E a coisa é braba, mesmo, e leva um tempo pra que a gente consiga se livrar dela. Geralmente esse tempo é equivalente ao lapso temporal entre o “ponto final” do livro e o momento em que você tem pela primeira vez acesso ao livro físico, após o processo editorial. [Texto de Eduardo Maciel]
Olá, querides kurumateires! (Cansei de fazer com x e adotei o novo modelo).
Espero que estejam todos bem e com saúde! Vim falar sobre ressaca. Mas não sobre ressaca de bebida (talvez isso mereça um outro texto, ainda mais em tempos de pandemia). Pois bem: segundo a definição de www.livrosefuxicos.com, Ressaca Literária é um termo que se popularizou entre os leitores do mundo todo para a definição de um”hiatus literário”, ou seja, um período no qual enfrentamos os males causados pela ausência de leitura. Para quem não lê com frequência o termo pode não fazer muito sentido, entretanto, para leitores assíduos (…), a lógica que envolve tal expressão é clara, pois está diretamente ligada com uma das definições existentes para a palavra ressaca: “Indisposição sentida por quem para subitamente de consumir uma droga da qual é dependente.”
Mas não é desse tipo de ressaca literária que quero falar. Tem um outro tipo, que sente todo aquele escritor ao terminar de escrever o seu novo livro.
E a coisa é braba, mesmo, e leva um tempo pra que a gente consiga se livrar dela. Geralmente esse tempo é equivalente ao lapso temporal entre o “ponto final” do livro e o momento em que você tem pela primeira vez acesso ao livro físico, após o processo editorial. Deus me livre! Não posso me dar ao luxo de aguardar tanto, até porque estou fervilhando um monte de projetos ao mesmo tempo, e que disso Deus nunca me livre.
Há uma semana terminei o quarto livro da minha série literária de sonetos, o SonetERROR, que é, segundo as minhas pesquisas, o primeiro livro de sonetos dedicado ao gênero de que se já houve notícia. Responsabilidade imensa!
Mas essa é uma consciência do agora, porque quando planejei o livro nem pensei nisso, mas sim no desafio de abordar temas macabros e sombrios usando-me das rígidas regras de métrica e rima peculiares aos sonetos.
E que desafio! Meu parceiro na obra, o generoso Raphael Pinheiro, já o confirmava, quando aludiu à obra como se fora uma flor nascida da fresta entre duas rochas, imagem que inclusive estará no livro. Relendo o material pronto, consigo identificá-lo totalmente com a imagem, porque os versos tendem a ser morada de romantismo, amor e fé, e por isso poemas sempre serão flores. Mas que nesse caso, trazem toda a dureza e penúria de precisar se esforçar muito para sobreviver num ambiente tão inóspito. Assim são as flores desse livro. Assim são os sonetos, desesperados.
E a tal figura de linguagem que o Rapha usou também serviu de inspiração para que ele criasse a marionete, chamada Pierre, que é um ser trevoso provavelmente vindo da Era Vitoriana Inglesa (o Rapha é dark e erradicado em Londres há anos) e que passeia por todo o livro, indicando a sua temática enquanto tenta, de várias maneiras, também brotar de rochas. Um grande presente do Rapha para mim e para o meu livro. E, assim como ele insistiu, de forma não onerosa. Porque sim, acima do terror está uma amizade de 20 anos, ao fim dos quais se materializa o primeiro encontro entre a arte dele e a minha.
Agora voltando a essa sensação de ressaca… Explico: para que eu pudesse levar a cabo tal tarefa, além da criatividade artística, eu iria precisar também passar meu tempo criativo lacrado em uma caixa de referências horrendas, das piores possíveis, para entrar de cabeça nesse universo de dor e sofrimento.
Para isso usei de vários artifícios: comecei a praticamente só ler livros de terror (em prosa, não em verso), assistir a filmes e séries no gênero e conversar (bastante) com o meu amigo de Londres.
Os temas colhi dos meus kiddos (meus enteados), mudando cousa ali e aqui.
Aí é que começou a minha catarse: a cada soneto pronto, mais eu me achava capaz de produzir, com qualidade, meus poemas de terror. E assim foi, até o tal “ponto final”.
Me percebi exausto, machucado de certa forma no âmago do meu funil criativo, sem força alguma, mas feliz.
Feliz pelo resultado e por agora poder fazer como esse gatinho lindo da foto: abrir minha caixa de referências e dar uma espiadinha lá fora.
Espero que não se importem por eu ter trazido vocês para esse momento meu tão íntimo. Afinal, somos de casa, certo?
O Luiz Gonzaga que eu vi
Cruzei caminhos com Luiz Gonzaga duas vezes. Certa vez, quando criança, passeava no Aeroporto dos Guararapes com minha mãe, passeio de domingo, lanche no Café Palheta e aviões subindo e descendo, carregados de gentes e histórias. [Texto de Toinho Castro]
Cruzei caminhos com Luiz Gonzaga duas vezes. Certa vez, quando criança, passeava no Aeroporto dos Guararapes com minha mãe, passeio de domingo, lanche no Café Palheta e aviões subindo e descendo, carregados de gentes e histórias. Gostava de paquerar os carrinhos da Matchbox numa vitrine, e não poucas vezes saí de lá com uma daquelas pequenas joias, na época, feitas de metal, pesados na mão. Lembro que caminhávamos pelo longo saguão do aeroporto, talvez carregando um Matchbox, e quando passamos pela escadaria que levava ao segundo piso, que abrigava, creio, um restaurante, e depois, num futuro próximo dali, máquinas de fliperama, vimos um homem sentado nos degraus numa conversa animada. Um homem que, de alguma maneira me lembrou meu pai. Era Luiz Gonzaga, cercado de alguns amigos a contar causos.
Espantei-me. Lá estava uma celebridade. Não usávamos esse termo. Mas era como se eu estivesse vendo Frank Sinatra, ou Elvis Presley. Era Luiz Gonzaga, vestido a paisana, sem gibão ou chapéu de couro. Uma camisa de botões, manga curta, quadriculada, de cores apagadas, uma calça de tergal. Não paramos para cumprimentá-lo. Minha mãe apenas comentou que era ele e seguimos caminhos. Não escuto uma única vez a voz de Gonzagão sem lembrar dessa imagem.
A segunda vez foi quando o cortejo carregando seu corpo, sobre um caminhão do Corpo de Bombeiros, assim recordo, passou na Imbiribeira. Não lembro se indo ou vindo do mesmo aeroporto o o vi anos atrás. Fomos ver sua passagem para outros sertões.
Luiz Gonzaga nasceu num 13 de dezembro de 1912, em Exu, sertão pernambucano. Nasci 54 anos depois, em Natal, no litoral do Rio Grande do Norte. Hoje, morando no Rio de Janeiro, tanto anos depois, minha vida ainda se liga à dele e suas cantigas, à memória desses dois encontros que narrei, às noites de São João e aos balões subindo no céu.
Que bom que é pesado
Gente, o negócio é o seguinte… Rock’n’roll! Disco novo, o segundo, da banda carioca Working Men. Eu falei banda carioca, parece até que isso é relevante. Sei lá, talvez seja, pensar no Rio de Janeiro como ponto de emissão do som dessa turma. [Texto de Toinho Castro]
Gente, o negócio é o seguinte… Rock’n’roll! Disco novo, o segundo, da banda carioca Working Men. Eu falei banda carioca, parece até que isso é relevante. Sei lá, talvez seja, pensar no Rio de Janeiro como ponto de emissão do som dessa turma. Um som que transcende sotaques sonoros, porque ele vem conectado na veia ancestral de um rock bruto, pra valer, sem medo de guitarras e baterias. Um rock que central na história de vida da dupla que conduz destemidamente o Working Men, Hugo Rosas, nas guitarras, e Raul Fontenelle, na bateria!
Pode ir nas plataformas pra se aventurar nas dez faixas, caprichadas, numa produção levada a cabo em tempos de pandemia! Um disco gravado sem que eles tenham se encontrado. Um super exercício que só mostra a sintonia dos dois amigos, parceiros musicais, instrumentistas e produtores. Como a gente sempre diz, um ano de grandes perdas, um ano triste pra cacete, que nos sacudiu num labirinto difícil de atravessar. Mas coisas estão acontecendo, e o lançamento desse disco é prova que que tem gente na luta pra fazer esse ano valer alguma coisa no cômputo geral. E vale, viu?! Working Men, disco, é um trabalho afiado, e pesado pra botar pra quebrar nesse ano de merda!
E que bom que é pesado. A turma fala muito da leveza, que a gente precisa de leveza em 2020. Concordo. Mas é preciso peso também, consistência acelerada, rock’n’roll pra jogar na cara do mesmo 2020. Tô aqui escrevendo e escutando o sonzão, e a gente sai de uma música pra outra com fluidez, naturalidade, porque é um disco que foi com pensamento no fazer. Dois caras que sabem o que querem e que tem noção clara da prática musical. Gostam dos seus instrumentos e se dedicam a esse conhecimento, que é pensar um som e sair à cata de como cozinhá-lo! Uma turma que pensa nos instrumentos, nos dispositivos, na mixagem. Gente que acompanha o som desde o nascedouro, lá no juízo, e ao longo de todo o processo. Uma coisa de atenção e cuidado que você sente nas faixas. Se os caras estão insatisfeitos ali com a alguma coisa, a gente nem desconfia. Porque esse peso todo do Working Men tá carregado de leveza. A leveza do amor pelo que se faz!
Ontem, eu e o parceiro Oni, guitarrista do Faces do Subúrbio, batemos um papo bom com o Hugo e o Raul, no AoVivo Kuruma’tá. Aqui está a gravação pra vocês saberem mais sobre o trabalho dop Working Men e a produção desse disco novo. Vamos nessa!
E agora, com vocês, o discão, homônimo, do Working Men, no Spotify:
Inês de Sousa foi minha professora de cinema, quando estudei comunicação, no Centro de Artes e Comunicação , CAC, da UFPE, no Recife. Inês é portuguesa e há muito retornou à sua terra. Fui um aluno relapso, que se redimiu com um bom trabalho de final de disciplina, no apagar das luzes. Porque, no fim das contas, eu amava cinema. [Poema de Toinho Castro]
Um poema de Toinho Castro
Inês de Sousa foi minha professora de cinema, quando estudei comunicação, no Centro de Artes e Comunicação , CAC, da UFPE, no Recife. Inês é portuguesa e há muito retornou à sua terra. Fui um aluno relapso, que se redimiu com um bom trabalho de final de disciplina, no apagar das luzes. Porque, no fim das contas, eu amava cinema e minha amiga Tandra me chamou a atenção, me puxou pra sala e Inês, olhou-me severa e disse: Você tem até amanhã pra entregar seu trabalho. Entreguei! Tirei quase 9,5, de dez, e aliviei meus pesares de aluno universitário emulando certo desdém pelo curso, como se fosse estilo.
Pude, recentemente, enviar uma mensagem para a professora Inês comentando aqueles dias, e desculpei-me por ter sido o aluno que fui. Devia isso a ela, que também amava o cinema e estava ali para dizer que ainda precisávamos aprender. Que ainda precisamos aprender. Trago Inês comigo, com meu aprendizado.
Professora Inês de Sousa – A partir de foto de Viviane Fontoura
Inês mora Perto do Porto Minha professora Tardes com ela em Plongée O sotaque De outra terra Do outro lado Do mar Contra Plongée Do Atlântico Enquadramento Da memória Uma lembrança Em 35mm Leves milímetros Livres do tempo Do espaço Do arco Das navegações
Plongée De uma sala de aula Na Várzea, Vazia na lousa a grafia de Inês em giz Hoje Inês mora perto do Porto Mas inscrita em giz em mim Sempre Sempre, posso dizer Sempre no cinema Lembro de Inês O acerto do olhar sempre um sabor de aula Numa lembrança de que precisamos continuamente reaprender o que sabemos
Aristocracia Carioca | Severino Dadá: O cangaceiro da moviola na terra de São Sebastião
Como boa parte dos que vivem no Rio, Severino Dadá é um carioca nascido na rodoviária. Foi no começo de 1969 que Dadá aportou por estas bandas, na condição de “elemento de alta periculosidade”.
[Texto de Rodrigo de Oliveira e fotos de Michael Ende — Cedido pela Revista Zé Pereira]
Texto de Rodrigo de Oliveira e fotos de Michael Ende
Texto publicado originalmente no número 3 da Revista Zé Pereira, em outubro de 2007, na seção Aristocracia Carioca
Como boa parte dos que vivem no Rio, Severino Dadá é um carioca nascido na rodoviária. Foi no começo de 1969 que Dadá aportou por estas bandas, na condição de “elemento de alta periculosidade”. Vinha fugido da perseguição política em sua terra natal, Arcoverde, no interior de Pernambuco, onde era radialista e militava nos movimentos de resistência à ditadura. Este segundo parto, depois da longa viagem de ônibus, não marcou apenas o início da relação com a cidade pela qual Dadá se apaixonou imediatamente. O desembarque na rodoviária define também o começo da carreira de um dos mais importantes montadores do cinema brasileiro.
Severino Dadá
Dos primeiros tempos na cidade, vivendo de favor na casa de conterrâneos e empregado num terminal de petróleo da Ilha do Governador, Dadá se lembra com uma alegria pouco comum nos relatos daqueles que chegam sozinhos e sem dinheiro numa cidade estranha.
— Meus amigos me disseram: “Venha pra cá, aqui você não vai passar fome, não…”. Pô, eles comandavam uma churrascaria lá na Ilha, eu ia passar fome de que jeito? – brinca. A chance de subir na empresa petrolífera, no entanto, foi logo sustada. Sua jornada carioca tinha outro objetivo. — Eu descobri que o pessoal de cinema fazia ponto no Beco da Fome, na Cinelândia, ali na Rua Álvaro Alvim e suas transversais. Trabalhava muito na quinta pra ser liberado na sexta, às duas da tarde. Aí, com grana e solteiro, eu me mandava pro Beco, pra ver as pessoas. “Porra, ali é o Wilson Grey!”.
Numa das bebedeiras de sexta, Dadá esbarrou com o cineasta Fernando Coni Campos, que se preparava para rodar um documentário sobre o Campo de Santana, com filmagem já no dia seguinte. Dadá não pensou duas vezes antes de aceitar o convite para participar da tal filmagem. Saíram da cervejada direto para o set. — Voltei pra Ilha na segunda, numa ressaca fodida, pra pedir demissão. “Me cortaram da rádio, mas agora meu nome vai aparecer é na tela do cinema de Arcoverde!”. Era uma coisa infantil, mas era um amor.
A memória cinematográfica de Dadá chega até sua primeira infância. No pequeno povoado de Pedra, onde vivia com a família, o menino se encantou com a invenção trazida por um grupo de ciganos. Instalados no armazém de um tio seu, o espetáculo noturno incluía um grande lençol branco estendido no fundo do salão, um projetorzinho barulhento e as cadeiras que cadaespectador trazia de casa. O cardápio? Buster Keaton, Charles Chaplin, O Gordo e o Magro, além de uma das inúmeras versões de Tarzan. Mais tarde, com a mudança para Arcoverde, veio o deslumbre do 35mm e dos 1.100 lugares do Cinema Bandeirante, “o gigante da Praça da Bandeira”. A cinefilia explode na juventude, quando passa a trabalhar no serviço de alto-falante do cinema concorrente, o Rio Branco. Dadá era o locutor dessas transmissões, e quem trabalhasse num cinema podia entrar de graça no outro. Esse foi seu equivalente a um curso universitário:
— Passei uns quatro anos vendo um filme por dia, às vezes até mais que isso, sem pagar nada. Nas mesas de bar da cidade, Dadá era tido como o cinéfilo-mor. E o status de “especialista” se amplia quando cai em suas mãos uma edição de “O Cinema: sua arte, sua técnica, sua economia”, livro clássico do historiador francês George Sadoul. — Aí vem a minha grande transação de descobrir o cinema mesmo, o enquadramento, a geometria, a decupagem, a linguagem. Ainda em Pernambuco, fez parte da equipe que rodou a primeira versão cinematográfica de “O auto da Compadecida” (“A Compadecida”, 1969). Foi esse conhecimento que lhe garantiu os primeiros empregos no começo da carreira. Numa temporada de dois anos em São Paulo, foi assistente de direção de Ozualdo Candeias e de José Mojica Marins. Impressionado com sua habilidade para decupar os roteiros (transformar uma frase escrita numa imagem roduzível), Victor di Mello o convoca para participar da continuação das filmagens de seu “Quando as mulheres paqueram”, agora no Rio. E assim, de 1971 em diante, Dadá se estabelece definitivamente em terras cariocas.
O salto decisivo para a carreira que o consagrou vem com o convite para trabalhar com o lendário Nelo Melli, argentino radicado no Brasil, responsável pela montagem de obras-primas como “Porto das Caixas” e “Vidas secas”. As lições do velho Sadoul e o cinema consumido avidamente nas telas pernambucanas reverberavam até este momento, e chegam aos ouvidos de Melli: — “Tengo la información de que usted domina a linguagem, e tiene una intuición cinematográfica muy forte”. Porra, além de dominar a linguagem, eu também sou intuitivo, é? — diverte-se Dadá, imitando o sotaque de seu primeiro mestre.
“Porra, além de dominar a linguagem, eu também sou intuitivo, é?”
É Melli também que o apresenta a Nelson Pereira dos Santos, com quem formaria uma parceria definidora de sua vida. De 1974, de “O Amuleto de Ogum”, primeiro longa-metragem que montou, para cá, foram mais de 300 filmes realizados, entre as funções de montador e editor de som, num espectro de realizadores que vai de Neville D’Almeida a Paulo Thiago, do cearense Rosemberg Cariry ao boliviano Jorge Sanjinés, do cinema marginal à pornochanchada. E todos estes trabalhos podem ser resumidos numa experiência inusitada à frente das câmeras. Foi em “Tenda dos milagres”, adaptação de Nelson Pereira para o romance de Jorge Amado. O diretor chega um dia para Dadá e diz que tem um personagem para ele interpretar: “É você mesmo, ora!”. Criando a estrutura do filme-dentro-do-filme, Nelson fizera com que o jornalista do romance decidisse filmar a história do sociólogo baiano Pedro Archanjo. Hugo Carvana faz o jornalista e, em diversas inserções ao longo de “Tenda”, o vemos discutir com Dadá, diante de uma moviola (a pesada máquina onde se editavam os filmes antigamente), que rumos dar ao trabalho que estão montando.
Nelson criou ali a imagem-símbolo do montador brasileiro. Não à toa, o Archanjo da ficção é chamado de Ojuobá, que significa “os olhos de Xangô”. Dadá, nordestinamente paciente, ouve as confusões do jornalista/cineasta, recebe aquele monte de imagens filmadas sem muito sentido, e faz o trabalho de organização desse olhar. É o condutor destes olhos de Xangô. E também dos olhos de Nelson Pereira e de tantos outros com quem trabalhou. Nascido Severino de Oliveira Souza, Dadá assinava no início de carreira Severino de Oliveira. O nome artístico definitivo também lhe foi dado por Nelson:
— Dadá é um apelido de infância. Quem me deu foi minha avó. Um belo dia ao assistir “O Amuleto de Ogum” eu vejo Severino Dadá nos créditos. Fui perguntar o motivo para o Nelson, e ele me disse: “Pô, mas todo mundo te chama assim!”.
Já o apelido de “cangaceiro da moviola” parece bastante justo ao vermos a imagem de Dadá diante dos batoques e manivelas. Sua dimensão sertaneja é inegável. Costuma dizer que foi apadrinhado pelo piauiense José Medeiros, grande fotógrafo com fama de antipático, por conta de uma certa “máfia nordestina” que opera entre os que de lá vieram. Talvez seja por essa mesma relação que, circulando pela Glória, onde vive hoje, Dadá reconheça cada um dos nordestinos que passam por ele. O atendente do bar não precisa falar mais de uma frase para que Dadá reconheça imediatamente seu estado de origem, e talvez até a cidade. E a figura expansiva, em todo seu encolhimento e pouca altura, segue risonha pelas ruas do bairro que biografou em “Memórias da Glória”, média-metragem de 2005. Dadá, casado há 32 anos com dona Socorro, fala do Rio de Janeiro com uma propriedade invejável. Conhece, com precisão de “Guia Rex”, suas ruas e bares — sobretudo os bares.
— Não existe cinema sem um botequim.
No histórico Botequim da Líder, na esquina da Álvaro Ramos com a Rua da Passagem, em Botafogo, que ficava em frente ao maior laboratório de cinema da cidade, era obrigatório o trajeto entre a sala onde se projetavam os copiões dos filmes e a mesa em que seriam avidamente discutidos — e bebidos. Quando a Líder se muda para Vila Isabel, onde Dadá vivia desde 1974, a coisa fica ainda mais intensa.
Na Vila, Dadá passou quase 20 anos, e esteve próximo do melhor do samba carioca. Conta que o amigo Rogério Sganzerla tinha duas grandes obsessões: Orson Welles e Noel Rosa. Da primeira, Dadá deu conta ao montar “Nem tudo é verdade” e “A linguagem de Orson Welles”, filmes do diretor que comentam a passagem do cineasta americano pelo Brasil, nos anos 40. Da segunda, bastou apresentar a Vila Isabel ao amigo. A formação musical dos dois os aproximou ainda mais. Dadá e Sganzerla dividiam um passado no rádio, escolados na música popular brasileira. Noel era figura obrigatória nas conversas, e se o grande musical imaginado por Sganzerla, que narraria a história deste e de outros baluartes do samba, nunca se realizou, temos pelo menos o belo “Isto é Noel Rosa”, média-metragem de 1990.
“O Waly com aquela boca enorme, gesticulando, recitando e interpretando os sambas todos. O Martinho da Vila teve uma crise de riso, e riu tanto que se mijou todo.”
Este, Dadá não montou, mas certamente as “visitas guiadas” à Vila influenciaram bastante sua realização. Essas visitas renderam, no mínimo, ótimas histórias:
— O Rogério levava umas pessoas diferentes lá pra Vila. Uma vez apareceu lá no Boteco do Souza com o Waly Salomão, completamente louco. O Waly com aquela boca enorme, gesticulando, recitando e interpretando os sambas todos. O Martinho da Vila teve uma crise de riso, e riu tanto que se mijou todo.
Ouvir Dadá contando estes casos de sua vida deixa a impressão de que ele sempre esteve nos lugares certos na hora exata em que alguma coisa entrava para a História. Mas, a onda da “retomada”, este bonde Dadá não pegou. É uma politicagem que não lhe interessa, que vai contra os seus princípios.
— Eu não vou fazer nunca um filme comportado — sentencia.
Os tempos mudaram, de fato, e Dadá soubese adaptar a eles sem perder a ternura, jamais. De um lado, não consegue entender como a tecnologia transformou em montadores aquilo que chama de “apertadores de botão de computador que pensam que ritmo cinematográfico é baticum de axé-music no liquidificador da linguagem televisiva”. Do outro, juntou-se a uma turma jovem que sabe apertar o botão sem esquecer de pensar naquilo que faz. Com a ajuda de seu filho André Sampaio, premiado curta-metragista e um dos diretores de “Conceição – Autor bom é autor morto”, vira-se bem na condição de cangaceiro da moviola que precisa se transformar, de uma hora para outra, em cangaceiro do mouse.
— A dinâmica de trabalho com meu pai é bastante natural, e a minha presença ali do lado dele garante essa passagem do analógico para o digital — diz André. — Mas não existe essa coisa de “papai” e “filhinho” quando estamos na ilha de edição, não. Ele me esculhamba, vive dizendo “joga essa merda fora, isso aí não diz nada!”, e aí corta fora uma seqüência.
O trabalho com Dadá parece ser mesmo assim, movido a paixões e arrebatamentos. O jornalista Luís Alberto Rocha Melo foi seu parceiro na realização dos dois únicos filmes que o montador dirigiu até aqui, além de “Memórias da Glória”, também o documentário “Geraldo José — O som bem barreira”, sobre o mais requisitado sonoplasta do audiovisual brasileiro.
— Ele, filmando, ficava numa alegria danada. — recorda Luís Alberto, que prepara neste momento uma cinebiografia de Severino Dadá. — Às vezes ele se emocionava mais com uma história do que o próprio depoente que a contava. Isso sem falar que nos trechos ficcionais do “Geraldo José”, onde Dadá prova que tem um talento extraordinário pra dirigir comédia.
Um talento que esperamos ver materializado em breve. O projeto de cabeceira de Dadá, sua primeira incursão pela ficção, é uma comédia musical chamada “Oxente, my love”. O roteiro, escrito em parceria com André e Luís Alberto, conta a história de um pequeno cortiço localizado na sua querida Glória, que em determinado dia é tomado por dois pivetes fugindo da polícia.
— Ali dentro vivem um ex-policial que tortura um boneco só para não perder a prática, uma vedete aposentada, a Dona Rosinha Fuqui-Fuqui, um negão intelectual militante do antigo Partidão, os filhos do policial, um viado e uma travesti que faz ponto na Augusto Severo. É o escracho total.
Um dia extraordinariamente comum. Seja bem-vindo senhor – (presidente)
Aqui em Coimbra já se faz sentir o prenúncio do inverno – levei agasalhos para o corpo e um livro para agasalhar o espírito. O primeiro foi útil, já o segundo desnecessário – estar em um lugar como o Convento Santa Clara traz calor a qualquer espírito. [Texto de Lu Lessa Ventarola]
Texto de Lu Lessa Ventarola
Exposição Campo Contracampo – José Pedro Croft No Convento Santa Clara-a-Nova
Sexta-feira tranquila, 20 de novembro. Meu amigo Jorge Cabrera precisava apresentar um trabalho no Colégio das Artes e pediu-me para ficar para ele na exposição do José Pedro Croft, no Convento Santa Clara-a-Nova. Disse que sim.
Aqui em Coimbra já se faz sentir o prenúncio do inverno – levei agasalhos para o corpo e um livro para agasalhar o espírito. O primeiro foi útil, já o segundo desnecessário – estar em um lugar como o Convento Santa Clara traz calor a qualquer espírito. Durante a tarde algumas poucas pessoas subiram a ladeira e enfrentaram a estranheza do tempo pandêmico para darem aos seus olhos e pensamentos oportunidade de se exercitarem – e os habituais cumprimentos de recepção e despedida cuidaram para que o silêncio não reinasse absoluto. E quando não havia ninguém, do grande corredor, a linda e suave obra do Daniel Senise, feita para a terceira edição da Bienal Anozero, era como um sussurro a dizer que a arte costura os tempos.
Já era quase fim do dia quando entra um homem com passo confiante e voz simpática. Passa álcool gel nas mãos e fica por alguns minutos a ler o texto de curadoria que está na entrada, antes de visitar a obra – que se abriga no enorme salão do antigo refeitório do Convento. Na volta comenta suas impressões e despede-se com a mesma educação com que chegou. Antes de sair cuida de pegar um folheto da exposição para levar consigo.
Eu aperto o botão do marcador para registrar a presença deste homem, assim como fiz com os outros visitantes. Este homem que, como todos os outros, chegou – sem alarde, sem público, sem púlpito, sem fotos, sem assessores de imprensa, sem se fazer anunciar-, para dizer seu SIM à Cultura (e não é o mesmo que dizer que confia no futuro?).
Este homem era o senhor Presidente da República Portuguesa.
Posso desejar o mesmo para o Brasil? Posso e desejo –
Coimbra, 29 de novembro de 2020. Lu Lessa Ventarola.
A quem possa interessar
Acontece que ela é baiana, de Feira de Santana! Conheci Caru no queridíssimo Festival Levada. De lá pra cá, em meio à pandemia, trocamos ideias, fizemos live e essa amizade assim se deu, com ela virando parceira aqui da Kuruma’tá, escrevendo lindamente pra gente.
Acontece que ela é baiana, de Feira de Santana! Conheci CARU no queridíssimo Festival Levada. De lá pra cá, em meio à pandemia, trocamos ideias, fizemos live e essa amizade assim se deu, com ela virando parceira aqui da Kuruma’tá, escrevendo lindamente pra gente. E a gente sempre ligado no seu talento, na sua música e sua gentileza de pessoa. Que coisa boa ter Caru por aqui. Brincamos que essa festa dela aqui é a Caruma’tá! Pois não! E hoje ela me chega com um poema, o poema A quem possa interessar. E pergunta: pode poema?! Pode sim, Caru. Tudo tem sido poesia. — Toinho Castro, editor da Kuruma’tá!
Poema de CARU
Eu sou baiana De Feira de Santana Mas aqui, sou só, Sou só uma nordestina
E quando digo só Não é que eu ache pouco É que sempre é posto no mesmo saco Numa prateleira bem lá de cima
De redução à uma ficção De Bacurau à Tieta do Agreste Mesmo sendo quase do sertão É da novela, o sotaque que me veste
Ao seu olho: Sempre sofro Ou sempre rio É terra só de mar E nunca muito frio
Mas te digo: Nem é só fazenda Nem tem beira de rio É uma cidade cheia de problema Como qualquer outro esquema Que você ja viu
Na família, sim Já teve quem morreu de fome Mas se isso lá aconteceu Foi pra hoje eu dar meu nome
Do livro Fearsome Creatures of the Lumberwoods: With a Few Desert and Mountain Beasts, de William T. Cox, editado em 1910 — Ilustração de Coert Du Bois. Tradução livre de Toinho Castro. O livro de William T. Cox, reúne lendas e relatos de estranhas feras que habitavam as regiões madeireiras do norte dos Estados Unidos e Canadá.
Do livro Fearsome Creatures of the Lumberwoods: With a Few Desert and Mountain Beasts, de William T. Cox, editado em 1910 — Ilustração de Coert Du Bois.
O livro de William T. Cox, reúne lendas e relatos de estranhas feras que habitavam as regiões madeireiras do norte dos Estados Unidos e Canadá.
Sendo esta uma tradução livre, sugestões de ajustes e mesmo correções são bem-vindas. A ideia é traduzir todo o livro. Se for um trabalho coletivo, tanto melhor.
TRADUÇÃO LIVRE DE TOINHO CASTRO
O hugag é um animal enorme, da região dos Grandes Lagos. Sua área inclui o oeste de Wiscosin, norte de Minnesota e um território que se extende indefinidamente ao norte selvagem do Canadá, até a Baía de Hudson. Em tamanho, o hugag pode ser comparado ao alce, ao qual muito se assemelha na forma. Notáveis, entretanto, são suas pernas sem juntas, que obrigam o animal a permanecer de pé, e seu longo lábio superior, que o impede de pastar. Se tentar usar esse método para alimentá-lo, ele simplesmente chafurdará seu lábio superior na terra. Sua cabeça e pescoço são encourados e sem pelos. Suas orelhas são enrugadas e viradas para baixo. Suas patas de quatro dedos, cauda longa e peluda, pelagem desgrenhada e aspecto geral, dão à fera uma aparência inequivocamente pré-histórica. O hugag tem uma verdadeira obsessão por deslocar-se, e poucos caçadores que tenham seguido suas trilhas apareceram com a fera ou retornaram para o acampamento. Diz-se que caminha todo o dia, em busca de galhos, enrolando seu lábio nas árvores e, ocasionalmente, arrancando suas cascas. À noite, uma vez que não pode deitar, inclina-se contra uma árvore, apoiando-se em suas patas traseira e marcando o tempo com as dianteiras. Os caçadores de hugag mais bem sucedidos, adotam a prática de entalhar as árvores, e quando o hugag se encosta numa delas, ambos, a árvore e o animal, vêm abaixo. Nessa condição de desamparo é facilmente abatido. O último a ser morto, até onde se sabe, foi no rio Tartaruga, norte de Minnesota. Lá, um jovem exemplar, pesando 860 quilos, foi encontrado preso na lama. Foi nocauteado na cabeça por Mike Fylnn, de Cass Lake.
Texto original
THE HUGAG.
(Rythmopes inarticulatus.)
The hugag is a huge animal of the Lake States. Its range includes western Wisconsin, northern Minnesota, and a territory extending indefinitely northward in the Canadian wilds toward Hudson Bay. In size the hugag may be compared to the moose, and in form it somewhat resembles that animal. Very noticeable, however, are its jointless legs, which compel the animal to remain on its feet, and its long upper lip, which prevents it from grazing. If it tried that method of feeding it would simply tramp its upper lip into the dirt. Its head and neck are leathery and hairless ; its strangely corrugated ears flop downward; its four-toed feet, long bushy tail, shaggy coat and general make-up give the beast an unmistakably prehistoric appearance. The hugag has a perfect mania for traveling, and few hunters who have taken up its trail ever came up with the beast or back to camp. It is reported to keep going all day long, browsing on twigs, flopping its lip around trees, and stripping bark as occasion offers, and at night, since it cannot lie down, it leans against a tree, bracing its hind legs and marking time with its front ones. The most successful hugag hunters have adopted the practice of notching trees so that they are almost ready to fall, and when the hugag leans up against one both the tree and the animal come down. In its helpless condition it is then easily dispatched. The last one killed, so far as known, was on Turtle River, in northern Minnesota, where a young one, weighing 1,800 pounds, was found stuck in the mud. It was knocked in the head by Mike Flynn, of Cass Lake.
Não me solta se eu voltar pra casa com as mãos sujas de pólvora
Eu me perdi aos quatro anos de idade em meio à multidão na areia, naquela manhã escaldante de sábado, segurando um picolé de chocolate na mão direita. Enquanto ele derretia e percorria dedos, palma e pulso, doce e gelado, algumas lágrimas, salgadas e mornas, desciam as bochechas feito alpinistas desistindo da montanha. [Texto de Eduardo Frota]
Resolvi ser homem-bala quando a tinta da minha caneta secou e percebi que não havia mais como escrever poemas. Eu não soube apontar os meus lápis. Nunca aprendi a usar lapiseira. Eu não consegui destravar as teclas da máquina de escrever. Nem consegui riscar nada além do meu próprio nome na areia da praia – e confesso, ele sempre foi deletado com uma certa elegância pela correnteza.
Eu me perdi aos quatro anos de idade em meio à multidão na areia, naquela manhã escaldante de sábado, segurando um picolé de chocolate na mão direita. Enquanto ele derretia e percorria dedos, palma e pulso, doce e gelado, algumas lágrimas, salgadas e mornas, desciam as bochechas feito alpinistas desistindo da montanha.
Eu me perdi na praia e nunca me esqueci quando fui encontrado pela minha mãe, pela mão da minha mãe.
Na verdade, resolvi ser homem-bala-perdida. Ou homem-perdido-bala. Porque era assim que eu fazia: justamente por não mais conseguir escrever – ainda que não fosse por fadiga -, vagava de bar em bar feito alma-penada-perdida. Ser um homem-bala para errar o tiro, errar o rumo, errar a mira. Vai ser errante na vida – disse o pequeno cramunhão por detrás do meu ombro gauche, esquerdo. E assim todos podem dizer, com suas bocas cheias de doces, cheias de balas coloridas:
— Lá vai o homem-bala, perdido.
ou
—Lá vai o homem-bala-perdida.
Este homem-bala que um dia foi poeta, mas que não soube apontar os próprios lápis. Pode? Agora é apontar pra se atirar nessa vida de ai meu deus. O homem-bala que não lembra o próprio nome de tanto que as ondas insistiram em apagá-lo da areia. O homem-bala que bebe, bebe mais, bebe mais três ou quatro vezes mais ou menos uns quinze tragos.
Eu, na qualidade de homem-bala, não deveria dizer isto aqui, mas executo divinamente o truque da fuga. Não, saibam que nunca quis roubar o lugar do mágico no circo. Eu fugia tão bem, eu, este grandessíssimo filho de uma puta, que foi moleza adentrar a caravana circense para ser um errante, um homem-bala-errante. Ou homem-bala-perdido? Ou homem-bala-perdida?
Preparar, apontar, fogo.
Amar o mar
Essa fascinação pelo mar me impediu, creio eu, de desenvolver vontade de me aventurar pelos esportes aquáticos (exceto pela natação, em maior parte praticada em piscinas, onde inclusive competi – e venci – em diversos campeonatos infanto-juvenis). Eu não poderia brincar no meu maior templo, usando ondas e todas as possibilidades da superfície fluida e salgada dos mares: seria um sacrilégio pessoal. [Texto de Eduardo MAciel]
Tem algo me atormentando. E não se trata de um tormento qualquer. É daquele tipo de incômodo que acompanha a gente desde a hora de acordar até a hora de dormir. E, não-raro, inclusive vem me perturbar durante o sono. Quando isso acontece, ao acordar não consigo discernir se vivi um sonho ou pesadelo. Já me explico.
Desde criança, quando ainda bem novinho mesmo, sempre gostei de ir à praia. Nada muito difícil quando se tem pais generosos como os meus. Mais fácil ainda quando se mora no Rio de Janeiro e sua variedade de opções à orla.
Já adulto, continuei com minha paixão e me aproximei ainda mais do mar. Nessa época, ele já era pra mim um lugar sagrado e digno do mais absoluto respeito. Em parte em razão de o planeta ser setenta por cento composto de oceanos, e, por outro lado, porque alguém um dia jogou búzios para mim me dizendo filho de Yemanjá (odoyá minha mãe!).
Essa fascinação pelo mar me impediu, creio eu, de desenvolver vontade de me aventurar pelos esportes aquáticos (exceto pela natação, em maior parte praticada em piscinas, onde inclusive competi – e venci – em diversos campeonatos infanto-juvenis). Eu não poderia brincar no meu maior templo, usando ondas e todas as possibilidades da superfície fluida e salgada dos mares: seria um sacrilégio pessoal. Talvez isso também explique a minha revolta com a poluição nos mares, mesmo em festividades religiosas, com seus barquinhos e oferendas (odoyá minha mãe de novo).
Vim nutrindo durante a vida uma devoção pelo mar, e pelos seres que neles habitam. Afinal, se a Terra é feita, em sua maior parte, de mar, suas criaturas é que são os verdadeiros “donos” do planeta, certo?
Pois bem. Nesse ponto da vida decidi que iria me certificar como mergulhador. Fiz o curso e comecei minha peregrinação ao redor dos sete mares, mergulhando de cilindro no Brasil e fora dele, contemplando muito respeitosamente todas as infinitas cores, formas e sensações que o fundo do mar podem nos proporcionar. Naquele silêncio barulhento e calmo típico das profundezas.
Tempos maravilhosos, sem dúvida.
Até que raia esse ano de dois mil e vinte, e com ele a pandemia da Covid. E com o vírus, a necessidade de isolamento. Tenho tentado cumprir todos os protocolos, o que inclui não aglomerar na praia. A última vez que visitei “o meu lugar sagrado” foi antes do Carnaval. Lá se vai quase um ano de afastamento.
E o que antes era uma falta se transmutou em saudade, e a saudade evoluiu para uma quase obsessão, que nesses últimos dias tem me atormentado e me assombrado, a ponto de me infligir dor física até.
Tentei recentemente procurar praias desertas um pouco mais afastadas, mas lá estavam pessoas, sem máscaras de proteção, para me desencorajar. E permaneço resiliente. Apesar da dor.
E finalmente quando ligo a TV ou quando leio as notícias de uma segunda onda da pandemia, confesso por vezes me deparar com conflitos internos e inéditos a respeito de qual deva ser a minha conduta. E se alternam dentro de mim os ímpetos de deixar os cuidados de lado e a necessidade de permanecer abstêmio.
Mas a abstinência me consome, e como já lhes disse, me atormenta.
Até agora a prudência fala mais alto. Mas não sei até quando conseguirei suportar. Vai passar, dizem para mim. Vai passar.
E eu, por mais que creia nisso, me pergunto: será que estou preparado para completar um ano inteiro sem a praia?
Veremos.
Peço desculpas a vocês pelo desabafo, mas é que eu precisava mesmo falar sobre isso. E aposto que alguns de vocês hão de empatizar com a minha dor. Não é mesmo?