Vamos tomar uma Aspirina Nuclear e viajar

E dos territórios livres da Paraíba nos chega a arte de Will Simões. Filho de pernambucanos e nascido em Campina Grande, Will desenvolve seu trabalho olhando para o alto e além. A ficção científica, nossa querida ficção científica, parece uma linha que sai ligando cada quadro, ou frame, que ele projeta no seu Instagram, @aspirinanuclear, um excelente nome. Essa aspirina prestes a explodir, por estar carregada de energia infinita. [Artes de Will Simões]

Artes de Will Simões


E dos territórios livres da Paraíba nos chega a arte de Will Simões. Filho de pernambucanos e nascido em Campina Grande, Will desenvolve seu trabalho olhando para o alto e além. A ficção científica, nossa querida ficção científica, parece uma linha que sai ligando cada quadro, ou frame, que ele projeta no seu Instagram, @aspirinanuclear, um excelente nome. Essa aspirina prestes a explodir, por estar carregada de energia infinita. A gente fez aqui uma seleção de dez desenhos do Aspirina Nuclear, quase como uma história em quadrinhos. Mesmo sem querer a gente acaba descobrindo o fio narrativo delicadamente tecido para não ser percebido, mas que está lá, como um código secreto, a espera de ser desvendado, revelado.

Coloque então uma aspirina nuclear na palma da mão e prepara-se para viajar e sonhar, vislumbrar novos territórios em que você é astronauta, estrangeiro, enxergando tudo pelo vidro do capacete, o vidro que te impede de sucumbir ao vácuo. Olhe para baixo e veja a terra, de longe, todas as esperanças do mundo depositadas nesse pequeno ponto azul.

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Minha pequena homenagem ao escritor francês, Antoine de Saint-Exupéry , autor do “Pequeno Príncipe” pela lembrança de sua partida em 1944 agora no último 31/Julho. Mon petit hommage à l'écrivain français, Antoine de Saint-Exupéry, auteur du "Petit Prince" pour le souvenir de son départ le 31/31 juillet dernier. My small tribute to the French writer, Antoine de Saint-Exupéry, author of the “Little Prince” for the memory of his departure now on the last 31 / July. Caneta Marcador (chinfrada) , 1.0 (preta) sobre papel guardanapo (12 mg, 10. x 10 cm ) #sketchbooks #desenhos #ilustracao #arte #artistas #artesvisuais #quadrinhos #hqs #cafe #fineart #art #brazil #ilustration #saintexupery #artevisionaria #cosmonauts #graffiti #eclipse #bandedessinée #psicodelia #prints #galeriasdearte #coffee #astronauts #design #astronauta #artofinstagram #space #scifiart

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A música das nossas vidas

A ideia surgiu porque amavam de música. Criaram então a MentalMusic, que ocupava um pequeno galpão numa fábrica abandonada, na estrada das Imbiribeiras, na cidade do Recife. A primeira versão do chip surgiu no ano de 20?? e foi implantada no próprio Luizinho Marques, engenheiro e fundador, que passou dois ou três dias ouvindo ruídos e estática. O progresso foi lento e muito dificultado. [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro


A ideia surgiu porque amavam de música. Criaram então a MentalMusic, que ocupava um pequeno galpão numa fábrica abandonada, na estrada das Imbiribeiras, na cidade do Recife. A primeira versão do chip surgiu no ano de 20?? e foi implantada no próprio Luisinho Marques, engenheiro e fundador, que passou dois ou três dias ouvindo ruídos e estática. O progresso foi lento e muito dificultado. O raio de alcance das antenas era pequeno e a primeira música só foi efetivamente transmitida dois meses depois, numa tarde que entrou para a história.

Luisinho atravessou a movimentada avenida e ainda escutava a música que parecia entremeada aos seus pensamentos. O incômodo inicial passou depois de alguns dias e logo ele conseguia realizar suas tarefas cotidianas enquanto o servidor central transmitia-lhe ininterruptamente um set de 12 horas de música, de vários estilos. O chip fazia o seu papel. Além de receber os arquivos musicais e transmiti-los diretamente ao cérebro, fazia um mapeamento das ondas cerebrais e associava as canções às atividades e estados de humor do seu portador, criando assim uma verdadeira trilha sonora para os mais variados momentos que um dia pode oferecer.

O próximo desafio seria implantar os chips em mais de um voluntário, dois ou três no máximo. O software gerenciador teria que interpretar a relação de interação entre os três, decodificar seus estados emocionais e provê-los da mesma trilha sonora, a partir do cruzamento dos perfis que seriam traçados desde a ativação dos chips em cada um deles.
Essa era a promessa, o éden… o cerne da ideia da MentalMusic Entretenimento.
O resto da história é que a MentalMusic tornou-se uma mega-corporação multifacetada com sede nos mais recônditos lugares da Terra. Suas antenas espetavam desertos, planícies geladas e cumes inatingíveis. Implantou, por uma módica taxa, seus chips musicais em vastos contingentes da população mundial, sem discriminação de credo, raça ou posse.

Uma assinatura mensal garantia acesso ao maior banco de músicas já criado na história do planeta, movido a poderosos servidores que funcionavam 24 horas por dia transmitindo arquivos musicais para cada indivíduo conectado ao sistema e analisando os relacionamentos entre as pessoas, de duplas ou casais a grandes grupos, para gerar estados musicais coletivos.

As estações de rádio foram as primeiras a sentir as mudanças que ameaçavam ser profundas. Logo todo um sistema econômico baseado na produção e veiculação de música por meios tradicionais (incluindo a troca de arquivos pela internet) entrou em colapso, sucumbindo à rápida transformação dos hábitos. Pouco a pouco, pela força de escutá-las, as pessoas foram deixando de fazer músicas, de compor, e duas gerações bastaram para que não existissem mais músicos. As canções passaram a ser criadas por avançados sistemas de inteligência artificial.

Esses sistemas compunham “inspirados” pela rotina dos usuários, seus perfis e pelas músicas que mais se combinavam com suas emoções. Também misturavam de forma harmônica músicas que já existiam, modificavam arranjos e imitavam estilos de compositores que já não podiam reclamar de plágio.

Há também que se levar em conta que compor ainda mais músicas nem era tão necessário assim, uma vez que para cada pessoa, considerando o ciclo de vida de um ser humano, havia já uma quase infinita variedade de temas para o que quer que ela viesse a viver ao longo dos seus dias. E naturalmente certas canções eram recorrentes na vida de um indivíduo, repetindo-se ao cabo de também recorrentes emoções. Não era possível, na verdade, selecionar as músicas que estariam tocando dentro da sua cabeça mas uma série de questionários online, se devidamente preenchidos, ajudavam a definir cada vez melhor o perfil de um usuário para não frustrá-lo com músicas inadequadas ao seu estilo de vida, idéias e paixões.

Publicado originalmente no blog Subliteratura – Este blog não existe, em 12 de dezembro de 2007


De nada vale a um daltônico o quarto escuro

Porque o céu é azul. Não, isto não é uma pergunta. Porque você fica rubro quando deixa-se acometer pela ira. Os arcos das íris, no entanto, permanecem coloridos. Mas ele não pode ver as cores. Monocromático, multidolorido. Daltônico, o semáforo é sempre de um amarelado perigo. Por isso permanece no quarto escuro. Trancado pelo lado de dentro e pelado, com os olhos esbugalhados, de fora. Há somente tons de breu. [Texto de Eduardo Frota]

Texto de Eduardo Frota


Porque o céu é azul. Não, isto não é uma pergunta. Porque você fica rubro quando deixa-se acometer pela ira. Os arcos das íris, no entanto, permanecem coloridos. Mas ele não pode ver as cores. Monocromático, multidolorido. Daltônico, o semáforo é sempre de um amarelado perigo. Por isso permanece no quarto escuro. Trancado pelo lado de dentro e pelado, com os olhos esbugalhados, de fora. Há somente tons de breu.

Ele precisou decorar o que dizia a cartilha.

Vermelho é a cor dos lábios, do hidrante, do carro dos bombeiros com a sirene estridente, da caneta que corrige, do jorro de sangue, sístole, do jorro de sangue, diástole, da segunda falange, da carapaça do caranguejo aquele bicho covarde que se esconde na lama do mangue.

Azul é a cor da piscina azulejada na laje quando está limpa numa tarde calorosa de verão, do planeta em que habita o que há de mais turvo, da arara em extinção, da alegria ou da tristeza, da Lagoa Rodrigo de Freitas, da pasta de dente que arde nos olhos azulados dele que ardem.

Amarelo é a cor do sol infantil desenhado no papel, da anemia falciforme senil, da pele de quem vem do oriente, do ouro do tolo contente, do chocolate que se diz branco, da remela amanhecida após mais um novo pesadelo recorrente, do sorriso que não é franco, da gema mole e gosmenta do ovo.

Está escuro lá fora, mas ao daltonismo isso não faz a mais pálida diferença. É tudo a mais plácida cor-de-burro-quando-foge. O tempo ocre esquece de talhar as letras que dizem: o preto é a ausência de cor. É que, em essência, é tudo a mais alva ausência.


Poemas do Tesserato | Calí Boreaz

tesserato
é um súbito lugar de fusão. em toda a fusão existirá um momento de confusão? numa sucessão de interseções de espaços e tempos em movimento — como se estivessem girando num grande hipercubo —, o sujeito poético se desloca ao longo da imobilidade. toda a imobilidade conterá uma suspensão? nesse amplificar-se, entre estar e já-não-estar, entre a inexistência de um pouso e a espera por si mesmo já nesse pouso, é traçada uma inexplorada dimensão. [Poemas de Calí Boreaz]

Tesserato é o nome do novo livro da poeta Calí Boreaz, cujo trabalho a gente aqui na Kuruma’tá tem acompanhado com atenção e encantamento. Sempre uma alegria quando ela manda poemas pra gente, pelo que há de surpresa, de delicada qualidade em cada verso. Sobre o livro, deixo aqui a palavra da poeta:

tesserato
é um súbito lugar de fusão. em toda a fusão existirá um momento de confusão? numa sucessão de interseções de espaços e tempos em movimento — como se estivessem girando num grande hipercubo —, o sujeito poético se desloca ao longo da imobilidade. toda a imobilidade conterá uma suspensão? nesse amplificar-se, entre estar e já-não-estar, entre a inexistência de um pouso e a espera por si mesmo já nesse pouso, é traçada uma inexplorada dimensão. os poemas — em verso e prosa — de tesserato são tentativas de atingir o tanto de um instante. mais do que contar o instante, porém, confessam seu intento de silenciar o que está em volta dele, para que ele, apenas, aconteça. por entre uma multidão de linhas retas se caminha em busca da curva — mesmo que a intuição aponte que se contorna um buraco onde, provavelmente, já se caiu. por entre espantos, de um olhar e uma escuta que se agarram à cidade — suas águas, janelas, ralos, gruas —, eis que, em algum lugar de sinergia, a própria existência parece querer refletir-se.

Poemas de Calí Boreaz


mamihlapinatapai

em russo, há uma palavra específica para o afeto que se tem por alguém que se amou. em tcheco, há uma palavra para um certo tipo de angústia diante da própria mediocridade ou falta de habilidade (lembro de kundera falar dele). na escócia, parece que há uma palavra para o tique do lábio superior que indica a antecipação da alegria. em albanês, há alegres 17 e 27 palavras respectivamente para sobrancelhas e bigodes. em romeno, há sei lá quantas que significam, todas elas, neve, mas cada uma para especificar um certo tipo de neve, que por aqui (ao sol marinheiro da língua portuguesa) não distinguimos por desnecessidade. e se o russo olha para o amor antigo, veja bem: o japonês inventou uma palavra para um sentimento de pré-amor. em yagan, idioma indígena falado por um povo da tierra del fuego, mamihlapinatapai é aquele olhar trocado por duas pessoas quando ambas querem que a outra tome a iniciativa de fazer algo que ambas sabem que querem mas.

mas: o que é a coisa menos a palavra? a palavra menos a língua? isso que se percebe num repente e não tem esqueleto nem contorno para apoiar sua existência — não existindo, pode ainda resistir? se a língua nos funda a humanidade, e se há quem saiba que neve não é simplesmente neve, como amor não é simplesmente amor, assim como a saudade não é só uma falta, e calunga não é só saudade mas também abismo e deus… como posso eu

dizer algo agora daqui de onde estou?


__

ainda sou muito nova para escrever este poema
percebo que a melancolia é um excesso
— de espaço e de tempo
percebo que sou dos cavalos que precisam
não do toque do chicote ou mesmo do sangue a rachar os ossos
mas do próprio desaparecimento
— para iniciar o trote
percebo e procuro seguir o conselho de ferlinghetti
ouvir meu próprio respirar e, de ouvido no chão, o girar da terra
depois, desaparafusar as portas mas não
jogar fora os parafusos
que eu ouça bem isto: não jogar fora os parafusos
não destruir o mundo se não tiver algo melhor para colocar no lugar dele
— é que por enquanto não tenho mesmo nada melhor em mente
estou aqui (onde mesmo?) com um saquinho de parafusos
pendurado ao pescoço (e é pesado)
mais uma vez, mais uma vez
o dedo suspenso a um milímetro do botão da bomba
e não estou conseguindo interpretar os sinais
sou ainda muito nova para escrever este poema
mas já sei que o canto dos pássaros é de desespero
também já percebi que saber não chegar é tão
bonito quanto: chegar
de boniteza estamos bem, lá isso estamos
the boniteza is the new felicidade
a cidade anda medindo meus passos
de lupas nas pontas dos tentáculos
de cima de baixo dos lados e na diagonal
sobretudo na diagonal: a luz mesmo a raspar
mas sem aderir à minha pele
que é real
que é real
ter medo é ainda desconhecer
corrijo: ter medo é ainda precisar conhecer
eu não estou conseguindo interpretar os sinais
corrijo: talvez não existam mesmo papéis dobradinhos atirados do além
é só isto: enquanto uso palavras, as palavras
usam-me
enquanto pergunto à montanha, a montanha
pergunta-me
enquanto continuo aqui, o aqui
continua-me
ah, ouve bem isto:
ver tudo bonito é ter descoberto a beleza das coisas feias
mas hoje eu estou cansada
então, dou o sorriso dos miseráveis e canto como quem desiste secretamente
não nos iludamos, meus vizinhos:
acabaremos sempre um pouco antes do fim
serei sempre muito nova para escrever este poema


Compre um exemplar autografado de Tesserato


Será que “a emenda sai pior que o soneto” mesmo?

Orlando Neves, em uma definição mais objetiva, disse que o ditado significa “cair em pior erro que o erro anterior”. Certeiro e direto ao ponto. Mas sem o rebuscamento de incluirmos a palavra “soneto” no dito. Prefiro (óooooobvio) a versão anterior. E nela vou adentrar mais um pouco, se me permitem. Afinal, sou pai de sonetos e todo pai defende (ou deveria defender) seus filhos contra injustiças. [Texto de Eduardo Maciel]

Texto de Eduardo Maciel


Olá, kurumateirxs amados! Espero que todos se encontrem bem e com saúde…
Com certeza todos vocês já ouviram a expressão popular atestando que “a emenda saiu pior que o soneto”, certo?
E muitas vezes é isso mesmo o que acontece…

Mas o que os sonetos e as “emendas” foram fazer em ditado popular, se tanta gente nem é – digamos assim – íntima dos sonetos?

Reza a lenda que, há cerca de 200 anos, a expressão nasceu quando o famoso poeta português Manuel Maria Barbosa de Bocage (Bocage apenas para os íntimos) recebeu um soneto pra revisar. Sim! Bocage, além de escrever também revisava escritos alheios. Daí a gente vê que há tempos a vida não está fácil pra ninguém, não é mesmo? Rs

E ao que parece, Bocage encheria de marcas de revisão o poema, tornando-o assim mais feio e desordenado que o soneto original. Por isso devolveu o poema ao jovem dizendo-lhe que não o revisaria porque as emendas seriam tantas que, no trabalho final, as emendas seriam ainda piores que o soneto. Ao que parece. E pobre rapaz. Porque se eu pudesse enviar um soneto meu pra revisão de Bocage, a emenda seria via de regra melhor que o soneto original.

Salve, Mestre Bocage (e sua perfeita concepção dos sonetos, repletos de sarcasmo e autenticidade)!

Pois bem: desde então, a expressão vem desafiando tempo e espaço, e se tornou pop em conversas em língua portuguesa.

Na prática, usamos o ditado quando queremos remendar algo (qualquer atitude) mas hesitamos, temendo piorar ainda mais as coisas. E de fato precisamos sempre fazer essa consideração anterior, porque há coisas onde não cabe remendo, sendo suficiente um pedido de desculpas ou um refazer diferente, ao invés de tentarmos em vão justificar o injustificável ou tentar desviar a atenção de algo do seu âmago.

Orlando Neves, em uma definição mais objetiva, disse que o ditado significa “cair em pior erro que o erro anterior”. Certeiro e direto ao ponto. Mas sem o rebuscamento de incluirmos a palavra “soneto” no dito. Prefiro (óooooobvio) a versão anterior. E nela vou adentrar mais um pouco, se me permitem. Afinal, sou pai de sonetos e todo pai defende (ou deveria defender) seus filhos contra injustiças.

Sonetos são poemas eivados de regras métricas e ritmicas, e sua concepção PRECISA levar o leitor a um fechamento, uma conclusão sobre o tema no soneto abordado, para que a partir daí possa interpretá-lo conforme sua própria visão.

E nesse contexto de regras de concepção, remendos tendem a enfraquecer o trabalho, pois cada verso encaixado em outro tem um sentido próprio. A escolha das palavras escritas por si só são cruciais para esse tipo de produção poética.

Por essas e outras que particularmente não me sinto confortável com “sonetos traduzidos”, pois há irremediavelmente perda de significado. E, se me permitem a redundância análoga, pra mim “as traduções saem piores que os sonetos”. Obrigado, Bocage!
Em minha obra tradução é terminantemente proibida, a menos que seja eu mesmo a traduzir, porque sei exatamente o que desejo transmitir em casa sonetinho. E tenho testado escrever sonetos diretamente em inglês, francês e espanhol. Vamos ver no que dá isso no futuro.

Agora voltando ao tema: daqui pra frente, quando forem vacilar, pensem duas vezes antes de tentar remendar o feito já consumado. Mais franco assumir o erro, se arrepender e seguir em frente.

A menos que amem os sonetos como eu, e queiram sempre tê-los em sua fala. Estou pedindo muito? Me permitam essa licença poética… Ai, ai, ai. Olha eu querendo me justificar. Mas me retenho aqui, antes que a emenda fique pior que o soneto…


Poemas de ‘Entre um eco e outro’, de Angelita Guesser

Angelita Guesser chega com sua poética à Revista Kuruma’tá, com quatro poemas do seu livro Entre um eco e outro, que em pré-venda na Editora Letramento, e também um poema inédito, na voz da poeta. A poesia é sempre bem-vinda na nossa revista, ainda mais assim, com esse timbre, essa fibra. Entre um eco e outro há o que? Aparentemente o silêncio, mas também uma expectativa, se aquilo que dissemos vai perdurar, ecoando indefinidamente. Entre um eco e outro, poesia. [Poemas de Angelita Guesser]

Angelita Guesser chega com sua poética à Revista Kuruma’tá, com quatro poemas do seu livro Entre um eco e outro, que em pré-venda na Editora Letramento, e também um poema inédito, na voz da poeta. A poesia é sempre bem-vinda na nossa revista, ainda mais assim, com esse timbre, essa fibra. Entre um eco e outro há o que? Aparentemente o silêncio, mas também uma expectativa, se aquilo que dissemos vai perdurar, ecoando indefinidamente. Entre um eco e outro, poesia.

Toinho Castro (Editor)


#sofá_prateado

a vida é só vida, mesmo
no lugar mais íntimo do mundo
no teu largo sorriso
no nó das ideias
a vida ainda é só vida

e quanto mais busco vida
percebo sem cair em amor
a morte vestida de luz opaca
a nudez do descaso e
a conclusão de que escrever
é um ato relutante
de que a vida é só vida

percebo em instantes tão pequenos
mesmo que cante a própria música
no infinito da noite sem limite
no sol que nasce sabe-se
por qual caminho
que a vida é só vida

e assim enquanto o loirinho
se esconde na borda do sofá prateado
e inspira esse momento
percebo lá no fundo
que a minha vida é feita de vida


#palavras

carregue-me em teu corpo
tatuada feito paixão.
essa pele toda que contorna
e abraça cada molécula tua, sou eu.
carregue-me em teu corpo,
tatuada feito mapa que
segue as curvas em estrada reta.
curvas inesperadas, que oscilam
feito respiração que busca redenção.
carregue-me em teu peito,
feito canção esquecida.
feito certeza que não falha.
fica em mim, assim como
os pedaços que remontam
meu atordoado coração.


#paisagem

percebo através do vidro
abafado pelo vapor da chuva
os telhados verdes
dos musgos que se formaram
através do tempo,

dos dias
que sem piedade
corromperam sua beleza.

no escuro da tarde de outono
formou um horizonte
de tristezas e lamentos
que aos poucos abraçaram
o pobre coração solitário.

por dentre as estruturas
circundantes
que furtaram da alma
os privilégios da liberdade,

escreve-se a trajetória
que começou com a chuva.

trajetória de resgate
de um tempo onde
os telhados ainda brilhavam
com os primeiros raios de sol
e serviam de espelhos
para os sonhos
daquelas que apenas
confiavam na beleza
de uma vida que
reverenciava um simples
amanhecer.


#mesmo_nome

dei-te a vida em meu ventre,
e foi para que visse o meu mundo,
e assim te fiz amor.

dei-te asas em meu sonho
para que pudesse desvendar
o infinito da dor,
e conseguisse
tocar a última gota
do orvalho no amanhecer
cintilante de uma escura noite.

dei-te o amor,
e desfolhei cuidadosamente
as dobras do tempo
para que fugisse da
ilusão da perfeição.

dei-te minha vida
para donos sermos
da nossa própria obra
de silêncio, perplexo,

e ali ficamos, cegos
à procura da escuridão
traçada por nossos enganos,
amando apenas
as duras linhas
de uma vida sem
perdão.

 

“Adquiri o hábito da escrita através da transcrição das sessões de psicoterapia em que trabalho por mais de 18 anos. Desenvolvo meu lado artístico através das palavras e dos desenhos.”


Poema inédito

ELA

Os barulhos que estão em mim, não são meus, são da noite. Um inseto que anda e respira aqui dentro. O arrastar do chinelo na biblioteca, esse barulho é dela e está em todo lugar. O movimento das asas de cada mar que carrega o grito de lamento, sobretudo, o barulho aqui dentro, não são meus, são dela. O eco do pregar do martelo, e ainda, o arrancar do parafuso que segura o sossego lá dentro da madeira. Ah! esses também não são meus, são dela. O vidro que ofusca a claridade das raspas de gelo, me abre e rasga a carne. O que dói primeiro? Amar sem amar ou nunca amar? O rugido dos leões, o pedalar da bicicleta na areia movediça, ou dedicar a vida inteira em rezas para que o corpo tome fôlego e sobreviva ao frio dos teus olhos, esses barulhos atordoantes, certamente são dela e não meus. Qual é o barulho da certeza que não vale um poema? Os pensamentos já velhos, revestem o instante, e a diferença entre vigiar e passar os dias olhando, se esvai junto com ela. Quero sentir o silêncio entre estrondos, ser refém que não espera resgate. Quero sentir o vento que carrega as folhas no outono, e desprende da noite o barulho da solidão, que refletida pela lua, é o leito que sempre volta.


Lendário Livro | A poesia de Nonato Gurgel

Hoje perdemos um amigo, que se foi cedo demais. Que tempos terríveis esses que vivemos, de tanta perda. Nonato Gurgel era um poeta, um homem gentil, inteligente, sensível… tudo que não se pode ser nesse país embrutecido. Ser quem era fazia dele uma revolução. Escrever era seu ato de resistência. Escrever, ensinar, falar de um livro inesperado, representar tão bem sua cidade, Caraúbas, neste mundo. [Revista Kuruma’tá]

Poemas de Nonato Gurgel para o Lendário Livro

Hoje perdemos um amigo, que se foi cedo demais. Que tempos terríveis esses que vivemos, de tanta perda. Nonato Gurgel era um poeta, um homem gentil, inteligente, sensível… tudo que não se pode ser nesse país embrutecido. Ser quem era fazia dele uma revolução. Escrever era seu ato de resistência. Escrever, ensinar, falar de um livro inesperado, representar tão bem sua cidade, Caraúbas, neste mundo.

Recordo demais o dia em que Numa Ciro falou de você, Nonato, de chamá-lo para participar do nosso Lendário Livro. Nunca esquecerei disso. Recordo também de eu e Aderaldo Luciano estarmos na Carioca, no nosso templo, e nos perguntarmos… Rapaz, cadê Nonato?!

Cadê você, Nonato? que falta fará Nonato e suas chamadas pelo messenger, para propor textos para a Revista. Nossa, que vazio na Kuruma’tá. Preenchê-lo, em honra a você, com mais poesia, com mais amor contra o ódio que parece reinante.

Não sei se você nos ouve, mas obrigado, Nonato. Por ser poeta e amigo.

Revista Kuruma’tá


TRECHO DO PREFÁCIO DE HELOÍSA BUARQUE DE HOLLANDA PARA O LENDÁRIO LIVRO

Na sequência, leio um dos melhores poetas de hoje em dia, Nonato Gurgel. Vem de Caraúbas, Rio Grande do Norte. Com ele, o Nordeste corre em outra direção. A paixão, aqui, é o sertão. Um sertão todo seu, já presente em outro livro de poemas que escreveu, o miniSertão. Sobre essa poesia, escrevi:

Nonato se espanta com pequeníssimas micropartículas de um enorme sertão vivido, sonhado, lido, lembrado. Recados. As vozes intuídas de Machado, Clarice, Euclides, Guimarães, Guimarães, Guimarães. Conversas todas urgentes. Releio. Sinto um prazer enorme em me deixar submergir num deserto mar de mitos, terra, livros, modernidade. O sertão moderno, visceral sempre. Esse é o Nonato, poeta que leio, que tanto admiro. Sua dicção poética lida em seu conjunto, ecoa, em certo viés, pelo menos assim o leio, o sonho da precisão de outro nordestino que não cansamos de reler, o megapoeta João Cabral. Aqui, nos dá uma chave de leitura, nestes versos dedicados à Numa Ciro: “Sertões do Ceará, 1858 / Depois daquela mulher / decidi falar com cactos.”

Sem intermediação, o poeta fala com os silêncios do sertão. Suas emoções, seus amores e desejos pertencem àquela paisagem e se integram

na encosta
coração firme
na imobilidade do campo
onde amor rola e chama
cães e outros vícios

O que é mais interessante na poética de Nonato, além de sua dicção esculpida na pedra, é uma ideia contínua de retorno, de recomeço, como a idade do sertão que se faz e refaz, ou de seu desejo de retorno ao sertão. Como dizem os versos:

Adoro reler esse evangelho:
existe o recomeçar humano
sempre só como nas Noites
de Flores de Cabíria do Sertão

É muito curioso observar como a Bíblia e os evangelhos (ou sua épica trágica) aparecem com grande frequência não só na poesia, como também na ficção nordestina. É o sentimento de saga, de destino, de retorno que vejo tantas vezes explícito ou subliminar nos textos e metáforas de seus autores. Sinto como um narrar redondo que vem, recua e se desfaz. Como a eternidade que o sertão sugere. Dou a palavra para Nonato, amigo e poeta de longa data:


NONADA

Aqui
na encosta
coração firme
na imobilidade do campo
onde amor rola e chama
cães e outros vícios
este homem
calmo
experimentado pelas vacas
que mastigam o obscuro
e assumem o seu crime
foi tomado pela alegria
depois de romper
o escuro mole
feito de bichos
que se movem

Tomado pela alegria
depois de mastigar
as vacas obscuras
ele viu
que algo acresce
reverdece ou se faz
toda vez que ele
relê ou repete
o recomeço:
nonada


BAIXO BAIXADA

Sob o céu da Posse, Prometeu lê Oxossi e suas armas de caçador. Aprendiz de fogo e flecha, broto aqui meio Sebá, sedução e morte. Sob árvores do Tinguá chove. Chovo na margem que atira perdeu! Aro, ao pé do vulcão, sem erupção e só, alguma prosa verde. A margem dilata lavas, narrativas farpadas. Farpas e fogos resvalam à flor dos trilhos na estação. O vale da ferradura surta. Deságua no velho Oeste. Sangra na Dutra. Quero mais desse lero de fragas e laranjais que bancam Letras, do desabrigo que resta no “aproveitador de palavra”. O poste dá um salve para os saraus das minas e os guias afetivos da página e do terreiro. Há tempos devoramos o canibal, é certo, mas ainda não fomos modernos na Confeitaria Três Nações, no Açougue Ideal, no Armarinho União. Tarde começamos a ler as cores da alma que brota no Baixo.


INVENÇÃO DE ANTÓNIO

Sertões do Ceará, 1858
Depois daquela mulher
decidi falar com cactos
e carrapichos donde vim
cantar desertos caetés
sertões de Quixeramobim

Ergo torres em Canudos
proíbo furtos e mortes
numa dieta de culpas
e rezas prego contra
a República e acolho
escravo e bicho da mata

Pelo avesso saudoso
três raças condenso
e cindido sei de cor
o Eclesiastes por onde
o ser da terra voa
sem sair do Belo Monte


CARO EUCLIDES

Tenho saudades daquela minoria ativa
anterior a 15 de novembro…

Carta de Euclides da Cunha, 1985

Para Vivi W

Na biografia de Pedro II
escrita por José Murilo li
a dor de um cadete ao lançar
aos pés do ministro o seu sabre
e o seu amor ao Brasil que era
no fundo o amor a si mesmo

Agora eu sei meu caro senhor
além de seres órfãos “exilados”
o escritor e o imperador tinham
outras coisas em comum como
o positivismo a monarquia
as viagens e a escrita epistolar

A história registra em ambos
uma certa dificuldade ao lidar
com os afetos mais cotidianos
e um jeito de polir a aflição
lendo Hugo e rostos ao redor
anunciando luta e traição

Tudo isso sem contar
a imensa falta de sorte
que tiveram — caramba —
o imperador e o senhor
no trato com as mulheres:
a dele mancava; a sua, traía


ÚLTIMO POST P ALEXANDRA M

Adoro reler esse evangelho:
existe o recomeçar humano
sempre só como nas Noites
de Flores de Cabíria do Sertão

Com a alma cheia de barcos
e o verão no tênis agradeço
leiga em sandálias de rabicho
por dividir comigo seus heróis

e me deixar segurar na pontinha
dessa canoa que o salvou e leva
essa carioca sertaneja e amiga
de Sinhá Vitória e do deserto


DA NATUREZA DAS LENDAS

Variável como todo adjetivo
lendário quer dizer fantástico
algo do mundo da imaginação
“Imagina o Brasil ser dividido”
como o lendário Saci-Pererê
invisível mas presente

Vive o lendário Lampião
no nosso imaginário histórico
ficcional feito Zumbi
notório como Conselheiro
não viu a lendária Pasárgada
nem ouviu cantar a Yara

Além do adjetivo fabuloso
lendário é também substantivo
coleção de lendas num livro
de poetas do Nordeste no reino
vamos de viver de brisa,
Anelina, no Rio


O Lendário Livro foi editado em maio de 2018, pela Editora Rubra.

NOnanoto Gurgel, Aderaldo Luciano, Numa Ciro, Toinho Castro e Braulio Tavares
30 de maio de 2018 – Blooks Livraria – Rio de Janeiro

O mito do Poço da Panela

Hoje há quem tema seu nome. antes do escurecer recolhem as crianças e cantam canções que as resguarda da sombra erma de Salazar. uma sopa especial protege os viajantes que precisam atravessar a colina, preparada com cominho, carne de uma ave selvagem e água do riacho. o mesmo riacho que Salazar batizou. Os homens vão e muitas vezes não voltam. [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro


Arte sobre foto de Lais Castro

Para Julia Michiles, em terras de pernambuco

Quem teve notícias de Guilherme Salazar? quem soube de sua sombra a vagar pelos ermos do Poço da Panela quando aquilo lá era apenas uma campina exposta ao vento? Lembro bem, lembro bem de quando atravessou, impávido, o cruel atlântico para desaguar em terras de Pernambuco e adentrar o pequeno rio que parecia confirmar todas as profecias que ele, desde sua mais tenra infância, ouvira falar.

Ah, que a infância de Salazar ainda é um mistério que paira sobre a bancada dos mais renomados historiadores, tal qual a infância de Jesus. Envolvida em névoas densas que só deixam entrever o pai alcoólatra e a mãe trapezista e bilhetera de um circo que passava pela cidade… Dizem quem foi largado para as freiras, nos portais do claustro. Dizem que foi entregue às feras que rondavam a aldeia e por elas criado. Dizem, dizem, dizem… Mas na verdade pouco ou quase nada se sabe. Sabe-se das lendas antigas e profecias que ele certamente escutou e mal teve pernas para andar, seguiu.

Matou homens, honrou mulheres. roubou, desafiou, participou de duelos e contendas. Foi general de guerras, invadiu o oriente, o ocidente e dizem até que elaborou um terrível plano para invadir o centro da terra. Foi ele quem negociou a paz com os selenitas e abriu, por fim, os portões dos oceanos para o seu povo. 

Sei que foi esse mesmo Guilherme Salazar que, aos trapos, esquecido pela sua tripulação e pelo resto do reino, perdido em alucinações e devaneios sem fim, navegou primeiro no riacho escuro que sangrava a terra como um fio de ariadne. Inaugurou com seus olhos essas paisagens e cenários e fincou sua bandeira rasgada, desvairada, testemunha de um ocaso há muito previsto em búzios, conchas, vidros e alumínios.

Hoje há quem tema seu nome. antes do escurecer recolhem as crianças e cantam canções que as resguarda da sombra erma de Salazar. uma sopa especial protege os viajantes que precisam atravessar a colina, preparada com cominho, carne de uma ave selvagem e água do riacho. o mesmo riacho que Salazar batizou. Os homens vão e muitas vezes não voltam. Dizem que reúnem-se a Salazar em sua clareira. cantam canções que são escutadas a milhas de distância. em noites sem lua marcham pelas ruas do Poço e aguardam a guerra… A grande guerra que Guilherme Salazar viu em seus sonhos e que começaria ali, na Estrada Real do Poço. a grande guerra que assombraria sua existência, que o levou a perder-se, a morrer e a errar sobre a mesma terra encantada e amaldiçoada onde ergueu-se esta vila, marco indeterminado de uma busca que nunca cessará


Obviamente esta é uma obra de imaginação e ficção. Qualquer coincidência não passa de coincidência.

Se não for a bomba, então será o dia seguinte

Quando olharam para o céu e perceberam que aquele ponto escuro cortando o ar era uma bomba, houve pouco tempo para procurar abrigo. Havia sinais de que tudo corria, de que tudo perseguia o fluxo. Não levou uma hora, mas também não levou um minuto. Os segundos que se seguiram após o lançamento foram inclementemente mudos. Era possível ouvir as engrenagens dos relógios de pulso. O curso do tempo, a pausa para o autoindulto, um súbito arrebatamento, transes em súcubus. [Texto de Eduardo Frota]

Texto de Eduardo Frota


Do norte vem luz dourada; Deus vem em temível majestade.
Jó 37:22

Quando olharam para o céu e perceberam que aquele ponto escuro cortando o ar era uma bomba, houve pouco tempo para procurar abrigo. Havia sinais de que tudo corria, de que tudo perseguia o fluxo. Não levou uma hora, mas também não levou um minuto. Os segundos que se seguiram após o lançamento foram inclementemente mudos. Era possível ouvir as engrenagens dos relógios de pulso. O curso do tempo, a pausa para o autoindulto, um súbito arrebatamento, transes em súcubus.

Porque não era o instante em que a explosão aconteceria. Era o que viria depois.

Quando a luz banhou o espaço em branco, não fez-se noite, muito menos dia. Após o brilho, a onda de choque empurrou indiscriminadamente toda a matéria que resistia. Não fez-se um sobrevivente, nem uma vítima. Porque para o curso das vidas o corpo não era o suficiente. O peso da alma não era pouco. Por isso, não era o som ou a fúria, era o que vinha depois: nem paixão, nem ira.

Depois da bomba, nada mais cabia.

Não era o que o profeta dizia, era o monólogo que vinha depois. Não era a hora em que a criança dormia, era o sonho que vinha depois. Não era o orgasmo comungado pelo casal que se unia, era o afago que vinha depois. Não era o brinde entre os amigos, era a ressaca que vinha depois.

Depois da bomba, nada mais movia.

Não era a direção que as placas apontavam, era o desvio que vinha depois. Não era o defeito nos semáforos das avenidas, era a colisão que vinha depois.

Depois da bomba, nada mais servia.

Não havia som, não havia música. Não havia mais concerto à vida. Porque não era o tempo que se levava para ouvir uma palavra, era a afonia que vinha depois.

Depois da bomba, tudo poesia.

Foto > Nuclear missiles prepared for destruction at a base near the city of Nizhny Novgorod in Russia. Vladimir Mashatin/Agence France-Presse


Um filme B

Numa sexta-feira qualquer, Lara foi trabalhar como fazia todos os dias. Um dia normal em seu trabalho desprovido de qualquer glamour. Apenas mais uma burocrata fazendo o necessário para pagar as contas, enquanto sonha com uma mudança de carreira. Quem sabe um dia criava coragem de se mudar para Nova York e abrir um brechó virtual? Pensava enquanto preenchia mais uma planilha sobre custos de papel higiênico e produtos de limpeza para uma licitação com a qual não se importava. [Texto de Tássia Veríssimo]

Texto de Tássia Veríssimo


Numa sexta-feira qualquer, Lara foi trabalhar como fazia todos os dias. Um dia normal em seu trabalho desprovido de qualquer glamour. Apenas mais uma burocrata fazendo o necessário para pagar as contas, enquanto sonha com uma mudança de carreira. Quem sabe um dia criava coragem de se mudar para Nova York e abrir um brechó virtual? Pensava enquanto preenchia mais uma planilha sobre custos de papel higiênico e produtos de limpeza para uma licitação com a qual não se importava.

Nesse dia, porém, a repartição estava mais agitada do que de costume e não era em razão de alguma uma nova fofoca sobre quem estava dormindo com quem ou sobre a perda de cargos e funções. O tema das conversas girava em torno de uma tal doença vinda de além-mar. Lara já tinha ouvido falar dela, mas até então estava em negação, afinal parecia tão distante. E os problemas concretos tão grandes e se acumulando como poeira no canto dos móveis.

Naquele final de semana desmarcou os compromissos e ficou em casa, fingindo que era apenas por vontade de descansar e não por medo. Na segunda-feira acordou e o mundo parecia igual. Mas logo percebeu que não. Apesar de não ter sido transformada em um inseto gigante ela também estava presa em alguma espécie de universo paralelo. De uma hora para outra sentiu que foi magicamente transportada para algum tipo de filme-catástrofe de baixo orçamento, sem que tenha se inscrito para fazer a figuração em tão lamentável obra.

Precisou de um tempo para entender que na falta de verba para a maquiagem dos zumbis comedores de cérebros, havia sido escalado para supervilão um ser microscópico, desses que por não poder ser visto a olho nu causa mais pânico do que qualquer monstro com uma serra elétrica e uma máscara duvidosa. Como vencer o que não se vê? Como lidar com uma ameaça que pode estar em qualquer lugar e m qualquer um? Todos viraram vítimas e suspeitos.

Como auxiliares do vilão – afinal com uma ameaça invisível é necessário que se incluam ajudantes de carne e osso para dar mais emoção à obra – descobriu que foram convidados homens engravatados que passaram a usar os meios de comunicação para negar ou minimizar a existência do perigo invisível. Assistindo a mais um lamentável pronunciamento na televisão, Lara concluiu que na verdade os engravatados sabem bem dos riscos e apenas não se importam A sua sanha por dinheiro faz com que eles deixem qualquer Lex Luthor no chinelo. O plano deles? Ela tinha certeza que era matar vovozinhas simpáticas que fazem crochê para não perder alguns trocados na bolsa de valores.

O visual dos heróis dessa nada rica produção? Um figurino composto de roupas brancas – atemporal e barato, faz o filme parecer cult até – máscaras descartáveis, luvas de látex e potes de álcool 70%, que atualmente valem mais do que barras de ouro que valem mais do dinheiro. Nesse momento, Lara pensou que a piada ruim só quem cresceu assistindo Silvio Santos na televisão de tubo da sala da avó iria entender e deu um sorriso ao lembrar das tardes de domingo no subúrbio.

Mas, voltemos ao filme.

Nessa grande aventura épica do cinema B o desafio de nossa heroína é fazer compras sem voltar contaminada. Descer as escadas do prédio – melhor evitar elevadores – merece a trilha sonora de Psicose tocando no celular. Comprar papel higiênico – o novo fetiche da classe média brasileira – se tornou uma odisseia que envolve o uso de vestimenta de guerra, distância de ummetroemeio de qualquer possível hospedeiro e rapidez. Isso tudo sem coçar os olhos, nariz ou boca. A volta à base requer uma rotina de banho, lavagem de roupas e desinfecção de produtos com detergente que deixaria qualquer germofóbico com tendências a orgasmos múltiplos.

Enquanto limpa o pacote de biscoito com o mesmo cuidado que se tem ao dar banho num bebê de seis meses, Lara, que é apenas uma pessoa qualquer que está presa nessa aventura com outros bilhões de não-atores, pensa no dia de hoje e de amanhã. Incertezas sobre o dinheiro das contas. Medo da morte. Saudades dos amigos. Total descrença na viabilidade da educação a distância no meio de uma pandemia. Ódio do patrão cobrando disponibilidade 24 horas. Vontade de jogar alguém pela janela. Vontade de se jogar da janela. Mas lembra que o hospital está lotado e não pode.

Larga o pacote de biscoitos, Lara abre a garrafa de cerveja – porque sem cachaça ninguém segura esse rojão – e senta no sofá com a pior culpa de todas. A culpa por não estar aprendendo japonês enquanto faz crossfit e cozinha pratos dignos de um restaurante com estrelas Michelin, tendo como pano de fundo a mais nova live de dupla sertaneja do momento.

Derrotada pelas próprias angústias, pega o celular, faz uma vídeo-chamada para a mãe, abraça o cachorro, chora. Os filmes de terror não costumam dar espaço para a elaboração dos sentimentos. Mas nessa obra há o tempo da elaboração. Muitos minutos dos espectadores assistindo o choro e chorando junto na Netflix porque cinema não pode mais. Uma catarse necessária. Estamos com medo. E tudo bem. Talvez Cannes se interesse.