levada começou em 2012 e desde o início assino a curadoria. Uma tarefa espinhosa diante da quantidade de bons trabalhos que surgem de todos os cantos do Brasil. Não há como não cometer injustiças, sendo assim, muita gente que tem tudo para estar entre os escolhidos acaba ficando de fora.Uma das características que marcam o Levada é a busca por alguns nomes que estejam no início de carreira e, melhor ainda, se nunca tiverem tocado no Rio… e é aí que coisa fica interessante, pois é preciso vasculhar e estar atento à movimentação numa área que ainda não tem muita visibilidade.

Foto: Celso Pereira (2013)

Em 2013, o Levada chegava em sua segunda edição e, para atender umas das demandas do festival, que era a de trazer pelo menos um artista de cada uma das cinco regiões do país, eu estava engatado no Centro Oeste, pois ainda não tinha achado o nome que ocuparia essa vaga. Numa noite de sábado, estava eu no Circo Voador para ver um show de quem já não me lembro, quando encontrei Otaner que, junto com Fábio Fernandes e agora com Pedro Montenegro, cuida de um dos sites culturais mais bacanas que conheço, o La Cumbuca. Papo vai, papo vem, digo a ele que estou tentando fechar a grade do Levada, mas ainda não tinha o nome do Centro Oeste….Otaner rapidamente falou “você precisa ouvir um grupo de Goiânia, chamado Carne Doce”. No dia seguinte, abri o computador e comecei a procurar pela dica que havia recebido… naquela época a internet, perto do que é hoje, era mato, mas consegui achar uma página do grupo no Soundcloud. Por lá tinham poucas músicas… o Carne Doce tinha apenas um EP com seis faixas… consegui um email, que logo virou um telefone, e lá estava eu conversando com Salma sobre a possibilidade do Carne Doce participar do Levada para lançar o tal EP. Logo depois conversei com Macloys, que me disse que a primeira apresentação no Levada seria o quarto show do grupo… isso tudo foi em junho e, quatro meses depois, dia 11 de outubro, eu estava sentado na primeira fila do Teatro Oi Futuro de Ipanema, de frente para Salma e Macloys, vendo uma apresentação que foi além das minhas expectativas. Fiquei arrebatado pelos textos, pelas texturas, pelos arranjos, pela performance do grupo e, em especial por Salma e Macloys. Tenho até hoje guardado, e devidamente autografado pelos dois, o EP Dos namorados, que foi lançado na ocasião. Dias depois do show, mandei uma mensagem de agradecimento ao Macloys e fui respondido com um texto, que é um dos melhores presentes que já recebi e que guardo impresso com muito carinho.

Vídeo: Dos Namorados – gravado por Fábio Fernandes

Passado esse episódio, como eu já imaginava, o Carne Doce foi crescendo e conquistando cada vez mais espaço no cenário musical, passando por todos os grandes festivais do Brasil. Veio o primeiro álbum, Carne Doce (2014), com a nova formação, que se mantém até hoje e que é fundamental para a excelência do trabalho realizado. Somaram-se à Voz de Salma e à Guitarra de Macloys, o baixo de Aderson Maia e a guitarra e o sintetizador de João Victor Santana, que também é o produtor de todos os álbuns do grupo.

Princesa foi lançado em 2016 e o impacto foi impressionante. As músicas foram todas devoradas pelo público, que as cantou em uníssono nas apresentações do grupo, com destaque para Princesa, Artemísia e Falo.

Em 2018 chegou Tônus, terceiro álbum que atesta uma avanço do Carne Doce em todos os sentidos…. as composições estão mais densas, a sonoridade está mais elaborada, mais bem trabalhada, o grupo cada vez mais coeso e Salma canta ainda melhor que nos trabalhos anteriores. Princesa e Tônus ganharam belas versões em vinil, dando ainda mais brilho ao trabalho do Carne Doce

Depois dos dois shows no Festival Levada de 2013, o Carne Doce esteve no Rio diversas vezes, mas sempre algo acontecia e eu não conseguia estar presente. Reencontrei pessoalmente com Macloys duas vezes… a primeira, quando ele participou do Radar, programa que eu apresentava ao lado da minha querida parceira e amiga, Julianna Sá; e outra, quando fui pegar com ele o vinil de Princesa no saguão de um hotel onde estava hospedado… no mês passado, ele e Salma gravaram, à distância, uma participação para o NA PONTA DA AGULHA… o contato existia, mas estava difícil de quebrar o feitiço que me impedia de assistir a banda ao vivo… até que há duas semanas, Macloys convidou-me para uma apresentação do Carne Doce, no Rio, que aconteceria no final de semana passado. Finalmente o feitiço foi quebrado e lá estava eu na segunda fila, coincidentemente, logo atrás do Fábio “La Cumbuca” Fernandes. O grupo subiu ao palco, teve paciência para lidar com os problemas técnicos que não deixavam o som engrenar para a entrada de Salma e, uma vez equacionados os problemas, o que vi foi uma apresentação contagiante, muito parecida e ao mesmo tempo muito diferente do que eu havia visto anos antes. Parecida na garra e no profissionalismo; diferente na postura e na desenvoltura de artistas que cresceram e se tornaram ainda melhores. O palco cresceu, o som cresceu, o Carne Doce cresceu. E eu, seis anos depois, sinto-me um privilegiado de conhecer esse trabalho desde o início… e falando em início, segundo me disse Macloys, quando participou do Radar, o show do Levada não foi o quarto, mas o primeiro… ele e Salma, que haviam gravado o EP Dos Namorados, formaram o grupo atendendo o convite para participarem do festival, o que torna meu laço afetivo com o grupo ainda mais estreito.


Na ponta da agulha é um site parceiro do Kuruma’tá! Jorge LZ produz e apresenta o programa na Ponta da Agulha, na Rádio Graviola. Confira: napontadaagulha.ml


Ela, a criança, é o elo

A criança, aquela. Quando começou a envelhecer, a perceber que crescia em meio a essa disritmia, sabia que seria assim. Passaria a vislumbrar a inconsequência juvenil como única saída diante da ordinarice ao redor. Ou melhor, alimentaria descontroladamente a criança enfastiada e farta que, ele sentia, ainda resistia. [Texto de Eduardo Frota]

Texto de Eduardo Frota


Acendeu uma vela, mas não era reza.

Acordou já em meio ao blecaute, desses em que o silêncio parece entrar no ringue para empreender um barulhento nocaute. Precisou ir ao banheiro para checar a sanidade. Olhou-se no espelho feito uma santidade, iluminado apenas pela chama. Chamou seus fantasmas, conjurou seus demônios, deixou com que eles abrissem suas asas escarlates.

A vela, ele a acendeu para ela.

A criança, aquela. Quando começou a envelhecer, a perceber que crescia em meio a essa disritmia, sabia que seria assim. Passaria a vislumbrar a inconsequência juvenil como única saída diante da ordinarice ao redor. Ou melhor, alimentaria descontroladamente a criança enfastiada e farta que, ele sentia, ainda resistia.

Queimou o dedo indicador.

Não sentiu o ardor da cera. Apenas uma coceira que não foi forte o suficiente para estancar a torrente. Não foi por falta de aviso – falavam sobre isso desde a época em que ainda tinha na boca todos os seus cariados quatro sisos. Os mais velhos sempre alertaram sobre o fato de que é preciso assumir riscos para amadurecer.

O vento tremeluziu o filete de fumaça.

Ele brincava com fogo antes de dormir todas as noites, imaginando controlar a chama, mesmo sendo lembrado de que isso poderia resultar em uma vexaminosa mancha de xixi na cama. Com o passar do tempo, distanciou-se das ideologias iconoclastas. Virou um mero delinquente diletante, mas manteve sua inseparável companheira, a caixa de fósforos, acomodada no canto da estante.

Não há reza e a vela finda.

O tempo passou, mas aquela criança ainda está lá, pirólatra. Pior, pirofágica. Pior, pirófila. Pior, piromaníaca.

Pior, em busca de companhia.

Foto estranha de origem desconhecida. Se alguém tiver uma pista…

Canudos é aqui

A nova edição do livro A terra, o Homem, a Luta traz um belo prefácio do escritor Milton Hatoum, que linka Euclides da Cunha e Os Sertões ao escritor argentino Domingos Sarmiento, autor de Civilizacion y Barbarie. Acho que o escritor Jorge Luís Borges também faz esse link, sugerindo que o duelo entre civilização e barbárie fundamenta essas duas obras colossais da literatura latino-americana. [Texto de Nonato Gurgel]

Texto de Nonato Gurgel


Quem sou eu para ficar ao lado de Euclides da Cunha, Camões ou Montaigne?
— Jorge Luis Borges

Para Nilson Gurgel


Canudos não para. ‘Troia de Taipa’, ‘Monstruoso anfiteatro’ ou ‘Nossa Vendeia’, desde a guerra no sertão baiano, há 122 anos, Canudos não sai do imaginário cultural brasileiro. Canudos é o título da palestra da ensaísta Walnice Nogueira Galvão que vai abrir a Flip de Paraty, em Julho, cujos ingressos esgotaram-se 15 minutos após o anuncio virtual.

Em sintonia com a festa que celebra a nossa literatura, algumas vitrines cariocas exibem diferentes edições de Os Sertões, além de livros que interpretam a obra prima de Euclides da Cunha, o escritor homenageado da Flip 2019. Um desses livros é A terra, o Homem, a Luta, do ensaísta Roberto Ventura (1960-2002).

Quem já leu algum texto do Roberto sabe que os seus escritos de linguagem concisa possuem uma tonalidade meio literária que parece seduzir o leitor. Fruto de produtivo diálogo com a tradição literária e crítica, é como se o texto do Ventura condensasse em si muito do que foi dito sobre Os Sertões durante mais de um século, refazendo diferentes leituras literárias, científicas, históricas e religiosas em torno do ‘livro vingador’. Outro texto do Roberto compõe a seleta fortuna crítica de 14 ensaístas, recortada por Walnice Nogueira em sua edição crítica de Os Sertões.

Roberto Ventura lê Euclides da Cunha

A nova edição do livro A terra, o Homem, a Luta traz um belo prefácio do escritor Milton Hatoum, que linka Euclides da Cunha e Os Sertões ao escritor argentino Domingos Sarmiento, autor de Civilizacion y Barbarie. Acho que o escritor Jorge Luís Borges também faz esse link, sugerindo que o duelo entre civilização e barbárie fundamenta essas duas obras colossais da literatura latino-americana.

Uma das epígrafes do livro do Roberto é retirada de uma carta euclidiana, e diz muito das conexões entre literatura e vida na Belle Époque carioca: ‘Escrevo, como fumo, por vício.’ Euclides acunha logo no início do livro, quando num discurso no IHGB compara-se a um ‘grego antigo transviado nas ruas de Bizâncio’. É o mesmo homem que se autocognominou ‘Misto de celta, detapuia e grego’.

Bom mesmo é curtir a leitura mista que Roberto faz de Os Sertões, da guerra de Canudos e os pontos de identificação entre António Conselheiro e Euclides da Cunha. Roberto relê o cânone estético e cultural de Euclides e sua vida trágica, apontando, sem acusação, os erros, as contradições e os vários acertos do autor fluminense que estaria hoje no MST, segundo sua leitora mais autorizada: Walnice Nogueira Galvão.

Dentre os erros euclidianos, creio que chamar de louco e analfabeto o ascético e querido Conselheiro, talvez seja o maior. António foi professor. Dentre os vários acertos, gosto dele imaginar o sertanejo como a confluência do índio com o bandeirante paulista; assim como gosto do consórcio que ele inventa entre arte, cultura, história e filosofia. Essa mistura, essa hibridez potencializa a polifonia deste livro que não para de perguntar e de dizer, para cada geração, o que é o Brasil.


Mexendo a terrina com Setembrina! – As Lágrimas de Paulo César Feital e Lucas Bueno

Saindo da primeira audição do disco Lágrimas, de Lucas Bueno com seu parceiro Paulo César Feital. E como é que se fica depois de escutar um trabalho como esse? A alma da gente oscila entre chamar a vizinhança para cantar e dançar e sair correndo para a rua e sacudir as estruturas sociais. [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro


Lucas Bueno e Paulo César Feital / Foto: Divulgação

Saindo da primeira audição do disco Lágrimas, de Lucas Bueno com seu parceiro Paulo César Feital. E como é que se fica depois de escutar um trabalho como esse? A alma da gente oscila entre chamar a vizinhança para cantar e dançar e sair correndo para a rua e sacudir as estruturas sociais. Talvez as duas coisas possam ser uma só, unidas em harmonia na música dessa dupla fantástica. Lucas é pianista, violonista e compositor de primeira linha, com parcerias com nomes como Ana Terra, Moyseis Marques, Chico Alves, Iara Ferreira, Joana Hime e Maria Vilani. Paulo César Feital soma com mão cheia parcerias com João Nogueira, Nelson Cavaquinho, Hélio Delmiro, Jorge Aragão, Claudionor Cruz, Guinga, Luiz Eça, Roberto Menescal, Altay Veloso entre outros, numa lista de dar gosto. E como samba é gente junta, encontro, parceria, os dois, lado a lado, empunham as pérolas de Lágrimas.

As dez músicas do álbum enfileiram a tal diversidade da música brasileira mais enraizada, da qual tanto se fala e cada vez menos se pratica. Minto! A variedade de sons e tons do nosso cancioneiro está aí sim, é só sair do mainstream, tirar os olhos dos grandes painéis corporativos para ouvir o ritmo do Brasil pulsando nas ruas, nas rodas de choro nas praças, nas rodas de jongo, nas vozes de novas gerações que se anunciam com muito talento. Lágrimas está de olho nisso tudo, sintetiza um país que ousa e não se cala por meio de sua música.

O disco anuncia a que veio abrindo com o Samba pra Darcy Ribeiro, mandando ver no Eu sou brasileiro. É uma afirmação em primeira pessoa mas de espírito coletivo. É, na verdade, um chamamento num samba elegante e emocionante. E depois disso você só pode continuar, recebendo essa dose na medida daquilo que somos. É de arrepiar, sobretudo se você pensa que somente começou.

Não me chamem pra porrada
Não me chamem pra salseiro
Gosto é de jogar pelada
De abraçar meus companheiros
Tenho a alma enamorada
Como a de Darcy Ribeiro
(Da letra de Um samba para Darcy Ribeiro)


Daí abrem-se caminhos pela Vila Mimosa, pelas veredas de Guimarães Rosa, terreiros e cabarés, Ariano Suassuna, o picadeiro aberto do circo que se armou na nossa alma. É pouco não! E pra completar a riqueza do disco, duas faixas são parcerias com o grande João Nogueira. O jongo Setembrina e o baião Pão com Goiabada foram iniciadas por João mas estavam incompletas. Pão com Goiabada partiu de uma melodia soprada por João que Lucas levou adiante, com letra de Feital. Para Setembrina João nos eixou o refrão de beleza inacreditável, que Feital completou com sua letra, segurando o rumo da prosa, ou do verso. Lucas chegou completando a melodia. O resultado… se por um lado deixa na gente com aquela saudade, aquele João, que falta você faz, por outro nos brinda com o sabor da continuidade, do legado.

Minha Vó dançava jongo enquanto mexia a terrina
Minha Vó dançava jongo enquanto mexia a terrina
Pra descer seu Zé do Congo e a velha Setembrina
Quando Erê tocava o gongo
Vovó virava menina
(Refrão encantado de Setembrina)


No disco, numa música depois da outra, apresenta-se o Brasil que resiste, que não desiste de se esgueirar nas fissuras. É um disco que se insurge porque é foda ver o que a gente anda vendo pelas ruas, redundando nas TVs. É sangue o suor brasileiro / Que rega os jardins d´ambição. É poesia contra a brutalidade que quer se impor e pautar o cotidiano. Por isso a importância da música, da dança, do samba, do choro. Por isso empunhar violão e reunir os amigos para cantar, nesse disco de muitas vozes (Literalmente, com participações especiais de Moyseis Marques, Nina Wirtti, Soraya Ravenle, Vidal Assis e Claudio Nucci) em que fala alto a diversidade. É um Estamos aqui! cantado em alto e bom tom, afirmado na praça, no terreiro onde Setembrina dançava o jongo e mexia a terrina. Um disco pra servir de mapa e de farol, pra quando você tiver alguma mínima dúvida de onde fica o Brasil.

Senhora de Aparecida
Mãe do Brasil, ora yê yê ô
Mamãe Oxum
Aplaque essa ira contida
Entre teus filhos
Ogunhê , meu Pai Ogum
(Da letra de Um samba para Darcy Ribeiro)


Páginas de Poesia Galega

No ano passado fiz uma dessas viagens, no lombo de um idioma, o Galego. Na verdade naquela tarde de maio, enquanto assistia a Jornada 2018 de Letras Galegas, eu apenas iniciava a viagem que ainda segue seu rumo. Levado até ali, o Instituto de Letras , da UERJ (Viva a Universidade pública!), pela amiga e artista multimeios de muitas mídias, Paloma Klisys. [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro


A gente sempre acha que viajar é pegar um trem ou avião, ou algum meio de transporte, atravessar distância e chegar a outro lugar, seja uma cidadezinha no interior de Minas Gerais ou um país margeado pelo mar Adriático. Há os que fazem viagens de ácido e viagens espirituais. Mas exste ainda um outro tipo de viagem. A viagem dos idiomas. Pois conhecer outro idioma é viajar, ultrapassar barreiras muitas vezes maiores até que a distância. Passagens no tempo, no corpo, nas culturas.

No ano passado fiz uma dessas viagens, no lombo de um idioma, o Galego. Na verdade naquela tarde de maio, enquanto assistia a Jornada 2018 de Letras Galegas, eu apenas iniciava a viagem que ainda segue seu rumo. Levado até ali, o Instituto de Letras , da UERJ (Viva a Universidade pública!), pela amiga e artista multimeios de muitas mídias, Paloma Klisys, me pus a ouvir e aprender. Paloma foi até lá para participar do encontro, relatando a experiência da sua viagem (de avião!) até a Galícia, ou Galiza, numa busca e reencontro dos caminhos da sua família até o Brasil. Foi lindo de se ouvir. Foi lindo ouvir o galego sendo falado ali, natural e espontâneo. Uma língua mais que viva, vívida e tão chegada a nossa. Despertou-me um sentimento de ancestralidade, caminhos cruzados, nascentes comuns de rios caudalosos.

A Galícia é uma região da Península Ibérica, fronteiriça com o norte de Portugal, sendo ainda uma Comunidade Autônoma Espanhola. Longe de mim agora tecer comentários sobre a história desse povo e suas circunstâncias políticas. Tal conversa pede-me muito estudo ainda, muito conhecimento a ser adquirido. Basta dizer que é um povo com sua cultura, riquíssima, sua língua própria, com a qual se sonha, escreve-se cartas, poemas, canções. E foi sobre esse mundo complexo, mirando futuros possíveis, que todos ali versaram.

Uma professora, que participava também do encontro, anunciou que falaria em galego, e que qualquer dúvida ou dificuldade de entendimento ela poderia clarear para nós, ouvintes. Ela começou então a falar e me veio o encanto mas também o inesperado sentimento de ignorância, como se encontrasse um irmão que eu sabia da existência num lugar qualquer da minha mente, mas que ali, diante de mim eu reconhecia profundamente e me perguntava: por onde você andou? Por onde eu andei que estava assim como quem não sabe de você?!

Foram algumas horas iluminadas naquele pequeno auditório da UERJ (Longa vida à Universidade Pública!), escutando vozes e sotaques e uma língua irmã. Num intervalo fui até uma varanda do prédio em que estávamos e pude ver o sol que já se encaminhava para o poente, brilhando sobre a Mangueira. Acho esse tipo de deslocamento sempre interessante. Quando em pleno Rio de Janeiro, juntinho da Mangueira, do Maracanã, abre-se um portal e alcançamos a Galícia, seus falantes nativos, esperanças poderosas e o escrever da história com gestos mínimos. Simples assim.

Quando passo por essas experiências, o que eu faço? Eu procuro livros. Então bastou eu chegar em casa para vasculhar o mundo em busca da poesia galega? E por que a poesia? Porque não há lugar melhor para se dar com um idioma. A poesia é onde uma língua canta e dança, onde ela se enfurna por corredores de luz e sombra. É onde ela nos surpreende e nos cativa. E em meio aos livros que descobri, em número maior do que eu esperava, achei por bem escolher um chamado Antologia de Poesia Galega, organizado por Yara Frateschi Vieira e publicado pela Editora da UNICAMP em 1996, integrando a Coleção Matéria de Poesia. Repleto de notas, observações e muita contextualização, histórica e artística, o livro é um panorama abrangente e emocionante da poesia produzida na Galícia. Uma riqueza, como diria a minha mãe.

Livros assim eu chamo de livro para sempre, pois é leitura para o resto da vida, um livro ao qual se retornar sempre, sem nunca esgotá-lo. Há livros que se prestam a uma leitura dinâmica, desses que parecem engolir a gente num turbilhão e quando menos esperamos estamos na última página. Um livro assim, como Antologia de Poesia Galega, é diferente. É como o livro de areia de Jorge Luis Borges, não tem princípio ou fim aparente; abre-se em qualquer página e navega-se. E sempre será como novo. As poesias nele constantes não são traduções, são originais, publicadas em galego. Isso nos traz a oportunidade de conhecer o galego, suas familiaridades, todos os X distribuídos nas palavras, nos versos, como se fossem marcações num mapa apontando tesouros.

Tomo aqui a liberdade de reproduzir o trecho inicial de um dos poemas do livro:

Trecho do poema VINGANZA DA CIDADE, DO TEMPO E DESTE DIA, de Pilar Pallarés (Pag. 360)

I

Ficou baleira a cidade dos meus ollos buscando-te,
a balbúrdia dos autos ocupou o lugar
da voz que te chamava.

A cidade existe por si mesma.
Xa non é o escenário
da paixón que me levava cara a ti
(seta de ouro ou chumbo, di-me,
nesta hora?)

Lonxe, moi lonxe, soa
unha canción insuportavelmente triste.
Unha luz de astro esgotado
desce sobre a tarde.

A cidade existe, indiferente.
O nosso amor morreu.
(Seta e ferro ardente, mira,
nos meus olhos.)


O livro é instigante e o trabalho de Yara Vieira Frateschi, seleção, organização, introdução e notas, é completo. O livro traz ainda bibliografias, referências, glossário, que ajuda muito a gente na leitura dos poemas, e ainda um caderno de ilustrações que amplia nossa noção da arte galega. É um livro sobre poesia mas também sobre uma língua, sobre um povo e seu lugar no mundo. Escreve ela na introdução:

No entanto, o que encontrarão os leitores brasileiros no seu contato com a poesia galega? O semelhante mas também o diferente, a experiência compartida e a intransferível, a paisagem ímpar, sempre vista através de uma cortina de névoa ou de água, o sentimento da terra e do homem, a melodia da língua em que nos reconhecemos, mas que nos põe também diante de um vocabulário espesso, saído de camadas prístinas do trbalho da terra e da nomeação do natural, a cultura em que escavamos parte do nosso passado arqueológico, a convivência de problemas e épocas comparáveis: a descolonização e a repressão, a emigração, as margens sociais. Além disso, a experiência de uma poesia pouco ou quase nada conhecida, e que de fato não defrauda.

(Antologia de Poesia Galega, pág. 18)

Escrevo aqui como leitor encantado, e convido você, também como leitor, a abrir essa porta e adentrar o território da Galícia pelos caminhos de sua poesia. É um livro que você não vai encontrar em qualquer livraria, mas uma busca simples vai te levar até ele sem maiores dificuldades. E a partir daí, do dia em que ele chegar na sua casa, vai ser uma boa surpresa atrás da outra, página por página de um reencontro com algo que, se não sabíamos, desconfiávamos.


Onda

Depois de passar a vida fotografando surfistas em ação, admirando-os em sua fluidez e harmonia, um dia, entre um caldo e outro, esperando o surfista que esperava a onda perfeita, subitamente reparou na beleza que era a respiração do mar, e como a onda era a expressão máxima disso – o empuxo de mais de ¾ da superfície da Terra… [Texto de Terêncio Porto]

Texto de Terêncio Porto


Depois de passar a vida fotografando surfistas em ação, admirando-os em sua fluidez e harmonia, um dia, entre um caldo e outro, esperando o surfista que esperava a onda perfeita, subitamente reparou na beleza que era a respiração do mar, e como a onda era a expressão máxima disso – o empuxo de mais de ¾ da superfície da Terra, possivelmente um volume maior ainda, proporcionalmente, não saberia dizer, mas num átimo pode imaginar -, a pele aquosa se repuxando num extremo infindável, aquele todo conectado com todo mundo ao mesmo tempo, uma centelha de alinhamento total, um ressurgir em forma de energia, em forma de onda, o flow perfeito e cabal, uma cadência natural, quase aleatória ou randômica, o caos, que muitas vezes simplesmente não acontecia, morrendo como prenúncio, o movimento perfeito das marés e correntes que se entrepermeavam e despistavam, tão intermináveis que eram. E de repente o surfista dropou, e ele pode ver como o rasgar da onda e todo aquele afã acrobático em vencê-la na velocidade era senão um inconveniente a tanta beleza, e a partir daquele momento começou, sempre e sem parar, a fotografar apenas as ondas, sozinhas em sua imensidão, congeladas.

Gustave Courbet (French, 1819-1877). A Onda (La Vague), ca. 1869. Óleo sobre tela, 25 3/4 x 34 15/16 in. (65.4 x 88.7 cm). Brooklyn Museum, Gift of Mrs. Horace Havemeyer, 41.1256

Texto escrito sob a influência de Uma aprendizagem ou O Livro dos prazeres, da Clarice Lispector, e do Canal Woohoo.


A ilha perdida e reencontrada

Adentrei o reino da literatura com Maria José Dupré segurando a minha mão. Não que tenha sido dela o primeiro livro que li ou algo assim. Certamente foi o que primeiro me deu certa sensação de maravilhamento que só vim a conhecer com os livros, e que até hoje me acompanha. Creio que muitos leitores como eu, os nascidos nos anos 1960, podem afirmar o mesmo, pois crescemos todos ao sabor dos livros da Coleção Vaga-lume, lançada pela editora Ática em 1973. [texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro


Adentrei o reino da literatura com Maria José Dupré segurando a minha mão. Não que tenha sido dela o primeiro livro que li ou algo assim. Certamente foi o que primeiro me deu certa sensação de maravilhamento que só vim a conhecer com os livros, e que até hoje me acompanha. Creio que muitos leitores como eu, os nascidos nos anos 1960, podem afirmar o mesmo, pois crescemos todos ao sabor dos livros da Coleção Vaga-lume, lançada pela editora Ática em 1973.

A Vaga-lume, com seu perfil infanto juvenil, merece um texto só pra ela. Poucas publicações no Brasil foram tão cativantes, tão encantadoras. É incrível que hoje a gente olhe para a seleção de títulos da coleção e sinta que nada envelheceu, que os livros vão ao encontro de algo que está presente em qualquer geração, ainda que escondido sobas camadas de toda tecnologia e aplicativos e telas brilhantes a circular por aí. O menino de asas, de Homero Homem, O gigante de botas, de Ofélia e Narbal Fontes ou O escaravelho do diabo, de Lúcia Machado de Almeida, livro que me assombrou, não pela palavra Diabo,mas por escaravelho, que me parecia algo muito mais terrível.

Em meio aos quase cem obras da coleção estavam os livros de Maria José Dupré, e entre eles um clássico chamado A ilha perdida.


Enquanto uns tinham Júlio (Assim se escrevia na época, agora é Jules) Verne, eu tinha A ilha perdida. Mais que um livro, um refúgio. Eu que era menino urbano, que quando viajava de férias era para outra cidade, sintonizava minha respiração com a ideia de estar numa fazenda, com os primos, a conversa jogada fora, as pequenas aventuras, a noite enorme se abatendo sobre a mata em redor.

A ilha perdida, publicado pela editora Brasiliense em 1944, conta a história dos meninos Eduardo e Henrique e sua aventura na fazenda dos tios, em Taubaté. Só isso, para mim, já era o portal de um mundo mágico. Eu morava no Recife e Taubaté me parecia distante demais, um lugar onde eu nunca iria porque o raio de alcance do meu mundo era curto, abrangia no máximo o Rio Grande do Norte. Então Taubaté em si era um mistério e saber que ficava no Brasil e que ali podia acontecer uma aventura… isso era incrível. A fazenda, afastada da cidade, naturalmente, era cortada pelo rio Paraíba.

Ao atravessar a fazenda ele fazia uma grande curva para a direita e desaparecia atrás da mata. Mas, subindo-se ao morro mais alto da fazenda, tornava-se a avistá-lo a uns dois quilômetros de distância e nesse lugar, bem no meio do rio, via-se uma ilha que na fazenda chamavam de «Ilha Perdida». Solitária e verdejante parecia mesmo perdida entre as águas volumosas.

Há muitas lendas sobre a misteriosa ilha,sobre que bichos poderia abrigar ou se seria habitada. Que pessoa ou entidade solitária poderia viver ali. Eduardo e Henrique sonhavam com a ilha, com os planos mirabolantes de chegar até ela e desvendar suas veredas. A história acaba por nos levar com os dois meninos até ilha e lá, por conta de uma súbita enchente, os dois ficam preso e nós, os leitores ansiosos, presos com eles. Mas não estou aqui para contar a história, para dar spoiler de como os meninos tiveram que se virar na ilha enquanto o rio caudaloso os impedia de retornar para casa, ou do que lá descobriram.

Lembro dos títulos de Júlio Verne…. Viagem ao centro da terra, A volta ao mundo em 80 dias, 20 mil léguas submarinas, Cinco semanas num balão. Tudo tão enorme, vasto, tudo expandindo os domínios do homem e suas máquinas e sua ciência. Maria José Dupré nos levava para fazenda, para junto dos animais, em aventuras que perto das que o mestre francês engendrava, e que ela certamente leu, pareciam pequenas, mínimas. Mas eram nossas. Um brilho no cume da montanha, a ilha vislumbrada na distância, depois da curva do rio…essas imagens se materializavam como se fosse nossa vizinhança, logo ali, depois da esquina da rua Pampulha com a rua Itamaracá,a Imbiribeira, onde eu cresci.

Como eu disse no começo desse texto Maria José Dupré me pegou pela mão e me ensinou o amor pela leitura, o encantamento. Tenho essa recordação que não sei se é fabricada ou apropriada das histórias que ouvi da minha mãe. Certa vez, no caminho de Recife para Natal, para onde viajávamos de ônibus com frequência, a chuva forte que caía fez com que um rio que havia no caminho extrapolasse as próprias margens, selvagem, invadindo as ruas da cidadezinha próxima e os canaviais que se estendiam ao longo da estrada. A ponte havia caído e tivemos que cruzar para o outro lado numa espécie de barco ou canoa, que balançava no rio veloz e barrento, enquanto uma corda esticada de uma margem a outra servia de guia e segurança para o barqueiro. Lá nos aguardava o ônibus para seguir com a viagem sob a chuva. Isso me parecia uma aventura digna dos livros de Maria José Dupré. Vivida, inventada ou emprestada, essa era uma história que me fazia vibrar. Acima de mim Júlio Verne voava com seus foguetes e balões, sob as águas escuras talvez o Náutilos se esgueirasse. Mas era Maria José Dupré que abria o caminho naquele rio e contava aquela história.

Hoje, adulto, ainda me alimento desse encanto. Nas minhas viagens de ônibus ou avião, sempre que vejo um rio, uma ilha, me lembro da ilha perdida e penso que estou retornando para ela.

Obrigado, Maria José Dupré.


É incrível que seus primeiros livros tenham sido assinados como Senhora Leandro Dupré. Isso mesmo, com o nome do marido! Era uma época de profunda dominação masculina em todas as áreas, inclusive as artísticas. Hoje não precisamos desse senhor. Maria José Dupré é lembrada mesmo pelo seu talento, pela sua capacidade incrível de contar histórias, de narrar. Por ter, com seus livros, aberto portas que não se fecharam mais.


O vento alinhavou as entrelinhas de Maria

João nunca saberia, pois Maria havia deixado aberta uma janela, justamente a da cozinha. A ventania, como um poeta em agonia, tratou de se livrar do bilhete. Acostumado a ler o jornal matinal, adestrado a dobrar e desalinhar com avidez a seção de esporte e o noticiário policial, ele nunca colocara os olhos sobre Maria. [Texto de Eduardo Frota]

Texto de Eduardo Frota


Maria deixou um bilhete em cima da mesa da cozinha.

A sala de jantar, vazia. O quarto do casal, bagunçado. O banheiro, repleto de roupa suja. O corredor, tortuoso e escurecido. O sinteco, gasto. A poeira, voadiça. A casa em silêncio, como quem medita e contempla a si mesmo em busca de entendimento para aplacar o prurido provocado pelas perguntas. De dentro pra fora, era como se um suspiro a inquerisse, noite e dia.

O que lá dizia?

Bilhetes eram melhores que as epístolas, julgava Maria. Para quem sempre economizou palavras, para quem sempre largou os livros logo nas primeiras páginas, para quem tinha aquele antigo e detestado caderno de caligrafia, o bilhete se transformou em uma saída para tornar suas reflexões concisas.

Logo acima do piso de ladrilhos com desenhos geométricos quase que esculpidos pelo tempo, a mesa posta para o desjejum de uma pessoa, apenas: um copo virado de cabeça para baixo, um guardanapo dobrado, dois talheres e uma garrafa térmica com café requentado porque não havia tempo. Não havia tempo a perder em meio à derrocada das horas. Uma cadeira permanecia de pé. A outra estava virada com os pés para cima, feito um inseto alvejado por pesticida lutando pela vida.

O que lá dizia?

Não era um bilhete suicida, porque não havia a palavra adeus mesmo que seu mundo fosse cruel e uma despedida antecipada, desafiando a lei natural dos viventes, fosse crível. O remédio controlado permanecia na escrivaninha do quarto com o número correto de drágeas que deveriam ser ingeridas até a necessidade de uma nova receita médica. Não era afeita ao álcool, nem ao fumo – talvez às seringas, apesar de nunca ter acreditado em heroínas.

Não era um bilhete de quem tivesse ido à padaria comprar queijo prato e presunto para o lanche, pois a geladeira estava abastecida o suficiente para refeições futuras. Bastava olhar as frutas para entender que um planejamento existia: fatias em porções harmônicas. As hortaliças jaziam higienizadas no fundo de uma gaveta. Potes, potinhos, diversos deles, pobres potes, organizados de uma maneira que não condizia com a Maria desalinhada do dia a dia – como dizia o síndico do prédio e a vizinha.

Não era um bilhete de amor o de Maria porque ela simplesmente não amava ninguém, nem mesmo sabia desenhar um coração gestáltico com as duas metades em harmonia. É que faltava coordenação motora fina na vida de Maria. Apaixonada era pelas novelas, pelas novenas, pelos mocinhos e pelas donzelas. Torcia por finais, ainda que não fossem tão felizes assim. E se via no espelho, se arrepiava por inteiro, notava estar tão distante. Deitada na cama, aceitando a derrota, sentia-se plena e segura. Amarrada aos fios em cujas pontas prendiam-se seus sonhos, rogava pelo efeito ligeiro do fármaco que a conduziria ao sono.

E se palavra alguma tivesse sido escrita?

Não era um bilhete de loteria, pois Maria, pobrezinha, não tinha por hábito apostar no futuro – o seu e o de quem ou o que a cercava. Lembra-se dos vícios? Jamais ela jogou ou julgou quem assim fez, mesmo imaginando que o passaporte para a felicidade passava pela obrigatoriedade em transpor os limites impostos pelas quatro paredes do que chamava de lar. Ganhar dinheiro de nada adiantaria: aumentaria a largura da alvenaria, mas trancafiada em território submisso permaneceria, ela, observando a pungente vida apenas por uma fresta da janela.

Não era um bilhete de trem o que havia deixado Maria. Por ali não havia trilho, não havia ferrovia. O silvo do maquinista vibrava ao longe e chegava fraco demais até ela, dissipando-se no horizonte. A fumaça esbranquiçada da fornalha se assimilava a nuvens vistas de muito longe. Logo, encontrava as ideias encurraladas, os ideais admoestados na terra batida. Não havia saída nem pra rua nem pra Maria. As esquinas do passeio público com linhas obtusas, mal esquadrinhadas, de calçamentos esburacados e devaneios empoçados. A água parada, criando mosquito, Maria prostrada, perdendo o juízo.

Mas então o que lá dizia?

João nunca saberia, pois Maria havia deixado aberta uma janela, justamente a da cozinha. A ventania, como um poeta em agonia, tratou de se livrar do bilhete. Acostumado a ler o jornal matinal, adestrado a dobrar e desalinhar com avidez a seção de esporte e o noticiário policial, ele nunca colocara os olhos sobre Maria. Sobre o bilhete, a oportunidade faltaria. A primeira observação de João foi perceber a ausência de margarina. Amargo, desejava três ou quatro tragos de cafeína. Assim começava mais um dia.

O que ela sempre dizia:

“Um dia, João. Um dia…”

“O que é, Maria?” –

era o que ele dizia.

Antes de fechar a porta da casa e ganhar o caminho da labuta, ele notou o furo na calça que acabara de vestir. Em dois atos, os neurônios crepitavam produzindo fagulhas: pensou em agulha, pensou em linha. Quem alinhavaria a avaria? Enquanto isso, o bilhete ainda voava para longe, despercebido. As palavras agarradas a ele e cerzidas indelevelmente por entre linhas invisíveis. A casa finalmente vazia. Pior do que não saber o que lá o bilhete dizia, João era incapaz de ler nas entrelinhas de Maria.

Foto de Eduardo Frota